3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Eu acho que quando se vê raminhos, temos todos a espera de uma grande palhaçada.
0:13 Mas querido começar... Primeiro, como é que estás?
0:18 Como é que eu estou?
0:19 É para...
0:20 E que é sério?
0:21 É?
0:22 E que é sério?
0:23 Pergunta logo assim.
0:24 Não é que eu... Para quem me conhece e já ouviu as minhas partilhas, eu lido com algumas
0:30 questões relacionadas com a ansiedade e com a perturbação possível ou compulsiva.
0:34 E curiosamente, a vir para cá, tive aí um stress dos meus, portanto, agora já estou
0:40 mais calmo.
0:41 Mas já conseguiste sair...
0:42 Sim, sim, sim.
0:43 Entregaste a chave do carro agora?
0:44 Entreguei a chave do meu carro, que também foi um processo de confiança para o senhor
0:49 estacionar, mas vou ter que o desinfetar todo quando chegar lá.
0:52 Mas diz-me uma coisa, como é que alguém, com uma perturbação possível ou compulsiva,
0:58 que é claramente uma doença de dúvida, se mete em cima de um palco, faz tenda, porque
1:03 é tudo a ver com dúvida?
1:05 É estúpido.
1:06 É estúpido.
1:07 E depois tu disseste?
1:08 Sim, sim, sim, sim.
1:09 Não há problema.
1:10 Aliás, o meu background, então, é... Informagem e jornalismo.
1:13 Sim.
1:14 Não é?
1:15 É jornalismo.
1:16 Estamos, né?
1:17 Acho que se pode dizer.
1:18 Exatamente.
1:19 Ah, em Malva de Erks?
1:20 O quê?
1:22 É o fim.
1:24 Publicidade de Martin?
1:26 Sabe o que estás a...
1:27 Vai-te trabalhar para o ping-pong doce?
1:30 No marketing!
1:31 No marketing do ping-pong doce, caras!
1:34 Vou brincar.
1:35 Melhor do que jornalismo.
1:36 Eu tirei jornalismo, fui jornalista durante oito anos, depois a publicação de eu estava,
1:42 a malta mais velha que deve conhecer o jornal, que era o jornal a capital, foi à falência
1:48 e eu fui por...
1:49 Por causa?
1:50 Eu não sei porque há um padrão, porque eu depois tive numa revista que era a Max Semena,
1:54 também foi à falência.
1:55 O quê?
1:56 E eu estive no Independente, no Semanário Independente, que foi à falência.
2:01 É uma grande sala do homem para ti, que eu nem poder.
2:06 Portanto, se vocês quiserem, se tiverem algum inimigo, alguém que tenha um negócio, que
2:12 querermos terminar com o negócio...
2:14 É ligado.
2:15 É ligado.
2:16 Mas foi nessa altura que eu comecei a...
2:19 Tinha muito tempo livre, comecei a ver muita comédia, eu já ligava à comédia, mas comecei
2:24 a ler mais e comecei a por ocupar o tempo a escrever sobre comédia e daí comecei a
2:30 surgir a oportunidade de atuar uma primeira vez em stand-up e um amigo meu que acabou
2:36 por ser uma espécie de mestre no stand-up, ele disse-me uma coisa que é, tu vais te
2:40 meter nisto, isto é tipo droga, é tipo heroína, tipo a gente sabe que isto faz mal, mas não
2:46 consegue sair daqui e é um bocadinho isso, é uma relação de amor e ódio, porque
2:52 é adrenalina de estar em cima do palco, adrenalina de deixar as pessoas felizes, mas ao mesmo
2:58 tempo é super desconfortável, porque estás numa exposição total, uma pessoa sozinha
3:03 em palco.
3:04 E a verdade é que eu desde pequenino colito com ansiedade e com a perturbação possível
3:08 compulsiva.
3:09 Era aí que eu agora queria ir, que é que nós conhecemos como humorista, começas a
3:13 falar de coisas sérias, como é que faz esta passagem, e se começas no stand-up?
3:18 Opa, porque eu sempre, isto nunca foi, há muita malta que diz assim, eu entendo e
3:24 faz sentido, há muita malta que diz, parabéns pá, pela coragem, coragem de falar nessas
3:29 coisas e eu não vejo isso como um ato de coragem, eu integrei isso de uma forma natural
3:35 para ir a partir da primeira vez que eu fui um psicólogo, foi aos 18 anos.
3:41 Estás na primeira?
3:42 Não, ninguém, é difícil, acertei para ir ao quarto psicólogo e psiquiatra para ir ao
3:49 terceiro.
3:50 É sempre uma relação, é preciso criar aquela relação de embatia, mas não acertei, mas
3:56 todos eles me ajudaram.
3:57 Por exemplo, o meu primeiro foi na ESCES, no Politecnico, tinha lá um psicólogo pá,
4:03 e só que depois aquilo não tem um gabinete psicologico, parecia que estava em uma sala
4:07 de rinheiros.
