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Olá, três milhões de nós, eu sou a Rita e venho falar-vos de como há um ano e pouco
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virei a minha vida do avesso.
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Esta fotografia foi tirada em maio de 2019 e foram as minhas primeiras férias depois
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da minha mãe ter morrido com um cancro em 2018, dia 30 de agosto de 2018.
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Lembro-me bem de estar dentro deste barco e de ter sentido que a vida que estava a viver
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não era a minha vida e de repente com a morte da minha mãe eu já não sabia quem era eu,
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estava triste, esgotada, a tentar fazer o meu melhor para navegar as águas do luto.
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Tinha voltado a trabalhar muito rapidamente depois dela ter morrido, o que foi bom, foi
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bom para me ocupar, mas eu precisava de tempo para perceber quem é que era a Rita agora,
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quem era a Rita que costumava ser a Rita, onde é que estava a minha alegria, onde é
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que estava o meu entusiasmo.
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Então foi um momento muito forte de tomada de consciência.
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Então no fim desse ano, depois dessa viagem, voltei e passado uns meses decidi pedir uma
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licença sem vencimento na empresa onde eu trabalhava.
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Felizmente deram-me e eu sentia que estava num comboio a alta velocidade e a única maneira
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de parar era saltar.
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E então saltei e fui para um sítio que me lembrava vida e me lembrava tempos felizes.
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Eu tinha estudado Ciências da Comunicação e tinha vivido um semestre em Roma.
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Então decidi vou para Roma e lá fui eu para Roma, muito frágil, muito triste, muito em
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baixa forma, com muito pouca esperança em relação ao futuro.
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A chorar muito, já tinha chorado muito até esse momento e ainda chorei muito depois desse
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momento.
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Então lá fui eu para Roma e lembrem-se comigo o que é que aconteceu no início de 2020
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e 2021, desculpem, não ouço, desculpem, a pandemia.
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Então estava eu na minha licença sem vencimento, que foi um esforço para pedir, um esforço
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para tirar e cai uma pandemia e o mundo está todo a abrandar comigo, instala-se o caos
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em Itália, eu fico confinada em casa e a minha licença acabou por não ser nada do
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que eu tinha imaginado.
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E então volto para Portugal, era para ter ido ao evento internacional da Economia de
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Francisco que acercou o Papa em Assis, também em março desse ano, foi tudo adiado, tudo
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mudou, deu a volta total e então voltei para Portugal.
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Fui para Portugal, voltei a trabalhar, continuei a fazer um caminho, a ser acompanhada, a tentar
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fazer o luto, comecei a recuperar e fui tendo esta sensação, eu tenho que fazer uma escolha,
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porque ou eu vou viver a minha vida toda a partir deste túmulo e disto que me aconteceu
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e de ter perdido a minha mãe tão cedo e tão contra o que nós desejávamos e queríamos,
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é a sensação de que a vida de alguém nos escorre pelas mãos e nós queremos imenso
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agarrar, mas não podemos agarrar e a pessoa parte.
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Ou eu ficava a viver o resto da vida a partir desse túmulo e era justo, é a minha mãe
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que faz-me falta, eu estava triste, tenho saudades dela, os meus irmãos também, o
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meu pai também.
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Ou eu escolhia viver a partir da vida, eu levantava-me, saía do túmulo e ia continuar
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a descobrir a vida, o mundo e a fazer o meu caminho.
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Fui sentindo essa escolha a crescer dentro de mim, ao mesmo tempo na economia de Francisco
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íamos falando nesta mudança de vida, numa economia diferente, num mundo mais sustentável,
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mais humano e inclusivo.
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Eu sempre fui inquieta, sempre achei que não ia estar muito tempo na mesma empresa
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ou no mesmo desafio que tinha que mudar, que não podia ficar eternamente na mesma função,
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que não podia agarrar as coisas, portanto, também tinha aqui muitos processos a correr
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e a dada altura, em 2021, venho de três semanas de férias, porque estava muito mais cuidadosa
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com o meu tempo de descanso, volto ao trabalho e no primeiro dia de regresso ao trabalho
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senti um vazio, uma sensação de falta, eu sou muito entusiasta normalmente e senti uma
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falta de energia e de entusiasmo e pensei, isto já não pode ter só a ver com a morte
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da minha mãe, isto já não é só o luto, isto é qualquer coisa que o meu corpo me
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está a dizer e eu tenho que ouvir.
