3 Milhões de Nós
0:00 Bem, vamos lá testar. Tudo ok? Estou-me a ouvir bem? Boa tarde, Ala Magna. É um prazer
0:22 estar aqui, é uma honra. Obrigada pelo convite, obrigada à organização. Ainda bem que
0:25 existem este género de eventos e de oportunidades de partilhar coisas boas, precisamos muito
0:33 disso hoje em dia. Mas eu tenho a certeza que vocês não estão aqui por minha causa,
0:36 estão à espera do José Pedro, não é? O José Pedro que vem ao final, eu sei, eu
0:39 sei. Mas pronto, vamos aquecer o palco até ele vir. Então, quem aqui, sendo privilegiado,
0:49 bate palmas. Ouviram, certo? É que se privilégio é igual a responsabilidade, então há aqui
1:07 uma necessidade de ação. Eu vou-vos dizer, vou-vos contar um bocadinho do meu ponto de
1:13 vista, daquilo que foi o meu percurso de consciência, daquilo que é o meu privilégio,
1:19 que são muitos e não é tanto aí que vou demorar, é mais o que é que eu fiz com eles.
1:27 Temos esta imagem aqui para vos dizer que isto começou quando eu andava no secundário
1:35 e tinha esta ideia de vou para a medicina, é isto que eu quero mesmo, é isto que eu
1:41 gosto. É as coisas da Biologia e da Fisicoquímica e no fundo é a relação com os outros. Só
1:47 que depois, de facto, a Matemática era mesmo aquela coisa que não funcionava. E como a
1:52 Matemática não funcionava, fui fazer uns psicotécnicos. E nos psicotécnicos a resposta
1:58 foi, ah, afinal, o que tu és boa mesmo, ou aquilo que tu devias dedicar a tua vida a
2:05 fazer, era ajudar os outros. E eu fiquei, ajudar os outros? Boa, obrigada, posso fazer
2:12 isso com muitas coisas na minha vida, certo? Então o que é que eu fiz? Fui fazer Direito.
2:21 Lógico, não? Eu também achei. Eu pensei, bem, a História e a Geografia eu safo, gosto
2:28 de muitas coisas, gosto de Moda, gosto de História da Arte, gosto de Justiça. O que é que é mais
2:35 parecido com isso? É Direito. E então fui fazer Direito. Fui fazer Direito, foram uns
2:43 quantos anos assim da minha vida bem, como é que eu quero dizer, interessantes. Não
2:48 foi, de facto, das minhas decisões mais felizes, mas gostei de o ter feito porque não só
2:55 me superei, como hoje em dia reconheço que me transformou a nível de pensamento e me
3:01 permitiu ter ferramentas que eu uso hoje em dia na minha vida e que, de facto, acrescentam
3:08 muito em vários âmbitos. Só que, entretanto, como Direito não me tinha convencido e a
3:14 minha cabeça, que gosta de andar por várias áreas, não estava definidamente determinada
3:20 que era esta área, eu pensei, bem, há aqui uma coisa que me interessa, algo que é esta
3:26 coisa que eu às vezes falo dos Direitos Humanos, mas isso, de facto, na faculdade era mais
3:32 uma coisa de estilo. Direito à pena de morte, Direito ao aborto, sim ou não? Vamos fazer
3:38 um debate filosófico e também psicológico sobre este assunto e vamos ver o que é. E,
3:44 entretanto, quando eu estava a pensar, bem, se calhar eu vou dar uma pausa nisto e não
3:48 vou continuar a estudar, eu encontrei um mestrado que tinha, de facto, como currículo
3:54 esta vertente dos Direitos Humanos. Então, eu candidatei, me entrei e lá fui eu. Era
4:00 um mestrado europeu, portanto tem uma vertente aqui internacional porque tínhamos professores
4:04 de todo o lado e, então, fomos um primeiro semestre para uma ilha em Veneza e eu tinha
4:12 90 nacionalidades na minha turma, éramos quase 200 alunos e estávamos numa ilha em
4:20 Veneza que não é a principal, era uma mais pequena e durante um semestre, das 8 às 8,
4:28 tínhamos aulas que acabavam com exames, que acabavam com trabalhos, que acabavam com apresentações
4:32 e, nesta altura, como isto não era o suficiente, nós pensámos assim, bem, malta, nós estamos
4:38 aqui e, de facto, há aqui muita coisa para fazer nesta área dos Direitos Humanos e,
4:42 então, bora lá organizar, assim, algumas dinâmicas. Então, criámos um festival que
4:48 era o Festival de Direitos Humanos de Veneza, que aconteceu lá, apesar de termos, assim,
4:54 algumas entropias relativamente à sua execução e, depois, já organizámos também, porque
4:58 na altura estávamos a vivenciar uma onda de necessidade de apoio a refugiados em todo
5:05 o lado, mas Itália, de facto, é um sítio onde isso se nota mais vincadamente e, então,
5:11 organizámos um concerto para angariar fundos para garantir que a recepção destas famílias,
5:19 especialmente das crianças, era feita com ferramentas. Entretanto, acabou o primeiro
5:25 semestre e pensámos no segundo semestre e o segundo semestre implicava nós irmos para
5:30 uma outra universidade parceira a nível europeu e eu tinha aquela ideia de que a
