3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Então, vamos falar destes 100 milhões de pessoas, que tal como nós, procuram um lugar
0:28 para o qual se chamar casa. Mais de 100 milhões de pessoas são forçadas a sair das suas casas.
0:34 Foi aquilo que acabamos de ouvir. Por causa de conflitos, por causa da guerra, por causa da fome.
0:39 Existem hoje 134 conflitos ativos em todo o mundo. O ano passado, mais de 200 mil pessoas perderam a vida.
0:50 É por isso que estas pessoas partem, famílias destroçadas, pessoas sozinhas, em busca de um sonho.
0:58 A Guiné Conácria também um destes sítios no mundo onde se vive tensão e foi aí que nasceu o nosso querido boy,
1:06 que temos hoje aqui o prazer de ter conosco, que é uma pessoa extraordinária que vai partilhar a sua história.
1:11 Boy, fala-nos de ti, como é que foi nascer na Guiné?
1:16 Antes de mais, muito obrigado. Meu nome é Boy Diallo, eu sou da Guiné Conácria.
1:22 Não falo francamente, porque claro que quando falo, notas logo, o sistaque francês.
1:29 Fala lindamente. Uma salva que vamos para o boy.
1:36 Obrigado. Eu sou o boy, nasci como já disseram em 2001 na Guiné Conácria, sou mais velho de três irmãos.
1:45 Tive uma infância muito feliz e tive um curso colar, como todas as outras crianças, até aos 16 anos.
1:53 Sempre vivi com os meus pais e com os meus dois irmãos mais novos.
1:58 E não vou entrar muito durante essa fase da vida, porque se também dava uma outra história,
2:04 mas eu só vou contar aqui os momentos mais marcantes daquela fase da vida.
2:09 Lembro-me apenas que o meu pai nos levava sempre o pedo mar e onde supostamente tudo era calmo,
2:16 onde as crianças podem brincar, e ele explicava tudo aquilo que eu fazia na altura com ele.
2:23 Ele explicava tudo isso com muita tranquilidade e com muita inspiração.
2:29 Hoje em dia guardo tudo isso, esse momento da minha memória e aquele sentimento que ele fazia sentir em mim.
2:38 Durante esse tempo, os meus pais sempre acreditaram em mim e disseram que eram capazes de alcançar os meus objetivos de vida,
2:46 tendo em conta a situação do país onde nasci na Guiné Conácria.
2:51 Há muitas diversidades culturais, há muitas etnias, mas sempre eles acreditavam essa mudança.
2:58 Os meus pais sempre ensinaram a minha fé de acreditar, a fé da esperança,
3:03 e sobretudo a fé de lutar para concretizar os meus objetivos.
3:09 Na altura, a Guiné Conácria vivia-se com situações de política muito complicadas e havia diariamente manifestações.
3:18 Cada vez que abriam minhas anelas, havia essas cenas que estão a aparecer aqui nas imagens.
3:26 Essas imagens são as imagens que foram tiradas, que aconteceram mesmo em frente da minha rua.
3:32 Eu não sei se conseguem imaginar viver com essa angustia,
3:36 saber que tudo poderia acontecer em qualquer momento, em qualquer situação.
3:42 Nós não poderíamos sair de casa e não poderíamos também ir à escola,
3:47 porque se reparassem naquela imagem que está no meu lado esquerdo,
3:51 foi um dia em que nós caminhamos às escolas e começaram logo as manifestações todas.
3:57 As pessoas começaram a gritar, vão tudo para casa e começaram novamente as manifestações,
4:02 porque as polícias resolviam a situação a tirar-me sobre a população.
4:08 Boa, deixamos só de fazer uma pergunta. Estas fotos foram tiradas por ti?
4:12 Sim, essas fotos foram tiradas por mim e foram publicadas nas redes sociais e também no Facebook.
4:18 Se quiserem poder encontrar algumas fotos no Facebook ou nas redes sociais.
4:26 E foi nesse momento que tu sentiste que era preciso encontrar outros sitios.
4:30 Passa a tua família?
4:32 Naquela altura, vivia com os meus pais, mas em 2003 perdi uma das pessoas mais importantes na minha vida
4:39 e naquela altura senti-me completamente desesperado e o meu futuro estava em risco.