4:08 As explicações.
4:09 Parecia que me estava dando as explicações, a sala não era confortável e depois eu percebo
4:13 hoje, olho para trás e percebo que o cara já me estava a dedo no esticar, a perturbação
4:16 se eu ou a combustível, mas não me explicou o que era, porque há profissionais de saúde
4:21 que fazem isso, que é, tipo, não explicam o que é que a pessoa tem para não rotular,
4:26 mas no meu caso teria feito, tinha-me ajudado, pá, depois passei por psicanálise, uma psicóloga
4:32 que, pá, eu não gostei nada, porque naquela altura a psicanálise não me dava muito cheio,
4:38 porque eu lavava as mãos 50, 60 vezes por dia, tomava banhos de duas horas.
4:42 Cês falaram sobre banho de trejante?
4:44 Tomei banho, cheguei a tomar banho contra trejante paloça.
4:47 É verdade?
4:48 Sério, era só uma gota.
4:49 Mas é verdade, eu cheguei a tomar banho contra trejante paloça porque o desespero era tal
4:57 que eu achava.
4:58 Eu passava tanto tempo no 2 que eu achava.
5:00 Se eu tomar contra trejante paloça é muito mais rápido.
5:03 Só que não é, porque é um processo mental, não tem a ver com os subterfuges que tu usas
5:09 para controlar isso.
5:11 E então na psicanálise era uma merda, porque basicamente eu só queria de parar de lavar
5:18 as mãos e saber lidar com a realidade e ela perguntava-me, sim, mas quando tinhas nove
5:23 meses, onde é que tu estavas?
5:26 Qual era a relação com a tua mãe?
5:28 Mas lá está, ajudou-me numa coisa muito importante, que...
5:33 Também com o teu pai?
5:34 Na relação com o meu pai, que foi eu conseguir confrontar o meu pai e dizer-lhe tudo aquilo
5:40 que eu sentia.
5:41 É uma história que eu já partilhei muitas vezes e dizer-lhe, porque a relação com o
5:46 meu pai, já agora da nota que está aqui, quem tem uma relação com o pai ou com a mãe?
5:51 Por Palmas.
5:52 Olha aquele.
5:53 E quem é que tem uma família desfuncional?
5:59 As famílias desfuncionais.
6:01 Mas aí, as famílias desfuncionais têm que ir para o outro lado, que é assim.
6:06 Por Palmas, malta dos anos 70.
6:08 Aí, malta dos anos 70.
6:10 Mas o entusiário dos anos 70.
6:13 Malta dos anos 80.
6:14 Aí, malta dos anos 80.
6:15 Ok.
6:16 Malta dos anos 90.
6:17 Malta de 60.
6:19 Malta dos anos 60.
6:22 E anos 50.
6:24 Griga.
6:25 Ovio.
6:26 Malta de 2000 para cima, onde é que está?
6:35 São os merdas.
6:39 Porque esta malta, obviamente, eu estou a brincar, mas a malta, sobretudo das nossas gerações,
6:44 70, 80, 90.
6:46 Obrigada.
6:47 Bem, muito.
6:49 Tu és 90?
6:50 Sou 90.
6:51 Bem, muito famílias.
6:53 Há uma grande parte de famílias desfuncionais.
6:56 E eu vivi em uma família desfuncional.
7:00 Eu vivia com os meus pais, os meus dois irmãos, e a minha avó.
7:04 A minha avó era desfuncional.
7:07 A minha mãe era desfuncional.
7:10 O meu pai era funcional, mas tinha uma desfunção irétil.
7:14 Não, estou a brincar.
7:16 Mas é uma riqueirança.
7:18 Vocês são em vida, não é?
7:20 Exato.
7:21 Não, mas eu não me lembro.
7:25 Eu tive um irmão que morreu antes de eu nascer.
7:28 Sim.
7:29 O meu irmão morreu com 15 anos.
7:31 Era profundo, nasceu uma criança normal, mas houve ali qualquer coisa no processo que ficou assim,
7:39 foram durante 15 anos.
7:40 O meu irmão morre em 79, nasce em 80, num processo de luto da minha mãe.
7:45 A minha mãe tem uma depressão.
7:48 Você nasce de chorar, imagina.
7:51 Pior de tudo, uma histórica que eu também já passei a ler muitas vezes.
7:56 Eu chamo António Raminhos, o meu irmão que chamava-se como.
7:59 António Raminhos.
8:01 Quem é que daqui tem uma campa com seu nome?
8:04 Já apanhei pessoas, o que acontece porque era de lá,
8:10 70 e 80, era muito comum fazer-se isto.
8:13 Quase que era como uma espécie...
8:15 Eternizar.
8:16 Eternizar e é uma substituição, vem substituir,
8:19 ou é uma honrara a pessoa que partiu,
8:22 mas ao mesmo tempo é uma carga que está a pôr ali nos ombros.
8:26 Ou seja, isto não é o que eu quero dizer com isto.
