3 Milhões de Nós
0:00 Obrigada. Obrigada. Muito obrigada. Muito obrigada. Estou um pouco nervosa e você tem
0:11 que ter muita paciência com o meu português porque faz muito tempo que não falo o seu
0:17 lindo idioma. Então, por favor, desculpem. Eu gostei muito do que o Pedro estava falando,
0:25 mas eu tenho uma pergunta para vocês, porque para a gente tirar tempo para nós mesmos,
0:32 nós precisamos estar sozinhos, não é? E quem gosta de estar só? Aqui, levante a mão
0:38 quem gosta de estar só. Muito bem. E quem tem muito medo de estar só ou sente que não
0:47 é capaz também, levante a mão. Muito bem, obrigada pela honestidade. Eu vou dar a vocês
0:54 que tem medo uma boa notícia. Estar só não é algo que fazemos. Estar só é o que somos.
1:05 De fato, nós nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Porém, se olharmos um pouquinho
1:16 mais por perto essas duas realidades, o início da vida e o fim da vida, nós daremos conta
1:23 que quando a gente nasceu, não estava sozinho. Perguntem para suas mães que estavam aí
1:28 empurrando para você nascer. E quando a gente vai morrer, provavelmente vai sair dessa vida
1:37 cheio de conexões. Isso fala do paradoxo da natureza humana. Por um lado somos indivíduos
1:46 sós, separados. Por outro lado, somos seres de relação. Eu gosto muito da etimologia
1:56 da palavra, das palavras em geral. E uma das teorias da etimologia da palavra solidão
2:03 é o latim solus, que significa inteiro. O que significa isso? Que a solidão é o lugar
2:11 onde nos fazemos mais inteiros, mais nós mesmos. Porém, a solidão também é uma
2:18 experiência. E essa experiência às vezes pode ser incômoda. Eu mesma fiz essa experiência
2:25 da solidão e não me sentia muito cômoda. Eu sempre me senti estrangeira, separada,
2:33 alheia. Não sei se vocês se sentem assim alguma vez. Depois eu fui materialmente estrangeira
2:40 por 20 anos da minha vida. E depois voltei no meu país para descobrir o quê? Que me
2:48 senti estrangeira no meu próprio país. Um pouco brasileiro, um pouco mexicano, um pouco
2:54 inglês, um pouco italiano, um pouco eu mesma e não sabia o quê. Com o tempo eu descobri
3:00 que somos todos estrangeiros. Porque todos estamos separados, estamos a uma distância
3:08 positiva um dos outros que nos faz únicos. Porque não estamos colados à realidade.
3:16 Isso faz com que podemos relacionarmos à realidade. Agora, a solidão, uma solidão saudável,
3:28 não é isolamento. O isolamento é aquele estado em que sentimos que, como a palavra
3:35 mesma fala, somos uma ilha. Estamos desconectados dos outros. É como que eu não consigo aprender
3:45 o idioma do outro, não consigo falar o idioma do outro e o outro não consegue falar o meu
3:51 idioma. E nessa solidão não saudável, eu me sinto fragmentada. Isso leva consigo ansiedade,
4:02 depressão, angústia, medo. Bom, se eu me sentir assim por muito tempo, isso não me
4:10 deixa funcionar bem? Definitivamente eu preciso pedir ajuda. Agora, a solidão, aquela boa,
4:22 desculpem, isso tinha que sair depois. A solidão, aquela boa, também não é fácil, como o
4:28 Pedro nos falava, né? Tirar tempo para si não é fácil. Por quê? Porque quando estamos
4:33 sozinhos, encontramos a que muitas vezes não gostamos de encontrar, que é nós mesmos.
4:43 Vocês viram alguma vez Guerra das Estrelas? Sim, né? É famoso, é da minha época, mas
4:48 também vocês conhecem, mais jovens, né? Num dos capítulos de Guerra das Estrelas,
4:56 o Império Contra-Ataca, o Luke Skywalker está lutando com o mal, né? Luta, luta,
5:03 luta, entra numa gruta, corta a cabeça do mal para descobrir o quê? Que a cara do mal
5:10 é a própria mesma cara. Quem sabe é por isso que temos medo do silêncio, da solidão.
5:19 Nós temos medo de encarar aqueles aspectos da nossa vida que não gostamos, aqueles
5:27 lados escuros da nossa história, o que gostaríamos melhor de não ver. Tem outra pequena história
5:38 que quero contar para vocês hoje, que fala dos mecanismos que colocamos em prática quando
5:46 não queremos entrar e abraçar aquelas partes da nossa história que não gostamos. Essa
5:54 história conta de um mestre espiritual muito famoso que tinha muitos discípulos e um dia
6:00 esses discípulos chegaram lá em casa com ele e viram esse mestre que estava dobrado,
6:08 procurando alguma coisa no chão, na relva, no jardim da casa. Então os discípulos se
6:15 aproximam e falam, mestre, a gente pode ajudar? O que aconteceu? E o mestre disse, sim, sim,
6:22 por favor, eu perdi a chave da minha casa. Ah, claro, a gente vai ajudar. Então todo
6:27 mundo se colocou aí ajudando, né? E passa uma hora, e passam duas, e passam três, passa
6:34 a manhã inteira, chega a tarde e nada de chaves. Então o discípulo, aquele de antes, o mais
6:39 espertinho, fala, mestre, mas o senhor se lembra onde o senhor esqueceu as suas chaves?
6:46 Onde que deixou a última vez? Claro, claro, sim, me lembro. Lá na minha casa. E o discípulo
6:54 assustado, então porque que a gente está procurando aqui? É, mas porque aqui tem mais
6:59 luz, meu filho. Esse mestre parece um pouco trulo, né? Um pouco louquinho. Mas de uma