4:44 E não sei se conseguem imaginar perder uma pessoa que era aqui um pilar da minha vida
4:50 que me incentivava, que me dizia sempre ok, o caminho por aqui é o estudo.
4:55 Se quiser ser essa pessoa que possa fazer parte da mudança que tu quer ver nesse mundo.
5:00 E senti completamente desesperado, mas a minha mãe foi fundamental e acompanhou-me
5:06 e conseguiu acender essas luzes de esperança que já estavam quase apagadas em mim.
5:11 E na altura em 2015 começaram e seriamente as manifestações.
5:17 A minha mãe foi naquela altura que decidi de abandonar Guineconacri e fomos para Guinebissau
5:23 para que o seu fio pudessem continuar o seu estudo.
5:26 E mais na Guinebissau, a minha mãe não conseguia ter essa tranquilidade
5:31 e na altura lembro disso, ela sentou comigo e disse que teríamos de voltar novamente para Guineconacri.
5:39 E nessa noite não consegui parar de pensar nessas palavras da minha mãe e disse para mim mesmo
5:44 e tinha duas opções, continuar a viver com ela
5:48 ou levantar-me no tarde para alcançar o meu objetivo, ter uma vida melhor
5:53 e um dia ser presidente de Guineconacri para melhorar a situação do país onde nasci.
5:59 E foi esse sonho, foi esse propósito que fez então partir nessa noite?
6:12 Foi exatamente esse sonho que ajudou a refletir também porque queria ser essa pessoa,
6:20 queria fazer a parte da mudança.
6:22 E nessa noite tomou essa decisão muito difícil de abandonar tudo, cortar as minhas reis,
6:28 cortar essa lei que condenava a minha infância feliz que já fui
6:33 e tomou essa decisão de sair sem dizer nada a ninguém da minha mãe e dos meus irmãos
6:39 e fui para o Senegal, onde premenasse três meses, mas em Senegal não encontrei
6:45 aquele sentido e propósito da vida que eu procurava, fui para a Mauritânia
6:50 e a Mauritânia tive a oportunidade de estudar mais é na Escola Corrânica, sou musulmano
6:56 e houve uma altura e percebi que esse ensinamento não ajudaram para alcançar os meus objetivos
7:03 e embarquei-me numa outra viagem muito difícil, mais de 20 pessoas numa camioneta de caça aberta
7:10 e atravessar o deserto do Sahara para chegar em Marrocos.
7:14 Boa, deixamos só fazer-te uma pergunta porque eu tenho certeza que a maioria das pessoas
7:17 que aqui estão nunca tiveram que atravessar o deserto, que atravessar tantos países para chegar
7:22 a um lugar onde pudessem viver em segurança.
7:25 Explica-nos o que é que podemos ver nestas imagens que estão agora a ser projetadas.
7:29 As imagens são pessoas que já passaram pelo processo, que foram obrigadas mesmo a sair do seu país
7:36 que estavam a tentar fazer essa travessia e, durante essa viagem, cada um de nós tinha o direito
7:42 de levar cinco litros d'água por uma viagem que poderia virar um mês, uma semana, três dias,
7:49 depende da sorte que as pessoas tiveram e também sabíamos que se alguém ficasse por fora
7:55 e seria entregasse mesmo e o motorista não pararia.
7:59 A posição em que era moncentada era horrível e foi uma viagem mesmo muito difícil
8:06 dirantar viagem às pessoas que já tinham tentado fazer aquela travessia
8:10 e não conseguiram, explicavam cada quilômetro, explicavam as histórias e diziam que ok,
8:16 aquela quilômetro que nós avançávamos e viemos osso das pessoas que já tinham tentado fazer aquela travessia
8:22 e não conseguiram. Não sei, hoje, quando lembram tudo isso, fez-me sentir extremamente pequeno
8:28 e não sei se consegui imaginar, viver com a morte na sua frente, eu ali
8:35 e não tinha certeza se ia conseguir também atravessar o deserto até chegar a Marroques.
8:42 Mas, felizmente, chegamos tudo em Marroques, saímos em Salvo.
8:46 Eu acabei ok, já acabou, porque o Marroques é um dos países mais desenvolvidos do meu país.
8:52 Eu pensei assim ali que ia voltar a estudar e para concretizar
8:58 é só o objetivo que eu tenho, mas é Marroques.
