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Olá. Olá a todos. Então, é com imenso prazer e muita honra que aceitei este convite para
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estar aqui convosco e neste painel vou começar por falar sobre a relação com os outros
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no âmbito da família e da comunidade. Então, isto na minha vida começou mais ou menos
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quando eu tinha 15, 16 anos, 1995, 1996, foi numa altura em que eu entrei para uma paróquia
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especial que é a paróquia de Oeiras, vinda de Macau, num ambiente completamente diferente,
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e nessa paróquia houve qualquer coisa em mim que despertou um sentido de consciência
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do mundo. Então, queria falar-vos de um dia em especial em que no meu grupo de jovens,
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em que tínhamos reuniões todas as semanas, ao fim do dia, à noite, o animador do meu
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grupo de jovens trouxe esta, entre outras fotografias, porque eram as fotografias do
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World Press Photo, que é um concurso de fotografias de fotojornalismo que todos os anos têm uns
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premiados e a revista CAIS, que é aquela revista que é depois vendida pelo Sem Abrigo
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na rua, a revista CAIS faz um número todos os anos com as fotografias vencedoras do World
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Press Photo. E esse meu animador do grupo de jovens usou essas fotografias para essa reunião
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e espalhou-as no chão, e nós fizemos uma reunião de que eu já não me lembro, mas
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lembro-me do impacto que teve em mim ver essas fotografias, esta em concreto, que é uma fotografia
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do Haiti, de um menino a roubar um pedaço de carne para levar para casa, para a família.
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O terror nos olhos desta criança, a fome que eu adivinhava que ela vivia, marcou-me
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imenso e eu na altura escrevi umas linhas que depois reencontrei anos mais tarde, em
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que eu dizia a minha vida terá de ser muito maior do que eu. Eu tinha 16 anos e senti
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com muita força que eu sou pequenina e tudo que for em desejos meus e ambições minhas
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são pequeninas, mesquinhas, a minha vida tem de ir para lá disto. E continuei a escrever,
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não tenho, não tem ninguém, parece-me, o direito de viver no esquecimento dos outros
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e de tudo o que tenho possibilidade de fazer por eles, se quiser. Como esquecer que fui
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presenteada com tanta coisa que nada fiz para merecer e que a maior parte das pessoas não
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partilha? Como coexistir com a miséria? Como coexistir com a consciência da miséria?
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Não posso nunca esquecer que há um laço inquebrável que une todas as pessoas e enquanto
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houver neste mundo quem não tenha condições dignas para viver como eu e ser feliz, não
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poderei descansar.
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Isto, na altura, foi uma intuição que mudou completamente a minha perspectiva do mundo,
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do meu uso do tempo, daquilo a que eu sinto que tenho direito ou não tenho direito de
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fazer e da minha consciência nas compras diárias, etc. Comecei a fazer voluntariado,
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até esta é uma fotografia dos tempos, olhem, em que as fotografias vinham desfocadas, porque
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eram analógicas e a gente só tirava uma e revelava o rolo um mês depois. Então comecei
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a fazer voluntariado, por exemplo, com os doentes mentais nas casas de saúde das irmãs
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hospitaleiras, passava lá grande parte das minhas férias e depois houve outra coisa
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que foi muito importante, que foi ir a TZ pela primeira vez, aos 16 anos também, a
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minha paróquia tinha uma relação muito forte com a comunidade de TZ. Há muitas pessoas
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que conhecem TZ, se calhar algumas não, então vou explicar que TZ é uma comunidade monástica
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em França, ecuménica, que recebe jovens de todo o mundo que vão para lá passar uma
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temporada juntos a que viver em comunidade. Trabalham juntos, rezam juntos, conversam
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e conhecem pessoas de todo o mundo e com imensas maneiras diferentes de ser e de estar. Às
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vezes chegam a estar 5, 6 mil jovens numa semana em TZ. Eu passei a ir a TZ com muita
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frequência, várias vezes por ano, e houve um ano em 1998 em que eu comecei a gostar
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também muito da parte lúdica de TZ, em que há imensos músicos que se juntam e
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que tocam e vêm de diferentes sítios e trazem instrumentos diferentes. Houve um músico
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em especial que me tocou no coração, que é aquele barbudo que está ali, com quem
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eu passei a cantar também e com quem estou desde aí, portanto depois casámos mais tarde.
