0:00
Bom dia, meu nome é José Diogo Quintela, como disseram, sou um dos fundadores do Gato Fedorento,
0:08
o fundador que interessa, bem à tarde.
0:11
Não, vem daqui a bocado, vem daqui a bocado, vou aquecer.
0:15
Eu venho falar sobre, como disseram, conflito entre gerações, um tema sobre o qual sou
0:22
especialista, pois compro os dois requisitos, tenho pais e tenho filhos.
0:29
Não é preciso mais.
0:32
A prova que eu sou de uma geração diferente da vossa, está aqui, eu vou ler, em cartões,
0:42
porque não tenho memória para decorar, peço desculpa.
0:46
Estes ecrãs que gentilmente me cederam, eu não consigo ler daqui para ali.
0:52
Próxima razão, faço anúncios para a Multióticas, não é só para ser bonito.
1:03
E sou de uma geração que não sabe mexer no Power Point.
1:07
Tentei lamento, vai ser só para ler e ler.
1:11
Eu agradeço, agradeço o convite, a organização, 3 milhões de nós, é um convite que eu acho um bocado estranho,
1:19
porque convidarem alguém de uma geração, para falar com pessoas da geração, com que eu estou em conflito,
1:26
é esquisito, é esquisito.
1:29
Parece que vêm dar dicas ao inimigo.
1:33
Isto é como pedir a pessoa ruí-vitoria, para ir dar a tática do bem, fica ao balneário do Sporting.
1:40
Embora eu tenha certeza que o Sporting mesmo assim, provavelmente, perdia.
1:44
Lamentavelmente.
1:46
Eu sou sócio do Sporting, por favor de Deus.
1:50
Porque é preciso dizer, isto é um conflito sério.
1:54
Aliás, conflito é um eufemismo.
1:57
Caso ficar o que se passa nas nossas famílias, como conflito entre gerações,
2:02
é a mesma coisa que dizer que a batalha de Alas-Barrota foi um desaguisado entre vizinhos.
2:07
Isto é como dizer que o 11 de setembro foi um machete-se com aviões.
2:13
Não meus amigos, é guerra e é brava.
2:17
Conflito de gerações existe há milênios.
2:20
Tive a fazer estudos.
2:22
E desde que o primeiro Homo Sapiens mandou o filho arrumar a caverna,
2:26
e na semana seguinte, para se vingar, o filho envergonhou o pai à frente dos amigos,
2:32
quando, durante a caçada do mamute, ele anunciou que era vegan.
2:38
E a partir daí...
2:41
Mas não significa que o conceito não evolua, não.
2:44
Por exemplo, há 30 anos, quando era fí, da vossa geração, da vossa idade,
2:49
o conflito de gerações acontecia porque os pais eram chatos.
2:53
E agora tem graça, porque eu sou pai agora, e o contrário, agora os filhos é que são chatos.
3:00
É esquisito.
3:02
A mudança caiu logo agora.
3:04
Mas pronto.
3:06
Ou seja, o meu primeiro conflito de gerações, que perdi com os meus pais,
3:10
eu fui apanhado de surpresa.
3:12
E desta vez, antes de ter filhos, achei melhor preparar-me.
3:16
Como? Arrangeando enteados.
3:19
Em vez de ler sobre o assunto, treinei.
3:22
Arrangei logo dois, para o caso de um destragar.
3:27
Usar enteados é bom, porque a distanciamento não há aquele lastre de sangue
3:32
que tolda o descerneamento devido a essa poderosa emoção que me sustita um filho,
3:37
que é irritação.
3:40
Há mais despreendimento com os enteados.
3:42
A minha mulher dizia que eu era muito bruto com eles,
3:45
e que de certeza que não ia ser assim com os meus filhos.
3:48
Obviamente estava errada.
3:51
Porque isto é como um carro.
3:53
O meu está todo sujo, cheio de mossas.
3:56
Agora, se eu alugar um, devolvo e me pecado.
3:59
Foi isso que eu fiz com os meus enteados?
4:01
Estão ótimos.
4:03
Agora tenho os meus filhos.
4:05
Eu aprendi muito com os enteados.
4:07
Uma ótima experiência.
4:09
A convivência com crianças faz-nos mais jovens,
4:12
como se pode ver aliás na minha cara.
4:14
Vem cugas? Não há.
4:16
Não há porquê educar crianças faz-os ótimamente à pele.
4:20
Porque eu estou sempre a esbogalhar os olhos, esticando a pele.