9:01 Sufri bastante de discriminação do racismo e passei por vários momentos de dificuldades
9:08 e nunca mais me esqueci do meu objetivo, que era voltar à escola e estudar
9:15 e um dia fazer parte da mudança que eu quero ver no mundo.
9:19 Durante esse tempo que eu vivi em Marroques, um dia decidi ok e tenho que seguir outro rumo
9:26 que era a única alternativa que tinha nesta altura é arriscar novamente a minha vida
9:31 e atravessar o mar para chegar à Europa.
9:35 Fiz essa tentativa com mais de 48 pessoas, é um bebê.
9:39 Durante essa viagem morreu uma jovem que tinha por volta de 15 anos
9:44 por ter caído dentro d'água e não sabia nadar.
9:47 Na verdade arrisquei porque não sabia nadar e foi muito difícil.
9:54 Foi uma viagem muito longa e muito dolorosa.
9:57 E mais felizmente cruzamos com o barco da equipa de salvamento
10:02 que salvavam as pessoas dentro do mar na altura.
10:06 E seguei à Espanha e depois...
10:10 Vou-te só pedir uma coisa.
10:12 Tu falaste aqui da travessia do deserto, desta dificuldade, desta aridez, desta dor
10:17 e falaste da travessia do mar onde acabaste por ver assistir à morte de uma jovem de 15 anos.
10:22 Eu acho que nenhum de nós imagina aquilo que tu traz sentido e experimentado
10:26 mas também a força e, se calhar, o desejo de poder ser hoje
10:31 também testemunha-te que é possível
10:34 e, se calhar, também lembrar todos aqueles que ficaram para trás.
10:38 Por isso eu acho que até nos permitam que possa convidar
10:41 que façamos aqui um minuto ou um poucos segundos de silêncio
10:45 porque são tantas as pessoas que fazem estas jornadas na busca, na procura de um sonho
10:50 mas também tantas que acabam por perder a vida neste percurso.
10:53 Então, eu acho que merece a pena fazermos aqui uns segundos silêncio
10:57 para termos consciência disso, mas também para honrarmos todas estas pessoas.
11:09 Quando tu tiraste esta fotografia, quando aliás, esta fotografia foi retirada
11:13 podemos ver pelas expressões que não vemos ali ainda a esperança, não vemos ali nenhum alento
11:18 apesar de ter sido tirada pela equipa de resgate
11:21 mas vocês não sabiam que isso era assim, podia ser a polícia.
11:25 E se isso acontecesse, o que seria o desfaz?
11:29 Na altura, quando cruzamos com a equipa de salvamento
11:33 nós ficamos, se reparassem, o barco ficou mesmo parado
11:38 ficamos tudo parado porque não poderíamos andar
11:41 e tínhamos tudo medo porque não tínhamos a certeza
11:44 se era um barco da equipa de salvamento
11:47 ou o barco da equipa de polícia maritina marroquina
11:51 ou é a polícia, porque se for com a polícia
11:55 nós poderíamos voltar para trás e nós tudo tínhamos medo
11:59 de isso não acontecer, mas à medida que vão aproximando da nós
12:03 e percebemos que era equipa de salvamento
12:06 depois ficamos ali parado e desligamos o motor do barco
12:10 e fomos tudo tirado dentro do mar.
12:15 E então chegaram a Espanha?
12:18 Mas esse não foi o teu destino final?
12:21 Por que? Qual era o destino?
12:24 Normalmente quando eu cheguei a Espanha
12:27 tinha direito de ficar a Espanha ou escolher um país
12:30 que eu poderia viver dentro da Europa
12:33 foi na altura em que eu comecei a pensar
12:36 depois de passar tantas dificuldades, tantas discriminações
12:39 sobretudo queria em primeiro lugar viver em paz
12:42 então onde que as pessoas olhassem para mim
12:45 como pessoa, como ser humano, como único e especial
12:48 e foi na altura que comecei a questionar-me
12:51 fiz pesquisa na internet e ver quais são os países
12:54 que acueavam mais imigrantes na altura
12:57 apareceu em Portugal e era mais fácil para mim
13:01 ir para a França por causa da língua, porque já tenho
13:04 francês e a minha língua materna e mas eu disse que
13:08 não queria ir para a França e queria ir para Portugal
13:10 então eu disse isso no centro de cruz vermelha
13:13 onde estava e a Madrid disse que é mais fácil
13:17 para ti ir para, se não vai ficar para a Espanha
13:20 vai para a França e assim é mais fácil para ti
13:22 eu disse que queria ir para Portugal
13:24 disse que talvez estou traumatizado por causa
13:27 desses acontecimentos todos, se cair é melhor
13:30 eu ficar durante 10 dias a pensar
13:33 depois decidir o que vou fazer com a minha vida
13:37 Passar 10 dias voltaram a perguntar a mesma pergunta
13:40 eu disse que vou para Portugal
13:42 perguntaram-me, tenho famílias?
