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Bom dia a todos e a todas.
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O meu nome é Francisco Araújo, mais conhecida por Kika.
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Tenho 24 anos e sou daqui de Lisboa.
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Sou psicóloga clínica, mas hoje não vos venho falar sobre saúde mental nem nada do
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género.
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Venho-vos falar enquanto jovem, enquanto uma em três milhões de nós.
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Estive muito tempo bloqueada na preparação deste momento, não por não ter nada para
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vos dizer, até porque quem me conhece sabe que sou bastante faladora e gosto muito de
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falar, mas por achar que não tinha coisas bonitas para partilhar ou por achar que se
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calhar não vos ia conseguir inspirar.
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Houve uma pessoa que me ajudou na preparação deste momento e que me disse, não vais dar
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respostas, vais fazer as tuas perguntas.
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Essa mesma pessoa, na última edição de três milhões de nós, disse-nos a todos que muitas
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das vezes não se trata de obtermos respostas, trata-se sim de fazermos as perguntas certas
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no tempo certo.
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Acredito mesmo que grandes coisas podem nascer de grandes inquietações.
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E dou-vos um exemplo muito concreto, não sei se já alguma vez pararam para pensar em
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como é que surgiu o avião, aquilo que nós vemos todos os dias.
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Eu não fui investigar, mas a verdade é que muito provavelmente o avião surge a partir
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do momento em que um homem qualquer se inquieta bastante com o voo dos pássaros ao ponto de
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criarem-se mesmo a necessidade de voar e este desejo de voar.
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Uma grande coisa que nasce de uma grande inquietação.
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Aquilo que eu venho fazer hoje então é partilhar as minhas inquietações, partilhar as minhas
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perguntas.
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Não vos vou dar grandes respostas, mas se as minhas inquietações vos ajudarem já
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fico muito feliz.
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Comecei esta apresentação por dizer quem sou, por me apresentar, não é?
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De uma forma muito breve.
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Mas há poucas coisas melhores do que uma entrevista de trabalho para irmos exercitando isto de
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nos apresentarmos e também irmos percebendo como é que nos queremos definir e também
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conhecermos um bocadinho melhor.
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Eu entrei para o mercado de trabalho há cerca de um ano e por isso não tive muitas entrevistas
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de trabalho, mas no outro dia enquanto trabalhava na desorganização da minha secretária, por
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quem me conhece também sabe que eu sou muito desarromada, encontrei uma câbula para uma
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entrevista de emprego.
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Essa câbula dizia isto mesmo, quem sou eu, e com uma linha que dividia-se em a folha
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ao meio eu colocava de um lado coisas boas e do outro lado coisas mais sobre mim.
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E eu sei que isto parece muito tonto, mas na altura eu achava que me ia fazer aquela
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pergunta típica de três coisas boas e três coisas mais sobre ti.
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Não vou partilhar o que eu puse em cada uma destas listas, até porque não tive de
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o fazer nesse dia.
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Nesse dia a única pergunta que me colocaram foi, então quem é Francisco?
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E eu fiquei nervosinha, porque lá está era uma pergunta que me fugia àquilo que eu
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tinha planeado aquelas três coisas boas e três coisas mais sobre mim.
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Nesse dia percebi também que seria muito pouco reduzir-me a isto, muito pouco reduzir-me
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às coisas que eu gosto em mim e às coisas que eu não gosto.
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Acabei então por falar em resposta àquela pergunta sobre as minhas experiências, sobre
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aquilo que me dá a gozo na vida, a forma como eu vivo, o meu tempo.
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Falei sobre os meus projetos, as coisas que me apaixonam e percebi que tudo isso diz muito
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mais sobre mim do que estas coisas boas e coisas mais, muito mais sobre mim do que sou
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amiga dos meus amigos, simpática, preguiçosa, temosa ou desarromada.
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E por isso se hoje te perguntasse a mesma pergunta que me fizeram naquele dia, o que
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me respondias? Se eu te perguntasse, então, quem és tu? Quem és tu Sofia? Quem és tu Margarida?
