3 Milhões de Nós
0:00 Olá, três milhões de nós, eu sou a Rita e venho falar-vos de como há um ano e pouco
0:15 virei a minha vida do avesso.
0:19 Esta fotografia foi tirada em maio de 2019 e foram as minhas primeiras férias depois
0:28 da minha mãe ter morrido com um cancro em 2018, dia 30 de agosto de 2018.
0:35 Lembro-me bem de estar dentro deste barco e de ter sentido que a vida que estava a viver
0:42 não era a minha vida e de repente com a morte da minha mãe eu já não sabia quem era eu,
0:50 estava triste, esgotada, a tentar fazer o meu melhor para navegar as águas do luto.
0:58 Tinha voltado a trabalhar muito rapidamente depois dela ter morrido, o que foi bom, foi
1:02 bom para me ocupar, mas eu precisava de tempo para perceber quem é que era a Rita agora,
1:10 quem era a Rita que costumava ser a Rita, onde é que estava a minha alegria, onde é
1:14 que estava o meu entusiasmo.
1:16 Então foi um momento muito forte de tomada de consciência.
1:21 Então no fim desse ano, depois dessa viagem, voltei e passado uns meses decidi pedir uma
1:27 licença sem vencimento na empresa onde eu trabalhava.
1:30 Felizmente deram-me e eu sentia que estava num comboio a alta velocidade e a única maneira
1:37 de parar era saltar.
1:40 E então saltei e fui para um sítio que me lembrava vida e me lembrava tempos felizes.
1:48 Eu tinha estudado Ciências da Comunicação e tinha vivido um semestre em Roma.
1:54 Então decidi vou para Roma e lá fui eu para Roma, muito frágil, muito triste, muito em
2:00 baixa forma, com muito pouca esperança em relação ao futuro.
2:05 A chorar muito, já tinha chorado muito até esse momento e ainda chorei muito depois desse
2:11 momento.
2:12 Então lá fui eu para Roma e lembrem-se comigo o que é que aconteceu no início de 2020
2:20 e 2021, desculpem, não ouço, desculpem, a pandemia.
2:27 Então estava eu na minha licença sem vencimento, que foi um esforço para pedir, um esforço
2:32 para tirar e cai uma pandemia e o mundo está todo a abrandar comigo, instala-se o caos
2:37 em Itália, eu fico confinada em casa e a minha licença acabou por não ser nada do
2:43 que eu tinha imaginado.
2:44 E então volto para Portugal, era para ter ido ao evento internacional da Economia de
2:51 Francisco que acercou o Papa em Assis, também em março desse ano, foi tudo adiado, tudo
2:56 mudou, deu a volta total e então voltei para Portugal.
3:01 Fui para Portugal, voltei a trabalhar, continuei a fazer um caminho, a ser acompanhada, a tentar
3:06 fazer o luto, comecei a recuperar e fui tendo esta sensação, eu tenho que fazer uma escolha,
3:14 porque ou eu vou viver a minha vida toda a partir deste túmulo e disto que me aconteceu
3:20 e de ter perdido a minha mãe tão cedo e tão contra o que nós desejávamos e queríamos,
3:27 é a sensação de que a vida de alguém nos escorre pelas mãos e nós queremos imenso
3:31 agarrar, mas não podemos agarrar e a pessoa parte.
3:36 Ou eu ficava a viver o resto da vida a partir desse túmulo e era justo, é a minha mãe
3:42 que faz-me falta, eu estava triste, tenho saudades dela, os meus irmãos também, o
3:47 meu pai também.
3:48 Ou eu escolhia viver a partir da vida, eu levantava-me, saía do túmulo e ia continuar
3:54 a descobrir a vida, o mundo e a fazer o meu caminho.
3:59 Fui sentindo essa escolha a crescer dentro de mim, ao mesmo tempo na economia de Francisco
4:05 íamos falando nesta mudança de vida, numa economia diferente, num mundo mais sustentável,
4:11 mais humano e inclusivo.
4:12 Eu sempre fui inquieta, sempre achei que não ia estar muito tempo na mesma empresa
4:16 ou no mesmo desafio que tinha que mudar, que não podia ficar eternamente na mesma função,
4:21 que não podia agarrar as coisas, portanto, também tinha aqui muitos processos a correr
4:25 e a dada altura, em 2021, venho de três semanas de férias, porque estava muito mais cuidadosa
4:31 com o meu tempo de descanso, volto ao trabalho e no primeiro dia de regresso ao trabalho
4:35 senti um vazio, uma sensação de falta, eu sou muito entusiasta normalmente e senti uma