13:44 não, falas português?
13:46 não, então por que vai para Portugal?
13:48 não sei, mas vou para Portugal
13:50 dentro do grupo foi a única pessoa que escolhi
13:54 vir para Portugal e disseram ok
13:56 eu tinha o direito de ficar dentro daquela casa
13:58 10 dias, passar 10 dias
14:00 ó, pedir proteção internacional
14:03 ó, ir para outro país
14:05 disseram ok, não pode ficar mais aqui
14:07 ó, vai para a França com um grupo maior
14:09 com um grupo grande
14:11 porque a maior parte do grupo ia para a França
14:13 eu disse que vou sozinho
14:15 não queriam também que eu venha sozinho para Portugal
14:18 e decidiram finalmente
14:20 de comprar um bilhete
14:21 comprar um bilhete para vir para Portugal
14:23 eu vim para Portugal
14:25 e foi no dia 28 de agosto de 2018
14:28 que eu cheguei em Portugal
14:30 às 5 de manhã na estação do oriente
14:32 disse, e agora?
14:34 onde tu vais?
14:35 e não conhecia ninguém?
14:36 perguntei ao motorista
14:37 exáscamos em Lisboa
14:39 ele disse que sim, aqui em Lisboa, Oriente
14:42 tinha chegado ao teu destino
14:44 e então?
14:45 e então
14:47 não conhecendo ninguém
14:49 não tendo família
14:50 tive que ir para o SEF, a polícia
14:52 porque pronto
14:54 eu sempre sei que é a primeira coisa
14:56 que anda a chegar num país
14:57 em que não tem alguma coisa que tem que ir
14:59 a polícia
15:00 foi ao SEF, nos anos
15:02 em Lisboa
15:04 e fiz o meu pedido de proteção
15:06 internacional
15:08 no mesmo dia que fiz o meu pedido
15:10 foi levado num centro
15:12 para jovens refugiados
15:15 que vêm de países diferentes
15:17 e fiquei ali
15:19 durante algum tempo
15:21 e comecei a estudar
15:23 e depois comecei a fazer voluntariado
15:25 porque no meu primeiro dia
15:27 numa sala da aula
15:28 foi mesmo muito difícil para mim
15:30 não sabia falar em português
15:32 e a professora perguntou-me
15:34 para eu fazer a minha apresentação
15:36 claro que não poderia fazer isso em português
15:38 começar a falar em francês
15:40 ninguém da turma falava francês
15:42 e depois havia uma menina
15:44 e que falava um pouco francês
15:46 ajudou-me a fazer aqui a ponto
15:48 e depois percebi
15:50 havia muitas pessoas que vêm do contexto
15:52 do conflito, de realidade
15:54 completamente diferente de tensão
15:56 que querem concretizar esse objetivo
15:58 mas por causa da língua
16:00 tenho aqui uma barreira
16:02 e para nós é começar literalmente de zero
16:04 e construir uma nova vida
16:06 e foi na altura em que decidi
16:08 também fazer parte do voluntariado
16:10 e entrar em contato com essas pessoas
16:12 para perceber realmente o que essas pessoas
16:14 necessitam
16:16 e integrei um vários projetos
16:18 que compartam também que fazem um trabalho excelente
16:20 para ajudar a integração dessas pessoas
16:22 e também
16:24 na área de integração, mas também na área de educação
16:26 e participei em vários cadernos
16:28 e fazer também a atividade
16:30 com os professores na escola
16:32 e perceber realmente o que esse tipo
16:34 de alunos precisam
16:36 e depois foi na altura que também
16:38 integrei a academia de líderes ogunto
16:40 fiz uma formação
16:42 da liderança servidora
16:44 e é um projeto em que
16:46 permanece até hoje
16:48 e como formador no projeto
16:50 mas a academia de líderes ogunto
16:52 é muito importante ter um olhar
16:54 completamente diferente
16:56 para a vida e as domes também
16:58 não só olhar para a minha história
17:00 e reconstruir a minha história
17:02 e dar outro sentido e significado
17:04 tudo aquilo que me aconteceu
17:06 porque no fundo