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Quando eu e o meu marido, ele é italiano, quando eu e o meu marido nos conhecemos e
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começámos a namorar mais tarde, portanto ainda escrevemos cartas e tudo, isto é mesmo
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outra geração, e quando começámos a namorar em TZ, lembro-me, ou seja, não começámos
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a namorar em TZ, mas depois, a vez que tivemos a TZ, estávamos lá num sítio muito especial
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que é ao pé do lago de TZ e tivemos uma conversa muito importante em que eu lhe estava
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a contar da dita intuição que eu tinha sentido, de que eu queria talvez ser missionária
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ou de qualquer das maneiras dedicar grande parte da minha vida aos outros e que eu sentia
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um dever ético profundíssimo. E ele disse, eu também sinto isso, é evidente para mim.
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Sempre senti num sonho tanto com a África, porque eu tinha o sonho de ir à África,
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ele dizia, não, eu é mais América Latina, mas ficou claro para nós que se tínhamos
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os dois esta intuição, este sentido muito forte de justiça e de dever perante os outros
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e se nos tínhamos encontrado na improbabilidade, visto que vínhamos de dois países diferentes,
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não poderíamos não fazer disto um dos cunhos especiais da nossa vida.
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E então fomos a Moçambique duas vezes, ainda namorados, fazer um curso de alfabetização
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de adultos e de formação de alfabetizadores. Esta é a minha turminha de alfabetizadores,
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que depois prosseguiu o processo de alfabetização. Isto é o caderno de uma das alunas do Andréa,
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que estava a aprender a ler e escrever aos 50 e tal anos e que não conseguia sequer
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empunhar a caneta no princípio do curso e que depois aprendeu a escrever o seu nome.
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Isto era tão importante para eles, que tinham um carimbo no bilhete de identidade a dizer
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não sabe assinar. E depois passaram a conseguir assinar o seu bilhete de identidade.
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Mas isso não foi a coisa mais importante. Uma das coisas que nós aprendemos em Moçambique,
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como o missionário que estava lá connosco, era que nada faz sentido se não for feito
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com base no amor e na relação humana. Quando nós chegámos lá e dissemos, Frã Marina,
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qual é a coisa principal deste curso que vimos fazer, e que estávamos a preparar há
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um ano o curso com imenso cuidado, fomos aprender as técnicas de alfabetização do Paulo Freire,
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um pedagogo do Brasil e tal. E o Freire disse-nos, não me interessa se vão aprender a ler ou
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escrever, o que me interessa é a relação humana. A relação. Conheçam-nos, amem-nos,
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deixem-se amar. E assim foi. Isso foi a coisa mais importante, foi o tesouro que trouxemos
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de Moçambique, foi a relação humana e o profundo amor que ali cresceu ao longo daquelas
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semanas em que lá estivemos. Depois casámos e na homilia do nosso casamento houve uma
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mensagem que nos ficou também para sempre e que vos trouxe hoje.
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Uma vez, há poucos anos, li um livro de um casal que não tinha cortinas em sua casa.
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De facto, nunca tinha conseguido juntar dinheiro para comprar as cortinas, porque quando já
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tinha o dinheiro suficiente, aparecia alguém que precisava desse dinheiro.
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Que a porta aberta de vossa casa seja mais importante que as cortinas.
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Esta mensagem foi muito importante e trouxe-me-la sempre no nosso coração. Quando eu estava
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a preparar esta sessão, quando me telefonaram a dizer que ia fazer esta sessão hoje e eu
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disse às tantas lá em casa, vou buscar o vídeo do casamento e o André disse-me, as
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cortinas. Eu sim, as cortinas. Nós depois, quando casámos, já tínhamos tudo programado,
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queríamos fazer uma viagem pela América Latina, de mochila às costas, a visitar projetos
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de ONGs, projetos locais, comunidades locais, pequenas igrejas que faziam ação social
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aqui ou ali, porque queríamos descobrir o nosso lugar no mundo e conhecer a realidade
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social desses países. Começámos no México, fomos sempre via terra até ao Peru, depois
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voltámos, depois fomos para a Argentina, depois voltámos, depois fomos para o Brasil.
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Enfim, ao longo dos anos, fomos sempre voltando muitas vezes. Isto é a única fotografia que
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eu tenho desse ano de viagem, de mochila às costas, portanto, qualidade espetacular,
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mas lá está, nós não andávamos de telemóvel na altura. Tenho aqui algumas imagens, isto
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aqui é na Nicarágua. Desculpem, na Nicarágua, numa luta pelos direitos dos trabalhadores,
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estavam a morrer todos de câncer por causa dos pesticidas que eram usados nas plantações.
