0:00
Olá, muito bom dia a todos que estão aqui presentes e bom dia também a quem está presente mas à distância.
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Maravilha de ver a tecnologia.
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Diz-me que há alguns na vossa vida, quando se param com perguntas como estas, pensam o que é que elas querem dizer?
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Ora, o que está nas minhas mãos significa que sou eu que controlo, que sou eu que decido,
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que eu tenho o poder para exigir, para fazer de outra forma.
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Que eu sou o ativo, que não sou um mero ator da minha vida.
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Mas quando eu pergunto o que está nas minhas mãos,
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levaram-me a pensar que se calhar há coisas que eu realmente controlo e coisas sobre as quais não tenho, no entanto, controle.
1:02
Pois eu, quando olhei para estas perguntas, ou para esta afirmação, ou para esta pergunta pela primeira vez,
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a primeira coisa que me veio à cabeça foi por que é que me estão a falar das mãos?
1:13
Eu percebo o que está escrito, mas na minha cabeça, a pergunta que eu visualizei foi
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por que é que me perguntam o que está nas tuas mãos e não me perguntam o que está nos teus pés?
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Ou se está na tua bacilha? Está no teu nariz? Na tua cabeça? No teu coração?
1:35
Por este pequeno banheiro inicial, se calhar perceberam que eu muitas vezes penso de uma forma diferente da maioria das pessoas.
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Eu tenho um pastinho por todo o corpo. Logo, a primeira coisa que eu reparo é que está escrito mãos naquela pergunta.
1:51
Sou Ana, chamo-me Ana Ribeiro, tenho 41 anos, sou mãe de duas crianças, a Amela e o Ari.
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Estou formada em divano de comunicação e tenho uma forma de pensar muito espiritual.
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Portanto, eu penso efetivamente como uma divana, mas a minha educação está ligada à educação.
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Eu sou professora há mais de 20 anos, professora de artes visuais, educação visual, educação plástica, do desenho
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e sou uma crente na educação como forma de mudar o mundo.
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Para mim, a educação é a maneira que nós temos de unir qualquer pessoa das ferramentas
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para que possa acreditar que sim, que a vida está nas suas mãos.
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Paralelamente ao meu percurso como professora de artes, eu fiz formação, eu fiz ginástica, depois fiz formação em teatro,
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fiz muita formação em dança e fui trapejista. Eu dei aulas de acrobacia aérea.
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Portanto, para mim, estar em cima de um palco não significava ter os pés no chão, significava estar pendurada lá em cima.
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Isso porque tenho, somente, este pezinho com botões do corpo.
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O que aconteceu foi que acabei por casar as duas áreas e a dança e a expressão corporal acabaram por invadir as minhas aulas de artes plásticas, de artes visuais.
3:18
Sou uma pessoa que sempre foi muito independente, tenho dificuldade em pedir ajuda, ou que roça a caixa do risco e não é bom
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e tenho favor a limitações.
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Há coisa de, mais ou menos, dois anos da entrada no hospital para ter um bebê, o meu segundo filho, e é super optimista e confiante.
3:43
Afinal, era uma vida nova, que a ervinha é sempre uma coisa boa.
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Só que, durante o parque, eu contraí uma meningite, que não podia domesticar há tempo.
3:53
Eu deixei de ouvir, eu deixei de andar e, durante cinco dias, fui tida por louca e por mentirosa.
4:01
Ao quinto dia, no hospital, perceberam que o que eu tinha era uma doctrina que me estava a invadir e a furitar, literalmente, o cérebro.
4:10
Pararam-me de um índice sem nascimento, infelizmente, não abandonava e é super saudável.
4:16
E transferiram-me para um serviço de infecciologia, onde fiquei internada, acamada e sem ouvir 21 dias.
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Fiquei em luta contra esta bactéria.
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Lutei até que eu ganhei.
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Eu sou uma sobrevivente e estou aqui hoje para lhes contar a história.
4:41
Esta outra bactéria deixou em mim danos irreversíveis.
4:50
O meu eu, super independente, o meu corpo autossuficiente, passou a ser o de alguém que é surdo e sem sistema vestibular.
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Eu tenho duas grandes deficiências.
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O sistema vestibular é bem incomum.
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Eu vou explicar.
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Eu sou responsável pelo nosso equilíbrio.
5:11
Porque eu deixei de andar.
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Isso significa que eu, para estar aqui em cima do palco, tenho alguma dificuldade.
5:20
O comissão lhe deixou tudo a cremer.
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O mundo, para mim, virá a uma velocidade superior à que vira para vocês.
5:26
As imagens nunca estão paradas, a não ser que seja completamente imóvel.
