3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Bom dia a todos e a todas.
0:11 O meu nome é Francisco Araújo, mais conhecida por Kika.
0:16 Tenho 24 anos e sou daqui de Lisboa.
0:20 Sou psicóloga clínica, mas hoje não vos venho falar sobre saúde mental nem nada do
0:26 género.
0:27 Venho-vos falar enquanto jovem, enquanto uma em três milhões de nós.
0:35 Estive muito tempo bloqueada na preparação deste momento, não por não ter nada para
0:42 vos dizer, até porque quem me conhece sabe que sou bastante faladora e gosto muito de
0:47 falar, mas por achar que não tinha coisas bonitas para partilhar ou por achar que se
0:54 calhar não vos ia conseguir inspirar.
0:58 Houve uma pessoa que me ajudou na preparação deste momento e que me disse, não vais dar
1:05 respostas, vais fazer as tuas perguntas.
1:09 Essa mesma pessoa, na última edição de três milhões de nós, disse-nos a todos que muitas
1:15 das vezes não se trata de obtermos respostas, trata-se sim de fazermos as perguntas certas
1:22 no tempo certo.
1:25 Acredito mesmo que grandes coisas podem nascer de grandes inquietações.
1:30 E dou-vos um exemplo muito concreto, não sei se já alguma vez pararam para pensar em
1:36 como é que surgiu o avião, aquilo que nós vemos todos os dias.
1:41 Eu não fui investigar, mas a verdade é que muito provavelmente o avião surge a partir
1:49 do momento em que um homem qualquer se inquieta bastante com o voo dos pássaros ao ponto de
1:56 criarem-se mesmo a necessidade de voar e este desejo de voar.
2:02 Uma grande coisa que nasce de uma grande inquietação.
2:07 Aquilo que eu venho fazer hoje então é partilhar as minhas inquietações, partilhar as minhas
2:14 perguntas.
2:15 Não vos vou dar grandes respostas, mas se as minhas inquietações vos ajudarem já
2:20 fico muito feliz.
2:24 Comecei esta apresentação por dizer quem sou, por me apresentar, não é?
2:31 De uma forma muito breve.
2:33 Mas há poucas coisas melhores do que uma entrevista de trabalho para irmos exercitando isto de
2:41 nos apresentarmos e também irmos percebendo como é que nos queremos definir e também
2:46 conhecermos um bocadinho melhor.
2:48 Eu entrei para o mercado de trabalho há cerca de um ano e por isso não tive muitas entrevistas
2:54 de trabalho, mas no outro dia enquanto trabalhava na desorganização da minha secretária, por
3:00 quem me conhece também sabe que eu sou muito desarromada, encontrei uma câbula para uma
3:05 entrevista de emprego.
3:07 Essa câbula dizia isto mesmo, quem sou eu, e com uma linha que dividia-se em a folha
3:13 ao meio eu colocava de um lado coisas boas e do outro lado coisas mais sobre mim.
3:21 E eu sei que isto parece muito tonto, mas na altura eu achava que me ia fazer aquela
3:27 pergunta típica de três coisas boas e três coisas mais sobre ti.
3:32 Não vou partilhar o que eu puse em cada uma destas listas, até porque não tive de
3:36 o fazer nesse dia.
3:38 Nesse dia a única pergunta que me colocaram foi, então quem é Francisco?
3:45 E eu fiquei nervosinha, porque lá está era uma pergunta que me fugia àquilo que eu
3:55 tinha planeado aquelas três coisas boas e três coisas mais sobre mim.
4:00 Nesse dia percebi também que seria muito pouco reduzir-me a isto, muito pouco reduzir-me
4:10 às coisas que eu gosto em mim e às coisas que eu não gosto.
4:15 Acabei então por falar em resposta àquela pergunta sobre as minhas experiências, sobre
4:22 aquilo que me dá a gozo na vida, a forma como eu vivo, o meu tempo.
4:28 Falei sobre os meus projetos, as coisas que me apaixonam e percebi que tudo isso diz muito
4:36 mais sobre mim do que estas coisas boas e coisas mais, muito mais sobre mim do que sou
4:42 amiga dos meus amigos, simpática, preguiçosa, temosa ou desarromada.
4:47 E por isso se hoje te perguntasse a mesma pergunta que me fizeram naquele dia, o que
4:57 me respondias? Se eu te perguntasse, então, quem és tu? Quem és tu Sofia? Quem és tu Margarida?
5:07 Quem és tu João? O que me respondias? Como é que te definias? Esta era a pergunta que
5:14 me vinha naquele dia, como é que eu me quero definir? Falávas-me daquilo que os outros
5:21 dizem que tu és, daquilo que tu mostras ser, daquilo que pones nas redes sociais, definias-te
5:31 por uma lista de atributos, de qualidades e de feitos, ou falávas-me da tua vida, de
5:44 forma como vivos, daquilo que te dá sentido, das bases de tua identidade, falávas-me das
