3 Milhões de Nós
0:00 Olá, muito bom dia a todos que estão aqui presentes e bom dia também a quem está presente mas à distância.
0:16 Maravilha de ver a tecnologia.
0:19 Diz-me que há alguns na vossa vida, quando se param com perguntas como estas, pensam o que é que elas querem dizer?
0:29 Ora, o que está nas minhas mãos significa que sou eu que controlo, que sou eu que decido,
0:38 que eu tenho o poder para exigir, para fazer de outra forma.
0:41 Que eu sou o ativo, que não sou um mero ator da minha vida.
0:46 Mas quando eu pergunto o que está nas minhas mãos,
0:54 levaram-me a pensar que se calhar há coisas que eu realmente controlo e coisas sobre as quais não tenho, no entanto, controle.
1:02 Pois eu, quando olhei para estas perguntas, ou para esta afirmação, ou para esta pergunta pela primeira vez,
1:08 a primeira coisa que me veio à cabeça foi por que é que me estão a falar das mãos?
1:13 Eu percebo o que está escrito, mas na minha cabeça, a pergunta que eu visualizei foi
1:22 por que é que me perguntam o que está nas tuas mãos e não me perguntam o que está nos teus pés?
1:28 Ou se está na tua bacilha? Está no teu nariz? Na tua cabeça? No teu coração?
1:35 Por este pequeno banheiro inicial, se calhar perceberam que eu muitas vezes penso de uma forma diferente da maioria das pessoas.
1:43 Eu tenho um pastinho por todo o corpo. Logo, a primeira coisa que eu reparo é que está escrito mãos naquela pergunta.
1:51 Sou Ana, chamo-me Ana Ribeiro, tenho 41 anos, sou mãe de duas crianças, a Amela e o Ari.
2:00 Estou formada em divano de comunicação e tenho uma forma de pensar muito espiritual.
2:05 Portanto, eu penso efetivamente como uma divana, mas a minha educação está ligada à educação.
2:11 Eu sou professora há mais de 20 anos, professora de artes visuais, educação visual, educação plástica, do desenho
2:19 e sou uma crente na educação como forma de mudar o mundo.
2:24 Para mim, a educação é a maneira que nós temos de unir qualquer pessoa das ferramentas
2:30 para que possa acreditar que sim, que a vida está nas suas mãos.
2:35 Paralelamente ao meu percurso como professora de artes, eu fiz formação, eu fiz ginástica, depois fiz formação em teatro,
2:44 fiz muita formação em dança e fui trapejista. Eu dei aulas de acrobacia aérea.
2:50 Portanto, para mim, estar em cima de um palco não significava ter os pés no chão, significava estar pendurada lá em cima.
2:59 Isso porque tenho, somente, este pezinho com botões do corpo.
3:03 O que aconteceu foi que acabei por casar as duas áreas e a dança e a expressão corporal acabaram por invadir as minhas aulas de artes plásticas, de artes visuais.
3:18 Sou uma pessoa que sempre foi muito independente, tenho dificuldade em pedir ajuda, ou que roça a caixa do risco e não é bom
3:26 e tenho favor a limitações.
3:30 Há coisa de, mais ou menos, dois anos da entrada no hospital para ter um bebê, o meu segundo filho, e é super optimista e confiante.
3:43 Afinal, era uma vida nova, que a ervinha é sempre uma coisa boa.
3:47 Só que, durante o parque, eu contraí uma meningite, que não podia domesticar há tempo.
3:53 Eu deixei de ouvir, eu deixei de andar e, durante cinco dias, fui tida por louca e por mentirosa.
4:01 Ao quinto dia, no hospital, perceberam que o que eu tinha era uma doctrina que me estava a invadir e a furitar, literalmente, o cérebro.
4:10 Pararam-me de um índice sem nascimento, infelizmente, não abandonava e é super saudável.
4:16 E transferiram-me para um serviço de infecciologia, onde fiquei internada, acamada e sem ouvir 21 dias.
4:25 Fiquei em luta contra esta bactéria.
4:29 Lutei até que eu ganhei.
4:31 Eu sou uma sobrevivente e estou aqui hoje para lhes contar a história.
4:41 Esta outra bactéria deixou em mim danos irreversíveis.
4:50 O meu eu, super independente, o meu corpo autossuficiente, passou a ser o de alguém que é surdo e sem sistema vestibular.
5:02 Eu tenho duas grandes deficiências.
5:05 O sistema vestibular é bem incomum.
5:08 Eu vou explicar.
5:09 Eu sou responsável pelo nosso equilíbrio.
5:11 Porque eu deixei de andar.
5:13 Isso significa que eu, para estar aqui em cima do palco, tenho alguma dificuldade.
5:20 O comissão lhe deixou tudo a cremer.
5:22 O mundo, para mim, virá a uma velocidade superior à que vira para vocês.
5:26 As imagens nunca estão paradas, a não ser que seja completamente imóvel.
5:31 Eu também não conheço bem as substâncias, portanto, posso chocar com alguém.
5:35 Quanto à surdez, se eu retirar os implantes e o processador de estrago atrás das orelhas,
5:41 hoje, com eles, eu oujo sons, mas eu não distingo os sons que ouço.