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Quem és tu João? O que me respondias? Como é que te definias? Esta era a pergunta que
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me vinha naquele dia, como é que eu me quero definir? Falávas-me daquilo que os outros
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dizem que tu és, daquilo que tu mostras ser, daquilo que pones nas redes sociais, definias-te
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por uma lista de atributos, de qualidades e de feitos, ou falávas-me da tua vida, de
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forma como vivos, daquilo que te dá sentido, das bases de tua identidade, falávas-me das
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tuas referências, das pessoas que te marcam, das pessoas que escolhes seguir todos os dias,
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dos influencers desta vida reais a virtuais, falávas-me das pessoas que te tocaram, do
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pai ou da tua mãe, falávas-me daquilo que te comprometes todos os dias, da tua escola,
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do teu trabalho, da tua rotina, destas projetos que te apaixonam, falávas-me da forma como
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vives o teu tempo, de como escolhas viver o teu tempo, é que o tempo é o nosso bem
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mais precioso, então o que é que fazes com ele? Quando era mais nova era muitas vezes a
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minha avó que me ia buscar à escola, a minha avó é esta senhora linda, maravilhosa que
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eu tenho também, e nesses passeios de carro, eu não tinha esta idade, era um bocadinho
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mais, muitas vezes quando tinha um teste a minha avó nunca me perguntava como é que
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correu, perguntava sempre, então, gostaste? E eu ficava com o ar meitonto porque primeiro
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tinha dado um teste, e depois a minha resposta era sempre a mesma, eu dizia se gostei, não
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sei, se correu bem mais ou menos, e dizia mais ou menos para não me comprometer caso a
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coisa correse mal, nesses passeios de carro, quando chegava a altura de quanta hora a minha
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avó, a nota que eu tinha tido, e a minha avó me perguntava então que até que tivesse
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uma atica, eu, independentemente daquilo que eu dissesse, independentemente do valor,
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fosse um 15, um 18 que não era, independentemente disso, a resposta da minha avó era sempre
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a mesma, e a minha avó dizia-me, ó filha, tu és muito mais do que aquilo que tu pensas,
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dizia com o seu sotaque maravilhoso espanhol que eu não vou repetir, mas essa frase marca-me,
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e eu acho mesmo que aquilo que a minha avó me queria dizer nesses dias, e que ainda hoje
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me diz, é que eu sou muito mais do que uma lista de atributos, que eu sou muito mais
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do que aquilo que eu própria veja em mim, eu sou muito mais do que os meus sucessos e insucessos,
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e isto era o que eu também gostava de partilhar com vos coisas, é o nosso tempo, não só de
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nos deixarmos inquietar, como dizia no início, mas é também o nosso tempo de olharmos
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de uma maneira diferente, de uma forma mais íntegra, mais real, irmos para lá daquilo
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que já vemos. Nos últimos tempos, tenho me ajudado também a olhar para mim desta maneira,
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pelo que eu sou e por quem sou, e tenho percebido também com algumas pessoas que vou falando
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que eu sou luz e sombra, luz não no sentido do que é perfeito em mim, até porque meus
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amigos a perfeição não existe, luz também não no sentido daquilo que brilha mais em
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mim, ou daquilo que eu gosto mais em mim, luz no sentido que eu consigo ver com clareza,
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sombra também não no sentido do que é perfeito, porque mais uma vez a perfeição não existe,
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sombra também não no sentido daquilo que eu não gosto em mim, sombra é aquela parte
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em mim que eu ainda não conheço, é a parte em mim que eu ainda não reconheço que tenho
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de crescer, é também aquela parte que é fragilidade, vulnerabilidade. Quando preparar
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a ver este momento, encontrei nas notas do meu telemóvel, aquela coisa quando preparamos
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este momento, normalmente vamos ver se encontremos assim frases para dizer para aqui, e eu encontrei
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uma frase de uma psicóloga que nos diz, é na vulnerabilidade que nos vemos verdadeiramente,
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que nos sentimos enquanto humanos, por detrás de todos os títulos, capas e máscaras somos
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pessoas por inteiro. Isto é fortíssimo, porque quantas vezes é que eu não evito, isto,
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quantas vezes é que eu não evito a vulnerabilidade, o sentir-me pequenina, e tenho percebido também
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ao longo dos últimos tempos, que é nestes momentos em que a vulnerabilidade surge, que
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surge também a verdadeira quica, com a sua luz e com a sua sombra. Luz quando consegue
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se calhar e reaproximar-se das pessoas, que é de maneira diferente. Luz também quando
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consigo reconhecer os meus próprios limites. Sombra quando surge a minha parte mais agressiva,
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ou quando não sei muito bem como reagir, e bloqueio. A verdadeira quica por inteiro. Há uns
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anos, quando estava aí sentada, houve uma oradora que nos disse isto. Só quem se conhece
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de si mesmo pode ter um impacto no mundo. Então, nós estará no tempo de olharmos para nós de
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maneira diferente. E depois, a questão é, em que mundo é que eu quero ter um impacto?
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Porque também há isso para pensar. É no mundo que eu imagino? É no mundo que eu idealizo?