5:36 Suécia era o sítio onde, de facto, os Direitos Humanos eram implementados. Então, candidatei,
5:41 me entrei e lá fui eu. Neste segundo semestre, o objetivo era fazermos uma tese ao mesmo
5:47 tempo que fazíamos aulas e eu pensei, hum, eu acho que era mais interessante ter aqui
5:52 outra dimensão. Então, comecei a fazer um voluntariado com a Cruz Vermelha Sueca, num
5:58 campo de refugiados, que tinha como objetivo tratar da deportação de refugiados que
6:06 chegavam à Suécia e que não era suposto ficarem lá. Quando isto terminou, eu pensei,
6:13 bem, ok, já fui ver o que é que há lá fora, já percebi mais ou menos como é que
6:17 isto se faz, mas o que eu gostava mesmo, mesmo, era de acrescentar, era de voltar para Portugal
6:22 e fazer isso cá dentro. E quando cheguei cá, andei um bocadinho aos apalpões e, entretanto,
6:27 encontrei uma coisa que se chama Academia de Líderes do Ubuntu. A Academia de Líderes
6:31 do Ubuntu, há aqui representantes, é uma academia que tem como objetivo trabalhar a
6:37 questão da liderança servidora, através do exemplo de grandes líderes, mas promovendo
6:42 um envolvimento e um empreendedorismo na sociedade. Então, eu, como se, fiz parte deste projeto
6:48 e depois, a seguir, abracei um projeto já a nível profissional, que era a Incubadora
6:53 Social Ubuntu, que tinha também uma relação com aquilo que eu tinha feito em termos de
6:56 tese, que era esta ideia daquilo que é o empreendedorismo social. E, nesse projeto,
7:01 do empreendedorismo social, cheguei a uma associação, que é onde estou hoje em dia,
7:06 que é a Associação Passa Sábia. A Associação Passa Sábia é uma organização comunitária
7:10 que foi fundada em 2014 pelos moradores do bairro do Rigo, portanto, aqui, paredes meias
7:15 com a cidade universitária, e o nosso objetivo é procurar promover tudo o que sejam ferramentas
7:21 que apoiem a mobilidade social. Dedicamos, acima de tudo mais, à vertente da educação,
7:26 mas também aos acessos em geral. O meu relógio está maluco. Já andou, já voltou para trás,
7:34 por isso eu vou continuar. Entretanto, o que é que eu vos queria dizer daquilo que foi
7:40 o meu percurso até agora, e porque é que eu vos quis fazer um bocadinho andar para
7:44 aquilo que foi o meu percurso. Hoje em dia, trabalho no terceiro setor. Trabalho no terceiro
7:50 setor há praticamente 11 anos e hoje em dia já o faço profissionalmente, portanto,
7:56 inicialmente comecei sempre com a vertente do voluntariado e mais de missão e hoje em
8:02 dia estou a 100%. O que é que eu vos queria dizer daquilo que eu sei de verdade, daquilo
8:07 que eu aprendi com o meu percurso. Comecem por algum lado. Comecem pequeno, mas, acima
8:12 de tudo, comecem por sair da vossa bolha. Se vocês sentem que há alguma coisa que
8:16 pode ser feita a nível de intervenção cívica, a nível de intervenção na sociedade,
8:20 comecem por sair dos contextos que vocês conhecem e onde estão mais à vontade. É
8:25 aí que começa a vossa margem de crescimento e é aí que também começa a vossa noção
8:31 e aquele conceito que vocês têm de privilégio. Segundo, não há mapa. A vossa vida não
8:38 vai ter mapa e aquilo que vocês podem dar ao mundo não está definido. Por isso, se
8:43 vocês sentem que há alguma coisa que vocês podem dar, mesmo que ainda ninguém tenha
8:48 feito esse caminho, atrevam-se. Tenham a coragem de ir por esse caminho, mesmo que seja o menos
8:55 trilhado. Ao nível da licenciatura, porquê que eu o ponho aqui? Porque é uma altura,
9:01 quando nós somos jovens, que isto é uma coisa definidora da nossa vida e uma das coisas
9:06 que eu gostava que vocês ficassem com esta ideia é que a vossa licenciatura não vos
9:13 define. É uma fase importante, é um passo importante, não deixem de o fazer, mas a
9:20 vossa curiosidade e a vossa vontade contínua durante a vida de aprender, essa sim vai ser
9:26 definidora daquele que vai ser o vosso potencial humano, tanto para vocês como na vossa relação
9:33 com os outros. Ponto de partida. Este é o meu e eu gostava que vocês dessem dois minutos
9:39 a pensar sobre isto, que é, as pessoas são boas. Em geral, as pessoas são boas. A humanidade,
9:45 a natureza das pessoas é boa. Pode haver situações em que depois as pessoas agem na base do medo,
9:52 na base de traumas, na base de situações que não estão resolvidas, mas se vocês
9:58 tiverem este ponto de partida de que as pessoas são boas, as vossas relações, especialmente
10:03 com pessoas que vocês não conhecem, que são diferentes de vocês e que têm dimensões diferentes
10:08 da vossa, vão ser mais fáceis. Cada erro é uma nova sinapse. Porquê que é uma nova sinapse?
10:15 Porque cada erro nos permite aprender que não é por ali. E ganhamos essa aprendizagem.
