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Meu Deus!
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Então vou aqui começar por me apresentar, sou a Margarida e decidi começar este bloco
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por apresentar-me a partir de uma das minhas dimensões da diversidade.
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Alguns sabem, outros não, mas os meus pais nasceram em Goa, vieram para cá, para Portugal
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e eu acabei por nascer cá.
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Apesar de sempre cá ter nascido, logo quando entrei para a escola, apercebi-me que tinha
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uma cor e uma fisionomia diferente dos outros colegas de escola.
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E então foi o primeiro momento em que eu senti a diferença no meu corpo e na minha
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pele.
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Nessa altura, que já foi há uma catrafada de anos, as escolas não eram tão diversas
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e portanto não havia tanto contato com pessoas diferentes.
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Portanto, quando alguém aparecia diferente era notado.
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Depois já havia meninos um bocadinho maus nessa altura também e às vezes tratavam-me
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a minha irmã, olha a preta, olha a moinhé.
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E tudo isso foram marcas que me fizeram pensar que era difícil gostar de mim, porque muitas
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vezes me senti olhada e mal na minha pele.
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Pensava que não gostavam de mim, à partida não deviam gostar e então quando me misturava
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a grupos novos ou queria fazer amigos, tinha medo de me mostrar e escondia-me muitas vezes.
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Hoje sinto que estou aqui e que estamos todos aqui por uma coisa que já foi falada pela
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Núria, que é que muitas pessoas lutam há anos pelos direitos humanos e isso é que
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nos permite ter o privilégio de estarmos todos aqui hoje a falar destes temas durante
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o dia inteiro.
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Há muitos países onde isso infelizmente não é possível e então quando me propuseram
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vir aqui eu pensei, eu tenho que agradecer a todas essas pessoas e também agradeço
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muito a todas as pessoas que passam e passaram pela minha vida e que me fizeram sentir amada
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em todas as dimensões e em tudo o que eu sou.
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Só assim é que eu consigo aqui estar hoje.
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Então como já perceberam, as diversidades tocam e as diferenças também.
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Hoje não venho falar da diversidade cultural, que vai ser falado e muito bem daqui à frente,
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mas sim da diversidade sexual.
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Mas o que eu venho mesmo hoje aqui falar é de identidade, ser quem somos e de capacidade
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de amar.
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As duas coisas, os afetos, todos somos seres afetos e temos esta capacidade de amar e todos
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temos uma identidade e uma construção.
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Então o que hoje me trouxe aqui foi mesmo uma frase que ficou gravada dentro de mim
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e que eu ouvi há cerca de dois anos.
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Às vezes penso que para ser amada pela minha família teria de deixar de amar.
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Às vezes penso que para ser amada pela minha família teria de deixar de amar.
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E convidava cada pessoa a fazer ecoar esta frase dentro de si.
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A Joana é lésbica e a Joana não tem 14 anos, não tem 16 nem 20 anos.
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A Joana tem 45 anos, está no meio da vida e não pode viver com as pessoas que mais
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ama, a sua família, uma dimensão essencial da sua vida, uma das suas dimensões.
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Então, o que é a diversidade sexual?
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A diversidade sexual é uma característica humana que existiu desde sempre.
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Só que ao longo do tempo e das diferentes culturas vai sendo abordada também de uma
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forma diferente e dinâmica.
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Se é verdade que há uns anos nós separávamos as coisas um bocadinho de uma forma dicotômica
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aos heterossexuais e aos homossexuais, hoje em dia, graças à evolução das ciências
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e também a uma consciência maior dos direitos humanos, é possível dar visibilidade a outras
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pertenças e identidades que estiveram muito tempo escondidas, sem nomeação e por isso
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não eram reconhecidas como existentes.
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Eu não me vou alongar a explicar todas estas dimensões, até porque eu devo à juventude
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tudo o que aprendi e o ter despertado para este tema.
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Foram as minhas filhas que me abriram a porta para este tema e, portanto, eu acho que vocês
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sabem muito mais do que eu sobre este tema, mas só vou tentar aqui sistematizar quatro
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dimensões da diversidade sexual.