17:08 eu refusiava muito sozinho
17:10 e não gostava de entrar a ir com as pessoas
17:12 mas a fazer essa formação
17:14 e perceber ok
17:16 isso não é isso que me define
17:18 não é aquilo que me acontece
17:20 agora o que eu vou fazer com isso
17:22 e agora a partir daqui
17:24 dar outro sentido a tudo aquilo que me aconteceu
17:26 e conseguir
17:28 concretizar
17:30 encontrar o caminho certo
17:32 e o meu sentido e o propósito de vida
17:34 que é terminar
17:36 o meu curso
17:38 na área de
17:40 ciência política e relação internacional
17:42 na nova
17:44 se Deus quiser
17:46 e também
17:50 e com isto
17:56 mas o
17:58 essa história
18:00 não só a minha história
18:02 é hoje em dia a história de todos os portugueses
18:04 todos os portugueses que cruzaram com a minha vida
18:06 porque eu acredito
18:08 essa transformação
18:10 o poder da transformação das pessoas
18:12 e também o prigo de uma história única
18:14 que essas pessoas tudo que cruzaram
18:16 a minha vida que me ajudaram
18:18 para a minha história como algo que não é um desespero e, basicamente, cair, se não
18:24 tinha passado por tudo isso, não conseguiria significar esta história e a ser a pessoa
18:30 como que estou a me tornar, estúdio é graças aos portugueses e, obviamente, e a academia
18:36 de líderes do mundo, que teve um papel também fundamental, a escrever esta nova história
18:43 e falar sobre mim e também ajudar naquilo que eu, de certa forma, não sei se é que
18:51 é um longo caminho que eu tenho para procurar até chegar à presidência da Guiné-Conacre,
18:56 mas hoje em dia em Portugal, de certa forma, estou a conseguir, de certa forma, alcançar
19:12 esse objetivo através do meu trabalho e também acender essas luzes de esperança
19:17 nas jovens, hoje em dia não são nas escolas, mas também ajudar a cada um desses jovens
19:23 e encontrar um sentido e um propósito de vida.
19:28 Muito obrigada.
19:29 Boa.
19:30 Já aqui falamos da pessoa extraordinária que o teu pai foi, da forma como te marcou
19:44 e te marca, e há uma história muito bonita que tu contaste, que é que vamos chamar-lhe
19:49 a metáfora das árvores, queres partilhá-la conosco?
19:53 É claro que quer partilhar esta história, porque acho que isso, atrás do boy, esta
20:02 história, esta metáfora foi uma experiência que eu, quando eu tinha por volta de 9 a 10
20:08 anos, tinha acabado de chegar às escolas e descobri que o meu pai estava a plantar
20:13 duas árvores e ele virou para mim e disse, boy, vamos fazer uma experiência, vamos plantar
20:20 uma dessa árvore dentro da casa e outra fora da casa.
20:24 E ele perguntou-me, na minha opinião, qual é a árvore que crescerá mais rápido?
20:29 Depois de um momento de reflexão, eu disse ao meu pai, acho que aquela árvore que
20:35 vai ser plantada dentro da casa, porque a vida dela será mais fácil e mais protegida,
20:41 e o meu pai respondeu, isso é o que veremos.
20:46 Só mais lembrei-me da existência destas árvores, mas dirá em todo esse tempo o meu
20:50 pai continuou a cuidar destas duas árvores.
20:55 Um dia lembrei-me da experiência e pedi ao meu pai para mostrar o resultado e ele mostrou
21:00 meu resultado e perguntou-me, então, o que é que tu assas, qual é a maior?
21:06 Eu respondi, obviamente, aquela árvore que estava fora da casa, mas não percebeu por
21:13 o que.
21:14 E ela enfrentou muito mais da provação do que aquela que estava dentro da casa.
21:18 E ele disse-me, eu disse, vê como os seus ramos erguem majestosamente para o seu.
21:24 O meu pai disse-me, exatamente, é a mesma coisa contigo.