5:54 tuas referências, das pessoas que te marcam, das pessoas que escolhes seguir todos os dias,
6:02 dos influencers desta vida reais a virtuais, falávas-me das pessoas que te tocaram, do
6:11 pai ou da tua mãe, falávas-me daquilo que te comprometes todos os dias, da tua escola,
6:22 do teu trabalho, da tua rotina, destas projetos que te apaixonam, falávas-me da forma como
6:35 vives o teu tempo, de como escolhas viver o teu tempo, é que o tempo é o nosso bem
6:46 mais precioso, então o que é que fazes com ele? Quando era mais nova era muitas vezes a
6:56 minha avó que me ia buscar à escola, a minha avó é esta senhora linda, maravilhosa que
7:03 eu tenho também, e nesses passeios de carro, eu não tinha esta idade, era um bocadinho
7:11 mais, muitas vezes quando tinha um teste a minha avó nunca me perguntava como é que
7:17 correu, perguntava sempre, então, gostaste? E eu ficava com o ar meitonto porque primeiro
7:28 tinha dado um teste, e depois a minha resposta era sempre a mesma, eu dizia se gostei, não
7:37 sei, se correu bem mais ou menos, e dizia mais ou menos para não me comprometer caso a
7:44 coisa correse mal, nesses passeios de carro, quando chegava a altura de quanta hora a minha
7:50 avó, a nota que eu tinha tido, e a minha avó me perguntava então que até que tivesse
7:56 uma atica, eu, independentemente daquilo que eu dissesse, independentemente do valor,
8:04 fosse um 15, um 18 que não era, independentemente disso, a resposta da minha avó era sempre
8:14 a mesma, e a minha avó dizia-me, ó filha, tu és muito mais do que aquilo que tu pensas,
8:22 dizia com o seu sotaque maravilhoso espanhol que eu não vou repetir, mas essa frase marca-me,
8:29 e eu acho mesmo que aquilo que a minha avó me queria dizer nesses dias, e que ainda hoje
8:36 me diz, é que eu sou muito mais do que uma lista de atributos, que eu sou muito mais
8:43 do que aquilo que eu própria veja em mim, eu sou muito mais do que os meus sucessos e insucessos,
8:51 e isto era o que eu também gostava de partilhar com vos coisas, é o nosso tempo, não só de
8:59 nos deixarmos inquietar, como dizia no início, mas é também o nosso tempo de olharmos
9:04 de uma maneira diferente, de uma forma mais íntegra, mais real, irmos para lá daquilo
9:14 que já vemos. Nos últimos tempos, tenho me ajudado também a olhar para mim desta maneira,
9:24 pelo que eu sou e por quem sou, e tenho percebido também com algumas pessoas que vou falando
9:32 que eu sou luz e sombra, luz não no sentido do que é perfeito em mim, até porque meus
9:42 amigos a perfeição não existe, luz também não no sentido daquilo que brilha mais em
9:49 mim, ou daquilo que eu gosto mais em mim, luz no sentido que eu consigo ver com clareza,
9:58 sombra também não no sentido do que é perfeito, porque mais uma vez a perfeição não existe,
10:08 sombra também não no sentido daquilo que eu não gosto em mim, sombra é aquela parte
10:16 em mim que eu ainda não conheço, é a parte em mim que eu ainda não reconheço que tenho
10:23 de crescer, é também aquela parte que é fragilidade, vulnerabilidade. Quando preparar
10:36 a ver este momento, encontrei nas notas do meu telemóvel, aquela coisa quando preparamos
10:42 este momento, normalmente vamos ver se encontremos assim frases para dizer para aqui, e eu encontrei
10:48 uma frase de uma psicóloga que nos diz, é na vulnerabilidade que nos vemos verdadeiramente,
10:56 que nos sentimos enquanto humanos, por detrás de todos os títulos, capas e máscaras somos
11:05 pessoas por inteiro. Isto é fortíssimo, porque quantas vezes é que eu não evito, isto,
11:18 quantas vezes é que eu não evito a vulnerabilidade, o sentir-me pequenina, e tenho percebido também
11:33 ao longo dos últimos tempos, que é nestes momentos em que a vulnerabilidade surge, que
11:41 surge também a verdadeira quica, com a sua luz e com a sua sombra. Luz quando consegue
11:52 se calhar e reaproximar-se das pessoas, que é de maneira diferente. Luz também quando
11:58 consigo reconhecer os meus próprios limites. Sombra quando surge a minha parte mais agressiva,
12:08 ou quando não sei muito bem como reagir, e bloqueio. A verdadeira quica por inteiro. Há uns
12:20 anos, quando estava aí sentada, houve uma oradora que nos disse isto. Só quem se conhece
12:27 de si mesmo pode ter um impacto no mundo. Então, nós estará no tempo de olharmos para nós de
12:36 maneira diferente. E depois, a questão é, em que mundo é que eu quero ter um impacto?