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Então, temos o sexo biológico, que diz respeito aos órgãos genitais, aos cromossomas e às
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hormonas.
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Eu vou ser muito sintética, tá bem?
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Há de ter a ver com mais coisas, mas eu só vou sistematizar.
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A expressão de género, que tem a ver com a forma como nós nos expressamos, pode ter
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a ver desde a forma de vestir, ao corte de cabelo, à forma como falamos, à nossa aparência.
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A orientação sexual, que se refere ao género pelo qual nos podemos sentir atraídos ou
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não.
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E a identidade de género, que tem a ver com a forma como nós nos sentimos, porque nem
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sempre há uma congruência entre o sexo biológico e a forma como a pessoa se sente.
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Então, quando não há essa congruência, nós falamos em transgénero e quando há
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essa consonância, nós falamos em cisgénero.
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Quando a forma de nós nos sentirmos é diverge ou não do nosso sexo biológico que nos foi
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atribuído à nascença.
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Então, a diversidade sexual diz respeito às infinitas possibilidades de relação
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de todas estas dimensões e não querem mais do que abarcar a expressão da sexualidade
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de 8 mil milhões de pessoas, ou seja, a de cada um de nós.
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Então, o que é que nós fazemos com isto?
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E vocês dizem, epá Margarida, grande da confusão que vai para aqui.
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Então, quando nós temos uma diversidade assim tão grande, muitas vezes o que precisamos
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de fazer, e é a nossa tendência humana, é arrumar a realidade em caixinhas.
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Quando algo não é familiar ou são realidades que nós não conhecemos tão bem, nós criamos
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estereótipos, que são ideias simplificadas e generalizadas sobre um grupo de pessoas.
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A generalização, por um lado, dá-nos previsibilidade, nós achamos que ficamos a conhecer melhor
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essa realidade e, por outro lado, a diferença também nos assusta, desinstala, dá-nos desconfiança.
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Então, nós precisamos de organizar o que vemos.
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Então, a partir das nossas histórias, das nossas crenças, da educação que tivemos,
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nós arranjamos caixinhas onde dividimos as pessoas por cores, por raças, por comportamentos,
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juntando aqueles que nos parecem semelhantes, ainda que sejam numa única dimensão, porque
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nenhum de nós é feito numa única dimensão, mas muitas vezes é assim que nós arrumamos
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as pessoas.
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E então, falamos dos ciganos, falamos dos refugiados, falamos dos gays, das lésbicas,
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e muitas vezes, infelizmente, usamos uma linguagem depreciativa quando o fazemos.
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Talvez por isso, nem todas estas caixas, ou quase nenhuma, é muito bonita.
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Então, eu vou também tomar o meu lugar, porque eu também vivo numa caixa.
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E também temos aqui várias pessoas no seu.
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Então, quando eu percebo que a Maria gosta de raparigas, eu meto a Maria numa das minhas
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caixinhas mentais e a Maria passa a ser a lésbica do meu trabalho ou a lésbica da
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minha escola.
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Quando alguns rapazes ficam a saber que o João é gay, ele passa a estar numa caixinha
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e é melhor manter a distância do João.
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Não vai ele atirar-se a algum desses rapazes.
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E tocar, bem, tocar nem pensar.
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E a Inês, a transexual, o melhor é ficar bem fechadinha numa caixinha onde estejam
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todas as pessoas iguais a ela.
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Outra coisa curiosa, ou diria até assustadora, é o grau de exigência que nós colocamos
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naqueles que são diferentes de nós.
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Na forma de vestir, em coisas simples como a forma de vestir, já viste como é que ela
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vem, já viste aqueles saltos, ou já viste usar o batom.
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Até coisas mais corriqueiras, como, tu já viste, estão sempre a trocar de namorado.
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Tu já viste, anda sempre bêbada.
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Ou então, epa, se soubessem quem ela era, nunca lhe tinham dado a coordenação deste
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grupo.
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Como se tudo com estas pessoas fosse muito diferente daquilo que acontece conosco.
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E eu pergunto, porque é que estas pessoas precisam de provar constantemente que são
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boas pessoas?
