3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Olá, isto visto daqui é delicioso, vocês não tinham mais nada para fazer, antes de
0:19 qualquer coisa, obrigado a todos pela vossa disponibilidade, eu espero que tenham vindo
0:27 a brincar por outras pessoas, porque eu acho que não tenho assim grande coisa para vos contar,
0:31 mas ainda assim agradeço-vos, agradeço-vos o vosso tempo, espero que estes 15 minutos de
0:39 conversa que não sejam realmente maçadores para vocês. Então, meu nome é Ruben Matai,
0:47 bem de xelas, xelas com muito amor, nasci de criado, nasci de criado em uma barraquinha que
1:00 chovia, que pingava em cima da minha cama e pingava em mais alguns sítios, eu tinha que dormir assim,
1:07 rodeado de canecas, copos, alguidares e aquilo, já era música na altura, quando chovia, tinha musica
1:17 e hoje estou então a construir aquilo que é o meu caminho. Começar por esta coisa que é o
1:26 compromisso que vem de trás, porque eu acho que qualquer um de nós inicia esta coisa do compromisso
1:33 em casa, com os pais, com as regras, mas sobretudo com o compromisso de começar por fazer aquilo que
1:42 são as primeiras coisas que nós vamos aprendendo, aquelas regras, até porque a primeira palavra que
1:47 nós vamos aprendendo é o não, em conjunto com o amor, não é? Então, antes é por aqui que eu
1:55 tenho construído agora a minha vida com a minha família. Então, o compromisso, antes de ser o
2:04 compromisso com alguém, eu diria que o compromisso é interior, é o compromisso conosco, sobre aquilo
2:11 que queremos realmente fazer, aquilo que nós queremos construir, eu sei que muitas vezes nós
2:17 perdemos com aquela coisa de que, é pai, tenho que fazer isso porque alguém me pediu e quase que
2:23 fica naquela grande vontade de querer fazer, mas por algum motivo nós não conseguimos. E então,
2:28 recuo um bocadinho porque junto a isto aquilo que são os valores, a responsabilidade, não é?
2:36 É uma coisa que nos orienta e nos dizem que temos mesmo que fazer isto. Contávamos aqui uma
2:44 pequena história, a Dias viu um vídeo de um pai com uma filha que estava a passar-se algumas ideias
2:54 à sua criança e que eu disse é pra caramba, eu quero fazer isto com os meus filhos. E então,
3:00 levava a criança à escola e depois perguntava assim, o que é integridade? E a filha respondia,
3:09 a filha respondia com muito entusiasmo, com muita qualidade, com muita verdade e há dias, cerca de
3:18 um mês, eu comecei a fazer isto com os meus filhos. Chegava a porta, eu vou fazer o meu ginado,
3:22 de madrugada, volto, bem alimentado, vou buscar as crias, deixo à escola e perguntei aos meus filhos,
3:29 o que é integridade? Já tínhamos treinado isto em casa. E o Vicente disse, papai eu sei, eu sei,
3:38 eu sei, eu sei. E ele disse, é fazer aquilo que é certo mesmo se não estiver ninguém a ver.
3:45 Isso, boa filha. Pai, orgulhoso, orgulhoso, é isso mesmo. E o que é responsabilidade? E o Vicente
3:56 queria responder, mas o Santiago disse, não agora sou eu, deixa-me responder isso, ok, tudo bem,
4:01 responde. E o Santiago disse, então responsabilidade é, espera, eu tenho que fazer, eu sou responsável,
4:09 eu sou responsável pelas minhas ações, mesmo se for influenciado por alguém, disse boa filha, é isso,
4:21 e então esta parte dos valores acaba por ser a nossa linha de orientação para tudo aquilo que
4:28 nós fazemos ao longo da nossa vida, porque se nós não tivermos, se nós não tivermos este conjunto
4:35 de regras, dificilmente conseguiremos dar corpo àquilo que é o compromisso. Então, na minha vida,
4:43 eu tive que procurar um bocadinho construir esta base, construir este conjunto de regras
4:51 para poder crescer, para poder ser pessoa. Eu venho desta realidade com muitas fragilidades,
4:56 mas também com muitas coisas que nos vão aliciando. E depois quando nós temos que procurar,
5:03 por vez de respostas rápidas, esquecemos que aquilo que é rápido hoje pode demorar muito
5:11 tempo depois a passar no futuro. E que esta coisa da nossa responsabilidade, esta coisa da nossa
5:18 integridade pode ser manchada, pode ser manchada por coisas rápidas, por coisas que apareceram aqui
5:26 num imediato e por soluções que, de alguma forma, só respondem uma necessidade do momento.
5:32 Portanto, nós temos que construir, construir no tempo. E é aqui que acontece este desenvolvimento
5:39 da minha consciência crítica, que, reparem, nós não nascemos com consciência crítica.
5:47 E eu adorava, duraria que outros adultos tivessem treinado isto em criança, porque
