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Bom dia, bom dia. Obrigado. Eu queria fazer só duas correções rápidas, entretanto
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já houve uma recontagem e agora sou o 12.049. É um sentimento agredoço, não é?
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Porque ficamos mais próximos do número um, mas isso significa que tiveram que morrer
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com o sósias para nós nos aproximarmos. E a segunda coisa é que a minha vida é pior
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ainda do que o padre Pedro Rochamendes disse. Eu não estive só três anos num colégio
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de Jesuitas. Eu fiz a Escola Primária num colégio de Freiras Vicentinas, depois a seguir
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a ir se estudando num colégio de Padres franciscanos, depois então três anos num colégio de Padres
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Jesuitas e no fim a Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam se é por
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isso que eu sou ateu. E não é, na verdade não é. Eu sou ateu apesar disso. Eu não
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tenho nenhuma razão de queixa antes do contrário. Todas as pessoas religiosas com as quais
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contactei, só tenho a agradecer aliás. Uma vez, devo dizer-vos que num encontro deste
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tipo eu preferi uma frase que fez um sucesso absolutamente fulgurante. Eu disse que não
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acreditava em Cristo, mas acreditava nos cristãos. E eles ficaram muitíssimos lisongiados
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com a minha gente ilese. E sempre foi, eu acho que isso, essa frase simboliza muito bem aquilo
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que a minha vida sempre foi no contacto com as Freiras que me educaram, com as Padres
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que me educaram, etc. E mesmo com os 400 em geral. Porque eu acho que os 400 e eu
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somos iguais, sem querer ofender-vos. Acho que somos iguais no sentido em que estamos
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à procura, estamos todos à procura. E se calhar estamos perdidos, acho eu todos, eu
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sou capaz de estar um pouco mais perdido do que vocês. Mas o facto de andarmos todos
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à procura parece-me importante. E, portanto, a questão da fé, eu estou aqui porque não
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tenho fé, não é? Mas a questão é, eu não rejeito, não é uma questão de eu rejeitar
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a fé. É uma ausência, não é uma rejeição. Porque, de resto, como eu dizia, acho que
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somos iguais. Andamos à procura das mesmas coisas e várias coisas me atraem. No meu
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percurso, várias coisas me foram atraindo. Eu gosto de estar dentro de uma igreja, por
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exemplo. Adoro estar dentro de uma igreja. Eu gosto muito do silêncio que há dentro
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da igreja, da paz que a gente sente dentro de uma igreja. E gosto que a igreja seja um
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sítio em que se faz o quê? Em que se vai ler um livro e tentar perceber o que é que
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ele diz. A minha vida é toda baseada em ler textos e tentar perceber o que é que eles
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dizem. É isso. É nessa medida que eu acho também que somos muito parecidos. Eu acho
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que a ideia de... Já para falar da monumentalidade das igrejas, não é? Há quem diga, quer dizer,
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essa é a minha perspectiva. Porque é que uma catedral é tão grande? É para me fazer
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sentir pequeno, acho eu. E eu não tenho nada contra isso. Eu acho que é muito valioso
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fazer-me sentir pequeno. Não só porque eu sou pequeno, mas também porque as pessoas
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e eu em particular, mas acho que as pessoas têm tendência para esquecer que são pequenas.
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A minha avó nesse sentido foi uma pessoa fundamental na minha vida. Porque ela era uma espécie
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de livro de auto-ajuda ao contrário, a minha avó. Ela não estava lá para me dizer coisas
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que me fossem agradáveis. Tava lá para fazer-me desconfiar, por exemplo, para fazer-me desconfiar
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dos meus sentimentos. Para lhes dar pouca importância, por duas razões. Primeiro, para serem meus.