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No México, em comunidades de indígenas, onde estivemos também, enfim, sempre experiências
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divertíssimas. Na Amazónia, esta foi a nossa casa durante uma semana, nos rios da
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Amazónia, também a conhecer realidades muito especiais. Isto no Equador, numa família
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que nos acolheu durante uma semana em sua casa e com quem estivemos a viver no dia-a-dia,
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a aprender quais eram as dinâmicas do seu dia-a-dia, que também eram pessoas incríveis
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que faziam imenso pela comunidade. E uma das coisas que nos tocou também sempre é que
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estivemos sempre acolhidos, acolhidos de portas abertas, nas casas das pessoas, a dormir nas
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suas camas, a comer a única galinha que tinham num quintal e que matavam para nos
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dar a nós que tínhamos chegado. E pensámos, quando nós voltarmos, a nossa casa tem de
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estar realmente aberta, tal como fizeram para nós. Isso tem sido uma coisa que nos volta
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sempre. Às vezes há pessoas que nos dizem, olha, vimos agora a Lisboa, podemos ficar em
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vossa casa. Às vezes não dá jeito, mas ficamos sempre a ganhar. E isso foi uma coisa
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que nos ensinou esta viagem. E então a questão era, regresso a Portugal agora. Agora vamos
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fazer o quê? Nós sentimos que éramos chamados a regressar porque aquilo que mais faltava
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no mundo, sentimos nós, é consciência disto, das injustiças, das desigualdades, dos mecanismos
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que provocam a pobreza e a injustiça no mundo. E sentimos que nós éramos menos necessários
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enquanto mão de obra, digamos, para fazer lá nesses países as ações solidárias,
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quanto éramos necessários aqui para sensibilizar para tudo aquilo que tínhamos visto e que
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era urgente mudar. E então voltámos, fundámos uma associação, tivemos ligados a várias
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outras associações, em várias lutas ao longo dos anos, muito na onda sempre da sensibilização
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para problemáticas que precisam de um despertado de consciência. Tivemos ligados ao comércio
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justo e ao turismo ético. Portanto, ambas as realidades que têm a ver com fazer comércio
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de outra forma, pagando o preço justo ao produtor, fazer turismo de outra forma, indo
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conhecer as populações locais, ficar alojados nas casas das pessoas, ir comer aos restaurantes
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das pessoas locais e não viver numa bolha de turismo que flutua por cima das realidades,
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mas não as conhece realmente, nem beneficia as populações locais. Portanto, ainda estamos
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ligados bastante, sobretudo o meu marido, a esta coisa do turismo ético. Educação
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para o Desenvolvimento também foi uma coisa em que andei bastante envolvida, que é de
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fazer workshops em que, através de jogos e dinâmicas muito ativas e participativas,
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conseguimos sensibilizar as pessoas para esta realidade das relações comerciais e outro
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tipo de relações entre os povos do Norte e do Sul do mundo. Então fiz Dinâmicas de
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Educação para o Desenvolvimento em paróquias, com professores, em vários sítios, traduzi-as
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para português, este livro que é de Jogos de Educação para o Desenvolvimento, que
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era um livro italiano, traduzi-o para português. Mas isto já foi em anos que já lá vão.
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E depois agora, formação de voluntários é algo a que está muito ligado o meu marido.
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Como voluntário, ele forma voluntários para irem no verão em campos de trabalho e missão
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para países do Sul do mundo, onde os Irmãos Maristas têm missões. Ele está ligado aos
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Irmãos Maristas e então os missionários, desculpem, os voluntários que vão para essas
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missões nos meses do verão fazem um percurso de formação ao longo do ano e ele faz essa
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formação. No meu caso, desde há muitos anos, que a minha grande missão é como professora
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de Filosofia na Educação para o Pensamento Crítico, que eu acho que é assim que eu
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coloco sementes de transformação no mundo, aula a aula, dia a dia. Também levei os meus
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alunos a TZ algumas vezes, que é uma coisa muito especial para mim, porque também tiramos
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os alunos de uma bolha em que vivem aqui e levamos-nos para o contacto com outras pessoas
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e para alimentar também o seu espírito, que é uma base fundamental para depois termos
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a energia que é necessário para mudar as coisas. Estes são dois alunos meus, desculpem,
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estas são duas imagens da primeira vez em que eu levei alunos a TZ, em 2007, e estes
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dois alunos que estão aqui foram alunos que depois, em adultos, trabalharam como cooperantes,
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trabalharam pelo mundo fora, fizeram N projetos, muito mais do que eu alguma vez fiz, e fundaram
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organizações etc. E foi uma coisa que me deu imenso prazer ver depois as pessoas a
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fazer coisas tão extraordinárias e pensar, olha, que bonito que foi conhecê-los quando
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ainda tinham 15 anos e agora olha o caminho que fizeram. Depois, enquanto família, acolhemos
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uma família de refugiados, trago-vos aqui também um videozinho para ver o quanto nós
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ficamos a ganhar por esta interculturalidade que permitimos que aconteça em nossa casa.
