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Olá, o meu nome é Miguel Duarte, tenho 29 anos e venho de Zambuja.
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Queria começar por pedir-vos desculpa por não poder estar presente, mas quando estiverem a ver este vídeo
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provavelmente vou estar a imar alto numa missão de resgate.
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Há uns tempos fiz-vos uma pergunta, que era se vocês se cruzassem a certa altura com uma pessoa que se estivesse a fugar,
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o que é que fariam? Parece mais ou menos óbvio, não é?
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Eu iniciei o meu envolvimento na chamada crise dos refugiados no verão de 2016,
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quando me juntei a uma tripulação de resgate marítimo no mar Mediterrâneo, no Mediterrâneo Central.
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Éramos uma equipa jovem, pequena, estávamos mal preparados, mal equipados, a bordo de um antigo navio de pesca.
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Nunca, acho que nunca me vou esquecer do primeiro resgate do qual fiz parte.
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Era um barco pequeno, um barco de madeira, com algumas dezenas de pessoas.
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Todas elas vinham da Nigéria, fugidas do terrorismo e da pobreza extrema.
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E estavam há dois dias em mar alto, não tinham água, não tinham comida.
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Todas elas, sem exceção, acharam que iam morrer.
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Quando as pusemos em segurança, a bordo do navio, choraram, cantaram e adormeceram de cansaço.
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Nesse ano, aquele pequeno navio de pesca resgatou cerca de 14 mil pessoas.
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14 mil pessoas vindas de todo o mundo, vindas de... fugidas de tudo e mais alguma coisa,
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da violência, da pobreza, das alterações climáticas.
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E isso foi muito bom, mas o facto é que também perdemos muitas pessoas.
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E perdemos muitas pessoas porque, lá está, éramos jovens, éramos poucos, mal equipados, mal treinados, mal preparados.
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Essencialmente não éramos profissionais.
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No meu caso ainda pior, porque não sou marinheiro, não sou enfermeiro, não sou médico.
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E, na verdade, até fazer a minha primeira missão, nunca tinha estado a bordo de um navio.
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Em agosto de 2017, o nosso pequeno navio de pesca foi arrestado pela polícia italiana
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e eu próprio e nove colegas meus fomos postos sob investigação por suspeita de auxílio à imigração ilegal,
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que é um crime que, segundo a lei italiana, o processo é em Itália, pode conduzir cada um de nós a 20 anos de prisão.
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Na altura não percebemos o que é que se estava a passar, não percebemos como é que era possível
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que uma coisa tão simples que fazemos, não é que seja fácil, mas é simples, que é basicamente impedir que as pessoas se afoguem,
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pudesse ser entendido como um crime.
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E, obviamente, não o é, mas ainda assim fomos impedidos de atuar, impedidos de operar
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e vimos abraços com esta investigação que nos parecia completamente absurda.
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Embora não percebêssemos o que é que se estava a passar, continuámos a tentar, o mais possível,
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reaver o navio para pô-lo o mais depressa possível, onde ele é mais preciso, que é no mar.
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Ou seja, estamos a falar de um navio pequeno que resgatou 14 mil pessoas num ano,
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não fazia sentido nenhum que esse navio estivesse sequer um mês parado.
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Ora, esteve parado quatro anos e ainda não está solto neste momento.
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Nós estivemos sob investigação durante esse tempo todo,
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não só a lutar para que o navio pudesse cumprir o seu propósito,
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mas também a lutar pela nossa própria liberdade pessoal,
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porque, de facto, havia pela primeira vez um risco direto a todas estas pessoas,
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à liberdade pessoal de todas estas pessoas.
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A investigação foi concluída em março deste ano
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e eu próprio fui libado, juntamente com alguns dos meus colegas,
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mas quatro dos meus colegas, pessoas que vi fazer mais pela humanidade
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do que alguma vez achei que fosse possível,
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foram acusados formalmente e vão ter que, provavelmente,
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passar anos a responder em tribunal por um crime que é absurdo.
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Assim que pude, assim que me vi livre desta acusação,
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juntei-me outra vez a uma outra equipa de resgate,
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com um navio chamado Sea-Watch,
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e foi lá que retomei, quatro anos depois, o trabalho que fazia de resgate marítimo
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e é precisamente nesse navio e com essa organização
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que vou estar na altura em que estiverem a ver este vídeo.
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Infelizmente, não fomos um caso único.
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Todas as organizações não-governamentais de que eu tenho conhecimento
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tiveram, a certa altura, desde 2017, algum tipo de problema legal
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com Itália, com Malta, com França, com Espanha.
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Nenhum trabalhador humanitário acabou condenado,
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mas estamos a falar de anos e anos em que estas pessoas
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não só se vêem alvo de acusações injustas,
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como são impedidas de fazer um trabalho que é salvar vidas.
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O resultado, na verdade, embora nós, trabalhadores humanitários,
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corramos um risco concreto de perder a nossa liberdade pessoal,
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na verdade, as verdadeiras vítimas são as pessoas que precisam de resgate e não têm.
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E não têm por causa destas acusações absurdas que têm acontecido.
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Portanto, aquela pergunta que eu vos fiz no início,
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se cruzassem com uma pessoa que se estivesse a afogar, o que é que fariam?
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A resposta parece óbvia, não é?
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A primeira coisa que quase qualquer pessoa pensaria é
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que agarrava nessa pessoa e, no limite,
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tanto quanto pudesse, tiraria a pessoa dessa situação de perigo
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e levava-a para um porto seguro.
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Na verdade, é isto que a lei diz.
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A lei internacional diz que, quando encontramos uma situação de emergência,
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temos que, na medida das nossas possibilidades,
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resgatar as pessoas e levá-las a um porto seguro.
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E é isto que fazemos, e é isto o nosso trabalho.
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No entanto, a resposta a esta pergunta que vos fiz
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aparentemente não é óbvia para toda a gente,
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e é por isso que, hoje em dia, nos vemos alvo de toda esta criminalização,
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todas estas histórias, todos estes processos infindáveis que nos tiram o sono
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e que resultam, no final de contas, na perda de mais vidas no Mediterrâneo.
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De facto, a resposta a esta pergunta não é óbvia para toda a gente
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e, nos últimos sete anos, o resultado disso é que perdemos 20 mil vidas no Mediterrâneo.
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A situação não é fácil
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e, cada ano que passa, parece que há cada vez mais dificuldades.
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No entanto, se posso dizer alguma coisa da minha experiência,
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é que há cada vez mais pessoas a lutar por uma Europa mais justa,
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por um sistema de fronteiras mais justo
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e que preserva a vida e os direitos humanos acima de tudo.
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De facto, vejo centenas ou milhares de pessoas a juntar-se por trás destas organizações
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e por trás de outras organizações que tentam mudar a fundo,
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fazer mudanças profundas na nossa sociedade,
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de forma que possamos, a certa altura, dizer que vivemos num mundo mais justo, mais solidário
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e numa Europa que respeita os direitos humanos.
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É por isso que eu continuo a fazer o trabalho que continuo a fazer.
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De facto, cada vida que salvamos é um fim em si mesmo
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e é por isso que temos de continuar a fazer o trabalho que fazemos.
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O futuro depende de mim, depende de vocês
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e de todas as pessoas que acreditam que é possível ir mais além.