8:29 Todos nós temos uma história.
8:31 A minha história não é melhor nem é pior,
8:34 mas é muito mais importante aquilo que nós fazemos com ela.
8:38 Mas aí coisas metaduras, também que tavas a partilhar.
8:41 Mas de rir ou a comédia acaba por ser um escapo, por ser terapia para ti?
8:46 Eu acho que mesmo o engraçado é que lá está a minha família.
8:50 Sempre foi muito divertida.
8:53 Desfuncional?
8:54 Desfuncional, mas divertida.
8:56 Eu acho que isso acontece em muitas famílias,
8:58 porque o humor tira peso.
9:00 O humor tira peso às coisas.
9:02 Não é tirar, o humor não tira seriedade.
9:06 Porque às vezes confunde-se.
9:08 Por isso é que há muitas pessoas, sobretudo aquele humor negro,
9:11 piadas sobre cancro, piadas sobre doenças terminais,
9:15 piadas sobre morte,
9:17 há pessoas que levam a mal e há outras que estão bem com isso,
9:20 porque estão resolvidas com a situação.
9:22 E o humor depende muito mais de quem o recebe, de quem o faz.
9:27 Depende muito mais da tua história do que da minha.
9:30 Por isso é um bom exemplo.
9:32 Quando a minha mãe estava nos cuidados paliativos.
9:36 Foi um processo de moro pai e quatro meses.
9:39 E a minha mãe estava nos cuidados paliativos.
9:41 Eu ia ver a minha mãe quase todos os dias.
9:43 E aquilo é tudo gente muito sério, normal.
9:46 São cuidados paliativos.
9:47 É um ambiente tranquilo, mas tudo muito sereno,
9:50 porque estão a lidar com muitas emoções.
9:52 E depois fazem reuniões psicólogos,
9:54 fazem reuniões com as famílias.
9:56 E então fizeram uma reunião comigo,
9:58 que estavam a fazer comigo e com os meus irmãos,
10:00 já estava mesmo no fim de vida da minha mãe,
10:02 e fecham-me numa sala.
10:04 Muito sério, estás a ver?
10:06 E era o psicólogo, o chefe de serviço,
10:08 e a enfermeira chefe também.
10:10 E os treze e o psicóloga se olhar para mim,
10:12 dizia António.
10:14 Tem sido complicado, não tem?
10:16 E eu?
10:18 Tem, faz que é normal?
10:20 Sim, tem sido complicado.
10:22 Sabe onde é que isto vai terminar?
10:24 Esta história não sabe?
10:26 E eu? Provavelmente no cemitério dos olivais.
10:29 E o gajo aí começa tipo já assim.
10:31 Olha de lado.
10:33 E ele diz assim,
10:35 mas não há nada que tenha aprendido com esta história,
10:37 com esta viagem da sua mãe,
10:39 que está daqui a fazer com a sua mãe.
10:41 Não há nada que tenha aprendido de eu.
10:43 É pá!
10:45 Não.
10:47 Mas, depois parei
10:49 e diga sim.
10:51 Não, por casar.
10:53 Olha uma coisa que me tem ajudado muito.
10:55 E ele diga, António, diga,
10:57 diga o que é que tem ajudado neste processo
10:59 de dor e sofrimento.
11:01 Eu estou aqui muito triste
11:03 e um comentador no meu coração,
11:05 eu entro na sala
11:07 e basta olhar para a minha mãe
11:09 e pensar uma coisa que fique logo bem.
11:11 E ele diga, o que é que você pensa
11:13 que o deixa melhor e eu basta me entrar?
11:15 Olha para ela e pensar, antes ela do que eu.
11:17 Opa!
11:19 E o psicólogo
11:21 a enfermeira baixou o cabeça
11:23 e começou assim.
11:25 Não toca...
11:27 Não estava a escrever nada.
11:29 Dá uma só.
11:31 Pai, e o psicólogo
11:33 ficou super sério olhar para mim
11:35 e fazer eu ter que dizer, obviamente
11:37 eu estou a brincar.
11:39 E eu entendo que há pessoas
11:41 que não...
11:43 Por exemplo, olha uma coisa
11:45 que o meu pai é um oposto.
11:47 Por exemplo, às vezes o meu pai.
11:49 Nós saímos dos cuidados paliativos
11:51 e eu estava com os meus irmãos
11:53 e o meu pai
11:55 e queríamos...
11:57 Eu vejo assim muitas vezes os meus irmãos
11:59 cada um tem sua vida,
12:01 a minha irmã vive no Alentejo,
12:03 o meu irmão vive em Cascais
12:05 e estávamos juntos,
12:07 vamos aproveitar, vamos almoçar juntos.
12:09 E o meu pai não queria almoçar
12:11 porque para o meu pai almoçar fora
12:13 é sinal de festa
12:15 e não pode ir almoçar fora
12:17 enquanto a mulher está a sofrer
12:19 no hospital.