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Elef
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Ba
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Ta
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Ta
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Ta
13:05
Ta
13:07
Ji
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Ha
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Ha
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Nui
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Ai, desculpem, como eu já estou com pouco tempo, não vou ver o video até ao fim,
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mas isto era a minha amiga Zara a ensinar o alfabeto árabe ao meu filho Gabriel, que
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na altura tinha 6 anos. E foi muito especial este processo de acolhimento desta família,
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aconteceu também porque estivemos em relação, porque eu nunca poderia, só eu e a minha
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família, acolher uma família de refugiados que vem do Iraque, cheio de traumas, que precisa
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de ajuda ao longo de dois anos para poder sobreviver, para poder aprender a língua,
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encontrar trabalho, tudo isso. Mas isso é possível se nós nos juntarmos a outros.
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E, portanto, houve outras pessoas connosco que também quiseram fazer isto, pois nós
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andámos a pôr cartazes nas escolas do bairro. Quem é que se quer juntar? Telefonavam
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pessoas, pais de crianças da escola dos meus filhos, que eu não conhecia de lado nenhum,
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a dizer, olha, ouvi dizer que vocês vão acolher, nós também queremos ajudar. E havia uns que
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eram responsáveis pelo ensino do português, outros eram responsáveis de levar a família,
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a senhora ao centro de saúde, que ela estava grávida, e era uma gravidez de risco. E
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quando nós fomos para férias nesse verão, arranjámos um conjunto de voluntários que
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ia visitar todos os dias, azar, a Pela não está sozinha. Enfim, que bonito que foi
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toda uma rede de afetos e de responsabilização e de compromisso que se gerou à volta do
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acolhimento desta família, que hoje está completamente autónoma e que vive em Portugal.
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E hoje em dia, qual é que é, digamos, a nossa causa que mais nos move enquanto família?
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É o cuidado da casa comum, as preocupações ecológicas, o amor pela natureza. Vivemos
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isto em família, nas férias que fazemos, na forma como gerimos o nosso tempo livre,
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tentamos sempre estar no meio da natureza e tentar gerar nos nossos filhos este profundo
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respeito, cuidado e atenção à natureza e toda a biodiversidade. Depois vivemos isto
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na Casa Velha, que é uma associação de que já falaram aqui hoje, a Rita falou, portanto
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não preciso explicar, nós estamos muito ligados à Casa Velha também e é uma fonte
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para nós muito importante de inspiração. Depois fomos viver para o campo, deixámos
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a cidade, era uma coisa que sentíamos com muita força e, portanto, é lá que nós
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neste momento nos sentimos profundamente em casa, os nossos filhos é a subir às árvores
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e descalços que têm estado a crescer nos últimos anos. Isso implica no dia-a-dia aprender
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a usar uma roçadora, que é uma máquina para cortar erva, aprender a podar árvores, aprender
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a plantar árvores, aprender a usar uma enxada, aprender a apanhar as laranjas e tudo aquilo
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que a terra dá. Mesmo que chova, lá temos de ir porque é preciso, porque senão apoderecem.
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E também isto é feito em comunidade. Quer eu, quer o meu marido, não temos nenhuma
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experiência passada de relação com a terra, relação com animais, nada. E tem sido com
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os nossos amigos que vêm à nossa casa e que nos ajudam e que nos ensinam a limpar
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o terreno para a horta e nos ensinam a plantar e nos ensinam a ter os animais e a cuidar
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deles e que, quando temos excesso de hospírios, partilhamos com os outros e, quando eles têm
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excesso de laranjas, partilham connosco e, quando temos de aprender a usar a motosserra,
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há alguém que nos vem ensinar e há alguém que corta a lenha connosco. E, portanto, neste
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espírito comunitário é que temos vindo a viver cada vez mais e queria encerrar esta
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mensagem com a letra desta música, que é muito especial para mim, que se chama Nature
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Boy, é uma música dos anos 40, que já foi cantada por quase todos os cantores e intérpretes
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de jazz e não só, pelo Caetano Veloso também, e em que se conta a história de um menino
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especial que viajou por todo o mundo e que estava cheio de sabedoria.
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A coisa mais importante que alguma vez hás de aprender é só a amar e a ser amado de volta.
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É só isto que eu vos quero dizer. Obrigada.