12:48 Porque também há isso para pensar. É no mundo que eu imagino? É no mundo que eu idealizo?
12:57 É no mundo virtual? Ou é no mundo real que eu piso? Um mundo real que eu quica piso
13:09 é, do meu ponto de vista, um mundo ferido. Um mundo em que, hoje em dia, na atualidade
13:18 que vivemos, eu diria que é desafiante ser jovem. É desafiante porque vivemos numa conjuntura
13:28 de guerras, crises políticas, crises econômicas, sociais. Quantos nós é que já não se imaginam
13:37 trabalhar aqui em Portugal? Quantos nós é que não têm um amigo ou um familiar que teve de ir
13:45 trabalhar para fora, porque só fora é que encontrava as condições de vida que procurava. Eu tenho.
13:56 E tudo isto para dizer que, ao mesmo tempo, há um paradoxo. A imigração nunca foi tão alta.
14:06 Temos jovens chegados de todo o lado do mundo a escolher em Portugal e a procurar em Portugal
14:13 aquilo que muitos de nós procuramos lá fora. Melhores condições de vida. A diferença,
14:19 e isto já é minha opinião, é que nós somos uns privilegiados porque aqui, pelo menos,
14:26 temos segurança e paz. Muitos deles, se calhar, não têm. E a verdade é que eu muitas vezes
14:38 escolho, nem querer saber, nem ver. É mais fácil. É mais fácil fechar os olhos. Mas não será
14:50 necessário levar o mundo às costas para que algo mude? É uma pergunta. Não sei. Vivemos também
15:02 um tempo em que há o perigo de nos justificarmos com a ignorância ou com a ingenuidade. E a Laura,
15:15 13 anos de dados que a mim me deixaram a sobrevada. Eu acho que tive o tempo todo a fazer. Porque
15:25 para lá dos dados estão mil e uma realidades que ainda precisam de ser cuidadas, que precisam
15:34 se criar de alguma mudança. Então, não estará também na altura de pararmos de viver
15:44 bem com o mal, mas de escolhermos combater o mal como bem. Isso começa por nos informarmos,
15:54 por destaparmos os nossos olhos e abrimos bem os nossos ouvidos. Não poderemos nós fazer
16:04 diferente. Tenho pensado também que muitos daquilo que vivemos hoje em dia surge de uma
16:16 batalha de egos, de sensibilidades, de diferenças. E eu sinto mesmo que um bom primeiro passo para
16:24 que o mundo se tornasse no lugar melhor era se todos fôssemos mais bondosos e verdadeiros
16:30 com os próprios. E digo, não no sentido de passarmos paninhos quentes em nós mesmos. Eu,
16:39 Kika, ser verdadeira e bondosa comigo mesma implica reconhecer as minhas capacidades, as
16:45 minhas competências, as minhas aptidões, os meus talentos e pô-los a render. E também,
16:51 esta parte mais difícil, reconhecer aquilo em que ainda tenho que trabalhar, aquilo que
16:56 há em mim para crescer. E também, escalar, escolher, fazer diferente. E, sim, é ser verdadeira e
17:04 bondosa comigo mesma. Agora, isto só e isto escalar, o que vocês estão a pensar, não chega,
17:11 não é? Então, o que mais é que podemos fazer para que o mundo se torne um lugar melhor? Eu,
17:17 às vezes, tenho dificuldade em pensar qual é que é o meu papel neste mundo? Como é que
17:24 eu posso deixar uma marca? Sou só uma gota d'água no meio do oceano. Sou pequenina, não
17:31 sou em estatura, como é 1,65, mas sou pequenina. Sou uma jovem, 24 anos, em Portugal. O que
17:39 que eu vou fazer? A verdade é que hoje estamos aqui cerca de mil pessoas. Mil gotas de água. Uma gota
17:50 sozinha, se calhar faz pouco. Uma gota sozinha, se calhar não mata a sede ninguém. Mas mil gotas
17:59 de água podem matar a sede alguém. Então, se calhar, aquilo que temos de fazer é trabalhar
18:07 juntos. E se matarmos a sede a uma pessoa depois do dia 2, então o dia 2 já valeu a pena.
18:17 Acredito mesmo que nesta sala estão os atuais e os futuros médicos, advogados,
18:23 eletricistas, mecânicos, auxiliares, enfermeiros, psicólogos, consultores e políticos deste
18:30 país. Como assim ainda nos questionamos se não podemos ter um impacto neste mundo? Podemos sim
18:40 se escolhermos todos os dias viver uma vida consentido, se escolhermos relacionar-nos profundamente
18:48 aos outros, se escolhermos comprometer-nos. Tudo isto é o nosso papel neste mundo. Por isso,
19:02 queridos jovens, queridos amigos, queridos jovens, jovens, ou com os ventos da comelada,
19:10 é o nosso tempo. O que é que temos à espera? É o teu tempo. Ops, isto tem um outro slide.
19:18 É o teu tempo. E é isto. Obrigada.
19:31 Obrigado.