21:28 Se tu optar por não fazer nada, começará a amurçar.
21:32 O caminho da facilidade só te leverá a mediocridade.
21:36 Então, toda vez que tu desesperar numa situação difícil, não te esqueça do que tu sairá
21:42 mais forte.
21:43 E, melhor, acho que aquilo que eu acredito, cada um de nós que aqui está, é capaz de
21:52 acender luz dentro de uma sala escura e também ser uma agente da mudança.
21:58 Acho que essa metáfora dessas duas árvores acompanhou-me durante todo esse percurso,
22:03 porque a minha viagem da Guiné-Connésia para tirar o cigarro a Portugal foram dois anos,
22:09 seis meses, até o cigarro a Portugal.
22:12 E mais cada vez que me lembrava dessa história, dessa experiência com o meu pai, eu ouço
22:18 tu a ser aquela árvore que foi plantada fora de casa, mas amanhã vou também erguer
22:25 como aquela árvore que enfrentou essas, tudo essas dificuldades ergou e vou tornar-me
22:32 essa pessoa também que eu sempre quis ser.
22:43 Obrigado.
22:46 Esses aplausos são muito, muito, muito merecidos.
22:49 Então vamos abrir aqui para algumas perguntas.
22:52 Queremos saber qual é o segredo para não desistir e não perder a esperança.
22:58 É uma pergunta aqui do público.
23:00 Boa pergunta.
23:03 O segredo é mesmo acreditar em nós, mesmo quando tudo parece impossível, como Nelson Mandela
23:11 dizia, tudo parece impossível até que seja feito.
23:14 É uma frase que tem muitas aprendizadas e que inspira bastante, mas aqui sobretudo
23:21 ter a confiança em nós é fundamental para não desistir.
23:25 Claro que sim, dirão todas essas viagens, todo esse percurso, muitas vezes quis desistir
23:33 e assar que não era capaz, nem conseguir ultrapassar todo esse desafio.
23:40 Claro que tudo nós passamos por um momento de dificuldade, mas sim, aqui a autoconhecimento,
23:46 a autoconfiança é fundamental para nós enfrentarmos tudo esse tipo dos obstáculos.
23:54 Acho que é a melhor forma, não sei se responde e bem à pergunta.
23:57 Acho que os aplausos respondem.
24:02 E o Pedro e a Michelle também partilharam com nós com mais uma questão.
24:09 O que é que dirias às crianças da Guiné-Connáquia?
24:13 Que vivem e viveram situações semelhantes à tua?
24:17 É a esperança.
24:20 Como já vos falei a pouco, os meus pais sempre ensinaram-me a fé de acreditar, a fé da
24:27 esperança.
24:28 Claro que hoje em dia estão a passar por essas situações e são os jovens que têm
24:34 um potencial, que querem também ter todas essas oportunidades de crescerem e sobretudo
24:42 serem grandes no sentido de servir, de servir o próximo, servir o outro.
24:48 Mas nesse momento a situação é esta, mas é não desesperar, não perder a esperança
24:56 que um dia seja possível, que há uma mudança, que também somos os jovens, sobretudo somos
25:04 a esperança e o futuro dessa humanidade, mas tenho certeza que um dia vão também
25:11 sentar numa mesa e partilhar aquilo que eles entenderam e ter uma voz dentro dessa situação
25:18 que não tem mesmo a voz de falar o poder da palavra, de dizer aquilo que senta, aquilo
25:24 que querem para o seu futuro.
25:26 E é isso, é ter a esperança e também trabalhar para que sucesa possível.
25:31 Sim, estou aqui hoje em dia e posso também ser um exemplo para esses jovens e mostrar
25:36 que também nada é perdido e poder mostrar bem e conseguir a vitória.
25:42 Obrigado.
25:43 Bom, temos aqui mais de mil pessoas nesta sala, estamos aqui para te ouvir, estão
25:56 aqui para aprender contigo, estão aqui porque tudo de facto é uma grande inspiração.
26:00 Eu pergunto-te, qual é o desafio que tu lhes lanças, qual é o desafio que tu nos lanças,
26:05 que papel é que nós temos hoje?