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E segundo, para serem sentimentos. E eu acho que isso é uma boa estratégia para a gente
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ganhar nervo. Mas uma coisa que me agrada muito é isso. É o fato de a gente ir à igreja
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ouvir, para já ouvir um homem que veio exprimir-se através de palavras e mais do que isso exprimir-se
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através de histórias. Veio exprimir-se como parábolas. A ideia de ouvir histórias e tentar
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perceber o que é que ela está fazendo. O que significa isso? O que é que quer dizer
4:36
porque raio é que um pai que divide a herança pelos seus dois filhos e um resolve ir-se embora
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e gastar a herança à vontade. Quando ele volta, o pai permeia esse filho. É claro que
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o filho que ficou a trabalhar e tal e geriu os seus bens com juízo pensa, mas por que
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aderer esta? E a gente fica a pensar naquela história. E eu acho isso fundamental. Toda
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gente conhece as mil e uma noites, não é? As mil e uma noites começam porque o rei,
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um senhor chamado Xarriar, vai, é o clássico, ele sai de casa para ir, para não sei onde,
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e esquece de achar, não é a chave do carro, porque não havia carro, mas ele esquece de
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alguma coisa e precisa de voltar. E quando ele volta à casa dá com a mulher a fazer
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coisas com os senhores. E ele mata a mulher. E pensa, ganha gosto daquilo, e pensa, vou
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matar uma todos os dias. É isso, a história é essa, não é? Toda a gente conhece. Ele
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mata uma todos os dias porque acha que não se pode confiar nas mulheres, até que acharás
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a dessevoluntar ou ofereces como voluntária para acabar com aquilo. E o que ela faz é
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como é que ela se salva? Através de histórias, ela começa a contar uma história ao Xarriar
5:48
e depois diz, agora estou cansado, vou dormir, e ele não mata hoje porque quer ouvir o final
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da história, e no dia seguinte conta-lhe o final da história, começa outra e assim
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insucibamente. E ele quer sempre ouvir o final das histórias e por isso não mata.
6:04
Ora, a certa altura da leitura daquilo, não sei se aconteceu com o vosco, mas a certa
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altura a gente está a ler as mil e uma noite e a gente já deixa de perceber quem é que
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está a torturar quem. Se é ele que está a torturar a ela, porque está a obrigá-la
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a estar ali sob ameaça de morte, porque ela sabe que tem uma espada pendente sobre a cabeça
6:23
dela, ou se é ela que está a torturar a ele, dizem, agora não apetece contar mais.
6:27
Amanhã quanto o resto, e o homem vai a vida dele, na verdade, fica suspensa até perceber
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o que é o final da história, perceber como é que a história acaba, perceber o que é
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que uma história é. E isso há uma história do Paul Oster, eu conto muito rapidamente,
6:41
uma história do Paul Oster que ele, muito provavelmente aquilo não aconteceu, mas ele
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conta como se tivesse acontecido e isso tem mais efeito. Ele diz, eu tenho uma amiga,
6:49
uma vez engravido, e aconteceu o seguinte, ela estava já muito grávida e estava a ver
6:55
um filme, está a meio do filme, rebentam as águas, e ela tem de ir para o hospital,
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a meio do filme, e tem um parto terrível, e há um momento doloroso, chato de criança,
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de cústia a nacheira, etc., etc., corta para uns anos mais à frente, em que ela está
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grávida pela segunda vez, e por uma daquelas razões que ninguém sabe explicar, liga a
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televisão e apanha o filme exatamente no ponto em que o deixou. E dessa vez, vê o
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filme até o fim, rebentam as águas, vai para o hospital e é um parto maravilhoso.
7:23
Essa ideia de quando a gente fica com uma história a meio, a nossa própria vida parece
7:28
que está a suspensa, mas quando a história acaba e a gente a compreende, a vida parece
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que fica melhor, eu tenho algum afeto por essa ideia.
7:38
Obrigado.