4:24
Partiste o quê?
4:27
Tiveste quanto conteste?
4:30
Perdi esta chave.
4:32
Outra vez,
4:34
que um aparto, um meu enteado mais novo, tem 14 anos,
4:38
foi para há 6 meses,
4:40
estava sempre a tocar a campainha quando chegava da escola,
4:42
e eu sempre abri a porta.
4:44
E esta vez disse-me, e agora esqueço sempre da chave.
4:47
Não me digas que perdi esta chave.
4:49
E disse-lhe, sim, perdi.
4:51
Cadê esta chave? Me escondo.
4:53
E ele, em novembro.
4:56
Desperante, já passou.
4:58
Foi uma boa ajuda,
5:00
os enteados prepararam, acho eu, para ter filhos,
5:03
porque eles são como um sac de box, dá para treinar,
5:06
mas sem estar mesmo envolvido na porrada.
5:09
É uma espécie de,
5:11
não há a ver,
5:12
é uma espécie de neca insuflável,
5:14
porque não chega a ser a mesma coisa,
5:16
mas fica-se com uma ideia.
5:18
É.
5:20
Por isso que nasciu a minha filha,
5:22
minha primeira filha,
5:24
eu já sabia o que me esperava.
5:26
Não me deixei enganar por aquelas boquinhas,
5:29
aquele cheirinho,
5:31
aquele barulhinho querido que eles fazem.
5:33
É assim que eles ensinam lá em casa.
5:35
É assim que eles nos fazem levá-los da maternidade, atenção.
5:38
Não, não, porque eu sabia logo,
5:40
a lista ao inimigo.
5:42
Passava menos de um ano, sempre para ver,
5:44
sempre para ver quando é que apanhava a pumba, desmascareia.
5:47
Panhei a minha mulher a jogar um jogo com ela,
5:50
vocês devem conhecer,
5:52
que era a minha minha perguntada.
5:54
Onde está a mãe?
5:55
E ela apontava para a mãe.
5:57
E a tal pai?
5:58
E ela apontava para mim.
6:00
E a tal manho?
6:01
E ela apontava para o irmão.
6:05
E a minha minha estava convencidíssima,
6:07
que era sinal grande inteligência da nossa filha.
6:09
Mas eu te peia.
6:11
Eu te peia logo e eu percebi,
6:12
não é sinal de inteligência,
6:13
é sinal que a nossa filha é uma queixinhas.
6:16
Ela não hesita em denunciar as pessoas,
6:18
aliás, não eram só as pessoas,
6:20
ela também denunciava partes do corpo.
6:22
Onde é que tal naria isso, ela?
6:24
Onde é que tal oralha?
6:25
Ela apontava sempre, sempre.
6:27
Tudo.
6:28
Se isto aconteça,
6:29
quando o prémio eram palminhas da mãe,
6:31
imagina-se como seria,
6:32
só houvesse uma recompensa em dinheiro.
6:34
Se eu fosse um comunista na clandestinidade,
6:36
estava tramado.
6:38
A minha filha ia ser o informador da pide,
6:40
que me ia desgraçar.
6:42
Portanto, comecei imediatamente
6:44
a combater esse instinto enunciador.
6:47
Eu não quero que a minha filha seja queixinhas.
6:49
É que já não há pide.
6:51
Ou seja, em Portugal,
6:52
as hipóteses de um bufo arranjar um bom emprego
6:55
diminuíram drasticamente desde o 25 de abril.
6:58
É uma profissão obsoleta.
7:00
É como amulador de facas
7:02
ou dirigente de esportivo sério.
7:05
Vocês, calhar, não se lembram,
7:06
mas havia uma profissão
7:07
que era dirigente de esportivo sério.
7:10
Aí também havia amuladores de facas.
7:12
Portanto, hoje em dia,
7:14
para que é que serve um bufo
7:15
se são as próprias pessoas
7:17
que têm todas as informações no Facebook,
7:20
não vale a pena.
7:21
Eu estava preocupado com o emprego da minha filha.
7:25
E foi a primeira vez que eu vi o que vai ser,
7:27
na minha opinião,
7:28
a principal causa de conflito
7:29
entre as nossas duas gerações.
7:31
A opção que nós, a minha geração,
7:34
têm em preparar-vos para o que achamos
7:36
que é a vida real.
7:38
As expectativas absurdas
7:40
com o vosso sucesso académico e profissional
7:42
é um exagero.