5:31
Eu também não conheço bem as substâncias, portanto, posso chocar com alguém.
5:35
Quanto à surdez, se eu retirar os implantes e o processador de estrago atrás das orelhas,
5:41
hoje, com eles, eu oujo sons, mas eu não distingo os sons que ouço.
5:47
Onde é que está o limite daquilo que eu sou?
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Quem eu sou?
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Durante os 21 dias em que eu estive internada, esta pergunta veio muitas vezes à cabeça.
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Eu perguntava o que é que me podem tirar a partir de onde é que eu desejo ser eu,
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se me vão tirando coisas.
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Eu vou passar a explicar e, se calhar, vou pedir se me dão um bocadinho de luz para a sala.
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E vou passar a explicar com vocês.
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Peguem ou olhem para a vossa mão, no meu caso, eu vou fazer com a direita,
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para a mão com que escrevam, para a vossa mão dominante.
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Olhem, Gabriela, coloquem-na assim, à frente.
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Se vos cortarem esta mão, continuam a ser vocês.
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É só uma mão.
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Apesar de que é a mão de, se calhar, mais visão, mas é só uma mão, portanto,
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quase surpresa que cento e cento de pessoas diria que sim.
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Continua a ser ela própria, se eu cortarem a mão.
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E agora, se passaram por aqui e cortaram todo este braço,
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sem o braço continuas a ser tu.
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E se querem sair daqui, por outro lado, um autocarro eficaz,
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que é para plésmico ou paraplésmico e para o resto da vida numa cadeira de rodas,
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é que as ciências, como as doenças crónicas,
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são como os casamentos de antigamente, são para a vida.
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Só que ao contrário de um casamento em que nós escolhemos com quem casamos,
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aqui ninguém escolhe ser deficiente, ninguém escolhe ter uma doença crónica,
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só que ela vai ficar connosco para todo o fim.
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Voltamos ao autocarro.
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Se forem por o lado e ficarem numa cadeira de rodas, continuam a ser vocês.
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E ficar numa cadeira de rodas tem o mesmo impacto para uma bailarina
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que tem para um programador informático.
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Isto é, é o que nós fazemos profissionalmente ou vocacionalmente,
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que influi de alguma forma.
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E dependendo daquilo que vocês tiram,
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um músico surdo é igual a um escultor surdo.
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Em última instância, se eu perder a memória de quem sou, continuo a ser eu.
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Em momento algum dos últimos dois anos,
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e olhem que os últimos dois anos foram surreais para todos,
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para mim foram um filme de terror,
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mas em momento algum eu senti que perdi a minha identidade.
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Eu sou surda, eu não tenho sistemas vestibulares,
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sou uma pessoa com deficiências, mas eu continuo a ser a Ana,
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a mesma Ana de sempre.
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Agora, a minha vida é incomparavelmente mais difícil agora
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do que era antes de eu ser profissional.
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Ter uma deficiência é jogar o jogo da vida num nível de dificuldades superior.
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Se a nossa vida for um jogo de computador,
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nós começamos todos num nível 1,
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e são-nos dadas algumas opções, algumas ferramentas,
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e começamos a jogar o jogo da vida.
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E ao longo do nível 1, nós vamos capacitando-nos para o nível 2.
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Estamos ganhando as ferramentas, os aliados, as pessoas concretas
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que teremos ao pé de nós e que nos ajudam,
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o superpoder que nos faz saltar mais alto para avançarmos para o nível 2.
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Quando alguém fica da noite para o dia, no meu caso deficiente,
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ou com uma doença crónica,
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coloca-nos automaticamente no nível 2 do jogo da vida.
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Só que ninguém lhes dá essas ferramentas,
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e podemos perder de nós em encontrá-las.
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15% da população mundial tem algum tipo de deficiência,
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o que faz com que neste passá-la, de certeza, que eu não sou a única.
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E para nós, os deficientes, a vida tem uma crescente dificuldade enorme,
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porque o mundo não está preparado para nós,
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porque as pessoas não estão preparadas.
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Muitas vezes não é por mal.
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Só que nós, para fazermos coisas que para vocês são super simples e banais no dia a dia,
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precisamos de um esforço imenso.
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Que seja um esforço neurológico meu,
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que seja até um esforço psicológico de ter de estar constantemente a pedir
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que lhes sejam facilitadas algumas coisas,
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que lhes mudem algumas aspectos,
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que precisam de ser incluídos.
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Ontem tentei abrir uma conta num banco,
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e para além do surreal que foi
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ter incidido um documento em que prova que sou deficiente,
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porque há uma cruz que uma pessoa tem que colocar quando abre uma conta no banco,
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eu não percebi nada, porque alguém está de máscara,
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e eu, como surda, guio-me pela leitura labial para perceber o outro.