Kika Araújo

Descrição

Neste testemunho, Kika convida-nos a trocar a obsessão por respostas pela coragem de fazer perguntas que realmente importam. Através das suas inquietações, desafia-nos a repensar quem somos, como usamos o nosso tempo e que impacto queremos ter no mundo. É um apelo direto aos jovens: viver com intenção, autenticidade e responsabilidade coletiva.

Resumo

Kika começa por assumir a sua vulnerabilidade: o medo de não ter “algo bonito” para partilhar transforma-se no ponto de partida da sua mensagem. Em vez de oferecer respostas prontas, decide valorizar as perguntas — aquelas que inquietam, que provocam crescimento e que podem dar origem a grandes mudanças. A ideia central é simples, mas poderosa: são as inquietações que movem o mundo.

A partir de uma experiência pessoal numa entrevista de trabalho, reflete sobre a pergunta “Quem és tu?”. Percebe que não somos uma lista de qualidades ou defeitos, mas sim o conjunto das nossas experiências, paixões, escolhas e relações. Convida o público a fazer o mesmo exercício: olhar para si de forma mais profunda e honesta, para além das etiquetas superficiais.

A influência da avó reforça esta visão, lembrando-lhe que somos sempre “mais do que aquilo que pensamos”. Surge então o conceito de “luz e sombra”: cada pessoa é feita tanto do que conhece em si como do que ainda está por descobrir. A vulnerabilidade deixa de ser fraqueza e passa a ser um espaço de verdade e crescimento.

O olhar individual expande-se depois para o coletivo. Kika descreve um mundo desafiante — marcado por crises, desigualdades e contradições — e questiona o papel de cada um nele. Em vez de ignorar ou aceitar passivamente a realidade, propõe uma atitude mais consciente: informar-se, abrir os olhos e escolher agir com bondade e verdade.

Por fim, deixa uma mensagem de esperança e responsabilidade partilhada. Sozinhos podemos parecer “uma gota no oceano”, mas juntos temos poder para transformar. Cada jovem tem um papel a desempenhar e a mudança começa nas escolhas diárias: viver com sentido, criar ligações genuínas e comprometer-se com o bem comum. É, acima de tudo, um convite urgente: este é o nosso tempo.

gosto

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