3 Milhões de Nós
0:00 Meu Deus!
0:13 Então vou aqui começar por me apresentar, sou a Margarida e decidi começar este bloco
0:18 por apresentar-me a partir de uma das minhas dimensões da diversidade.
0:25 Alguns sabem, outros não, mas os meus pais nasceram em Goa, vieram para cá, para Portugal
0:31 e eu acabei por nascer cá.
0:34 Apesar de sempre cá ter nascido, logo quando entrei para a escola, apercebi-me que tinha
0:41 uma cor e uma fisionomia diferente dos outros colegas de escola.
0:46 E então foi o primeiro momento em que eu senti a diferença no meu corpo e na minha
0:51 pele.
0:52 Nessa altura, que já foi há uma catrafada de anos, as escolas não eram tão diversas
1:00 e portanto não havia tanto contato com pessoas diferentes.
1:06 Portanto, quando alguém aparecia diferente era notado.
1:10 Depois já havia meninos um bocadinho maus nessa altura também e às vezes tratavam-me
1:15 a minha irmã, olha a preta, olha a moinhé.
1:19 E tudo isso foram marcas que me fizeram pensar que era difícil gostar de mim, porque muitas
1:28 vezes me senti olhada e mal na minha pele.
1:33 Pensava que não gostavam de mim, à partida não deviam gostar e então quando me misturava
1:38 a grupos novos ou queria fazer amigos, tinha medo de me mostrar e escondia-me muitas vezes.
1:48 Hoje sinto que estou aqui e que estamos todos aqui por uma coisa que já foi falada pela
1:53 Núria, que é que muitas pessoas lutam há anos pelos direitos humanos e isso é que
2:01 nos permite ter o privilégio de estarmos todos aqui hoje a falar destes temas durante
2:07 o dia inteiro.
2:08 Há muitos países onde isso infelizmente não é possível e então quando me propuseram
2:14 vir aqui eu pensei, eu tenho que agradecer a todas essas pessoas e também agradeço
2:19 muito a todas as pessoas que passam e passaram pela minha vida e que me fizeram sentir amada
2:26 em todas as dimensões e em tudo o que eu sou.
2:30 Só assim é que eu consigo aqui estar hoje.
2:34 Então como já perceberam, as diversidades tocam e as diferenças também.
2:41 Hoje não venho falar da diversidade cultural, que vai ser falado e muito bem daqui à frente,
2:46 mas sim da diversidade sexual.
2:51 Mas o que eu venho mesmo hoje aqui falar é de identidade, ser quem somos e de capacidade
2:59 de amar.
3:00 As duas coisas, os afetos, todos somos seres afetos e temos esta capacidade de amar e todos
3:08 temos uma identidade e uma construção.
3:10 Então o que hoje me trouxe aqui foi mesmo uma frase que ficou gravada dentro de mim
3:16 e que eu ouvi há cerca de dois anos.
3:28 Às vezes penso que para ser amada pela minha família teria de deixar de amar.
3:36 Às vezes penso que para ser amada pela minha família teria de deixar de amar.
3:42 E convidava cada pessoa a fazer ecoar esta frase dentro de si.
3:50 A Joana é lésbica e a Joana não tem 14 anos, não tem 16 nem 20 anos.
3:56 A Joana tem 45 anos, está no meio da vida e não pode viver com as pessoas que mais
4:04 ama, a sua família, uma dimensão essencial da sua vida, uma das suas dimensões.
4:14 Então, o que é a diversidade sexual?
4:16 A diversidade sexual é uma característica humana que existiu desde sempre.
4:22 Só que ao longo do tempo e das diferentes culturas vai sendo abordada também de uma
4:28 forma diferente e dinâmica.
4:31 Se é verdade que há uns anos nós separávamos as coisas um bocadinho de uma forma dicotômica
4:37 aos heterossexuais e aos homossexuais, hoje em dia, graças à evolução das ciências
4:44 e também a uma consciência maior dos direitos humanos, é possível dar visibilidade a outras
4:52 pertenças e identidades que estiveram muito tempo escondidas, sem nomeação e por isso
4:59 não eram reconhecidas como existentes.
5:02 Eu não me vou alongar a explicar todas estas dimensões, até porque eu devo à juventude
5:09 tudo o que aprendi e o ter despertado para este tema.
5:12 Foram as minhas filhas que me abriram a porta para este tema e, portanto, eu acho que vocês
5:18 sabem muito mais do que eu sobre este tema, mas só vou tentar aqui sistematizar quatro
5:26 dimensões da diversidade sexual.