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Enquanto filhos, enquanto colegas, enquanto cidadãos.
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Enquanto pessoas de fé.
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E se nós nos disponibilizássemos para conhecê-los um bocadinho melhor?
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E eu, ao tentar conhecer um bocadinho melhor, eu se calhar sou capaz de dar aqui um bocadinho,
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um passinho, não muito longínquo, mas aqui, já fora da minha caixa.
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Um estudo, aqui da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que é um estudo que foi feito
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muito abrangente toda a juventude, relativamente à orientação sexual, foi possível verificar
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que 85% dos jovens afirmavam-se heterossexuais e os restantes bissexuais, homossexuais e
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assexuais.
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Isso significa, se estiverem aqui mil jovens e se a população desta sala for representada
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como nós desejamos que seja, poderiam estar aqui 150 jovens com uma orientação sexual
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diferente da heterossexual.
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E então, nós não estamos a falar dos outros que estão lá fora e de nós que aqui estamos
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dentro.
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Nós estamos a falar de todos nós que estamos aqui dentro.
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Neste mesmo estudo, que foi realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, nós
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estamos a falar de todos nós que estamos aqui dentro.
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Neste mesmo estudo, quando se perguntou aos rapazes e às raparigas com que idade tomaram
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consciência da sua orientação sexual, os rapazes disseram por volta dos 14 e as raparigas
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por volta dos 15.
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No entanto, as raparigas demoram em média dois anos para revelar este dado à sua família
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e os rapazes quatro.
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Neste mesmo estudo, também se verificou que existem ainda 36% dos jovens que não têm
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coragem de revelar a sua orientação à sua família.
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É duro saber que a minha felicidade causa desilusão e constrangimento e é especialmente
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difícil o tempo de espera que o outro precisa de ter para digerir a minha verdade e acolher
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e amar-me como sou.
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Num outro estudo feito em escolas, nas escolas de Portugal, um dado que também é muito
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alarmante e é muito triste, 45% dos jovens das escolas, ou dos jovens LGBT, são vítimas
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de agressão na escola.
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Isto são agressões físicas, são furtos, são destruição de objetos, roubos, insultos,
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mentiras, boatos.
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Estas pessoas, muitas delas, crescem e desenvolvem-se num quadro de insulto.
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A maior parte de nós aprende desde muito cedo palavras insultuosas como paneleiro,
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chamaricas e, mais tarde, as pessoas heterossexuais, quando se apercebem da sua orientação, elas
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percebem-se também que elas são estes insultos, estas palavras.
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Portanto, o insulto dirigido a estas pessoas é particularmente forte porque incide no
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núcleo da sua identidade.
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Tal qual, como eu vos disse, que eu não me esqueço quando me chamavam preta ou monhé.
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É algo que marca a nossa história e aqui com uma gravidade ainda, muitas vezes, muito maior.
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Os armários matam, matam fazendo-te sentir culpada por viver uma vida dupla, de ser uma
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farsa, de enganar-te os teus amigos, os teus conhecidos, todos aos quais escondes o teu
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verdadeiro eu.
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E é por isso que, se realmente queremos salvar vidas, é essencial que cada um e uma possa
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viver a sua vida como ela é.
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Infelizmente, muitas destas pessoas não se podem apresentar como a maioria dos que estamos
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aqui, pelo menos não na totalidade.
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Em muitos contextos vivem disfarçadas ou escondidas, pelo menos em algumas partes de
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si.
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Não podem levar para a família, para a escola, para o trabalho, para os grupos, para as próprias
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comunidades de fé, tudo aquilo que são.
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Deixam à porta parte de si, porque essa parte não é bem-vinda.
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Achava que Deus amava todas as pessoas, mas se calhar a mim não tanto.
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Todos nós nos construímos pela diferença.
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É isso que permite construir uma identidade como ser único.
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Se todos fossem iguais a mim, eu não saberia quem era, nem vocês me reconheceriam a mim.
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No encontro com a diferença, eu enriqueço-me.
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Quando me sinto visto, eu consigo ser.
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O que me traz hoje aqui é acreditar que amar é deixar ser.
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Obrigada.