3 Milhões de Nós
0:00 Volta prá tua terra! Bom dia Aula Magna, e queria dizer que a ciganolândia não existe!
0:18 Sou portuguesa, sou mulher e sou cigana.
0:24 Quem sou eu? Cresci numa família tradicional portuguesa, uma cultura cheia de bons princípios
0:34 e valores, onde a união e a concorrência são notáveis no nosso meio. O que é que
0:44 eu posso dizer? Vou dar aqui um pouco um contexto do que é que é ser cigana. Acredito que
0:52 muitos de vós têm algumas ideias já pré-concebidas, não basicamente do que é que é isto e como
0:58 é que é a realidade. Eu vou contar apenas a minha realidade e gosto sempre de mencionar
1:04 que eu não represento todas as mulheres ciganas. Existem muitas outras histórias que são
1:10 diferentes da minha e é que o que eu estou a dizer agora também vem cobrar um pouco o estereótipo de que
1:16 todos os ciganos são iguais. Nem todas as mulheres ciganas são iguais, nem todas as mulheres ciganas tiveram a prioridade
1:26 para si. Fui levada para ser boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, boa mulher. Fui
1:36 levada para casar e servir a família. Com 14 anos já trabalhava em casamento e foi
1:46 assim até toda a minha adolescência. Não sei se alguém nessa fase da etária tem de
1:54 casar neste momento. Por norma, na comunidade cigana, atualmente o sistema não permite
2:02 os casamentos por parte. Mas existe uma questão familiar e social que é quase como me interessar
2:12 indiretamente. Uma mulher cigana é educada para ter família e a educação, digamos,
2:24 não tem muita importância no seu familiar. Existem muitos jovens hoje em dia que sabem
2:32 de tudo, mas ainda são muito poucos no país inteiro. Então, eu acho que mais ou menos
2:38 andam uns 35 a poucos no país inteiro. Então, são muito poucos. Como é que é ser uma
2:46 mulher cigana? Ser mulher numa sociedade cultural é difícil, mas ser mulher cigana é um desafio
2:52 ainda maior. Mas é um desafio como em todas as culturas existe, não é? E em Sábado
2:58 a noite é quase um desafio. Digamos que eu não pude ter relacionamento de amizade, não
3:04 pude estar sozinha à rua, por exemplo. Vão haver aquelas vezes em que vocês pedem aos
3:10 pais para ir a um concerto, ou até mesmo ao cinema. Isso comigo não existia. Acho
3:16 que hoje em dia não se tem, não é? Mas não, isso não existia, porque tinha que
3:20 ser conseguida ao máximo. Tive que avançar a escola, eu tinha 18 anos e ainda tinha,
3:28 digamos, o 9º ano de escolaridade. Consegui fazer o 9º ano, mas com bastante esforço,
3:34 sempre a insistir e a bater o pé e a estudar. Tudo à minha volta vivia numa vergonha. E
3:44 aqui nós entramos na parte da identidade. Como japonesa nacional na população, eu
3:52 sou licenciada em Cultura e Comunicação. Trabalho em Curitiba desde os meus 9 anos,
3:58 mais ou menos, na área de Artes Social e Audiovisual. Era sempre uma área que eu gostava
4:04 imenso, mas que infelizmente eu não pude estudar na altura, mesmo que eu acedi várias
4:12 vezes, eu não conseguia ter essa oportunidade, mas mais tarde, pelo meu esforço e dedicação,
4:18 eu consegui então entrar na área com o 9º ano de escolaridade. O nível da informação
4:25 a licenciar só demonstra que não é o canudo, não é o lugar onde se encontra, não é
4:31 o seu passado, o seu destino, o seu sucesso, mas sim a sua discriminação. Eu costumo
4:38 dizer que eu e tu somos os únicos responsáveis pela situação em que nos encontramos.
4:46 Tu não és nenhuma vítima, se não estás bem no lugar onde estás hoje, se não gostas
4:52 da situação em que te encontras, então vai e faz o que queres, porque tu és o único
4:56 responsável e culpar os outros sobre a situação em que nós nos encontramos é não assumir
5:02 a nossa própria responsabilidade. Estão comigo? Ok!
5:14 Era engraçado porque foi-se que na altura perguntavam-me, então mas o que virás para
5:19 ser? E eu olhava-me estresseada, infinitamente amarrada, com muita esperança de que eu não
5:26 tirei nada. Foi simplesmente voluntariado, experimentar, ganhei experiência e a partir
5:32 daí pela experiência consegui então continuar na área que eu gosto. Actualmente sou autora