5:32 Então, temos o sexo biológico, que diz respeito aos órgãos genitais, aos cromossomas e às
5:43 hormonas.
5:44 Eu vou ser muito sintética, tá bem?
5:46 Há de ter a ver com mais coisas, mas eu só vou sistematizar.
5:49 A expressão de género, que tem a ver com a forma como nós nos expressamos, pode ter
5:54 a ver desde a forma de vestir, ao corte de cabelo, à forma como falamos, à nossa aparência.
6:03 A orientação sexual, que se refere ao género pelo qual nos podemos sentir atraídos ou
6:13 não.
6:14 E a identidade de género, que tem a ver com a forma como nós nos sentimos, porque nem
6:20 sempre há uma congruência entre o sexo biológico e a forma como a pessoa se sente.
6:26 Então, quando não há essa congruência, nós falamos em transgénero e quando há
6:31 essa consonância, nós falamos em cisgénero.
6:35 Quando a forma de nós nos sentirmos é diverge ou não do nosso sexo biológico que nos foi
6:44 atribuído à nascença.
6:45 Então, a diversidade sexual diz respeito às infinitas possibilidades de relação
6:55 de todas estas dimensões e não querem mais do que abarcar a expressão da sexualidade
7:02 de 8 mil milhões de pessoas, ou seja, a de cada um de nós.
7:06 Então, o que é que nós fazemos com isto?
7:10 E vocês dizem, epá Margarida, grande da confusão que vai para aqui.
7:15 Então, quando nós temos uma diversidade assim tão grande, muitas vezes o que precisamos
7:20 de fazer, e é a nossa tendência humana, é arrumar a realidade em caixinhas.
7:29 Quando algo não é familiar ou são realidades que nós não conhecemos tão bem, nós criamos
7:35 estereótipos, que são ideias simplificadas e generalizadas sobre um grupo de pessoas.
7:41 A generalização, por um lado, dá-nos previsibilidade, nós achamos que ficamos a conhecer melhor
7:48 essa realidade e, por outro lado, a diferença também nos assusta, desinstala, dá-nos desconfiança.
7:56 Então, nós precisamos de organizar o que vemos.
7:59 Então, a partir das nossas histórias, das nossas crenças, da educação que tivemos,
8:05 nós arranjamos caixinhas onde dividimos as pessoas por cores, por raças, por comportamentos,
8:12 juntando aqueles que nos parecem semelhantes, ainda que sejam numa única dimensão, porque
8:18 nenhum de nós é feito numa única dimensão, mas muitas vezes é assim que nós arrumamos
8:23 as pessoas.
8:24 E então, falamos dos ciganos, falamos dos refugiados, falamos dos gays, das lésbicas,
8:32 e muitas vezes, infelizmente, usamos uma linguagem depreciativa quando o fazemos.
8:38 Talvez por isso, nem todas estas caixas, ou quase nenhuma, é muito bonita.
8:44 Então, eu vou também tomar o meu lugar, porque eu também vivo numa caixa.
8:53 E também temos aqui várias pessoas no seu.
8:57 Então, quando eu percebo que a Maria gosta de raparigas, eu meto a Maria numa das minhas
9:04 caixinhas mentais e a Maria passa a ser a lésbica do meu trabalho ou a lésbica da
9:11 minha escola.
9:13 Quando alguns rapazes ficam a saber que o João é gay, ele passa a estar numa caixinha
9:19 e é melhor manter a distância do João.
9:22 Não vai ele atirar-se a algum desses rapazes.
9:27 E tocar, bem, tocar nem pensar.
9:31 E a Inês, a transexual, o melhor é ficar bem fechadinha numa caixinha onde estejam
9:39 todas as pessoas iguais a ela.
9:42 Outra coisa curiosa, ou diria até assustadora, é o grau de exigência que nós colocamos
9:49 naqueles que são diferentes de nós.
9:52 Na forma de vestir, em coisas simples como a forma de vestir, já viste como é que ela
9:57 vem, já viste aqueles saltos, ou já viste usar o batom.
10:01 Até coisas mais corriqueiras, como, tu já viste, estão sempre a trocar de namorado.
10:07 Tu já viste, anda sempre bêbada.
10:09 Ou então, epa, se soubessem quem ela era, nunca lhe tinham dado a coordenação deste
10:14 grupo.
10:17 Como se tudo com estas pessoas fosse muito diferente daquilo que acontece conosco.
10:23 E eu pergunto, porque é que estas pessoas precisam de provar constantemente que são
10:27 boas pessoas?
10:29 Enquanto filhos, enquanto colegas, enquanto cidadãos.
10:32 Enquanto pessoas de fé.