4:46 falta de energia e de entusiasmo e pensei, isto já não pode ter só a ver com a morte
4:52 da minha mãe, isto já não é só o luto, isto é qualquer coisa que o meu corpo me
4:57 está a dizer e eu tenho que ouvir.
5:00 E então pensei, não, eu já vinha a pensar em mudar, já tinha estado em duas missões
5:06 com refugiados, depois disso também tinha mudado, estava sempre a tentar estar atenta
5:11 aos sinais, fui fazer um retiro e disse adeus.
5:14 Bom, companheiro, aqui estou, eu preciso de uma resposta, por favor, dá-me um sinal,
5:20 eu não sequer sei o que é que vou fazer a seguir, nem sei se quer fazer alguma coisa,
5:24 mas eu preciso que me ajudes a tomar esta decisão.
5:27 Fui para este retiro, olhem, e tive a certeza que quando saísse dele era para ir apresentar
5:33 a minha demissão.
5:34 Apresentei a minha demissão, mal saí desse retiro e senti que Deus me dizia, Rita, levanta-te
5:43 e vem.
5:44 E eu pensava, mas nós não sabemos o que é que vem aí, e ele dizia cá dentro, levanta-te
5:50 e vem.
5:51 E eu levantei-me e fui.
5:53 Janeiro de 2022, sem casa, tinha deixado a minha casa, onde vivia sozinha, tinha voltado
6:00 para a casa dos meus pais depois da morte da minha mãe, sem trabalho, sem projetos,
6:06 sem saber o que ia fazer a seguir, quer dizer, eu sempre achei que se saísse de um emprego,
6:11 ia logo para outro desafio e sabia para onde ia.
6:14 Sem namorado, tinha terminado uma relação muito importante nessa mesma altura, portanto
6:18 eu olhei para a minha vida, olhei para as minhas mãos e era como se fosse esta terra,
6:22 não tinha nada.
6:23 Eu pensei, mas o que é que aconteceu aqui, que eu só vejo perdas, só vejo mortes, tinha
6:31 morrido também a mãe da minha mãe, a minha avó, depois de morrer a minha mãe, enfim,
6:36 foi assim, foi muito duro, eu sentia-me muito pequenina e sentia que não tinha mesmo nada
6:42 nas mãos.
6:43 Como é que eu, a Rita, que achava que era esforçada, que tinha feito um percurso, agora
6:50 estava aqui neste momento da minha vida e o que é que isto dava de imagem aos outros?
6:54 Sempre esta luta com a nossa imagem, o que é que as pessoas iam pensar?
6:59 Bom, mas eu fiz uma promessa a mim mesma quando me despedi.
7:03 Foi tão difícil, depois da morte da minha mãe, passei as noites e os dias mais difíceis
7:10 da minha vida, mais escuras, mais sem sentido, mais sem esperança, já tinha conhecido tanta
7:16 sombra que prometi a mim mesma.
7:18 O que fizermos agora vai ser pelo entusiasmo, pela alegria, cada passo vai ser porque me
7:25 vai fazer sentido, porque é o momento certo.
7:29 Então fui viver para o campo, pensava que ia para a América Latina, dançar, e fui
7:35 para o Orém, o meu passaporte levou-me para o Orém, e fui descansar, que era o que eu
7:41 precisava porque a realidade é sempre maior do que as ideias.
7:44 E fui para a Casa Velha, que é um sítio especial, é um lugar de família, é uma
7:49 quinta, é terra, e esta imagem marcou-me muito, porque diz muito do que eu sentia
7:54 que era a minha vida, um campo lavrado, onde nós olhamos, não vemos nada, quem é que
8:00 consegue dizer o que é que vai aqui nascer?
8:02 Acho que ninguém.
8:03 E descalcei-me, e eu ali era pelo que sou, não era a Rita que tinha trabalhado aqui,
8:11 ali tinha feito isto, disseram-me, Rita, larga a agenda, e eu, ok, eu vou deixar ela de lado,
8:17 não, larga mesmo, Rita.
8:19 Eu larguei a minha agenda e disse, ok, eu vou largar a agenda, vai ser difícil, mas
8:23 eu vou largar.
8:24 E aqui estava eu, olhem, eu detesto, ou detestava pés, e os meus, e agora até mostra mil
8:33 e quinhentas pessoas os meus pés, porque aprendi a gostar deles, nunca me descalcei
8:38 tanto na vida neste ano sabático que passou, nunca olhei tanto para o céu, nunca reparei
8:45 tanto em tantas cores, nunca toquei tanto as árvores, a natureza, falei com muita gente,
8:51 tive muitos encontros, muitas conversas de qualidade, senti o sol, senti o frio, e o
8:58 que descobri na Casa Velha foi, eu tinha um lugar à mesa, e era mais do que, eu, Rita,