7:44
Eu só tive noção de que era doentio
7:46
e sete anos quando reparei
7:48
que as notícias do desaparecimento
7:50
do Gabriel, um desaparecimento trágico,
7:52
um rapaz daquele menino espanhol,
7:54
me angustiavam mais do que
7:56
as do desaparecimento de Maelisa,
7:58
aquela menina francesa,
7:59
que me desaparecia em agosto de 2017.
8:01
E não fazia sentido.
8:03
E por que?
8:04
Eu cheguei à conclusão
8:05
que foi porque a Maelis desapareceu
8:07
durante as férias,
8:08
enquanto o Gabriel desapareceu
8:09
durante o período escolar.
8:11
O que significa que estava a faltar às aulas.
8:14
Estava a perder matéria, testes.
8:16
Podia chumbar.
8:18
E...
8:19
Isto é doentio?
8:22
E a minha posição relativamente
8:24
rápido é, sim senhor,
8:26
mas deste não prejudica os estudos.
8:29
Eu começo a faltar às aulas.
8:31
É faltar ao violino,
8:32
às ginasca acrobática, ao baileia,
8:34
à informática, à equitação,
8:35
ao mandarim, à inatação e à olaria.
8:39
O que eu pensei foi,
8:40
se não vira minha filha,
8:41
que seja postar até às 9 da noite
8:43
a aprender coding,
8:45
que é um investimento no seu futuro,
8:47
e não gostar a perder tempo em sequestros.
8:49
A não ser que os bandidos
8:51
sejam de outra cultura,
8:53
falem línguas e alevem a viajar
8:55
de experiências que enriquecem o currículo.
8:59
Eu percebi o absurdo desta posição
9:01
quando dei por mim a censurar
9:03
o raptor da criança
9:04
por ter deixado para trás a mexila,
9:06
não permitindo que o miúdo,
9:08
ao menos fosse fazendo o STPC.
9:11
E esta competitividade,
9:13
que a minha geração,
9:14
na vossa geração,
9:16
não se limita ao percurso académico,
9:18
passa para todo o lado.
9:20
Vocês já viram as máscaras
9:21
de Carnaval e da Aluíne?
9:23
Já viram bem.
9:25
O garaldo de profissionalismo.
9:27
Na semana passada, a escola da minha filha
9:29
estava cheia de coco no chão,
9:30
porque um dos coleguinhas
9:31
ia tão bem-mescarado de drácula
9:33
que levou 200 morcegos.
9:35
200 morcegos.
9:36
A sorte é que uma menina foi de capichinho vermelho
9:38
e o lobo dela comeu a maior parte.
9:43
Leve um isto ao limite.
9:45
Minha filha ia só uma escarada
9:47
fada híbrida.
9:50
Ela vai modiar quando crescer.
9:53
Porque a competitividade
9:54
não é dos filhos,
9:56
não é vossa,
9:57
aliás, como diziam na primeira apresentação,
9:59
vocês são uma geração de
10:01
espirito de equipa.
10:03
Esta competitividade é nossa,
10:04
é dos pais.
10:06
Fazem, trazemos nós,
10:07
tuning de crianças,
10:09
que é para ganhar aos outros pais.
10:12
É o mesmo que a alimentação.
10:14
Nós cremos que os nossos filhos
10:16
tenham as melhores restrições alimentares.
10:19
As mais quesitas.
10:20
Ai, o teu é elégico ao ovo.
10:22
Então, espera lá,
10:23
com o meu intolerante à lactose.
10:25
Bumbá!
10:26
Ah, sim?
10:27
Olha, no outro dia,
10:28
o meu entrou em choca na filática
10:29
porque mordei um colega
10:30
que come pão com glúten.
10:33
Aptamos neste grau de competição.
10:36
Hoje em dia,
10:37
dizer a um pai
10:38
que o seu filho é educado
10:39
e, como tudo,
10:40
é um insulto.
10:42
Antes, uma criança que descesse,
10:44
não gosta de sopa,
10:45
era mal-criada,
10:46
agora é conscienciosa.
10:50
Há competição,
10:51
atenção,
10:52
até nos presentes da fada dos dentes.
10:55
Em minha casa,
10:56
a fada dos dentes
10:57
não indexa os presentes à inflação.
10:59
Desde sempre,
11:00
a curtação de cada dente
11:01
é uma moeda de 1 euro.
11:03
Sucede que a minha filha descobriu
11:05
que, em casa de uma amiga,
11:06
a Joana,
11:07
a fada chega a deixar notas.