26:07 As mãos nas massas e começar a trabalhar e fazer a parte da mudança, é isso, nós
26:14 jovens somos capazes mesmo, acreditar sobretudo em nós que muitas vezes é difícil, temos
26:20 essas dificuldades de acreditar em nós e somos incapazes e cada um de nós tem uma
26:28 história, cada um de nós é capaz de fazer isso, de acender essas luzes de esperança
26:33 dentro de uma sala escura, essa sala é grande, mas se nós tivéssemos aqui, não seria tão
26:39 acoidora assim, por isso somos o futuro e somos a diferença, somos esperança, por
26:46 isso é esta mensagem, é mesmo esta mensagem.
26:49 Uma outra palavra que eu posso dizer sem esperança, porque sem esperança é impossível mesmo
26:54 nós também vivermos.
26:56 Obrigada pela tua voz, obrigada pela tua história, obrigada pela tua coragem, mas
27:10 muito obrigada ainda mais pelo propósito e por esta tua forma contagiante, também
27:14 nos chamares a ir mais longe.
27:15 Uma salva de balmas enorme para o boy.
27:18 Muito obrigado, muito obrigado, queria só aqui, queria só agradecer aqui, reparei,
27:28 de repente reparei que dentro da sala está aqui uma pessoa muito especial, vocês são
27:33 tudo especial, único e especial, mas mesmo Mônica, muito obrigado, porque o Mônica
27:40 que está aqui faz parte de construir a pessoa que estou a me tornar hoje e também claro
27:46 obviamente a minha mulher que está ali sentada e obrigada.

Bhoye Diallo e Filipa Batista

Descrição

Este testemunho cruza a história pessoal de Boy Diallo com a realidade dramática de milhões de refugiados no mundo, mostrando o custo humano dos conflitos e da procura por segurança. Da Guiné-Conacri até Portugal, a sua viagem é marcada por perda, medo, racismo, travessias extremas e, acima de tudo, uma esperança inabalável. A mensagem que deixa é profundamente inspiradora: mesmo nas maiores dificuldades, é possível transformar dor em propósito e tornar-se agente de mudança.

Resumo

A intervenção começa por enquadrar a dimensão global do problema dos refugiados, mas rapidamente ganha rosto e voz através da história de Boy Diallo. Nascido na Guiné-Conacri, cresceu num contexto de tensão política, manifestações violentas e insegurança constante. Apesar disso, recorda uma infância feliz, muito marcada pelo amor e pelos ensinamentos dos pais, especialmente a fé, a esperança e a importância de estudar para um dia poder transformar o seu país.

A morte do pai e o agravamento da instabilidade na Guiné foram momentos decisivos. Boy viu-se obrigado a abandonar a sua terra e iniciou uma jornada extremamente dura por vários países africanos. Atravessou o deserto do Saara em condições desumanas, enfrentou racismo e discriminação em Marrocos e, mais tarde, arriscou a vida no mar para chegar à Europa. Pelo caminho, assistiu à morte de uma jovem de 15 anos — uma memória dolorosa que simboliza o preço trágico de tantas migrações forçadas.

Ao chegar a Espanha, Boy tomou uma decisão surpreendente: escolheu Portugal, mesmo sem falar a língua, sem conhecer ninguém e sem ter qualquer ligação ao país. Chegou sozinho a Lisboa em agosto de 2018 e começou literalmente do zero. Pediu proteção internacional, entrou no sistema de acolhimento, retomou os estudos e envolveu-se em projetos de voluntariado e integração, ajudando outros jovens migrantes e refugiados a superar barreiras semelhantes às que ele próprio enfrentou.

Um dos momentos mais simbólicos da sua fala é a metáfora das duas árvores, ensinada pelo pai. A árvore plantada fora de casa, exposta às dificuldades, cresceu mais forte do que a protegida. Essa imagem tornou-se o fio condutor da sua vida: perceber que o sofrimento não precisa destruir, pode também fortalecer. É essa visão que o ajuda a continuar o seu percurso, hoje ligado à liderança, à educação e ao sonho de estudar Ciência Política e Relações Internacionais.

No final, Boy transforma a sua história num apelo coletivo. Convida os jovens a acreditarem em si, a não desistirem e a serem luz em ambientes escuros. A esperança, para ele, não é uma ideia vaga: é uma força concreta que sustenta, move e transforma. O seu testemunho mostra que, quando alguém encontra sentido no meio da dor, essa pessoa não muda só a própria vida — pode inspirar e mudar a dos outros também.

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