7:08 forma prática, me diz o que eu faço todos os dias quando quero procurar o sentido da
7:15 minha vida, o rumo, e fico por fora, onde tem mais movimento, tem aparentemente mais
7:23 energias, mais respostas. Em vez de ir pra dentro, desculpem, ir pra dentro daquela casa
7:34 onde aparentemente é mais escuro, tem mais silêncio, aparentemente, quem sabe, é mais
7:44 desorganizado, tem coisas que eu não gosto. Infelizmente, ou felizmente, esse único jeito
7:54 de abraçar a nossa história, de encontrar as chaves da nossa vida, de abrir a porta
8:02 e deixar que o outro entre, olha que interessante. Da qualidade da nossa solidão, depende a
8:11 qualidade das nossas relações. Já pensaram nisso? Da qualidade da nossa solidão, depende
8:23 a qualidade das nossas relações. Na tradição cristã, o motor de uma solidão saudável
8:33 chama-se Espírito Santo, que em grego, no Novo Testamento, é chamado Paráclito, que
8:38 significa advogado-defensor. Ou seja, nós acreditamos que dentro de nós tem uma força
8:48 de beleza, de integração, capaz de defender-nos contra as forças de desintegração de fora
8:58 e de dentro. Num momento muito escuro da minha vida, eu tive um sonho revelador. Eu sonhei
9:08 que estava numa gruta, como aquela do Luke Skywalker, e era muito escuro também, tinha
9:13 só um pouquinho de luz que filtrava das rocas em cima de mim. E eu caminhava, caminhava,
9:22 e de repente eu sinto que alguma coisa muda debaixo dos meus pés. E vejo que as rocas
9:29 debaixo de mim não são mais rocas, são ouro, e desse ouro misturado com roca sai um jorro
9:35 de água. E a água se torna um pequeno corrego. Se a gente tiver a coragem de entrar na nossa
9:45 solidão, de abraçar a nossa história, a gente vai descobrir uma beleza que ainda
9:52 não conhecemos. Então, por isso, eu queria agora fazer um pequeno exercício de solidão
9:59 partilhada com vocês. Se vocês querem, fechem os olhos e acompanhem o que eu estou dizendo.
10:12 Sintam o contato da cadeira, do assento com seu corpo, o contato do chão com seus pés.
10:22 Sintem, sintam a profundidade da sua respiração.
10:29 E agora, abram os seus olhos e olhem para as suas mãos.
10:46 As mãos que tocaram muitos, que desenharam muitas coisas, que construíram já muitos
10:58 mundos, são as suas mãos. Olhe para a sua mão direita e nela reconheça os seus dons.
11:12 Quantos dons? Os seus talentos, as suas capacidades. Às vezes é um pouco difícil reconhecer,
11:27 mas faça a tentativa, tente. E agora, olhe à sua esquerda e veja os seus limites, a
11:37 sua fragilidade, as suas feridas. Isso também é você e a sua beleza. Isso também é um
11:48 dom. E se quiser, deixe que as suas mãos se toquem e beije as suas mãos. Simbolizando
12:04 o dom que você é para os outros, para o mundo, para você mesma.
12:09 Bom, solidão é voltar para casa, é voltar para a sua casa. E quando como sociedade esquecemos
12:27 isso, o que que nos acontece? Que para parar a fome de vida, nos tornamos consumidores
12:35 de tudo e de todos. Carlos Maria Antunes, que é um monge de Santarém, escreveu um
12:44 livro muito bonito, que titula alguma coisa sobre a solidão, agora não me lembro. É
12:51 encontrar a própria solidão, eu acho. E ele diz que o monge, quando vai para a solidão,
13:00 não vai procurar fugir da complexidade da cidade, mas procura uma nova cidadania, um
13:10 novo modo de ser cidadão. Uma liberdade diferente, um lugar onde cada um tem espaço para ser
13:19 escutado e para ser ele mesmo. Por isso mesmo, muito rapidamente, eu queria partilhar com
13:25 vocês alguns pontos que podem ajudar naquele exercício da solidão, de que nos falava
13:32 o Pedro faz pouco. Escolher o espaço e o tempo. Escolher o espaço e o tempo para você
13:41 treinar na sua solidão, para que essa solidão seja um novo modo de ser cidadão. Entrar
13:50 em contato com o meu corpo, porque o nosso corpo e o que somos, e muitas vezes não somos
13:56 conscientes de onde estamos. Me ajuda muito colocar a mão no peito, a barriga, sentir
14:04 a vida que vibra por dentro, voltar a respiração. Terceiro ponto, entrar no meu santuário interior.
14:14 Claramente eu acredito em Deus e acredito que nesse santuário está alguém, não sou
14:19 eu. Mas de toda forma, reconhecer que esse lugar interior é sagrado. E aí tem sentido
14:30 o exercício da gratidão. Reconhecer o que se mexe nesse santuário. Ser guardião da
14:39 solidão do outro. Que significa contemplar o outro no seu ser separado de mim, na sua
14:47 diferença. Porque quando contemplamos o outro e respeitamos a sua diferença, a sua solidão,
14:56 é que podemos entrar numa relação saudável com o outro e ser um em favor do outro. A
15:07 solidão é uma das liberdades mais grandes que a gente tenha. E essa liberdade é revolucionária,
15:15 é contracultural, é verdadeiramente ecológica, porque tem a ver com a lógica de uma casa
15:22 comum, onde cada um tem o espaço e o tempo para estar feliz com ele mesmo. Solidão é
15:32 espaço para mim, também é espaço para ti. E assim, juntos e cada um, podemos caminhar
15:41 e cuidar dessa beleza toda que nos foi entregue. Muito obrigada.