10:21 E quando ganhamos essa aprendizagem, já não é uma coisa nova para o nosso cérebro.
10:25 E portanto, por muito que não seja aquele o caminho, ele está lá e já sabe e reconhece
10:30 e até pode ser experiência para outros. Procura viver confortável em estar desconfortável.
10:37 Isto é uma realidade que eu adotei na minha vida em várias fases e acho que é uma das coisas
10:44 que nos mais mostra a nossa margem de crescimento. Se vocês continuam, continuamente, se tiverem
10:50 a desafiar a sair daquilo que vocês já estão mais ou menos confortáveis, garanto-vos
10:55 que é nessas margens, que é nessa vertigem que se encontra aquilo que nos falta e aquilo
11:01 em que nós podemos acrescentar. Há paixões, há missões e há intuições, aquelas que
11:07 se sentem assim no fundo da barriga, que vão ser mais fortes do que outras. E isto é importante,
11:12 que é por isso que nós não gostamos todos das mesmas coisas. As que vocês sentirem,
11:17 sigam-nas, porque é importante. Quer dizer que vocês têm ferramentas ou têm uma predisposição
11:23 para conseguir ir atrás destas missões e, por isso, se vocês não as fizerem, provavelmente
11:27 ninguém as vai fazer. Por isso, sintam segurança naquilo que são as vossas intuições e vão
11:33 atrás delas. Se dedicar-se verdadeiramente e estiveres presente, a oportunidade encontra-te.
11:40 Isto, para mim, tem sido uma das maiores verdades que eu tenho vivido. Quando eu voltei
11:47 para Portugal e queria entrar no terceiro sector, que eu nem sabia que se chamava assim,
11:52 que é esta área do serviço mais social e das ONGs, eu achava que isto nunca iria ser
12:00 uma profissão. E o caminho não era óbvio. Ninguém fala das associações, ninguém fala
12:06 das ONGs, tudo fala-se mais de uma vertente, mais no nível do voluntariado, ao nível
12:10 daquilo que é a caridade ou aquilo que se faz no tempo livre. E há um setor social
12:16 profissional e é importante que haja mais. E, portanto, se vocês sentem que a área
12:21 que vocês querem explorar ou a vertente que vocês gostavam de viver, não deixem de se
12:27 dedicar a ela, porque, eventualmente, ela transforma-se numa realidade. E eu tenho visto
12:31 isto, eu acompanho alguns exemplos de pessoas que me inspiram e noto muito que elas denotam
12:38 sempre isso que é. Eu sou privilegiado, mas a oportunidade encontrou-me a trabalhar. Portanto,
12:44 procurem perceber o que é isso para vocês e mantenham-se atrás. O mundo precisa de
12:52 ti e quem tu és depende do mundo que constróis. Mais do que exigirmos, mais do que reclamarmos,
12:59 mais do que dizermos o que é que não está bem, garantir que nós estamos, de facto,
13:04 a construir alguma coisa. Porque é muito mais fácil criticar do que depois estar na
13:09 arena. E, por isso, há uma coisa que eu gostava de vos dizer, que é, nós somos aqueles que
13:15 estamos à espera, ok? Não vem ninguém para nos salvar. Nós somos aqueles que estamos
13:21 à espera. Por isso, se vocês sentem que há alguma mudança que vocês podem fazer
13:25 no mundo, que há alguma diferença, algum impacto que vocês podem ter, assumam esse
13:31 papel, assumam essa responsabilidade. Não esperem que a Presidente da Junta, o Primeiro
13:36 Ministro ou o Papa venham a resolver a vossa situação. Ponham as mãos na massa e vão
13:41 lá garantir que, se depois virem que no final não deu ou não conseguiram, pelo menos
13:46 tentaram. E garantam que não são os tais treinadores de bancada que somos tantos e
13:52 que muitas vezes é mais fácil viver dessa forma. Este é um símbolo da associação
13:58 que eu criei recentemente. We are the ones we have been waiting for. Por isso, também
14:03 depois acompanhem. Mas acho que é uma chamada à ação. Por fim, o teu legado são as portas
14:11 que abres para os outros. Por isso, se vocês sentirem que há alguma coisa que vocês podem
14:16 acrescentar, que podem fazer, que podem viver na dinâmica com os outros, garantam que o
14:22 vosso privilégio, garantam que aquilo que vocês estão a fazer está a acrescentar
14:27 e está de facto a construir um legado. E um legado não tem que ser visível, um legado
14:31 não tem que ser um monumento, mas pode ser na vossa relação com um grupo pequeno, com
14:37 um grupo de voluntariado, com um grupo numa escola, com um grupo na vossa comunidade.
14:41 Mas, acima de tudo, nunca se esqueçam que tem sempre a ver com a maneira como vocês
14:47 e a consciência que vocês têm do vosso privilégio é posta a render e a ser usada.
14:54 Estas são as verdades que eu fui adquirindo com o meu percurso e gostava de partilhar
15:00 aqui com vocês e que espero que levem para o futuro. Obrigada.
15:11 Legendas pela comunidade Amara.org

