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Olá, então eu sou a Teresa, tenho 44 anos e como acabaram de dizer, sou missionária
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Verbum Dei.
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Missionária, isso ainda existe, foi a pergunta que me fez uma rapariga que ia sentada ao
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meu lado num voo para Roma, e eu disse-lhe sim, claro, e alá e achei que isso era só
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do tempo dos descobrimentos, e eu não, não, também, também é agora.
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Então, para que fique claro para todos, os missionários existem, eu sou um exemplar
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dessa espécie rara, e hoje quero falar-vos de uma coisa muito interessante.
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Talvez vocês não tivessem nascido no ano de 1997, mas o lema do turismo de Portugal
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nesse ano foi este, vá para fora, cá dentro, foi um lema no qual eu me revi muito, e hoje
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gostava de vos falar de um lugar cá dentro, muito desconhecido pela maioria de vocês,
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que se chama As Pedras Parideiras, eu sou da Roca, é da minha terra, Serra da Freita,
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e temos um fenómeno geológico raro a acontecer aqui.
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Há pequenas rochas a brutar de uma rocha-mãe granítica, por isso chamam-se parideiras.
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É incrível pensar como é que uma rocha, uma pedra, uma coisa fria que é uma seca,
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tem este potencial gerador dentro dela.
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De dentro dela saem coisas, saem vida, saem algo para o exterior, coisas visíveis que
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tornam muito mais belo aquilo que no início parecia sem beleza, mas gostava de vos falar
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ainda de um outro lugar muito parecido ao primeiro, este ainda mais perto, aqui ao lado,
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aqui do lado de dentro de ti, chama-se interioridade, e neste lugar também há coisas a brotarem,
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sentimentos, pensamentos, emoções, memórias, desejos, tudo isto emerge de dentro de ti,
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de um corpo-mãe chamado tu.
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Já pensaste-te no poder incrível gerador que está no teu interior, e se calhar às
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vezes nós sentimos essa pedra fria, pesada, sem graça, achamos que não temos nada para
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dar ao mundo, estás enganado, tens um grande potencial dentro de ti e tu serás uma atração
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em a roca e em qualquer lugar do mundo.
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Sim, a interioridade é a mais bela paisagem que podemos contemplar, é o lugar mais belo
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do mundo.
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Eu quando vi este filme, o menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, houve uma cena que me
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impactou muito, o menino olha o seu reflexo na água e diz isto, não é estranho, só
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podemos ver o nosso lado fora quando quase tudo acontece do lado de dentro.
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É estranho, é estranho vivermos num mundo que valoriza muito a imagem, o exterior, o
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sucesso, a aparência, mas e o interior?
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Por que que não o cuidamos também?
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Por que que não levamos mais a serem estas perguntas que fomos ouvindo hoje, quem sou
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eu?
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Qual é o meu propósito?
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Já paraste para pensar que enquanto estamos constantemente conectados com o mundo exterior,
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através das redes, dos nossos estudos, dos amigos, raramente nos conectamos com o nosso
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mundo interior.
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Dizem os estudos que um jovem nasci hoje quando tiver 60 anos, em média passou 15 anos
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a olhar para o ecrã, 15 anos a olhar para fora, precisamos de começar a olhar talvez
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um bocadinho mais para dentro, a mergulhar dentro de nós e o que é interioridade?
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É este espaço onde nós conectamos com a nossa essência, com a nossa verdade mais
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profunda, onde nós nos conhecemos verdadeiramente, onde conhecemos os nossos medos, os nossos
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desejos, também as nossas feridas, as nossas alegrias, as nossas crenças.
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A grande crise da modernidade não é só uma crise econômica, não é só uma crise
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política, é uma crise de interioridade.
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Nós vamos nos transportes, vivemos as pessoas absorvidas em si, mas não sei se estão em
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contacto consigo verdadeiramente, vivemos numa espécie de novo-eiro que não nos deixa
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ver o caminho, não nos deixa perceber quem somos realmente, há sinais que detectam
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a falta de interioridade e trago-vos quatro que acho que são mesmo muito importantes.