5:55 põe-nos depois de uma esfera de não entender aquilo que nós estamos cá a fazer. E é extremamente
6:01 importante nós treinarmos isto para que depois, quando crescermos, e nos tornarmos pessoas responsáveis
6:07 por outras pessoas, que nós conseguimos passar também esta responsabilidade de olhar para dentro.
6:14 Eu fiquei muito, muito feliz, muito feliz por ouvir esta apresentação, porque esta responsabilidade
6:24 também de sermos felizes, também está relacionado com aquilo de olhar para dentro.
6:30 Está relacionado com isto. E se nós percebermos o que é que nós estamos a fazer certo e o que
6:36 é que nós estamos a fazer menos bem, de alguma forma temos aqui a possibilidade de corrigir.
6:42 E a consciência crítica é essa coisa. Parece assim uma coisa estranha, mas é uma coisa giríssima,
6:47 porque às vezes há um desfazamento, há um desfazamento entre isto, entrando aqui e
6:55 outro no campo que eu não domino, que é esta diferença ou este desfazamento entre o eu real
7:02 e o eu ideal. Eu, hoje, sou o Matai 2.0. Mais coisa menos coisa. Mas já fui o Matai 1.0.
7:15 Só que há dias, há dias que eu acordo e sempre me matai 5.5. Mas não é real. Ainda estou a caminhar
7:24 para Brad Pitt, mas ainda não lá cheguei. Portanto, a minha, esta coisa, eu estou ainda,
7:32 é o meu desenvolvimento pessoal, é o meu desenvolvimento emocional, que me diz assim,
7:37 olha, a atenção que é importante, que seja um bocadinho à terra, que ainda tens muito caminho
7:43 para fazer. Mas tudo isto, tudo isto para vos dizer o quê? Eu não fiz este caminho sozinho,
7:51 embora eu seja responsável por tudo aquilo que eu faço e é sobre mim. As coisas que eu construí,
8:00 as coisas que eu fiz, as barreiras que eu consegui quebrar, fui eu que as fiz, como qualquer um
8:06 de vocês. Aquilo que vocês fazem, aquilo que vocês verem a fazer na vossa vida, é responsabilidade
8:12 vossa. Vocês podem ter pessoas que vos dirigem, que vos encaminham, que vos direcionam, mas a
8:18 verdade é trabalho vosso, de cada um, de cada um. Ainda assim, é necessário que valguem à frente
8:27 que nos diga assim, olha, atenção, por aqui este caminho é capaz de ter muita pedra, é capaz de
8:33 ter muita curva e depois nós escolhemos, queremos pedra, queremos curva, o que é que nós queremos?
8:39 Queremos seguir a direito, portanto, é uma construção e eu tive um professor que hoje,
8:48 enfim, construí-os uma relação maravilhosa, que é o meu professor de regime moral. A Curso
8:56 Domingos, meu querido, se estivesse por aí ao ver, um beijinho muito grande. O Curso foi uma pessoa
9:05 que, na verdade, mudou a minha vida. Eu estudava em Maripia, casa piano, vinha de uma escola dura,
9:13 difícil pra caramba, havia guerra todos os dias e eu chego a essa de carose, foi onde eu estudei a
9:21 seguir, e eu vinha quebrado, eu vinha doente, eu vinha emocionalmente frágil, eu andava com uma
9:29 carteira, agarrada uma corrente, agarrada-se uma corrente, andava assim com uma vara, já era grande
9:36 e eu andava assim meio empodrado, mas sempre revoltado com a minha vida. Até que encontrei este
9:42 professor, que curioso, estava a dar uma aula na rua, a debater sobre um tema da atualidade,
9:49 estes problemas que nós, jovens, vamos debatendo muitas vezes,
9:56 e o que é que acontece? Eu sentei-me ali perto e ele já me tinha topado, pegou a turma e sentou a
10:03 turma toda ao pé de mim, e eu, caramba, mas o que é que este gajo tem? O que é que este gajo tem?
10:08 É porque ele está aqui ao pé de mim, e então eles estão a falar sobre qualquer coisa e eu respondi,
10:15 eu não concordo nada com isso, tinha esta coisa, enfim, se não concordo nada com isso, e então
10:21 ele desafiou-me, fez-me falar, fez-me responder, mas acima de tudo ele deu uma voz, e às vezes
10:30 nós não temos esta noção, mas às vezes é necessário que nós sejamos capazes de dizer,
10:37 capazes de dizer aquilo que nos preocupa, capazes de dizer aquilo que nós sentimos,
10:42 às vezes não temos com quem falar, escrevam, escrever também ajuda, às vezes parece um amigo,
10:49 parece um amigo assim mais, mais próximo, um amigo que ninguém conhece, um confidente,
10:55 mas escrevam ou digam, tentem dizer, uma dica, é os pais, às vezes parece que nós temos uma distância
11:05 muito grande, mas digam aos vossos pais aquilo que vocês sentem, não há ninguém, ninguém
11:11 com a capacidade de nos ouvir e com a capacidade de ajudar-nos a resolver os nossos problemas como
11:17 os nossos pais. Eu aprendi isto, eu aprendi isto mais tarde, eu costumava dizer, eu costumava dizer
11:32 que eu não tinha grande relação com o meu pai, principalmente com o meu pai, eu venho de uma