Descrição

Na palestra "Intervenção cívica", Joana Mouta desafia os jovens a assumirem a sua responsabilidade social e a transformarem o seu privilégio em ação. Através da partilha da sua própria jornada, ela inspira a exploração do potencial humano e a busca por oportunidades de fazer a diferença.

Resumo

Joana Mouta inicia a sua palestra sublinhando a importância da intervenção cívica e do privilégio que cada um possui. A partir da sua experiência, ela relata como a sua trajetória a levou a explorar diferentes áreas, começando pelo Direito e culminando num mestrado em Direitos Humanos. Durante a sua formação, Mouta tomou a iniciativa de organizar eventos como um festival de Direitos Humanos e um concerto de angariação de fundos, demonstrando como a ação comunitária pode surgir de um ambiente académico.

O seu relato é também uma reflexão sobre o seu regresso a Portugal, onde encontrou na Academia de Líderes do Ubuntu um espaço para promover a liderança servidora e o empreendedorismo social. Mouta revela que a sua atuação no terceiro setor, através da Associação Passa Sábia, se centra na promoção da mobilidade social e educação, ferramentas essenciais para construir um futuro melhor.

Ao longo da palestra, Mouta partilha lições valiosas, apelando aos jovens para que comecem por pequenos passos e saiam da sua zona de conforto. Ela enfatiza que não existe um mapa definido para a vida e encoraja a coragem de seguir caminhos menos trilhados. A mensagem central é clara: cada um deve assumir a responsabilidade de fazer a diferença e criar um legado positivo na sua comunidade, pois o mundo está à espera da contribuição individual de cada pessoa.

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