9:06 era mais do que qualquer coisa que eu fizesse ou tivesse feito, eu era pelo que sou, pelo
9:10 meu coração, pela minha história de vida, pela minha alma, pelos meus sonhos, pelas
9:15 minhas ideias, pelos meus defeitos, pelas minhas teimosias, e ali estava eu com aquelas
9:20 pessoas amada, acolhida e recebida, e nós somos todos mais do que aquilo que fazemos,
9:26 mais do que aquilo que estudamos, somos também isso, mas também somos mais, e às vezes
9:30 parece no mundo que vivemos que temos que dar sempre assim uma ideia de um feed, de
9:35 um feed espetacular com imensa coisa relevante, e eu aqui tirei o ano para me encontrar com
9:42 a minha sombra, para me encontrar comigo, para encarnar, para ser eu no meu corpo, eu
9:49 tive a sensação, quando cheguei à Casa Velha, que Deus estava à minha espera, como
9:54 se tivesse ali uma figura sentada, de género, Rita, finalmente, e ao mesmo tempo senti que
10:02 o meu corpo encontrava a minha alma, ou a minha alma encontrava o meu corpo, tínhamos
10:06 andado, sei lá, desaustinados, perdidos, e portanto aterrei, aterrei, tirei muitas
10:14 fotografias à minha sombra, como podem ver, lutei muito com a minha imagem também, com
10:19 estas ideias, e procurei libertar-me disto tudo e ser quem sou, e levantar a cabeça,
10:24 olhar, olhar o céu, quantas vezes estamos sempre a olhar para baixo, sempre neste movimento,
10:30 olhar para um computador, olhar para um telemóvel, olhar para uma televisão, olhar para o mundo
10:34 a que eu pertenço, olhar com os nossos olhos, olhar com os nossos ouvidos, tocar com as
10:39 nossas mãos, e sentir, deixar passar pelo coração, porque senão olhar não serve
10:46 de nada, senão passa pelo coração, para termos uma sensação, e a natureza de facto
10:51 desafia-nos, desafia as nossas lógicas produtivas, de eficiência, a natureza é frágil, é
10:58 brutal, é bela, o que parece que tinha acabado e estava destruído, recomeça, um bocado
11:04 de terra, que estamos o inverno todo a olhar para ela, não cresce ali nada, de repente
11:07 é primavera e nasceram cereais, ou nasceu uma árvore, ou nasceram flores, e na casa
11:14 velha aprendi a esperar, aprendi a ser, aprendi a agradecer, todo este meu ano sabático,
11:21 toda esta paragem, tem sido uma oportunidade para perceber, na minha vida, o mundo que
11:28 eu também quero construir cá fora, no meu mundo interior, aquilo que eu agora fizer
11:34 profissionalmente, os projetos que sejam reflexo daquilo que eu agora sinto que sou,
11:40 esta Rita, com esta idade, com esta história toda, com estas dores, com estas tristezas,
11:46 com estas alegrias, porque de facto podemos sempre recomeçar, há sempre luz, mesmo quando
11:53 achamos que já não vai haver esperança, eu nunca pensei que fosse possível estar
11:57 aqui a falar para mil e quinhentas pessoas e dizer que tenho esperança, tenho esperança,
12:03 tenho alegria, sou feliz e acho que a vida é diferente sem a minha mãe, não é melhor,
12:10 mas também não é pior, é diferente, mas ainda há riqueza, ainda há vida e ainda
12:15 há caminho.
12:16 Não olhem, não há agendas perfeitas, não há ritmos perfeitos, nem eu vim cá hoje
12:23 falar disso, o que há é a nossa atenção, é nós pormos a caminho e querermos saber
12:30 quem somos.
12:32 Hoje já não tenho medo de ter muitas perguntas e não tenho medo de não saber onde vou
12:36 estar daqui a seis meses, tenho medo é se me sentir muito confortável ou se achar que
12:41 tenho todas as respostas.
12:43 E se voltarmos à pergunta do início e deste painel, e agora, com quem é que somos?
12:49 Somos todos juntos, estas são as minhas chevirinhas, somos todos juntos porque todos precisamos
12:54 uns dos outros, é na relação que nós crescemos, é na relação que nós nos transformamos
12:59 e por isso importa cuidar do ritmo connosco e com os outros.
13:04 E o que eu queria mesmo hoje aqui dizer é que a vida é bela e nós fomos feitos para
13:11 a vida abundante, para sermos alegres, para sermos felizes e para sermos livres.
13:17 Obrigada.

