3 Milhões de Nós
0:00 Olá, o meu nome é Miguel Duarte, tenho 29 anos e venho de Zambuja.
0:05 Queria começar por pedir-vos desculpa por não poder estar presente, mas quando estiverem a ver este vídeo
0:12 provavelmente vou estar a imar alto numa missão de resgate.
0:16 Há uns tempos fiz-vos uma pergunta, que era se vocês se cruzassem a certa altura com uma pessoa que se estivesse a fugar,
0:26 o que é que fariam? Parece mais ou menos óbvio, não é?
0:30 Eu iniciei o meu envolvimento na chamada crise dos refugiados no verão de 2016,
0:36 quando me juntei a uma tripulação de resgate marítimo no mar Mediterrâneo, no Mediterrâneo Central.
0:41 Éramos uma equipa jovem, pequena, estávamos mal preparados, mal equipados, a bordo de um antigo navio de pesca.
0:52 Nunca, acho que nunca me vou esquecer do primeiro resgate do qual fiz parte.
0:59 Era um barco pequeno, um barco de madeira, com algumas dezenas de pessoas.
1:04 Todas elas vinham da Nigéria, fugidas do terrorismo e da pobreza extrema.
1:08 E estavam há dois dias em mar alto, não tinham água, não tinham comida.
1:15 Todas elas, sem exceção, acharam que iam morrer.
1:19 Quando as pusemos em segurança, a bordo do navio, choraram, cantaram e adormeceram de cansaço.
1:29 Nesse ano, aquele pequeno navio de pesca resgatou cerca de 14 mil pessoas.
1:37 14 mil pessoas vindas de todo o mundo, vindas de... fugidas de tudo e mais alguma coisa,
1:42 da violência, da pobreza, das alterações climáticas.
1:46 E isso foi muito bom, mas o facto é que também perdemos muitas pessoas.
1:50 E perdemos muitas pessoas porque, lá está, éramos jovens, éramos poucos, mal equipados, mal treinados, mal preparados.
1:59 Essencialmente não éramos profissionais.
2:02 No meu caso ainda pior, porque não sou marinheiro, não sou enfermeiro, não sou médico.
2:06 E, na verdade, até fazer a minha primeira missão, nunca tinha estado a bordo de um navio.
2:10 Em agosto de 2017, o nosso pequeno navio de pesca foi arrestado pela polícia italiana
2:16 e eu próprio e nove colegas meus fomos postos sob investigação por suspeita de auxílio à imigração ilegal,
2:24 que é um crime que, segundo a lei italiana, o processo é em Itália, pode conduzir cada um de nós a 20 anos de prisão.
2:31 Na altura não percebemos o que é que se estava a passar, não percebemos como é que era possível
2:35 que uma coisa tão simples que fazemos, não é que seja fácil, mas é simples, que é basicamente impedir que as pessoas se afoguem,
2:44 pudesse ser entendido como um crime.
2:46 E, obviamente, não o é, mas ainda assim fomos impedidos de atuar, impedidos de operar
2:51 e vimos abraços com esta investigação que nos parecia completamente absurda.
2:58 Embora não percebêssemos o que é que se estava a passar, continuámos a tentar, o mais possível,
3:04 reaver o navio para pô-lo o mais depressa possível, onde ele é mais preciso, que é no mar.
3:09 Ou seja, estamos a falar de um navio pequeno que resgatou 14 mil pessoas num ano,
3:13 não fazia sentido nenhum que esse navio estivesse sequer um mês parado.
3:19 Ora, esteve parado quatro anos e ainda não está solto neste momento.
3:23 Nós estivemos sob investigação durante esse tempo todo,
3:26 não só a lutar para que o navio pudesse cumprir o seu propósito,
3:31 mas também a lutar pela nossa própria liberdade pessoal,
3:34 porque, de facto, havia pela primeira vez um risco direto a todas estas pessoas,
3:40 à liberdade pessoal de todas estas pessoas.
3:42 A investigação foi concluída em março deste ano
3:46 e eu próprio fui libado, juntamente com alguns dos meus colegas,
3:50 mas quatro dos meus colegas, pessoas que vi fazer mais pela humanidade
3:55 do que alguma vez achei que fosse possível,
3:59 foram acusados formalmente e vão ter que, provavelmente,
4:05 passar anos a responder em tribunal por um crime que é absurdo.
4:11 Assim que pude, assim que me vi livre desta acusação,
4:14 juntei-me outra vez a uma outra equipa de resgate,
4:17 com um navio chamado Sea-Watch,
4:20 e foi lá que retomei, quatro anos depois, o trabalho que fazia de resgate marítimo
4:25 e é precisamente nesse navio e com essa organização
4:28 que vou estar na altura em que estiverem a ver este vídeo.
4:31 Infelizmente, não fomos um caso único.
4:33 Todas as organizações não-governamentais de que eu tenho conhecimento
4:36 tiveram, a certa altura, desde 2017, algum tipo de problema legal
4:40 com Itália, com Malta, com França, com Espanha.
4:43 Nenhum trabalhador humanitário acabou condenado,
4:46 mas estamos a falar de anos e anos em que estas pessoas
4:51 não só se vêem alvo de acusações injustas,
4:55 como são impedidas de fazer um trabalho que é salvar vidas.
4:58 O resultado, na verdade, embora nós, trabalhadores humanitários,
5:02 corramos um risco concreto de perder a nossa liberdade pessoal,
5:08 na verdade, as verdadeiras vítimas são as pessoas que precisam de resgate e não têm.
5:12 E não têm por causa destas acusações absurdas que têm acontecido.
5:17 Portanto, aquela pergunta que eu vos fiz no início,
5:21 se cruzassem com uma pessoa que se estivesse a afogar, o que é que fariam?
5:27 A resposta parece óbvia, não é?
5:29 A primeira coisa que quase qualquer pessoa pensaria é
5:33 que agarrava nessa pessoa e, no limite,
5:37 tanto quanto pudesse, tiraria a pessoa dessa situação de perigo
5:41 e levava-a para um porto seguro.
5:43 Na verdade, é isto que a lei diz.
5:45 A lei internacional diz que, quando encontramos uma situação de emergência,
5:48 temos que, na medida das nossas possibilidades,
5:50 resgatar as pessoas e levá-las a um porto seguro.
5:52 E é isto que fazemos, e é isto o nosso trabalho.
5:56 No entanto, a resposta a esta pergunta que vos fiz
5:59 aparentemente não é óbvia para toda a gente,
6:01 e é por isso que, hoje em dia, nos vemos alvo de toda esta criminalização,
6:04 todas estas histórias, todos estes processos infindáveis que nos tiram o sono
6:09 e que resultam, no final de contas, na perda de mais vidas no Mediterrâneo.
6:16 De facto, a resposta a esta pergunta não é óbvia para toda a gente
6:20 e, nos últimos sete anos, o resultado disso é que perdemos 20 mil vidas no Mediterrâneo.
6:25 A situação não é fácil
6:28 e, cada ano que passa, parece que há cada vez mais dificuldades.
6:33 No entanto, se posso dizer alguma coisa da minha experiência,
6:37 é que há cada vez mais pessoas a lutar por uma Europa mais justa,
6:41 por um sistema de fronteiras mais justo
6:44 e que preserva a vida e os direitos humanos acima de tudo.
6:48 De facto, vejo centenas ou milhares de pessoas a juntar-se por trás destas organizações
6:52 e por trás de outras organizações que tentam mudar a fundo,
6:55 fazer mudanças profundas na nossa sociedade,
6:58 de forma que possamos, a certa altura, dizer que vivemos num mundo mais justo, mais solidário
7:04 e numa Europa que respeita os direitos humanos.
7:08 É por isso que eu continuo a fazer o trabalho que continuo a fazer.
7:11 De facto, cada vida que salvamos é um fim em si mesmo
7:15 e é por isso que temos de continuar a fazer o trabalho que fazemos.
7:19 O futuro depende de mim, depende de vocês
7:22 e de todas as pessoas que acreditam que é possível ir mais além.