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O primeiro, a ansiedade constante, esta falta de foco, esta falta-nos-á-lo, depois o
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medo do silêncio, esta necessidade que temos de nos distrairmos permanentemente, de nos
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atafolharmos de coisas, depois a indecisão, esta dificuldade de escolhermos, de tomarmos
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uma decisão porque não sabemos bem o que queremos.
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E por último, uma coisa que nos acontece frequentemente, ficamos obcecados com o eu, quando ficamos
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vazios por dentro, enchêmonos de nós.
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O que é que nós perdemos quando perdemos a interioridade?
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Precisamos, em primeiro lugar, a paz, porque nos invade este desassocego, este não termos
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tempo para processar as nossas emoções, depois perdemos-nos a nós, começamos a viver
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muito para corresponder àquilo que se espera de nós, os outros, para ficarmos bem vistos,
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para sermos aceitos, e este desajuste entre aquilo que se espera de nós e aquilo que
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eu verdadeiramente sou, isto rompe-nos, fragmenta-nos, e depois perdemos o sentido, corremos, corremos
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atrás da felicidade e parece que nada nos enche, estamos sempre à espera que aquele
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curso, aquela pessoa, aquela relação, aquela viagem, nos dêem aquela sensação de bem-estar
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que tanto desejamos, mas o que procuramos não está aí, está dentro.
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Trago uma boa notícia, é que a interioridade pode ser treinada, podemos ir ao ginásio,
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podemos começar a pouco e pouco a conviver melhor com este espaço dentro de nós, e
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trago-vos quatro boas práticas para desenvolvermos a nossa interioridade, a primeira delas,
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o silêncio e a solidão saudável.
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O silêncio é uma coisa que nos custa imenso, porque quando estamos em silêncio saem aquelas
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coisas que não têm oportunidade de sair na pressa, saem os nossos ruídos interiores,
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saem os nossos medos, aquelas coisas que não temos resolvidas no nosso coração, isso
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dá-nos medo, temos medo desse encontro, mas verdadeiramente não temos que ter medo,
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é o que nós somos, está dentro de nós também essa escuridão, essa confusão, e não faz
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mal, não nos faz mal.
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O exercício da presença plena, por que é que nós corremos tanto, corremos porque nos
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convencemos que só seremos pessoas suficientemente boas se fizermos muitas coisas e preferencialmente
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muito rapidamente.
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Mas isto é um engano, precisamos de aprender a estar presentes, o presente é o melhor
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presente.
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E isto é difícil, eu falo por mim, conto-vos uma experiência minha, eu como missionária
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tenho um privilégio muito grande, todos os anos dedico um mês inteiro a fazer um retiro
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espiritual de silêncio, é verdade, um mês inteiro todos os anos, é um luxo, e num desses
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retiros dei por mim a correr aceleradamente, não sei para onde, a querer encher o meu
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dia do máximo de coisas possíveis, e estava em retiro, a certa altura fui caminhar e
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a caminhar a passo energico porque queria chegar, tomar banho e seguir fazer outra coisa,
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e no meio do caminho desapretou-se o meu atacador, eu parei, encostei a verma, pus o pé em cima
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do muro baixinho e quando me inclinei do lado de trás do muro ia um caracol avançar muito
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lentamente.
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E esse encontro para mim foi avassalador, foi como se aquele caracol me gritasse, Teresa,
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onde é que vais com tanta pressa?
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onde é que vamos com tanta pressa?
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para, a branda, saboreia, terceira prática a profundar perguntas essenciais, dentro
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de nós há perguntas, há nossas peras, em que é que eu acredito?
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onde é que eu vou querer gastar a minha vida?
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o que que eu quero?
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Termos a coragem de nos querermos conhecer verdadeiramente, e não nos darmos respostas
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superficiais pela rama, por último, cultivar o meu jardim interior, cultiva a tua inteligência
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emocional, nós hoje padecemos de uma grande elitracia do ponto de vista da interioridade,
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não temos vocabulário, não temos linguagem, não temos uma gramática para nos dizermos,
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para dizer aquilo que nos acontece por dentro, mas podemos cultivá-la, aprende, põe atenção
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naquilo que acontece dentro de ti, faz-te perguntas, o que é que eu estou a experimentar, estou
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cansado, estou irritado, o meu corpo o que é que diz, o que é que eu estou a sentir,
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e nós muitas vezes reprimimos os nossos sentimentos, porque achamos que eles não são dignos
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de ser vistos, mas sabemos que aquilo que se reprima, tarda-o pronto, ou cedo, rebenta,
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explote.