10:34 E se nós nos disponibilizássemos para conhecê-los um bocadinho melhor?
10:38 E eu, ao tentar conhecer um bocadinho melhor, eu se calhar sou capaz de dar aqui um bocadinho,
10:44 um passinho, não muito longínquo, mas aqui, já fora da minha caixa.
10:51 Um estudo, aqui da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que é um estudo que foi feito
10:59 muito abrangente toda a juventude, relativamente à orientação sexual, foi possível verificar
11:05 que 85% dos jovens afirmavam-se heterossexuais e os restantes bissexuais, homossexuais e
11:13 assexuais.
11:15 Isso significa, se estiverem aqui mil jovens e se a população desta sala for representada
11:21 como nós desejamos que seja, poderiam estar aqui 150 jovens com uma orientação sexual
11:27 diferente da heterossexual.
11:30 E então, nós não estamos a falar dos outros que estão lá fora e de nós que aqui estamos
11:35 dentro.
11:36 Nós estamos a falar de todos nós que estamos aqui dentro.
11:41 Neste mesmo estudo, que foi realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, nós
11:46 estamos a falar de todos nós que estamos aqui dentro.
11:50 Neste mesmo estudo, quando se perguntou aos rapazes e às raparigas com que idade tomaram
11:57 consciência da sua orientação sexual, os rapazes disseram por volta dos 14 e as raparigas
12:04 por volta dos 15.
12:07 No entanto, as raparigas demoram em média dois anos para revelar este dado à sua família
12:12 e os rapazes quatro.
12:15 Neste mesmo estudo, também se verificou que existem ainda 36% dos jovens que não têm
12:21 coragem de revelar a sua orientação à sua família.
12:28 É duro saber que a minha felicidade causa desilusão e constrangimento e é especialmente
12:35 difícil o tempo de espera que o outro precisa de ter para digerir a minha verdade e acolher
12:41 e amar-me como sou.
12:45 Num outro estudo feito em escolas, nas escolas de Portugal, um dado que também é muito
12:56 alarmante e é muito triste, 45% dos jovens das escolas, ou dos jovens LGBT, são vítimas
13:04 de agressão na escola.
13:06 Isto são agressões físicas, são furtos, são destruição de objetos, roubos, insultos,
13:15 mentiras, boatos.
13:19 Estas pessoas, muitas delas, crescem e desenvolvem-se num quadro de insulto.
13:25 A maior parte de nós aprende desde muito cedo palavras insultuosas como paneleiro,
13:32 chamaricas e, mais tarde, as pessoas heterossexuais, quando se apercebem da sua orientação, elas
13:39 percebem-se também que elas são estes insultos, estas palavras.
13:44 Portanto, o insulto dirigido a estas pessoas é particularmente forte porque incide no
13:51 núcleo da sua identidade.
13:53 Tal qual, como eu vos disse, que eu não me esqueço quando me chamavam preta ou monhé.
13:59 É algo que marca a nossa história e aqui com uma gravidade ainda, muitas vezes, muito maior.
14:07 Os armários matam, matam fazendo-te sentir culpada por viver uma vida dupla, de ser uma
14:15 farsa, de enganar-te os teus amigos, os teus conhecidos, todos aos quais escondes o teu
14:21 verdadeiro eu.
14:23 E é por isso que, se realmente queremos salvar vidas, é essencial que cada um e uma possa
14:29 viver a sua vida como ela é.
14:33 Infelizmente, muitas destas pessoas não se podem apresentar como a maioria dos que estamos
14:38 aqui, pelo menos não na totalidade.
14:41 Em muitos contextos vivem disfarçadas ou escondidas, pelo menos em algumas partes de
14:47 si.
14:48 Não podem levar para a família, para a escola, para o trabalho, para os grupos, para as próprias
14:53 comunidades de fé, tudo aquilo que são.
14:56 Deixam à porta parte de si, porque essa parte não é bem-vinda.
15:03 Achava que Deus amava todas as pessoas, mas se calhar a mim não tanto.
15:11 Todos nós nos construímos pela diferença.
15:15 É isso que permite construir uma identidade como ser único.
15:19 Se todos fossem iguais a mim, eu não saberia quem era, nem vocês me reconheceriam a mim.
15:25 No encontro com a diferença, eu enriqueço-me.
15:34 Quando me sinto visto, eu consigo ser.
15:39 O que me traz hoje aqui é acreditar que amar é deixar ser.
15:47 Obrigada.