5:38 do programa Muitos de Alvandade, sobre a comunidade portuguesa, podem assistir no Spotify, que
5:43 consiste em construir estereótipos acerca da comunidade portuguesa.
5:50 Então, identidade. O que é que eu quero falar sobre isso de identidade?
5:58 Eu sei ver o que é que vai acontecer com a minha história. Até hoje em dia a adolescência
6:03 é na verdade uma fase bastante complicada, porque todos os problemas se tornam uma dimensão
6:08 maior. Essa é a realidade, o que se faz na adolescência quando tirás a identidade que
6:13 vais ter. Então, todos os problemas se tornam uma dimensão maior e é o fim do mundo.
6:18 Então, eu vivia no macodôma, no início da minha volta, onde nós fomos muito influenciados
6:23 pelo ambiente onde nós nos encontramos. Eu vivia no macodôma dentro da comunidade, onde
6:28 todos falavam da mesma forma, todos pensavam da mesma forma e todos viviam da mesma forma.
6:36 E a minha questão era, mas por que é que eu não sou normal? Na verdade, duas perguntas
6:42 eu tenho de ser normal agora. A primeira não é bastante desafiadora, já não sabemos bem
6:49 o que é que é o que, mas isso seria outra conversa. Então, eu me cheguei a perguntar
6:55 por que é que eu não era normal e queria, basicamente, tornar-me mais uma pessoa acomodada
7:02 a tradições de gerações inteiras. Mas é possível, nós temos de saber alguma coisa.
7:10 E durante esse tempo, um tempo em que houve alguns desesperamentos, houve até um tempo
7:17 de revolta, mas que hoje eu consigo perceber, e que vem a ser em seguida.
7:24 Tens de ver algo que nunca fizeste e faz algo que nunca fizeste.
7:28 Nós não podemos querer continuar, cria-te a vontade de crescer, mas continuamos sempre
7:35 a fazer as mesmas coisas. Então, se tu queres ter alguma coisa diferente, tu tens de agir
7:40 e estar nas tuas mãos, ser um agente de mudança da tua própria vida e daqueles que te rodeiam.
7:48 Pessoas que não sabem quem são, não impactam muito. O que é que eu quero dizer com isso?
7:54 É necessário que tu sabestes quem tu és. É necessário que tu te sinas.
7:58 Nós vivemos numa sociedade em que vem contida muita informação e tu tens duas opções.
8:05 Ou podes te sinar porque é que é assim, ou podes simplesmente adotar o padrão comportamental
8:11 do geral e assumir como a tua verdade. Diz-nos uma. Se tu te sinas, tu vais entender o porquê.
8:21 Vai fazer com que tu hajas convicções e não por obrigação. Quando tu assumes um
8:27 padrão comportamental como a tua verdade, tu estás ali por obrigação. Estás-te a
8:32 tentar se tornar como alguém. E foi isso que eu quis fazer e considero-me alguém que
8:39 não se acomoda com tantas instituições diferentes e atendido que também sou muito
8:45 atento a libertar esse ciclo de prisão ou de histórias sensíveis de gerações
8:53 inteiras. Então eu acredito que fui chamada para abrir portas para as gerações futuras
8:58 para que todas as pessoas que tiverem vontade não me possam impedir de ser voz. Eu acredito
9:04 muito nisso. E por isso é que eu volto a dizer que pessoas que não sabem quem são
9:08 não impactam muito. Só podes sermos ruins quando tu sabes quem tu és. Então é uma
9:13 descoberta que é feita e aí encontras o seu lugar. E não tem mal nenhum estar bem
9:19 no seu lugar. Tem mal sim estar bem o suficiente, com o que sabes o suficiente para não ter
9:27 problemas de conforto. Por fim, a sensação. Acho que fiz bem. Achei que tinha falado sobre
9:47 isso. Então, qual foi que o ponto chave de ter concluído? Eu posso aguentar e perguntar
10:00 ok, isso é tudo muito bonito, mas como é que se dá a saber? Houve um momento na minha
10:08 vida em que eu disse que a vida não pode ser somente isso. A vida não pode ser só
10:14 levantar-me, arrumar a casa, cuidar da casa, da família e esperar, esperar que a noite
10:23 venha para voltar a dormir e amanhã voltar a fazer a mesma coisa. Seria impossível.
10:29 Eu acreditava muito que havia um propósito nisso. E acredito muito, e aprendi também
10:38 que temos que entender, e foi uma mensagem que eu fazei, temos que entender que não
10:46 se trata tudo acerca de nós, mas tudo acerca de todos. Pode não ser dito assim, mas sim