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Vou voltar às minhas duas deficiências.
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Estou surda.
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Eu não tenho um sistema de estudar,
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mas eu sou eu.
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Quando estava na tal cama do hospital,
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a pensar até onde é que me podem tirar,
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e na altura estava bastante mais debilitada,
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veio-me à cabeça o meu trapézio.
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Eu era trapejista,
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e fiquei sem colírio.
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Eu sou professora,
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e não consigo gerir uma sala de aula.
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Eu não consigo.
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O movimento das crianças, o barulho das crianças,
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é impossível para o meu cérebro.
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Pode uma professora não ouvir o aluno.
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Eu adoro conversar,
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adoro a sutileza das palavras,
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adoro o humor,
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e não consigo acompanhar um diálogo.
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Eu não sou o soro e o rei dos meus filhos,
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a não ser que esteja a olhar diretamente para eles.
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O som que os meus filhos fazem é insuportável
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para o meu sistema auditório-social.
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Os leves e estandares dos frases.
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E não é exposto o som de um filho ser insuportável para uma mãe.
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Isso faz-me pior, mãe.
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Tenho ali que ao longo destes dois anos,
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por muito que disseste que fosse,
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nunca senti que tinha deixado de ser eu.
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Diz-vos também
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que sou professora de educação,
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e acabei de dizer que nunca mais vou poder entrar na sala de aula.
13:16
Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
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Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:20
Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:22
Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:24
Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
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Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:29
Como é que se reinventa uma vida
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quando nos acontece algo assim?
13:36
Eu acho que só há duas hipóteses.
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Ou melhor, que temos que incluir estas duas hipóteses
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para alguém se reinventar.
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Quando a vida nos troca as voltas,
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eu tenho sempre que reforçar aquilo que me define.
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E tenho sempre que incluir as minhas limitações.
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Ser professora, a educação é algo que me define.
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A incapacidade de comunicar profissionalmente
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e de virar uma sala de aula é uma limitação
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que agora também tenho.
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Então, o que aconteceu é que eu tive que achar uma maneira
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de me tornar professora sem estar em sala de aula
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e criei, há pouco mais de um ano,
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um projeto que se chama Um Artista em Casa.
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Eu mensalmente penso num artista
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como se tivesse as atividades, os materiais didácticos,
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iguais aos que faria se estivesse em sala de aula.
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Ainda há questão de umas notas para pais ou professores.
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Ou seja, todo um plano de aula sobre um artista
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coloco dentro de uma caixa e envio por correio
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e digo aos pais, isto é para fazerem com os vossos filhos.
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Ou digo aos professores, isto é para fazerem com os vossos alunos.
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E, atualmente, Um Artista em Casa é um projeto de sete anos,
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já com uma grande dimensão,
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mas que nasceu exatamente de eu ter conseguido reunir
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aquilo que é algo em que sou muito boa
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e que me realiza e que faz parte da minha educação
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com algo em que me limita,
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que são estas duas substâncias.
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Portanto, estas duas coisas têm que estar sempre presentes.
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Eu tenho que reforçar aquilo que sou,
15:14
mas eu tenho que incluir as minhas limitações.
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Isto é estranho no caso de uma deficiência
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e no caso de uma pessoa normal é sempre assim.
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Excluir as nossas limitações nunca é solução para nada.
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Portanto, a inclusão daquilo que nós achamos
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que é o ponto fraco de nós faz parte da nossa força.
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Também tenho para dizer que a minha invenção de quem somos só é possível
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devido a uma competência que eu agora, ultimamente, estou sempre a falar,
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que é a criatividade.
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Criatividade é a capacidade de arranjar soluções úteis,
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com valor, novas, boas.
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E eu acho que é o sucesso para a adaptação feliz ou mais.
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Seja eu um meio fácil ou seja ele um meio mais difícil.
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Como é para mim.
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Portanto, eu atualmente bato por educar pessoas para a criatividade
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porque acho que essa é a chave do sucesso.
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Vou, se calhar, acabar voltando ao início de tudo.
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A pergunta, a final, a diga, está nas suas mãos.
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Olhem-a outra vez para a mão.
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Para a vossa, aquela que se podem ou não cortar.
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Eu tenho certeza que a vida está nas suas mãos.
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Sempre, em qualquer circunstância.
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Agora, pode acontecer que realmente, a dar altura, te cortem as mãos.
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E aí, se for de alguém criativo,
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terás a capacidade de dizer agora a vida está nos meus pés.
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Ou está na minha barriga.
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Ou está no meu cérebro.
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Ou no meu coração.
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Onde tu quiseres.
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Mas ela está em ti e estou em ti.