11:10
Resultado,
11:11
um dia em que estava lá a dormir,
11:12
a tirou-se das cadas abaixo,
11:14
só para partir dentes.
11:19
E as festas.
11:21
É, é verdade?
11:23
O Dr. Paulo,
11:24
que tratou a não me deixa mentir.
11:27
Este ano,
11:28
pela segunda vez na minha vida,
11:30
peguei uma rapariga mascarada de cindarela
11:33
para fechar-se numa sala
11:34
entre ter um grupo de foliões
11:35
durante duas horas.
11:38
A primeira vez foi uma desvida soltária,
11:39
desta vez foi a festa dos dentes da minha filha.
11:44
Mas isso, hoje em dia,
11:45
é considerado uma festa pobre.
11:47
Cada festa tem que ser mais e melhor
11:49
e mais espetacular.
11:51
Há festas com um circo,
11:53
com animais de circo.
11:54
Há festas em barcos,
11:55
festas em piscinas,
11:56
festas com bandas,
11:57
tocar ao vivo.
11:58
E todos os fins de semana,
12:00
há uma.
12:01
As crianças têm mais combinações
12:03
que o total do outro.
12:05
Sempre.
12:06
Não há um domingo
12:07
em que eu não desejo que a minha filha
12:08
fosse mais como Jesus.
12:11
Não é só por querer que ela seja boazinha
12:13
e acho que o pai dela é o maior.
12:16
Não.
12:22
Não é,
12:23
não é só por causa disso.
12:25
É porque como heróis mandou matar
12:26
todas as crianças da sua idade,
12:27
Jesus não tinha amiguinhos.
12:30
Significa que José
12:31
não era obrigado a levantar
12:32
só o domingo de madrugada
12:33
para levar Jesus a uma festa
12:34
num barrecão nos chuburbios de Nazaré.
12:42
Para andar aos chaltos
12:43
no insuflável com mais 50 crianças estéricas
12:45
enquanto José fazia conversa de charsa
12:47
com outros pais igualmente ensinados.
12:50
Se nascesse agora,
12:51
com tantas atividades programadas,
12:53
Cristo não teria tempo para ser um menino Jesus.
12:56
E estar muito preocupado com o inglês,
12:58
informática, equitação
12:59
e os ensaios para a peça de Natal da escola,
13:02
onde ia desempenhar o papel de pastor.
13:05
No público, lá ia estar José,
13:07
novamente espetador contrariado de um presépio.
13:12
Eu sei que vim falar de conflito de gerações,
13:13
mas é que eu acho mais grave
13:15
este conflito entre a mesma geração,
13:17
a minha geração,
13:18
por vossa causa, a causa dos filhos.
13:20
Porque nós era suposto sermos aliados,
13:22
mas não.
13:23
Competimos entre nós.
13:25
E este nosso esterismo
13:27
tem boas intenções.
13:29
Do nosso ponto de vista, o mundo mudou.
13:31
E se é confuso para nós,
13:32
achamos que vai ser confuso para os nossos filhos, para vocês.
13:34
Daí queremos protegê-los
13:36
e prepará-los o melhor possível.
13:38
Só que para vocês,
13:39
o mundo não mudou.
13:41
Vosso mundo é mesmo assim.
13:42
E vocês lidam bem com ele.
13:44
Parece-me.
13:45
Por exemplo,
13:46
vemos que as crianças deixam de jogar as escondidas na rua
13:48
e ficamos preocupados.
13:50
Nós jogávamos as escondidas na rua.
13:52
Por que que eles já não jogam as escondidas na rua?
13:54
Oh, meu Deus!
13:55
É simples.
13:56
Não jogam as escondidas na rua
13:57
por causa do Find My iPhone.
13:59
Que graça de tempo procurar alguém
14:01
se há uma aplicação que mostra
14:02
onde é que essa pessoa está.
14:04
A vossa geração não tem motivação
14:06
para se esconder aliás.
14:07
Não tem motivação para esconder nada.
14:08
Não precisa.
14:09
E não precisa,
14:10
porque a pornografia já não vem
14:12
o suporte para a pele.
14:14
A partir do momento em que o adolescente
14:16
deixa de ter um monte de playboys
14:17
que é preciso esconder dos pais,
14:19
o seu cérebro deixa de estar sempre da taláia
14:21
em busca de bons refugios.