7:44
Tenho que me despaixar porque já só faltam sete minutos, mas eu queria só, eu tento
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que este conjunto de coisas no fim faça algum sentido. Metade de trabalho vão ter que
7:56
você, vocês a fazer, mas eu, como vos disse, depois da escola de Freiras, fui para um
8:03
colégio de pares franciscanos, chamado Estranato da Luz, onde tive vários professores que
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adorei. Pares Joaquim ensinou-me português, de maneira que eu... Desculpem, pares Joaquim
8:19
me morreu no outro dia, esse nome português, de maneira que tornaram difícil de esquecer.
8:24
Eu ainda vou deixar as posições todas por causa da música que o Pares Joaquim ensinou.
8:28
A ANTA pós a TE, como contrato desde a ENTA, para pronto, pôr-se em sobo-sobo-strat.
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Muito fácil.
8:40
Aprender coisas com musiquinhas foi o Pares Joaquim que me ensinou e eu continuei a fazê-lo pela vida
8:45
fora. No outro dia escrevi uma crônica na visão só sobre este tema, que é, quando eu estudei
8:49
Latim, a primeira declinação, a primeira declinação, vou dizer-lo, tá bem? Vou por esta ordem,
8:56
NUMINATIVO VOCATIVO, CREATIVO GENITIVO, DATIVO ABULATIVO. Tá bem, por esta ordem,
9:01
singular e plural. A, A, AM. A, A, A. A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A, A. Como
9:09
é que eu aprendi isto? Não é preciso um da plódica, obrigado, obrigado, não é um
9:13
truque assim tão bom. Como é que eu aprendi isto? Com a música da machadinha. A, A, A,
9:16
Ai, ai, ah! Ai, ai, acho que...
9:25
De que maneira é que isso torna a minha vida ridícula?
9:28
Da seguinte, quando nos exames, o professor diz, aí o senhor Pereira, o que é?
9:36
Rosa, genitivo plural, eu canto a machadinha até quem te pôs a mão
9:41
e digo, rosaram, e eu, bravo!
9:44
Sem saber a fraude que se está a desenrolar à frente dele.
9:50
Exatamente, até aquela menina achou graça este.
9:55
Mas, no Estornado da Luz, já estou, mas já me recuperei.
9:58
Obrigado. No Estornado da Luz, o padre Manuel, a certa altura,
10:02
perante adolescentes, achou que devia fazer o seguinte, que devia
10:08
permitir que os adolescentes lhe fizessem perguntas, coisas que os inquietassem.
10:12
As maiores inquietações que eles tivessem.
10:14
E para que eles pudessem fazer essas perguntas o mais à vontade possível,
10:17
a gente escrevia duas perguntas num papel anónimo, metia dentro de um chapéu,
10:21
o padre Manuel tirava e depois começava a ler as perguntas.
10:24
E ninguém sabia quem é que tinha perguntado o que.
10:26
E então isso deu às coisas que vocês esperam que aconteçam numa sala cheia de adolescentes.
10:30
O padre Manuel tira uma pergunta e diz, uma esturgação faz mal,
10:34
e ele diz, bom, deve falar sobre o assunto e tal.
10:38
Etcetera, etcetera, esse tipo de coisa.
10:40
Até que saiu o meu papel, o meu papel com a pergunta que mais me inquietava
10:45
com aquilo que eu queria perguntar de preferência sem que soubessem que era eu que estava a perguntar.
10:50
O padre Manuel tirou o papel do chapéu e diz, perante uma sala cheia dos meus colegas e de mim,
10:58
o padre Manuel tirou o papel e diz assim, o que é que eu estou aqui a fazer?
11:02
Pá, quando ele começa a ler a pergunta, eu percebo, é a minha, deixa agora, deixa agora, deixa a ver.
11:15
Só que quando o padre diz, o que é que eu estou aqui a fazer?
11:19
A sala arrebenta numa gargalhada que eu não vos consigo explicar, mas um trovão.
11:24
Ah, toda a gente achou aquilo engraçadíssimo.