5:47 Onde é que está o limite daquilo que eu sou?
5:59 Quem eu sou?
6:01 Durante os 21 dias em que eu estive internada, esta pergunta veio muitas vezes à cabeça.
6:11 Eu perguntava o que é que me podem tirar a partir de onde é que eu desejo ser eu,
6:18 se me vão tirando coisas.
6:21 Eu vou passar a explicar e, se calhar, vou pedir se me dão um bocadinho de luz para a sala.
6:31 E vou passar a explicar com vocês.
6:34 Peguem ou olhem para a vossa mão, no meu caso, eu vou fazer com a direita,
6:39 para a mão com que escrevam, para a vossa mão dominante.
6:42 Olhem, Gabriela, coloquem-na assim, à frente.
6:46 Se vos cortarem esta mão, continuam a ser vocês.
6:51 É só uma mão.
6:54 Apesar de que é a mão de, se calhar, mais visão, mas é só uma mão, portanto,
6:59 quase surpresa que cento e cento de pessoas diria que sim.
7:02 Continua a ser ela própria, se eu cortarem a mão.
7:07 E agora, se passaram por aqui e cortaram todo este braço,
7:12 sem o braço continuas a ser tu.
7:18 E se querem sair daqui, por outro lado, um autocarro eficaz,
7:22 que é para plésmico ou paraplésmico e para o resto da vida numa cadeira de rodas,
7:27 é que as ciências, como as doenças crónicas,
7:33 são como os casamentos de antigamente, são para a vida.
7:37 Só que ao contrário de um casamento em que nós escolhemos com quem casamos,
7:41 aqui ninguém escolhe ser deficiente, ninguém escolhe ter uma doença crónica,
7:46 só que ela vai ficar connosco para todo o fim.
7:51 Voltamos ao autocarro.
7:53 Se forem por o lado e ficarem numa cadeira de rodas, continuam a ser vocês.
7:59 E ficar numa cadeira de rodas tem o mesmo impacto para uma bailarina
8:04 que tem para um programador informático.
8:07 Isto é, é o que nós fazemos profissionalmente ou vocacionalmente,
8:11 que influi de alguma forma.
8:15 E dependendo daquilo que vocês tiram,
8:19 um músico surdo é igual a um escultor surdo.
8:25 Em última instância, se eu perder a memória de quem sou, continuo a ser eu.
8:36 Em momento algum dos últimos dois anos,
8:39 e olhem que os últimos dois anos foram surreais para todos,
8:42 para mim foram um filme de terror,
8:44 mas em momento algum eu senti que perdi a minha identidade.
8:49 Eu sou surda, eu não tenho sistemas vestibulares,
8:53 sou uma pessoa com deficiências, mas eu continuo a ser a Ana,
8:56 a mesma Ana de sempre.
8:58 Agora, a minha vida é incomparavelmente mais difícil agora
9:02 do que era antes de eu ser profissional.
9:09 Ter uma deficiência é jogar o jogo da vida num nível de dificuldades superior.
9:15 Se a nossa vida for um jogo de computador,
9:18 nós começamos todos num nível 1,
9:21 e são-nos dadas algumas opções, algumas ferramentas,
9:24 e começamos a jogar o jogo da vida.
9:26 E ao longo do nível 1, nós vamos capacitando-nos para o nível 2.
9:31 Estamos ganhando as ferramentas, os aliados, as pessoas concretas
9:35 que teremos ao pé de nós e que nos ajudam,
9:38 o superpoder que nos faz saltar mais alto para avançarmos para o nível 2.
9:43 Quando alguém fica da noite para o dia, no meu caso deficiente,
9:48 ou com uma doença crónica,
9:50 coloca-nos automaticamente no nível 2 do jogo da vida.
9:54 Só que ninguém lhes dá essas ferramentas,
9:57 e podemos perder de nós em encontrá-las.
10:02 15% da população mundial tem algum tipo de deficiência,
10:07 o que faz com que neste passá-la, de certeza, que eu não sou a única.
10:12 E para nós, os deficientes, a vida tem uma crescente dificuldade enorme,
10:19 porque o mundo não está preparado para nós,
10:22 porque as pessoas não estão preparadas.
10:24 Muitas vezes não é por mal.
10:26 Só que nós, para fazermos coisas que para vocês são super simples e banais no dia a dia,
10:32 precisamos de um esforço imenso.
10:34 Que seja um esforço neurológico meu,
10:37 que seja até um esforço psicológico de ter de estar constantemente a pedir
10:41 que lhes sejam facilitadas algumas coisas,
10:44 que lhes mudem algumas aspectos,
10:46 que precisam de ser incluídos.
10:50 Ontem tentei abrir uma conta num banco,
10:53 e para além do surreal que foi
10:55 ter incidido um documento em que prova que sou deficiente,
10:58 porque há uma cruz que uma pessoa tem que colocar quando abre uma conta no banco,
11:03 eu não percebi nada, porque alguém está de máscara,
11:06 e eu, como surda, guio-me pela leitura labial para perceber o outro.
11:23 Vou voltar às minhas duas deficiências.
11:26 Estou surda.
11:28 Eu não tenho um sistema de estudar,
11:30 mas eu sou eu.
11:33 Quando estava na tal cama do hospital,
11:35 a pensar até onde é que me podem tirar,
11:38 e na altura estava bastante mais debilitada,