Descrição

O testemunho de Miguel Duarte revela a urgência e a coragem necessárias para enfrentar a crise dos refugiados no Mediterrâneo. Com uma história de resgates que toca no coração, ele convida-nos a reflectir sobre a responsabilidade que temos face ao sofrimento alheio e a actuar com humanidade.

Resumo

Na palestra, Miguel Duarte partilha a sua experiência como membro de uma equipa de resgate marítimo que atua no Mediterrâneo Central desde 2016. Não sendo marinheiro, enfermeiro ou médico, Miguel destaca a sua contínua luta em prol da vida humana, enfrentando as adversidades de um trabalho que deveria ser visto como um acto de humanidade, mas que é frequentemente criminalizado. Ele narra o primeiro resgate, onde ajudaram dezenas de pessoas fugidas da Nigéria, e como, num ano, a sua equipa salvou 14 mil vidas, apesar das condições precárias e do risco que enfrentavam.

A palestra também aborda as dificuldades enfrentadas pela sua equipa após a apreensão do navio de resgate e a investigação policial que culminou em acusações absurdas contra eles. Enquanto Miguel e alguns dos seus colegas foram libertados, outros continuam a ter de responder em tribunal, evidenciando a injustiça que recai sobre os trabalhadores humanitários. Miguel argumenta que, apesar de correrem riscos, as verdadeiras vítimas são os refugiados que necessitam de ajuda e são impedidos de a receber devido a acusações infundadas.

Para Miguel, a resposta à pergunta sobre como agir numa situação de resgate deveria ser óbvia, mas revela que, ao longo dos anos, a criminalização das suas acções tem causado a perda de milhares de vidas. Apesar dos desafios, ele sente esperança ao ver um aumento de pessoas comprometidas em lutar por uma Europa mais justa, que respeite os direitos humanos. Encorajando a todos a acreditarem na possibilidade de mudança, Miguel reafirma que cada vida salva é uma vitória, e que o futuro depende da nossa acção colectiva.

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