11:28
E na verdade era, porque tinha havido um palerma que em vez de estar a fazer perguntas,
11:34
tinha dito, qual que é que eu estou aqui a fazer?
11:37
Nesta aula de religião e moral.
11:39
Mais do que isso, parecia que estava a manobrar o padre,
11:43
para ser ele a dizer o que é que eu estou aqui a fazer.
11:47
Qual é o problema? É que a minha intenção não era ser palhaço por uma vez na vida.
11:52
Eu estava a falar a sério, a minha pergunta é o que é que eu estou aqui a fazer?
11:56
No planeta, não é na sala, não é na aula da religião e moral.
12:01
Mas os meus colegas, a gargalhada que os meus colegas deram,
12:05
sobressaltou-me de uma maneira que eu acho que foi positiva,
12:09
que era, se a minha maior angústia, a minha inquietação mais profunda,
12:14
pôr provocar uma gargalhada deste tamanho,
12:17
é pai, é porque não é assim tão assustadora.
12:21
O padre Manuel percebeu o que é que eu queria dizer,
12:24
porque a segunda pergunta completava a primeira,
12:26
e a primeira vez ele disse, o que é que eu estou aqui a fazer?
12:32
E depois voltou a baixar os olhos para o papel e disse,
12:34
ah não, esperem, porque ele completa com outra pergunta.
12:37
E a segunda pergunta era, porque é que nós temos que morrer-se,
12:40
porque é que nós temos que morrer-se, porque é que nascemos que temos que morrer?
12:42
Era isso, era basicamente uma coisa assim.
12:44
Por que nascer-se que temos que morrer?
12:47
Coisa que não continua inquietar.
12:49
Mas, e aí ele percebeu, e ele respondeu à pergunta,
12:52
o que é que eu estou aqui a fazer?
12:54
Só que como eu ainda estava a pensar na gargalhada que os meus colegas deram,
12:57
não dei atenção.
12:59
E eu ainda hoje não sei o que é que estou aqui a fazer.
13:11
Mas andar à procura, era aí que eu queria chegar,
13:13
andar à procura, como toda agenda da procura.
13:15
Tenho dois minutos e vou acelerar.
13:17
Há um livro, não sei se conhecem,
13:19
ah, lá está, o que é que eu faço quando andar à procura?
13:21
Onde é que eu tento descobrir o que é que estou aqui a fazer?
13:24
No mesmo, exatamente como vocês fazem nos livros, em livros.
13:29
Não só naquilo que vocês conhecem bem,
13:31
que não é um livro, aliás, é uma biblioteca inteira,
13:34
são 70 livros, mais de 70 livros dentro daquele livro.
13:37
E no outro, há um livro de um homem, que era um crente,
13:40
chamado Tolstoy, o livro chama-se A Vida de Ivan e Lich.
13:44
Desculpem, o livro chama-se,
13:46
acho que chama-se A Morte de Ivan e Lich, assim aqui.
13:48
E o livro começa com a morte desse homem do homem,
13:50
chamado Ivan e Lich.
13:52
O homem que...
13:54
A gente começa a ver a vida dele desde o princípio.
13:56
É um jovem, estuda, licencia-se.
14:00
A primeira coisa que ele faz quando se licencia é fazer
14:02
como todos os jovens acham naquela altura,
14:04
comprar um fato para entrar no mercado de trabalho,
14:06
e ele acrescenta uma coisa,
14:08
ele pede, põe uma correntezinha,
14:10
aquela corrente do relógio de bolso,
14:12
e ele põe um berloque na corrente.
14:14
Ele põe um berloque e diz assim,
14:16
Respicé finem, quer dizer,
14:18
lembra-te do fim.
14:20
É isso que isso quer dizer,
14:22
lembra-te do fim.
14:24
Depois a história continua,
14:26
você será livre e breve,
14:28
vocês vão divertir-se a ele,
14:30
quer dizer, acho ele.