Capacidade de estar só - Valentina Stilo

Descrição

A palestra "Capacidade de estar só" de Valentina Stilo explora a poderosa relação entre a solidão e a nossa verdadeira essência. Valentina convida-nos a enfrentar os medos da solidão e a descobrir a beleza que se esconde na introspecção, mostrando que estar só é, na verdade, um caminho para a integridade pessoal e relações mais saudáveis.

Resumo

Valentina Stilo começa a sua palestra a questionar o público sobre a experiência de estar só, revelando que muitos sentem medo dessa solidão. Ela defende que a solidão não é apenas um estado físico, mas sim uma condição humana que todos devemos abraçar. A oradora menciona o paradoxo da natureza humana, onde somos simultaneamente indivíduos sós e, ao mesmo tempo, seres de relação, e apresenta a etimologia da palavra solidão, que revela a ideia de estar inteiro. Através da sua jornada pessoal, Valentina partilha como se sentiu estrangeira em várias fases da sua vida e como isso nos ensina que somos todos, de alguma forma, estrangeiros.

A diferença entre uma solidão saudável e o isolamento é um dos pontos centrais da palestra. Enquanto a solidão saudável é vista como um espaço para autoexploração, o isolamento leva a sentimentos como ansiedade e depressão. Valentina utiliza referências culturais, como a saga "Guerra das Estrelas", para ilustrar o desafio de confrontar os próprios medos e sombras. Ela enfatiza que a qualidade da nossa solidão condiciona a qualidade das nossas relações, e que devemos ter coragem para entrar na nossa própria história, explorando a nossa individualidade e vulnerabilidade.

Ao longo da sua exposição, Valentina partilha um exercício prático de solidão partilhada, convidando os participantes a entrar em contacto com as suas emoções e a reconhecer tanto os seus dons como os seus limites. No final, ela sublinha a importância de criar um espaço interior sagrado, onde cada um possa sentir-se livre e acolhido. A mensagem final ecoa a ideia de que a verdadeira solidão é uma liberdade revolucionária, que nos permite não só cuidar de nós mesmos, mas também do outro, promovendo um sentido de comunidade e pertencimento.

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