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E então pensei, não, eu já vinha a pensar em mudar, já tinha estado em duas missões
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com refugiados, depois disso também tinha mudado, estava sempre a tentar estar atenta
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aos sinais, fui fazer um retiro e disse adeus.
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Bom, companheiro, aqui estou, eu preciso de uma resposta, por favor, dá-me um sinal,
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eu não sequer sei o que é que vou fazer a seguir, nem sei se quer fazer alguma coisa,
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mas eu preciso que me ajudes a tomar esta decisão.
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Fui para este retiro, olhem, e tive a certeza que quando saísse dele era para ir apresentar
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a minha demissão.
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Apresentei a minha demissão, mal saí desse retiro e senti que Deus me dizia, Rita, levanta-te
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e vem.
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E eu pensava, mas nós não sabemos o que é que vem aí, e ele dizia cá dentro, levanta-te
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e vem.
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E eu levantei-me e fui.
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Janeiro de 2022, sem casa, tinha deixado a minha casa, onde vivia sozinha, tinha voltado
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para a casa dos meus pais depois da morte da minha mãe, sem trabalho, sem projetos,
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sem saber o que ia fazer a seguir, quer dizer, eu sempre achei que se saísse de um emprego,
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ia logo para outro desafio e sabia para onde ia.
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Sem namorado, tinha terminado uma relação muito importante nessa mesma altura, portanto
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eu olhei para a minha vida, olhei para as minhas mãos e era como se fosse esta terra,
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não tinha nada.
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Eu pensei, mas o que é que aconteceu aqui, que eu só vejo perdas, só vejo mortes, tinha
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morrido também a mãe da minha mãe, a minha avó, depois de morrer a minha mãe, enfim,
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foi assim, foi muito duro, eu sentia-me muito pequenina e sentia que não tinha mesmo nada
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nas mãos.
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Como é que eu, a Rita, que achava que era esforçada, que tinha feito um percurso, agora
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estava aqui neste momento da minha vida e o que é que isto dava de imagem aos outros?
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Sempre esta luta com a nossa imagem, o que é que as pessoas iam pensar?
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Bom, mas eu fiz uma promessa a mim mesma quando me despedi.
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Foi tão difícil, depois da morte da minha mãe, passei as noites e os dias mais difíceis
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da minha vida, mais escuras, mais sem sentido, mais sem esperança, já tinha conhecido tanta
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sombra que prometi a mim mesma.
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O que fizermos agora vai ser pelo entusiasmo, pela alegria, cada passo vai ser porque me
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vai fazer sentido, porque é o momento certo.
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Então fui viver para o campo, pensava que ia para a América Latina, dançar, e fui
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para o Orém, o meu passaporte levou-me para o Orém, e fui descansar, que era o que eu
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precisava porque a realidade é sempre maior do que as ideias.
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E fui para a Casa Velha, que é um sítio especial, é um lugar de família, é uma
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quinta, é terra, e esta imagem marcou-me muito, porque diz muito do que eu sentia
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que era a minha vida, um campo lavrado, onde nós olhamos, não vemos nada, quem é que
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consegue dizer o que é que vai aqui nascer?
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Acho que ninguém.
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E descalcei-me, e eu ali era pelo que sou, não era a Rita que tinha trabalhado aqui,
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ali tinha feito isto, disseram-me, Rita, larga a agenda, e eu, ok, eu vou deixar ela de lado,
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não, larga mesmo, Rita.
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Eu larguei a minha agenda e disse, ok, eu vou largar a agenda, vai ser difícil, mas
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eu vou largar.