12:21 E eu percebo
12:23 mas na realidade
12:25 eu tenho que conectar com os filhos
12:27 e reforçarmos os nossos lados.
12:29 Sim.
12:31 E o humor recebe também muitas vezes
12:33 para isso, para nós relativizarmos,
12:35 tirarmos peso.
12:37 Dando um pacinha atrás,
12:39 muitas vezes você não está em condições
12:41 de fazer humor, não é?
12:43 Você está destruído e toda a gente está rindo.
12:45 Não.
12:47 E isso depende muito de entrega.
12:49 Como é que isso se gera?
12:51 É um trabalho.
12:53 Olha, eu já tive ataques de pânico
12:55 em espetáculos.
12:57 O que é que daqui já teve um ataque de pânico?
12:59 Por Palmas.
13:01 Por Palmas, é mais fácil.
13:03 Para quem não sabe,
13:05 um ataque de pânico é uma sensação...
13:07 Já tivesse algum? Não, não.
13:09 Um ataque de pânico, queres?
13:11 Vendos bem o produto.
13:13 Um ataque de pânico é uma sensação
13:15 de morte iminente.
13:17 Em que
13:19 para mim, no meu caso,
13:21 nós vamos a transpirar, logo, muito frias,
13:23 o coração bater
13:25 uma sensação de morte iminente
13:27 e de despreceição e afastamento
13:29 da realidade.
13:31 Estás fora do teu corpo?
13:33 Não, é como se tivesse a viver de duas realidades.
13:35 É muito estranho porque eu estou a viver a realidade
13:37 dentro da minha cabeça e tudo aquilo que está a passar comigo
13:39 e a viver a realidade das pessoas que estão à minha volta
13:41 que não sabem o que se está a passar.
13:43 Mas é essa sensação de
13:45 eu vou morrer, eu vou morrer,
13:47 não aguento o que é cedo aqui, eu vou morrer,
13:49 não aguento, não aguento, não aguento.
13:51 E tens um texto para dizer ao mesmo tempo
13:53 que estás a desprecer.
13:55 E já me aconteceu a sorte
13:57 é que já não era a primeira vez que eu tinha.
13:59 Já tinha tido vários porque a partir da vantagem
14:01 de tu ter estiro um primeiro ataque de pânico
14:03 é quando vem o segundo, o terceiro
14:05 e já sabes como é que vai ser
14:07 e podes aprender a lidar com isso.
14:09 Mas aconteceu-me a estar em cima do palco
14:11 e de repente estou a atuar
14:13 as mãos a transpirar e a minha cabeça
14:15 eu vou morrer, eu vou morrer que é cedo aqui, que é cedo aqui
14:17 eu não aguento, eu não aguento, eu não aguento.
14:19 E ao mesmo tempo que eu estava a debitar o texto
14:21 as pessoas estavam a rir
14:23 e eu estava a...
14:25 a gerir o meu ataque de pânico
14:27 a conversar com a minha cabeça
14:29 portanto a minha cabeça estava dividida em três partes
14:31 uma dizia o texto
14:33 outra que estava a ter o ataque de pânico
14:35 e a terceira que lidava com o ataque de pânico
14:37 enquanto eu debitava o texto eu dizia
14:39 vou morrer, vou morrer, vou morrer
14:41 é outro espetáculo que as pessoas levam para casa
14:43 eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer
14:45 também se eu me quiseste aparecer no correio da manhã
14:47 eu vou morrer, eu vou morrer
14:49 e tentar lá estar a tirar peso
14:51 e isso é uma das estratégias
14:53 para ansiedade
14:55 e, por exemplo, para a perturbação possível ou compulsiva
14:57 é o exagero
14:59 nós levarmos a situação
15:01 de tal modo ao exagero
15:03 que é como se a própria cabeça
15:05 desiste, pronto
15:07 não vou estar...
15:09 não, não, agora já...
15:11 agora já não estou
15:13 mas...
15:15 é...
15:17 sempre em loop, fica esperado
15:19 sim, fica esperado em loop
15:21 mas o que eu queria dizer e aquilo que eu procuro aplicar
15:23 mas que é muito difícil, quero de uma situação, quero de outra
15:25 é...
15:27 são só pensamentos
15:29 e embora nós digamos que são só
15:31 pensamentos
15:33 não é fácil entender isto
15:35 os pensamentos só ganham força
15:37 e nós lhe damos atenção
15:39 e isso seja o que for
15:41 seja o tipo de pensamento que for
15:43 porque todos nós temos pensamentos pecaminosos
15:45 todos nós temos pensamentos maus
15:47 todos nós já quisermos a tirar pessoas para a linha do comboio
15:49 a diferença
15:51 é...
15:53 mas é verdade, quem é que nunca pende na linha do comboi
15:55 quem é que nunca pensa assim? isso é me empurrar este gajo para a linha do comboi
15:57 quando a gente já pensou isto?