14:23
Quem nunca viu a sua mãe
14:24
entrar pelo quarto adentro
14:25
com o molho das revistas a perguntar
14:26
o que é isto, meu badalhoco?
14:29
Não tem de se preocupar.
14:31
Não.
14:32
Naquele tempo nós tínhamos mesmo
14:33
ter bons escondrinhos.
14:34
Proteger sem o material
14:35
que era da minha mãe,
14:36
quando encontrava ou deitava fora,
14:38
que era do meu pai,
14:39
que quando encontrava ficava com ela.
14:43
Não exercitarem o cérebro com isto,
14:45
com estes problemas,
14:46
é um dos desafios que a tecnologia vos coloca.
14:48
E que a minha geração evitou.
14:50
A tecnologia é tramada com estes desafios.
14:52
Por exemplo, vocês vão ser
14:54
a primeira geração que vai...
14:56
Não é a primeira,
14:57
vocês vão ser a geração
14:58
que vai colonizar Marte.
15:00
E que vão ser os primeiros
15:01
a aterrar no planeta,
15:02
com as vossas navos.
15:04
Vocês vão ter a responsabilidade
15:05
de decidir uma grande
15:07
questão existencial e civilizacional,
15:10
que é o estacionamento
15:12
em paralelo a Espinha.
15:15
E às vezes chega um descampado
15:16
onde se vai estacionar carros
15:18
e eu sou o primeiro e eu não sei.
15:19
Fiquem angustiados,
15:20
têm que esperar que pessoas cheguem.
15:21
E vocês têm este desafio.
15:23
É tramado.
15:25
É uma decisão que não pode ser
15:27
tomada de animo leve.
15:29
A vossa é a geração
15:30
que vai ter de viver com robôs.
15:32
É diga estante.
15:33
Às vezes,
15:34
eu vou mandar um e-mail
15:35
e o computador pergunta.
15:36
Esta mensagem não tem assunto.
15:38
Pretende mesmo assim enviá-la.
15:40
Portanto, está a chamar desinteressante.
15:43
E é um sarcasmo que moe.
15:46
Às vezes liga o telemóvel
15:48
e ele pergunta.
15:49
Confiar neste computador?
15:51
A primeira vez tudo bem.
15:53
Não se conhece de lado nenhum, ok?
16:02
É o computador.
16:03
Ele gosta comigo, mas tudo bem.
16:04
Eu confio.
16:05
Agora, o telemóvel continua a perguntar
16:07
à segunda, terceira, quarta e,
16:08
a partir da quinta,
16:09
eu começo a ficar inseguro.
16:10
O que é que o telemóvel sabe sobre o computador?
16:15
Tanto isto para vocês
16:16
vai ser angustiante.
16:17
Vai ser vezes mil.
16:19
Imaginem quando vocês forem mais velhos.
16:21
Bom, tenho que capturar
16:22
uma data de eletrodomésticas impertinentes.
16:25
Não é inteligência artificial.
16:26
É xíquise particeis artificial.
16:28
O frigorífico
16:29
quando se tira um quadradinho de tomate...
16:31
de tomate, não.
16:33
Quadradinho de chocolate
16:34
diz,
16:35
já é o quinto hoje.
16:38
Mas valia levar logo a tablette.
16:43
Eu não me imagino viver com isso.
16:44
Boa sorte.
16:46
A vossa geração
16:47
é permanentemente vigiada.
16:48
Nada fica por registar.
16:49
Por exemplo,
16:50
com a minha primeira filha
16:51
ainda não tinha noção,
16:52
mas com este bebê,
16:53
porque agora tenho um filho de um mês,
16:54
eu já não me deixo enganar.
16:55
Agora filme todo e qualquer birra
16:57
que ele faça.
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Porque daqui a sete anos,
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quando não me via pedir dinheiro
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para cromos,
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eu mostro o vídeo e digo,
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não dou.
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Não dou,
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porque no dia 10 de novembro de 2018
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já tenhas mamado,
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já tenhas arrotado,
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já tenhas feito cocó,
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já tenhas fralo de nova
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e mesmo assim não me deixaste dormir.
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Peramado.
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Ui,
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que outro passeio o tempo,
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desculpa.
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Por um lado não vos inveja,
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a modernidade assusta um bocadinho.
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Por outro, inveja.
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Modernidade parece excitante.
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Só se tornará borrecida
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para os vossos filhos.
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Mas isso vai ser a batalha
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do vosso próximo Conflito de Gerações.
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Boa sorte e obrigado.
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Aplausos.