14:32
E o que acontece é o seguinte,
14:34
é que ele ignora aquilo que acabou de pendurar.
14:36
Na verdade, ele não dá muita atenção,
14:38
ele não pensa no fim,
14:40
fim nos dois sentidos,
14:42
de uma futilidade.
14:44
Ele está muito entusiasmado porque mudou de casa,
14:46
mudou de emprego, ganha mais dinheiro,
14:48
e está a montar uns cortinados,
14:50
e cai a montar os cortinados e acerta,
14:52
bate com o abdómen no sítio,
14:54
e é dessa alusão que ele vai morrer.
14:56
Essa alusão é no seco,
14:58
é uma parte do corpo que eu desconhecia,
15:00
C, não é com S, é C-O,
15:02
o seco que fica onde?
15:04
Exatamente no sítio onde a gente costuma usar
15:06
a corrente do relógio de bolso.
15:08
Ou seja, parece que Deus lhe disse assim,
15:10
ah, que uma coisa,
15:12
da qual tudo esquece isto.
15:14
Eu, uma vez, o Padre do Valentino,
15:16
é meu amigo,
15:18
apesar de não ter casado, eu perdoei-lhe isso,
15:20
o Padre do Valentino,
15:22
mandou-se,
15:24
ele disse, tenho um amigo, tenho um amigo, é teu,
15:26
que me está sempre achateado.
15:28
Você está de frente a comigo e diz assim,
15:30
olha lá, já pensaste em Deus hoje,
15:32
e o Padre do Valentino diz que
15:34
uma vez reverteu a pergunta e disse,
15:36
e tu já pensaste em Deus, e ele disse,
15:38
eu acho que sei o que ele quer dizer,
15:40
eu acho que um ateu não pensa todos os dias em Deus,
15:42
mas pensa no fim,
15:44
eu acho que um ateu pensa todos os dias
15:46
no fim, nessa ideia de que é importante
15:48
ter o fim presente,
15:50
de que a gente está cá a fazer qualquer coisa,
15:52
e que mesmo que não saiba o que é,
15:54
isto acaba,
15:56
há duas maneiras de reagir a esta ideia
15:58
de que a gente, de que isto acaba,
16:00
e eu acho que são duas maneiras incompatíveis
16:02
de um certo ponto de vista,
16:04
que é o humor e a religião,
16:06
são incompatíveis de reagir a esta ideia,
16:08
e por isso que padres e humoristas
16:10
são inimigos muitas vezes.
16:12
Mas vou acabar só,
16:14
dizendo o seguinte,
16:16
eu acho importante,
16:18
não sei se sabe, há uma música do Zeca Afonso,
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toda a gente conhece, o que faz falta,
16:22
isso aqui, o que faz falta é isto,
16:24
o que faz falta é animar a malta,
16:26
o que faz falta é avisar a malta,
16:28
o que faz falta é empurrar a malta,
16:30
mas há uma parte em que ele diz,
16:32
o que faz falta é animar a malta.
16:34
Eu não tenho interesse nenhum,
16:36
mas não é isso que a canção diz,
16:38
a canção não está a ser irónica em lado nenhum,
16:40
a canção diz exatamente o que está a dizer,
16:42
o que faz falta é animar a malta.
16:44
Eu tenho muito apreço por esta ideia
16:46
de que animar a malta é uma coisa que vale a pena,
16:48
animar a palavra anima,
16:50
tem a ver com alma, com dar vida
16:52
a outra pessoa.
16:54
E portanto, a minha profissão, como eu entendo,
16:56
é animar a malta.
16:58
É
17:00
para isso que serve.
17:02
Eu acho que
17:04
num certo sentido
17:06
eu acho que é isso que estou cá a fazer,
17:08
respondendo ao Padre Manuel.
17:12
E acho que a gente se encontra
17:14
nesse ponto,
17:16
no ponto em que é importante
17:18
animar a malta. Obrigado.
17:20
Bom dia.