Diversidade de Ritmos - Rita Sacramento Monteiro

Descrição

A palestra de Rita Sacramento Monteiro é uma viagem inspiradora pela resiliência e autodescoberta após a perda de um ente querido. Com um testemunho honesto e tocante, Rita partilha a sua transformação ao escolher viver a vida em vez de permanecer presa ao luto, desafiando todos a abraçar a beleza da vida.

Resumo

Rita Sacramento Monteiro inicia a sua palestra com a descrição do momento em que a sua vida mudou radicalmente após a morte da sua mãe. Este acontecimento profundo e doloroso fez com que ela questionasse a sua identidade e o seu caminho, levando-a a um estado de tristeza e confusão. A sua decisão de fazer uma licença do trabalho foi um passo importante na busca por se reencontrar e redescobrir a alegria que sentia que tinha perdido. Ao optar por ir para Roma, esperava um recomeço, mas a pandemia trouxe-lhe novos desafios, confinando-a em casa e transformando o que deveria ser um ano de descoberta numa fase de adaptação e luta interna.

Ao voltar para Portugal, Rita encontrou-se a fazer uma escolha crucial: viver a partir do luto ou escolher a vida. A sua escolha de reerguer-se e descobrir novos caminhos culminou na decisão de apresentar a sua demissão, um momento de grande coragem que definiu o seu novo percurso. A busca por um propósito genuíno levou-a a um ano sabático na Casa Velha, onde aprendeu a viver no presente, a libertar-se de expectativas externas e a encontrar valor na simplicidade do ser. A conexão com a natureza e a partilha com outros igualmente em busca de significado foram fundamentais para a sua transformação.

Rita conclui a sua palestra reafirmando que a vida é uma oportunidade de crescimento e beleza, mesmo após a perda. A sua história é um testemunho da força que todos temos para recomeçar e a importância das relações humanas na nossa evolução. Ao expressar que a vida é feita para ser abundante, alegre e livre, Rita inspira todos a cuidarem dos seus ritmos interiores e a valorizarem as conexões que nos unem.

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