15:59 aquela fala uma tímida
16:01 mas a diferença
16:03 a diferença é esta
16:05 é que uma pessoa que não lida com ansiedade
16:07 ou com uma perturbação possível
16:09 com compulsiva pensa
16:11 e se eu tirasse este gajo para a linha do comboi
16:13 pervoi-se e segue a vida
16:15 eu penso isso
16:17 uma pessoa com uma perturbação possível com compulsiva pensa isso e fica
16:19 mas por que eu estou a pensar isto?
16:21 o que é que isto quer dizer de mim?
16:23 será que eu pareço que tenho mesmo vontade de atirar
16:25 será que eu vou ser um... será que eu alguma vez vou fazer isto?
16:27 será?
16:29 é esta pergunta mágica
16:31 que estraga a vida
16:33 uma pessoa com ansiedade
16:35 e com uma perturbação possível com compulsiva
16:37 que é o e se
16:39 e se eu estou doente e não sei
16:41 e se isto está contaminado e eu apanho uma doença
16:43 e se eu sou uma pessoa
16:45 e se eu fiz mal
16:47 ou disse alguma coisa a alguém e não me lembro
16:49 eu que tu quiseres
16:51 e este e se é mágico
16:53 nós tornamos realizadores de filmes
16:55 que só existem na nossa cabeça
16:57 e que não vão sair em lá nenhum
16:59 só nem ganhar prêmios
17:01 se tiveram psiquiatra a ganhar
17:03 que ainda está nessa fase de descobrir
17:05 o que é que está a acontecer
17:07 o que é que tu dirias
17:09 de
17:11 ainda não ter nomes
17:13 de não ter-se claro a vontade de falar com os pais
17:15 ou de pedir ajuda a um amigo por vergonha
17:17 tu sentiste vergonha nessa altura
17:19 depois não te cheguei a perguntar
17:21 no psicoalgo?
17:23 ou quando foste ao psiquiatra
17:25 ao psiquiatra senti
17:27 a primeira vez senti
17:29 porque quando fui ao psicoalgo nem tanto
17:31 porque eu lembro-me
17:33 o desespero aos 18 anos era de tal maneira
17:35 que eu não consegui entrar no autocarro sequer
17:37 eu sou dos olivais
17:39 aqui malta dos olivais
17:41 escondam as cadeiras
17:43 eu sou dos olivais
17:45 os olivais nos anos 80 era um bairro
17:47 fortíssima e heroína
17:49 tu encontravas seringas na rua
17:51 procaria por todo lado
17:53 havia toxicopendentes por todo lado
17:55 eu era amiga
17:57 já era adolescente mas tinha colegas meus da primária
17:59 toxicopendentes
18:01 e eu já não consegui isso que era andar
18:03 do autocarro porque entrava num autocarro
18:05 e agarrava e pensava tu a agarrar aqui
18:07 quem que agarrou aqui? eu tenho um corte na mão
18:09 e essa pessoa que teve aqui antes tem um corte na mão
18:11 agora imagina isto na cabeça
18:13 é cansativo
18:15 e é sensação de morte
18:17 parece que a dúvida acaba naquele momento
18:19 e o desespero foi tal
18:21 que eu disse eu tenho que procurar ajuda
18:23 e então eu não tivesse a vergonha
18:25 aliás eu lembro de dizer aos meus pais
18:27 eu estava sentado
18:29 que eu estava nos almoçar e eu disse aos meus pais
18:31 eu vou procurar um psicólogo porque eu não consigo viver
18:33 e quero saber o que é que se passa comigo
18:35 e os meus pais ficaram uns dois assim para olhar para mim
18:37 e eu acho
18:39 é mesmo maluco
18:41 e eu pensei
18:43 e eu disse isto e disse e tome uma caga para aquilo que vocês estão a pensar
18:45 e eu acho que isto foi
18:47 abriu a porta exatamente
18:49 para eu poder ir a um psicólogo
18:51 agora o psiquiatra
18:53 quando eu estou no psicólogo e o psiquiatra me diz
18:55 é melhor, se calhar irmos fazer medicação
18:57 aí é que eu pensei
18:59 medicação é mesmo carimbo
19:01 maluco
19:03 de tal maneira que a primeira vez que eu fui ao meu
19:05 o psiquiatra
19:07 o psiquiatra era num prédio de habitação
19:09 era o resto do chão todo
19:11 e eu, eu não era conhecido, isto foi em 2007
19:13 para aí
19:15 mas aí ajuda com os escuros?