11:43 veio-me à cabeça o meu trapézio.
11:47 Eu era trapejista,
11:49 e fiquei sem colírio.
11:52 Eu sou professora,
11:54 e não consigo gerir uma sala de aula.
11:57 Eu não consigo.
11:59 O movimento das crianças, o barulho das crianças,
12:02 é impossível para o meu cérebro.
12:04 Pode uma professora não ouvir o aluno.
12:09 Eu adoro conversar,
12:11 adoro a sutileza das palavras,
12:13 adoro o humor,
12:16 e não consigo acompanhar um diálogo.
12:23 Eu não sou o soro e o rei dos meus filhos,
12:26 a não ser que esteja a olhar diretamente para eles.
12:29 O som que os meus filhos fazem é insuportável
12:32 para o meu sistema auditório-social.
12:36 Os leves e estandares dos frases.
12:39 E não é exposto o som de um filho ser insuportável para uma mãe.
12:45 Isso faz-me pior, mãe.
12:57 Tenho ali que ao longo destes dois anos,
13:01 por muito que disseste que fosse,
13:03 nunca senti que tinha deixado de ser eu.
13:07 Diz-vos também
13:10 que sou professora de educação,
13:13 e acabei de dizer que nunca mais vou poder entrar na sala de aula.
13:16 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:18 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:20 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:22 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:24 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:26 Eu tenho muitas ofensas sobre isso.
13:29 Como é que se reinventa uma vida
13:32 quando nos acontece algo assim?
13:36 Eu acho que só há duas hipóteses.
13:39 Ou melhor, que temos que incluir estas duas hipóteses
13:42 para alguém se reinventar.
13:44 Quando a vida nos troca as voltas,
13:46 eu tenho sempre que reforçar aquilo que me define.
13:49 E tenho sempre que incluir as minhas limitações.
13:53 Ser professora, a educação é algo que me define.
13:57 A incapacidade de comunicar profissionalmente
14:00 e de virar uma sala de aula é uma limitação
14:03 que agora também tenho.
14:06 Então, o que aconteceu é que eu tive que achar uma maneira
14:09 de me tornar professora sem estar em sala de aula
14:12 e criei, há pouco mais de um ano,
14:14 um projeto que se chama Um Artista em Casa.
14:18 Eu mensalmente penso num artista
14:20 como se tivesse as atividades, os materiais didácticos,
14:24 iguais aos que faria se estivesse em sala de aula.
14:28 Ainda há questão de umas notas para pais ou professores.
14:32 Ou seja, todo um plano de aula sobre um artista
14:36 coloco dentro de uma caixa e envio por correio
14:40 e digo aos pais, isto é para fazerem com os vossos filhos.
14:43 Ou digo aos professores, isto é para fazerem com os vossos alunos.
14:47 E, atualmente, Um Artista em Casa é um projeto de sete anos,
14:52 já com uma grande dimensão,
14:55 mas que nasceu exatamente de eu ter conseguido reunir
14:58 aquilo que é algo em que sou muito boa
15:01 e que me realiza e que faz parte da minha educação
15:04 com algo em que me limita,
15:07 que são estas duas substâncias.
15:10 Portanto, estas duas coisas têm que estar sempre presentes.
15:12 Eu tenho que reforçar aquilo que sou,
15:14 mas eu tenho que incluir as minhas limitações.
15:17 Isto é estranho no caso de uma deficiência
15:21 e no caso de uma pessoa normal é sempre assim.
15:25 Excluir as nossas limitações nunca é solução para nada.
15:31 Portanto, a inclusão daquilo que nós achamos
15:34 que é o ponto fraco de nós faz parte da nossa força.
15:44 Também tenho para dizer que a minha invenção de quem somos só é possível
15:53 devido a uma competência que eu agora, ultimamente, estou sempre a falar,
15:57 que é a criatividade.
15:59 Criatividade é a capacidade de arranjar soluções úteis,
16:03 com valor, novas, boas.
16:05 E eu acho que é o sucesso para a adaptação feliz ou mais.
16:09 Seja eu um meio fácil ou seja ele um meio mais difícil.
16:13 Como é para mim.
16:15 Portanto, eu atualmente bato por educar pessoas para a criatividade
16:20 porque acho que essa é a chave do sucesso.
16:27 Vou, se calhar, acabar voltando ao início de tudo.
16:31 A pergunta, a final, a diga, está nas suas mãos.
16:35 Olhem-a outra vez para a mão.
16:38 Para a vossa, aquela que se podem ou não cortar.
16:43 Eu tenho certeza que a vida está nas suas mãos.
16:47 Sempre, em qualquer circunstância.
16:50 Agora, pode acontecer que realmente, a dar altura, te cortem as mãos.
16:56 E aí, se for de alguém criativo,
16:59 terás a capacidade de dizer agora a vida está nos meus pés.
17:03 Ou está na minha barriga.
17:05 Ou está no meu cérebro.
17:07 Ou no meu coração.
17:09 Onde tu quiseres.
17:10 Mas ela está em ti e estou em ti.