10:54 muito acerca de todos. Então, o meu profil é que eu possa ter também essa coragem,
11:01 e vai haver muitas vezes em que tu não vais ver o que é que está lá à frente, vai haver
11:07 muitas vezes em que parece simplesmente que temos as lentes sujas e simplesmente eu consigo
11:17 limpar essas lentes e conseguir com clareza que há coisas que tu não vais conseguir,
11:22 mas ainda bem que não vais conseguir que tu possas ver alguma coisa. Se eu soubesse
11:27 as dificuldades que eu queria, que eu fiz em todo o percurso de mudança, eu nunca teria
11:36 sido hoje a dia de dar um passo em frente. Eu não sei se vocês acreditam em Deus, ou
11:43 acham que é o carma, é a vida. Podem dar o nome que vocês quiserem. No meu caso, eu
11:51 acredito em Deus, e antes de eu não falar disso na minha história, eu posso dizer-vos
11:58 uma coisa, que muitas vezes no meu caso Deus não mostrou o que estava à minha frente,
12:03 aquilo que eu queria passar, e foi como se eu tivesse que subir uma escada de grau a
12:08 de grau, para que depois lá eu pudesse olhar para trás e dizer, ok, estou bem e sou grata
12:15 por isso. É como se eu tivesse tido uma curagem que não vinha de mim, mas que vinha de Deus.
12:24 Eu não sei quanto a vocês, mas essa foi a minha realidade. Eu tive que ir contra tudo
12:29 aquilo que eu acreditava, e contra tudo aquilo que me tinham ensinado. Imaginem jovens de
12:39 8 anos, na altura eu tinha de 8 anos, sem dinheiro, sem formação, sem apoio da família,
12:47 sem amigos, porque não os fui construindo, sem nada, sem casa, sem trabalho. Imaginem
12:55 isso no cenário, com os 8 anos, e sentia que tudo era um esforço, não sei se vocês
13:06 já sentiram isso, mas eu sentia que tudo era um esforço, que toda a gente à minha
13:11 volta tinha de tudo, e naturalmente eu tinha de esforçar-me por tudo. A primeira coisa
13:20 que eu fiz, que há muitos de vocês já sabiam, mas como era, por exemplo, baixo colar, eu
13:26 não sabia, então eu fui para a faculdade, ou entrei nas maiores universidades, já não
13:32 considerava ver a minha carreira na faculdade. Mas eu na altura não tinha dinheiro, então
13:39 tinha de trabalhar para ter dinheiro. Entrei nas maiores universidades, já não considerava
13:46 ver a minha carreira, e lá, principalmente, tudo o que as pessoas sabiam na escola, eu
13:56 tive que estudar a de um grau para conseguir saber aquilo que elas já sabiam, coisas básicas
14:03 coisas básicas que elas já sabiam, mas eu tive que trabalhar lá. Então, essa foi a
14:08 minha ação durante a vida, para que eu pudesse ter um fundo diferente na minha vida. Por
14:21 isso, o meu desafio é, não sei deste nome, mas acho que é o desafio. Se eu já posso
14:33 apelar logo, mas não é direito, alguém há de dizer isso. Então, um dos desafios é
14:43 que se conhece os Estados Unidos, porque essa coisa do costume, do posto, do emprego
14:49 interessante, eu tenho que me calmar, isso não é decisão de século, não é decisão
14:55 de século. Se conhece os Estados Unidos, em cada realidade há coisas que tu simplesmente
15:07 não vais conseguir fazer, tu queres viver assim. E nós estamos muito habituados a fazer
15:11 comparações, principalmente hoje em dia neste processo, fazemos muitas comparações,
15:16 porque assim, o que é ideal é uma ilusão, e eu sei de uma pessoa que costuma dizer,
15:21 de ilusão é muito bom, queres ter esse final de uma ilusão. Então, aceita o processo,
15:27 o processo é muito difícil, e hoje em dia há um monte de pessoas que dizem que o final
15:32 do processo é muito difícil, mas muitos querem ter sucesso, muitos querem ficar lá
15:42 no meio, a falar uma frase, um salto, um pouco de coisa, mas muito poucos querem passar pelo
15:48 processo. Eles querem o sucesso, mas não querem o sucesso. Por isso, aceita também o sucesso,
15:54 e muito poucos querem ser uma filha, então é isso que a gente tem que fazer, é isso que
15:58 a gente tem que fazer, é isso que a gente tem que fazer, não pode ficar lá.
16:03 E...
16:07 Obrigada por ter vindo.
16:09 Obrigada.
16:11 Obrigada a todos.
16:13 Obrigada, obrigada.