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E aqui estava eu, olhem, eu detesto, ou detestava pés, e os meus, e agora até mostra mil
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e quinhentas pessoas os meus pés, porque aprendi a gostar deles, nunca me descalcei
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tanto na vida neste ano sabático que passou, nunca olhei tanto para o céu, nunca reparei
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tanto em tantas cores, nunca toquei tanto as árvores, a natureza, falei com muita gente,
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tive muitos encontros, muitas conversas de qualidade, senti o sol, senti o frio, e o
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que descobri na Casa Velha foi, eu tinha um lugar à mesa, e era mais do que, eu, Rita,
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era mais do que qualquer coisa que eu fizesse ou tivesse feito, eu era pelo que sou, pelo
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meu coração, pela minha história de vida, pela minha alma, pelos meus sonhos, pelas
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minhas ideias, pelos meus defeitos, pelas minhas teimosias, e ali estava eu com aquelas
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pessoas amada, acolhida e recebida, e nós somos todos mais do que aquilo que fazemos,
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mais do que aquilo que estudamos, somos também isso, mas também somos mais, e às vezes
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parece no mundo que vivemos que temos que dar sempre assim uma ideia de um feed, de
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um feed espetacular com imensa coisa relevante, e eu aqui tirei o ano para me encontrar com
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a minha sombra, para me encontrar comigo, para encarnar, para ser eu no meu corpo, eu
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tive a sensação, quando cheguei à Casa Velha, que Deus estava à minha espera, como
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se tivesse ali uma figura sentada, de género, Rita, finalmente, e ao mesmo tempo senti que
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o meu corpo encontrava a minha alma, ou a minha alma encontrava o meu corpo, tínhamos
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andado, sei lá, desaustinados, perdidos, e portanto aterrei, aterrei, tirei muitas
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fotografias à minha sombra, como podem ver, lutei muito com a minha imagem também, com
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estas ideias, e procurei libertar-me disto tudo e ser quem sou, e levantar a cabeça,
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olhar, olhar o céu, quantas vezes estamos sempre a olhar para baixo, sempre neste movimento,
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olhar para um computador, olhar para um telemóvel, olhar para uma televisão, olhar para o mundo
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a que eu pertenço, olhar com os nossos olhos, olhar com os nossos ouvidos, tocar com as
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nossas mãos, e sentir, deixar passar pelo coração, porque senão olhar não serve
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de nada, senão passa pelo coração, para termos uma sensação, e a natureza de facto
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desafia-nos, desafia as nossas lógicas produtivas, de eficiência, a natureza é frágil, é
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brutal, é bela, o que parece que tinha acabado e estava destruído, recomeça, um bocado
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de terra, que estamos o inverno todo a olhar para ela, não cresce ali nada, de repente
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é primavera e nasceram cereais, ou nasceu uma árvore, ou nasceram flores, e na casa
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velha aprendi a esperar, aprendi a ser, aprendi a agradecer, todo este meu ano sabático,
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toda esta paragem, tem sido uma oportunidade para perceber, na minha vida, o mundo que
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eu também quero construir cá fora, no meu mundo interior, aquilo que eu agora fizer
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profissionalmente, os projetos que sejam reflexo daquilo que eu agora sinto que sou,
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esta Rita, com esta idade, com esta história toda, com estas dores, com estas tristezas,
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com estas alegrias, porque de facto podemos sempre recomeçar, há sempre luz, mesmo quando
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achamos que já não vai haver esperança, eu nunca pensei que fosse possível estar
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aqui a falar para mil e quinhentas pessoas e dizer que tenho esperança, tenho esperança,
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tenho alegria, sou feliz e acho que a vida é diferente sem a minha mãe, não é melhor,
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mas também não é pior, é diferente, mas ainda há riqueza, ainda há vida e ainda
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há caminho.
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Não olhem, não há agendas perfeitas, não há ritmos perfeitos, nem eu vim cá hoje
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falar disso, o que há é a nossa atenção, é nós pormos a caminho e querermos saber
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quem somos.
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Hoje já não tenho medo de ter muitas perguntas e não tenho medo de não saber onde vou
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estar daqui a seis meses, tenho medo é se me sentir muito confortável ou se achar que
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tenho todas as respostas.
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E se voltarmos à pergunta do início e deste painel, e agora, com quem é que somos?
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Somos todos juntos, estas são as minhas chevirinhas, somos todos juntos porque todos precisamos
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uns dos outros, é na relação que nós crescemos, é na relação que nós nos transformamos
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e por isso importa cuidar do ritmo connosco e com os outros.
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E o que eu queria mesmo hoje aqui dizer é que a vida é bela e nós fomos feitos para
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a vida abundante, para sermos alegres, para sermos felizes e para sermos livres.
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Obrigada.