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É no mundo virtual? Ou é no mundo real que eu piso? Um mundo real que eu quica piso
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é, do meu ponto de vista, um mundo ferido. Um mundo em que, hoje em dia, na atualidade
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que vivemos, eu diria que é desafiante ser jovem. É desafiante porque vivemos numa conjuntura
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de guerras, crises políticas, crises econômicas, sociais. Quantos nós é que já não se imaginam
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trabalhar aqui em Portugal? Quantos nós é que não têm um amigo ou um familiar que teve de ir
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trabalhar para fora, porque só fora é que encontrava as condições de vida que procurava. Eu tenho.
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E tudo isto para dizer que, ao mesmo tempo, há um paradoxo. A imigração nunca foi tão alta.
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Temos jovens chegados de todo o lado do mundo a escolher em Portugal e a procurar em Portugal
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aquilo que muitos de nós procuramos lá fora. Melhores condições de vida. A diferença,
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e isto já é minha opinião, é que nós somos uns privilegiados porque aqui, pelo menos,
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temos segurança e paz. Muitos deles, se calhar, não têm. E a verdade é que eu muitas vezes
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escolho, nem querer saber, nem ver. É mais fácil. É mais fácil fechar os olhos. Mas não será
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necessário levar o mundo às costas para que algo mude? É uma pergunta. Não sei. Vivemos também
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um tempo em que há o perigo de nos justificarmos com a ignorância ou com a ingenuidade. E a Laura,
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13 anos de dados que a mim me deixaram a sobrevada. Eu acho que tive o tempo todo a fazer. Porque
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para lá dos dados estão mil e uma realidades que ainda precisam de ser cuidadas, que precisam
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se criar de alguma mudança. Então, não estará também na altura de pararmos de viver
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bem com o mal, mas de escolhermos combater o mal como bem. Isso começa por nos informarmos,
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por destaparmos os nossos olhos e abrimos bem os nossos ouvidos. Não poderemos nós fazer
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diferente. Tenho pensado também que muitos daquilo que vivemos hoje em dia surge de uma
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batalha de egos, de sensibilidades, de diferenças. E eu sinto mesmo que um bom primeiro passo para
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que o mundo se tornasse no lugar melhor era se todos fôssemos mais bondosos e verdadeiros
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com os próprios. E digo, não no sentido de passarmos paninhos quentes em nós mesmos. Eu,
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Kika, ser verdadeira e bondosa comigo mesma implica reconhecer as minhas capacidades, as
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minhas competências, as minhas aptidões, os meus talentos e pô-los a render. E também,
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esta parte mais difícil, reconhecer aquilo em que ainda tenho que trabalhar, aquilo que
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há em mim para crescer. E também, escalar, escolher, fazer diferente. E, sim, é ser verdadeira e
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bondosa comigo mesma. Agora, isto só e isto escalar, o que vocês estão a pensar, não chega,
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não é? Então, o que mais é que podemos fazer para que o mundo se torne um lugar melhor? Eu,
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às vezes, tenho dificuldade em pensar qual é que é o meu papel neste mundo? Como é que
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eu posso deixar uma marca? Sou só uma gota d'água no meio do oceano. Sou pequenina, não
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sou em estatura, como é 1,65, mas sou pequenina. Sou uma jovem, 24 anos, em Portugal. O que
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que eu vou fazer? A verdade é que hoje estamos aqui cerca de mil pessoas. Mil gotas de água. Uma gota
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sozinha, se calhar faz pouco. Uma gota sozinha, se calhar não mata a sede ninguém. Mas mil gotas
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de água podem matar a sede alguém. Então, se calhar, aquilo que temos de fazer é trabalhar
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juntos. E se matarmos a sede a uma pessoa depois do dia 2, então o dia 2 já valeu a pena.
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Acredito mesmo que nesta sala estão os atuais e os futuros médicos, advogados,
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eletricistas, mecânicos, auxiliares, enfermeiros, psicólogos, consultores e políticos deste
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país. Como assim ainda nos questionamos se não podemos ter um impacto neste mundo? Podemos sim
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se escolhermos todos os dias viver uma vida consentido, se escolhermos relacionar-nos profundamente
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aos outros, se escolhermos comprometer-nos. Tudo isto é o nosso papel neste mundo. Por isso,
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queridos jovens, queridos amigos, queridos jovens, jovens, ou com os ventos da comelada,
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é o nosso tempo. O que é que temos à espera? É o teu tempo. Ops, isto tem um outro slide.
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É o teu tempo. E é isto. Obrigada.
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Obrigado.