19:17 não a questão é que eu fiquei 20 minutos no carro
19:19 a espera que ninguém entrasse no prédio
19:21 para não me verem entrar
19:23 eu já entrei em casa
19:25 se tripe com menos vergonha
19:27 e eu não tive problema nenhum
19:29 aí, pois eu lembro de ter entrado
19:31 aquilo era só psiquiatria lá
19:33 eu entro muito tímido
19:35 olha para a sala de espera
19:37 estavam duas pessoas sentadas e eu olho
19:39 e digo, penso para mim, devem ser maluco também
19:41 porque isto aqui não há dentista
19:43 não há nada, é só maluco
19:45 olá maluco
19:47 aqui está tudo
19:49 sim sou eu que estou aqui, não estás a imaginar
19:51 estou
19:53 mas depois o psiquiatra disse
19:55 aquilo que foi a primeira vez que me desmontaram
19:57 essa ideia, que foi
19:59 ele disse-me se tu tivesse
20:01 um problema de coração, que tivesse que tomar um compromisso
20:03 todos os dias
20:05 e que se fosse para o resto da tua vida
20:07 ou se tivesse diabetes e tivesse que tomar insulina
20:09 tu deixavas de fazer isso, eu não
20:11 então se o cérebro era um órgão
20:13 isto está provado cientificamente
20:15 é uma regulação
20:17 desse órgão
20:19 e que este comprimido ajuda-te a regular
20:21 porque é que não faz o mesmo
20:23 e eu aí
20:25 fez sentido
20:27 e até porque nós temos muita imagem ainda
20:29 da psiquiatria dos anos 50
20:31 e dos filmes terror quema
20:33 estava aberto toda
20:35 amarrada uma cama
20:37 há casos assim
20:39 eu vi casos assim quando fui a
20:41 hospital psiquiátrico
20:43 e em Cintra
20:45 o linhó
20:47 no linhó tem ali
20:49 um hospital psiquiátrico onde está a malta
20:51 mas é malta que teve surdos psicóticos
20:53 e que infelizmente cometeu crimes muito graves
20:55 exatamente porque não tomavam
20:57 uma medicação
20:59 e descompensaram de tal maneira que agora
21:01 tem que
21:03 tomar a séria até regular
21:05 e foi engraçado que eu fui lá
21:07 falar com eles
21:09 já acabou o tempo
21:11 mas não podemos estar mais tempo ou não
21:13 nós queríamos continuar
21:15 não queria só que acabasse de dizer a história
21:17 mas eu estava a dizer
21:19 foi muito curioso porque
21:21 eu estava a falar e havia pessoas que realmente
21:23 estavam, aquilo era só gente que cometeu crimes tipo
21:25 malta
21:27 que matou a mãe
21:29 que havia um rapaz de 18 anos
21:31 tinha regulado um taxista
21:33 se queríamos muito graves
21:35 por descompensações
21:37 ou porque tomavam erva
21:39 e eram esquizofrênicos
21:41 e não tomavam medicação e não tomavam erva
21:43 e eu estava lá a falar
21:45 e havia uma senhora que me parecia
21:47 relativamente bem, ela estava a falar comigo
21:49 e eu estava a dizer
21:51 e eu estava a dizer
21:53 e eu disse, mas estávamos a falar
21:55 e eu disse, mas tu qual é, tu estás aqui porque
21:57 eu estou aqui
21:59 porque
22:01 eu tomava cocaína
22:03 eu ah, mas pronto
22:05 mas hoje, sabes que a cocaína
22:07 faz bem ou faz mal e ela
22:09 faz bem
22:11 e a psiquiatracia é para mim
22:13 ela ainda está muito descompensada
22:15 ainda não acertamos bem na medicação
22:19 ela tinha ir lá parar porque
22:21 dizia que tinha uma mensagem de Deus
22:23 que dizia que tinha que dar cocaína a todas as pessoas do mundo
22:25 e tu
22:27 estava a receber a mensagem
22:29 eu estava a receber a mensagem
22:31 mas antes de terminarmos e de passarmos
22:33 para as mensagens que estão a enviar
22:35 pessoas que estão a sentir
22:37 que sentis que alguma coisa não está bem com elas
22:39 que é que
22:41 onde é que devem pedir ajuda, o que é que tu recomendas
22:43 eu acho que a primeira
22:45 a primeira questão, que foi isso que tu referiste
22:47 que é questão da vergonha, não tenham vergonha
22:49 não faça em ti ter vergonha
22:51 eu percebo
22:53 eu percebo
22:55 esse sentimento, percebo o sentimento
22:57 de achar que
22:59 que se é fraco
23:01 mas é muito engraçado porque nós
23:03 enquanto seres humanos
23:05 queremos
23:07 sentir o amor
23:09 a alegria
23:11 sentirmos vivos, sentir as emoções todas
23:13 mas depois para lidar
23:15 com elas queremos ser máquinas
23:17 e não dá
23:19 e não dá para fazer isso
23:21 e quando pensarem
23:23 que podem estar a ser fracos
23:25 para mim não há maior
23:27 a coragem de uma pessoa dizer
23:29 eu quero saber o que é que se passa comigo
23:31 eu quero entender o que é que
23:33 eu quero descobrir mais sobre mim
23:35 agora cada um nós tem o seu tempo