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Não, dá espaço aos teus sentimentos, deixa que se expressem, eles vão te ensinar, vão
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te dizer quem tu és, vão te humanizar, e a verdade é que também quem cultiva a interioridade
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aprenda a distinguir qual é a emoção que está no comando da sua vida, como viamos
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no filme divertidamente.
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É opa, agora é raiva, ok, já percebi, pronto, não faz mal, tem direito.
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E depois há outras formas de cultivarmos o nosso jardim interior, rega-o com boas leituras,
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rega-o com boas conversas, vê-bos filmes, vê-bos séries, não comas lixo, nós comemos
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muito lixo, e é um problema porque na verdade nós transformámos-nos naquilo que comemos.
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A extraioridade também impacta a minha interioridade e vice-versa.
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Pensa nas séries que tu ves, alimentam-te, tu reveste nelas, no fim com o que é que
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ficas, elas geram-te serenidade, ansiedade, porque é que vejo o que vejo, afinal isto
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nem tem tanto assim a ver comigo, porque é que gasto aí o meu tempo, o teu tempo.
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Quem cultiva a interioridade ganha muito, ganha mais autoconhecimento, ganha clareza
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sobre o que quer da vida, aprenda a lidar melhor com as suas emoções, com as dificuldades,
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constrói relações mais autênticas porque se compreende melhor assim e melhor aos outros,
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vive com mais inteireza.
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O que é por dentro é por fora.
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É muito mais livre, impacta positivamente o mundo.
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Uma pessoa inteira em qualquer lugar do mundo onde esteja, impacta positivamente.
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É uma força de bem para sempre, é uma inspiração para os outros.
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E a esse propósito eu queria terminar com um exemplo inspirador.
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O desta mulher, a Eti, a Eti Ilessum, uma judia holandesa que morreu com 29 anos em
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Auschwitz.
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Esta mulher começa a procecer alguém muito caótica, o seu interior era uma confusão,
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mas a pouco e pouco ela foi se encontrando.
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E quando em plena guerra, na perseguição nase e os amigos dela tentam convencê-la
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a passar à clandestinidade a esconder-se, ela diz não, eu quero partilhar o destino
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do meu povo.
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E ela vai se oferecer como voluntária para um campo de concentração.
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E antes de partir, quando está na sua casa em Amsterdão, ela escreve isto no seu diário.
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Quando uma pessoa leva uma vida interior rica, talvez nem haja assim tanta diferença
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entre estar fora ou dentro dos muros de um campo de concentração.
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Quando uma pessoa leva uma vida interior rica, talvez não haja assim tanta diferença entre
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estar fora ou dentro.
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E o incrível é que ela vai experimentar isto, ela vai para o campo e vai sentir que não
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há assim tanta diferença entre estar ali no meio da lama, no arame farpado ou estar
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sentada na secretária dela a olhar o seu jazminho.
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E a gente pergunta como é que ela consegue.
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Se vocês forem ler o diário dela, vão perceber que ela consegue, porque ela cultivou a sua
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interioridade.
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E ela vai dizer uma coisa ainda mais incrível, ela vai dizer é agora.
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É agora que eu vou viver com sentido, é agora que eu vou viver a vida que eu quero.
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Não é quando isto tudo acabar, quando a guerra terminar, quando este inferno desaparecer,
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então eu vou começar a viver o que eu quero, não.
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Ela diz é agora que eu vou cultivar duas flores na laterina do campo.
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É agora que eu vou ler um poema do rilke, é agora que eu vou rezar, é agora que eu
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vou servir.
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É agora.
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Não é num tempo ideal que nunca vai chegar, e tu, vais ficar à espera do tempo ideal,
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é o teu tempo, vais agarrá-lo.
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Obrigada.