Diversidade Sexual - Margarida Bruto da Costa

Descrição

Nesta palestra empolgante, Margarida Bruto da Costa desafia-nos a olhar para a diversidade sexual e a identidade de uma forma mais profunda. Com uma narrativa pessoal e tocante, ela convida-nos a descobrir a beleza que existe nas diferenças entre todos nós.

Resumo

Margarida Bruto da Costa inicia a sua palestra partilhando a sua vivência pessoal, destacando como desde cedo sentiu a sua diferença em relação aos outros, marcada pela cor da sua pele e pela origem familiar. Esta experiência moldou a sua autoimagem e a sua compreensão sobre a diversidade, levando-a a valorizar as lutas passadas e presentes pelos direitos humanos, que lhe permitem abordar esses temas com liberdade. O foco da sua discussão é a diversidade sexual, que, segundo Margarida, é uma característica humana sempre presente, mas frequentemente invisibilizada ou mal compreendida ao longo da história.

A oradora sistematiza quatro dimensões da diversidade sexual: sexo biológico, expressão de género, orientação sexual e identidade de género. Cada uma destas dimensões é explicada de forma simples, destacando que a diversidade sexual é representativa das variadas maneiras como cada um de nós pode experienciar e expressar a sua sexualidade. Margarida enfatiza a tendência comum de dividir as pessoas em “caixinhas” de estereótipos, perpetuando preconceitos e barreiras que dificultam a aceitação da diversidade. Ela alerta que, embora a categorização possa trazer um sentido de ordem, esta prática provoca uma exclusão que não reconhece a complexidade de cada indivíduo.

A apresentadora partilha dados alarmantes sobre a realidade dos jovens LGBTQ+ em Portugal, revelando números preocupantes sobre discriminação e violência nas escolas. Ao abordar a dificuldade que muitos jovens sentem em partilhar a sua orientação sexual com as famílias, Margarida sublinha a dor e o sofrimento que a necessidade de viver uma vida dupla implica. Ela termina a sua palestra com uma forte mensagem sobre a importância de acolher e amar todas as dimensões da identidade, encorajando a audiência a permitir que as pessoas sejam autênticas e a promover um ambiente mais inclusivo e amoroso.

Comentários

Os comentários são moderados, tendo o 3MN o direito de não publicar se não for oportuno ou se o conteúdo não estiver adequado.