23:37 há pessoas que se calhar ainda sentem
23:39 esse peso de
23:41 achar que são fracos mas não deixem
23:43 que isso tome conta de vocês, tal como
23:45 pedir ajuda
23:47 o pedir ajuda para mim
23:49 ou o ter vergonha
23:51 ou melhor o ter vergonha
23:53 eu tirei logo isso da frente
23:55 porque eu rapidamente tomei consciência
23:57 que todos nós
23:59 estamos a resolver coisas
24:01 tu não tens os medos que eu tenho
24:03 mas certamente tens
24:05 outros que tu vais me contar isso para mim
24:07 não me diz nada
24:09 todos nós estamos a resolver coisas
24:11 eu tenho amigos meus que gozam comigo
24:13 é lavar as mãos
24:15 sim o meu agente quando eu começo a panicar
24:17 com cenas de trabalho normais
24:19 tipo olha não devíamos ver isso e ele assim
24:21 sim sim vai lavar as mãos
24:23 porque ele já partilhou coisas comigo
24:25 que não me fazem confusão
24:27 os dramas reais
24:29 todos nós estamos a resolver coisas
24:31 e isso traz também a questão da empatia
24:33 e da compaixão
24:35 ter a empatia para com vosco
24:37 compaixão para com vosco e para com os outros
24:39 compaixão para com nós que no sentido de
24:41 todos nós estamos a fazer o melhor que sabemos
24:43 sim
24:45 eu hoje, por exemplo, perante a situação que
24:47 enfrentei
24:49 eu pedi ter resolvido aquilo de outra maneira
24:51 mas perdi o controle da situação
24:53 e senti logo aquela coisa do ex um otário
24:55 e isto é rígido assim
24:57 e porque isto não acontece
24:59 e tive que respirar fundo
25:01 ter fé no processo
25:03 e seguir meu
25:05 e seguir-me
25:07 acho que é assim que terminamos
25:09 obrigada Rami
25:11 obrigada
25:13 por exemplo
25:15 se esta garrafa
25:17 tivesse aqui assim aberta
25:19 já não via
25:21 de um ter aberto para mim eu não
25:23 esqueço
25:25 está muito cheia
25:27 também porque está muito cheia
25:29 porque esta está mais cheia do que aquela
25:31 o bem não consigo
25:33 acho que precisamos da ajuda
25:35 para responder as duas perguntas
25:37 mas entretanto temos
25:39 uma pergunta do Lucas
25:41 não sei se o Lucas
25:43 quer continuar anónimo ou se quer
25:45 se pôr de pé
25:47 quer continuar anónimo
25:49 como é que podemos lidar
25:51 com a nossa insignificância
25:53 tchau
25:55 eu acho que essa palavra
26:01 a palavra
26:03 revela muito mais
26:05 sobre aquilo que nós sentimos do que propriamente
26:07 ser real
26:09 eu
26:11 ninguém é insignificante
26:13 todos nós temos
26:15 influência na vida uns dos outros
26:17 e não é preciso eu estar em cima
26:19 de um palco
26:21 acreditem
26:23 todos nós temos influência na vida uns dos outros
26:25 e
26:27 às vezes com coisas tão simples como
26:29 dizer um olá um bom dia
26:31 uma pessoa com quem se curou na rua
26:33 isso tem uma consequência
26:35 nós não somos
26:37 60 insignificantes
26:39 é um sentimento
26:41 que tem que ser trabalhado dentro
26:43 delas
26:45 mas é preciso acreditar isso
26:47 todos nós somos seres sociais
26:49 nós temos influência
26:51 todos na vida uns dos outros
26:53 no modo como falamos
26:55 como pensamos, como agimos
26:57 e isso leva mais uma vez a tal
26:59 que estão da empatia e da compaixão
27:01 essa importância
27:03 a importância de nós sermos para os outros
27:05 muitas vezes
27:07 sem esperar que nada
27:09 eu por exemplo faço voluntariado
27:11 e eu noto
27:13 eu sinto muito isso no voluntariado
27:15 eu faço
27:17 porque eu sei que vou estar alguma maneira
27:19 também faz-me bem e vou estar a ajudar alguém
27:21 e não procura
27:23 não procura o retorno disso
27:25 mas coisas tão simples que experimentem fazer uma coisa
27:27 amanhã
27:29 ou segunda-feira quando forem ver um café
27:31 a pessoa que está ao vosso lado
27:33 claro que ela vai estranhar
27:35 e vai achar que vocês vão querer matar a seguir
27:37 alguma coisa
27:39 porque as pessoas não estão habituadas
27:41 a apes de simpatia
27:43 perguntar só para o café
27:45 ou quando se cruzam com alguém
27:47 perguntar
27:49 como é que estás, mas perguntar verdadeiramente
27:51 é para como é que estás
27:53 está tudo bem, não sei o que está tudo bem
27:55 não quer saber
27:57 não, está tudo bem, como é que tens andado
27:59 isso faz diferença
28:01 e tenho também uma falda de 17 anos
28:03 que pergunta
28:05 como encontras inspiração para o teu humor
28:07 e algo do teu dia a dia
28:09 que acaba sempre por aparecer nos espetáculos
28:11 o que, o que?