A minha cultura - Vanessa Lopes

Descrição

Na palestra "A minha cultura - Vanessa Lopes", Vanessa partilha a sua experiência como mulher cigana em Portugal, desafiando estereótipos e abordando a importância da autoidentidade. A sua história é um testemunho de luta e superação, inspirando jovens a abraçarem a sua individualidade.

Resumo

Vanessa Lopes inicia a sua palestra com uma apresentação pessoal e uma reflexão sobre a sua cultura cigana. Crescendo numa família tradicional, partilha a pressão social que as mulheres, em particular, enfrentam na sua comunidade, onde o papel de mãe e esposa é muitas vezes prioritário em detrimento da educação e realização pessoal. Relata as suas dificuldades em conciliar tradições com a vontade de se afirmar como indivíduo e a luta por um futuro diferente.

A oradora destaca que, apesar de ter enfrentado estigmas e desafios significativos, a sua determinação a levou a completar o 9º ano de escolaridade e a explorar novas oportunidades. Trabalhou duro na busca da sua paixão pela arte e comunicação, sempre a lutar contra as expectativas limitadoras que a rodeavam. A sua experiência revela a importância de não se deixar definir apenas pela cultura, mas sim de se criar um percurso próprio, centrado na descoberta e na aceitação de quem se é.

Finalmente, Vanessa reflete sobre a noção de identidade e a sua importância na vida de cada um. Enfatiza que o autoconhecimento é fundamental para causar impacto nas vidas dos outros e que o verdadeiro crescimento ocorre quando nos libertamos de padrões impostos. Apela à audiência para que abranjam a sua singularidade e se tornem agentes de mudança nas suas comunidades, partilhando a mensagem de que a vida deve ser vivida com propósito e responsabilidade. A sua conclusão inspira a reflexão sobre as próprias vidas e os caminhos que escolhemos.

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