11:37 família desorganizada, pais separados desde sempre, não desorganizada por serem separados,
11:43 desorganizada porque eram realmente desorganizados, e eu não tenho sequer referência, não tenho memória
11:51 dos meus pais juntos, mas não fez de mim menor pessoa, reparem, não fez de mim, não fez de
12:01 mim pior pessoa, deu-me aqui um conjunto de ferramentas para eu conseguir, enfim, esta coisa
12:08 que se chama resiliência, essa coisa que tens mesmo que ir à procura, se calhar ajudou-me um pouco,
12:16 e eu e o meu pai não tínhamos sequer, eu lembro a primeira vez que eu dei um abraço ao meu pai,
12:21 foi no dia que eu me casei, portanto, já era crescido, e só mais tarde, só mais tarde que eu consegui
12:31 dizer ao meu pai o quanto eu amo, que eu felizmente está vivo, felizmente está cá, porque eu percebi
12:39 que ele não tinha recebido, eu percebi que ele não tinha aprendido a expor sentimentos,
12:46 ele não tinha percebido, ele não tinha percebido que é esta coisa de falar sobre nós e poder chegar
12:52 ao pé de um filho e dizer, olha, eu gosto muito de ti, como é que tu estás hoje, correu bem o teu dia,
12:57 ele não tinha isso, eu tive que crescer, eu tive que crescer e só quando eu percebi isso é que o meu
13:04 coração ficou mais tranquilo e eu consegui realmente amar o meu pai, e eu tive que sair
13:11 daquele lugar, foi esta transformação, foi esta mudança, mas aquilo que na verdade eu percebia
13:21 a partir de uma determinada idade, a responsabilidade já não está nos nossos pais,
13:27 parece que passamos uma vida a dirigir-nos aos pais e dizer, caramba, eu sou isto,
13:33 mas também a minha infância foi duríssima, a minha infância foi difícil, por isso é que eu sou
13:38 assim. Isto aí, por volta dos 14, 15 anos, aquela idade em que nós começamos a tomar decisões
13:45 na sua grande maioria, erradas, a responsabilidade é nossa, e a partir daí já não podemos usar a
13:52 bengala de que é porque foi a minha infância, meus queridos, eu andava na rua pedi comida
13:58 e hoje quando for à rua falar sobre comida, eu levo comida para dar alguém, portanto a mudança é esta,
14:04 a mudança é esta, por isso é que hoje a responsabilidade é nossa, eu não posso entender
14:17 mais o meu tempo está a acabar, o meu tempo está a acabar e dizer-vos que aliado a esta questão
14:25 do compromisso tem que haver um objetivo, que é quem é que eu sou, onde eu quero estar,
14:31 para onde que eu quero ir, e se nós tivermos esta coisa muito presente, a nossa responsabilidade
14:37 tem que estar a um nível, somos nós que construímos o nosso próprio caminho, ok? A responsabilidade
14:44 é nossa, de todos nós, e é com base nisto que eu construí aquilo que é a minha história,
14:50 pôs o meu nome no mapa, Matai é o nome da minha mãe, sou Ruben Matai, Leal de Souza, sou filho de
14:57 Maria Helena Matai, é o nome bonito, hoje é bonito, antigamente era o nome do Preto das Baracas
15:05 e que não tinha piada nenhuma e que eu revoltava-me quando me chamavam de Matai, hoje em dia eu consegui
15:11 dar um rosto diferente a este nome e meter o nome da minha mãe no sítio que ele merece estar, é isto,
15:17 e é o orgulho que eu sinto, é o orgulho que eu sinto, e para terminar, e para terminar,
15:28 que já terminou, já terminou o meu tempo, é esta mensagem que eu tenho para os meus filhos,
15:34 é sobre o amor que eu os venho falar também e vou deixar-vos aqui um pequeno mimo
15:40 e vou falar-vos do meu espeio, bora aí, brava.
15:52 Põe mais alto este instrumental, é isto.
16:03 Cada vez que eu me vejo ao espeio
16:10 Aquilo que eu vejo não sou eu
16:17 Só queria sentir a flor da pele Tanto que a minha pele adorme seu
16:31 Pintar a vida preto e grão
16:36 Deixar e vanzir a minha mão E se o meu espeio não perdi
16:48 Talvez um dia eu possa dizer posto de ti
16:56 E se o meu teto não perdi Talvez um dia eu venha a perceber que os olhos tristes
17:12 Gostam de ti
17:20 Gostam de ti
17:24 É sobre isto
17:28 Eu sei que tenho andado tão distante
17:36 Gostando de sempre eu pego de ti
17:44 Mesmo que eu mude por instantes
17:50 Não dá, eu já me perdi
17:58 Pintar a vida preto e grão
18:02 Deixar e vanzir a minha mão E se o meu espeio não perdi
18:14 Talvez um dia eu possa dizer posto de ti
18:22 E se o meu teto não perdi Talvez um dia eu venha a perceber que os olhos tristes
18:38 Se caram e trucaram nos fãs que fim
18:50 Porque afinal até gosto de mim
19:00 Até gosto de mim
19:08 Muito obrigado
19:30 Muito obrigado
19:38 Muito obrigado
19:40 A felicidade que começa hoje