28:13 ou seja, se...
28:15 como é que eu encontro a inspiração, sim
28:17 e se a tua vida, levas a tua vida para os espetáculos
28:19 levo
28:21 a realidade é a melhor ficção
28:23 exemplo
28:27 os espetáculos de 70, porque eu tenho feito agora
28:29 os últimos
28:31 são muito ligados
28:33 à minha história com a ansiedade
28:35 e com a perturbação possível compulsiva
28:37 onde eu partilho, pancadas a sério
28:39 onde eu partilho as minhas obsessões
28:41 que na altura, quando lidei com elas
28:43 foi uma grande da merda
28:45 mas...
28:47 você consegue rir de tipo próprio, depois dos outros rirem
28:49 não, não, não, consigo eu
28:51 construo a piada
28:53 mas não consigo construir obviamente
28:55 não estou a enfrentar a ansiedade
28:57 você pode se engraçar, não
28:59 tem que ter um distanciamento
29:01 tem que lidar primeiro com isso
29:03 resolver isso
29:05 mas depois perceber que se exageram
29:09 posso trazer para cima do palco
29:11 e sobretudo ajudar a alguém
29:13 a perceber
29:15 caraças, afinal não sou só eu que penso
29:17 nestas coisas
29:19 e então sim, por exemplo
29:21 o meu próximo espetáculo que há de ser lá para setembro
29:23 vai ser sobre o meu principal medo
29:25 no medo de morrer
29:27 portanto é um espetáculo do humor sobre a morte
29:29 tanto bem, é um...
29:31 chama-se... Volte já
29:33 Volte já?
29:35 porque isso eu vou desfigurar por que?
29:37 não podemos, acho que já te gostou
29:39 de mandar embora
29:41 porque isso é o que eu tenho aqui tatuado
29:43 é o que eu quero tatuar na minha campa
29:45 na minha campa, volte já
29:47 filma isto, por favor
29:49 mas olhem agora que queria pedir-vos
29:51 uma grande salva de palmas para António
29:53 obrigada
29:55 e ficamos com você
29:57 Volte já?
29:59 e deixá-lo
30:01 obrigada

António Raminhos

Descrição

Nesta conversa, António Raminhos mistura humor e vulnerabilidade para falar de ansiedade, ataques de pânico e perturbação obsessivo-compulsiva com uma honestidade desarmante. Mostra que, por trás da comédia, existe um trabalho duro de autoconhecimento, terapia e aprendizagem para lidar com pensamentos intrusivos e medo. A sua mensagem é muito clara: pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é um ato de coragem e um passo essencial para viver melhor.

Resumo

A conversa começa de forma leve, mas rapidamente mergulha em temas muito sérios. Raminhos fala da relação entre o palco e a ansiedade, mostrando o aparente paradoxo de alguém com uma perturbação marcada pela dúvida escolher uma profissão de exposição total. Para ele, a comédia é simultaneamente fascínio e desconforto: dá adrenalina, sentido e ligação aos outros, mas obriga também a enfrentar medos muito profundos.

Ao revisitar a sua história, explica que a ansiedade e a perturbação obsessivo-compulsiva não surgiram do nada, mas fazem parte de um percurso pessoal e familiar marcado por dor, luto e desorganização emocional. Sem dramatizar excessivamente, deixa claro que todos carregamos uma história e que o mais importante não é comparar sofrimentos, mas perceber o que fazemos com aquilo que nos aconteceu. O humor, neste contexto, surge como forma de tirar peso à realidade sem negar a sua seriedade.

Um dos momentos mais fortes da partilha é a explicação concreta do que é viver com pensamentos obsessivos e ataques de pânico. Raminhos descreve o “e se” como a pergunta que envenena tudo: e se eu estiver doente, e se isto estiver contaminado, e se eu for capaz de fazer mal? A diferença, explica, não está em ter pensamentos estranhos — porque toda a gente os tem — mas em ficar preso a eles, atribuindo-lhes significado, medo e poder. Essa explicação torna visível algo que muitas vezes quem está de fora não consegue compreender.

A terapia e a psiquiatria aparecem como pilares fundamentais no seu percurso. Ele sublinha que encontrar ajuda nem sempre é imediato, que nem todos os profissionais servem para toda a gente, mas que vale a pena insistir. Fala também com frontalidade da vergonha inicial associada à medicação e ao acompanhamento psiquiátrico, mostrando como esse estigma ainda pesa. Ainda assim, a sua experiência aponta noutra direção: cuidar da saúde mental é tão legítimo como tratar qualquer outra parte do corpo.

No final, fica uma mensagem profundamente humana. Ninguém é insignificante, todos temos impacto na vida dos outros, mesmo através de gestos simples. E ninguém deve ter vergonha de reconhecer que não está bem. Entre piadas e confissões, Raminhos deixa um apelo muito forte à empatia, à compaixão e à coragem de pedir ajuda — não só por nós, mas também pelos outros.

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