A minha saúde - Ana Isabel Ribeiro

Descrição

Na palestra "A minha saúde", Ana Isabel Ribeiro partilha a sua inspiradora jornada de superação após enfrentar desafios graves de saúde. Com um tom cativante e motivador, convida os jovens a refletirem sobre o poder que têm nas suas próprias vidas, mesmo diante das adversidades.

Resumo

Ana Isabel Ribeiro inicia a sua palestra questionando sobre o que realmente está nas nossas mãos, utilizando essa metáfora para explorar o controlo que temos sobre a nossa vida. A sua história pessoal é marcante; após contrair uma meningite durante a gravidez do seu segundo filho, ficou com deficiências que afetaram significativamente a sua independência e experiência de vida. Apesar de ter perdido a capacidade de ouvir e de ter dificuldades de equilíbrio, Ana reafirma a sua identidade, destacando que, independentemente das limitações impostas pelo seu estado de saúde, continua a ser a Ana de sempre.

Ao longo da sua intervenção, Ana revela que ter uma deficiência não define quem somos, mas sim como reagimos a essas circunstâncias. Explica ainda que a vida pode ser comparada a um jogo, onde a entrada em níveis mais difíceis exige novas ferramentas e adaptações das quais muitas vezes não estamos preparados. A sua experiência demonstra como a criatividade se tornou fundamental para reinventar a sua vida profissional, levando à criação do projeto "Um Artista em Casa", que mantém viva a sua paixão pela educação de forma inclusiva.

Ana conclui a sua mensagem ressaltando a importância de encararmos as adversidades com criatividade e resiliência. A ideia de que a vida está sempre nas nossas mãos é um convite à reflexão sobre a autoeficácia e a capacidade de transformação, independentemente dos obstáculos que possam surgir. Cada um tem o poder de redirecionar a sua vida, lembrando que mesmo em momentos de perda, a essência do que somos permanece intacta.

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