Descrição

Ruben Matai partilha um testemunho pessoal forte sobre como o compromisso, a responsabilidade e a consciência crítica podem transformar uma vida marcada pela fragilidade em uma história de dignidade e superação. A partir da sua infância difícil, mostra que o passado pode ferir, mas não precisa definir o futuro. A sua mensagem é direta e poderosa: chega um momento em que a responsabilidade pela nossa vida passa a ser nossa — e é aí que começa a verdadeira mudança.

Resumo

A intervenção começa num tom próximo e bem-humorado, mas rapidamente ganha profundidade ao revelar as origens difíceis de Ruben Matai. Crescido em condições precárias, fala da sua infância com honestidade, sem romantizar a dor, mostrando como essas experiências moldaram a pessoa que se tornou. O ponto de partida da sua reflexão é o compromisso: antes de ser com os outros, tem de ser connosco próprios, com aquilo que queremos construir e com os valores que escolhemos viver.

Ao longo da fala, destaca a importância de princípios como a integridade e a responsabilidade, que vê como base para qualquer caminho sólido. Esses valores não surgem por acaso: são construídos, treinados e vividos no dia a dia. Ruben sublinha que decisões rápidas ou atalhos podem comprometer o futuro, e que crescer exige tempo, consistência e capacidade de olhar para dentro com verdade.

Outro eixo central do discurso é a consciência crítica — essa capacidade de nos observarmos, reconhecermos quem somos e percebermos o que ainda precisamos de trabalhar. Ele mostra que ninguém faz este caminho sozinho, e recorda a importância de pessoas que acreditam em nós, como o professor que mudou a sua vida ao dar-lhe voz e espaço para pensar. Também valoriza muito a importância de falar, escrever e procurar apoio, especialmente junto dos pais, mesmo quando a relação parece difícil ou distante.

Num dos momentos mais marcantes, Ruben reflete sobre a relação com o pai e sobre como teve de amadurecer para compreender as limitações emocionais que herdou. Essa reconciliação interior permitiu-lhe deixar de viver preso à culpa do passado. A sua ideia é clara: a infância influencia-nos, mas não pode ser desculpa eterna. A partir de certa altura, cabe a cada um decidir o que faz com aquilo que recebeu.

No final, a mensagem torna-se ainda mais íntima e inspiradora: construir o próprio caminho é também resgatar o próprio nome, a própria história e a própria identidade. Ao transformar o nome da mãe em motivo de orgulho, Ruben afirma que é possível dar novo significado às feridas. Fecha com uma nota emocional de reconciliação consigo mesmo: apesar de tudo, aprendeu a gostar de si — e é dessa aceitação que nasce a felicidade.

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