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Olá a todos. Muito bom dia. O meu nome é Guilherme Ramos, tenho 25 anos e sou de Lisboa.
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Não estou aqui por ter feito algo extraordinário, por ter ultrapassado um grande obstáculo
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na minha vida ou por ter descoberto os três passos para a felicidade. Também não estou
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aqui por ser um expert num tema qualquer, como os oradores que acabámos de escutar,
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porque na realidade pouco sei de quase tudo e acredito que ainda tenho muito para aprender.
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Já não sou estudante, já trabalho, entrei no mercado de trabalho há cerca de dois anos.
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Sou engenheiro, mas sou daqueles engenheiros modernos que não sabe arranjar nem uma torradeira,
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escreve linhas de código e gosto de acreditar que isso, de alguma forma, tem algum impacto em alguém.
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Estou aqui hoje também porque a organização do 3 Milhões de Nós gostava muito que este
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momento fosse nosso. Após este painel do Estado da Nação, gostava muito de saber
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o que é que nós jovens temos a dizer. No entanto, eu quero desde já tirar este peso
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acima de mim, porque eu sei que sou apenas um em 3 Milhões de Nós. E isso significa
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que aquilo que eu vos trago hoje é um pouco do que me move a mim, é um pouco de como
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eu tento responder esta pergunta então e agora. E que não é, com certeza, melhor
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do que a vossa maneira. Peço que seja nesta perspectiva que escutam aquilo que tenho para dizer.
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Vou fazer muito mais perguntas do que vou dar respostas, mas é isso que eu vivo por
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dentro, é só isso que eu tenho para vos dar. Aliás, eu acho que já descobri na minha
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vida que, às vezes, mais importante do que termos respostas é fazermos as perguntas
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certas na altura certa. Por isso, pode ser que não seja inútil.
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O pontapé de saída já foi dado pelos oradores que me antecederam. Situaram-nos no mundo
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em que estamos. Percebemos que vivemos uma situação geopolítica internacional muito
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desafiante, vivemos uma economia que realça desigualdades e vivemos uma situação climática
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que nos chama a tomar atitudes responsáveis. E a primeira conclusão que eu acho que podemos
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tirar logo é que nós não somos uma geração que se possa precipitar. Não somos. Somos
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uma geração que precisa de refletir muito e bem sobre os próximos passos. Por isso,
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ainda bem que estamos aqui hoje, ainda bem que estamos tantos, porque é sinal que queremos
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refletir, é sinal que não nos queremos precipitar. Mas hoje somos jovens e, como somos jovens,
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eu fiquei muito curioso a saber o que é que se diz sobre a juventude hoje. E encontrei
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três frases que vos trago aqui hoje porque me marcaram de alguma forma.
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A nossa juventude adora o luxo, é mal educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito
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pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos, eles não se levantam
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quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus. Não tenho mais
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nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã,
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porque esta juventude é insuportável, desenfriada, simplesmente horrível. E ainda, esta juventude
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está estragada até o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos, eles nunca
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serão como a juventude antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa
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cultura.
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Não sei como é que estas três frases vos fazem sentir, não sei se é isto que ouvem
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nas vossas vidas, nas vossas casas, mas se for, eu tenho uma excelente notícia para
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vos dar hoje. A primeira frase foi dita por Sócrates, em 470 a.C. A segunda foi dita
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por Isíodo, a 720 a.C. E a terceira estava escrita num vaso de argila descoberto nas
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ruínas da Babilónia, há 4.000 anos atrás. Não quero com isto dizer que somos a geração
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perfeita, não somos, sabemos disso, mas se calhar não somos os piores. Se calhar não
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somos os piores.
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E por outro lado, há qualquer coisa interessante nisto, não é? Como é que é possível que
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há tanto tempo atrás já se dizia isto sobre os jovens? O que é que os jovens têm de
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especial? O que é que nós temos em nós nesta idade que faz parecer que somos uns malucos
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e que parece que estamos a fazer uma revolução e mudar tudo de repente e não vamos manter
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a cultura do nosso país? E eu, como sou muito limitado, não era capaz de arranjar uma boa
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frase para explicar isto.
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Mas tenho a sorte de ter um avô que é muito sábio e com quem eu gosto de conversar muito.
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E assim que fui falar com o meu avô e lhe disse, avô, dizem isto sobre os jovens há
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tanto tempo atrás, o meu avô disse-me, Nil novi sub sole, ao que eu respondi, santini.
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Mas o meu avô, como para além de sábio também é muito paciente, explicou-me, porque
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eu nunca estudei latim, não falo nada de latim. Aliás, a única coisa que sei em latim
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é pluribusuno, por motivos extra-curiculares. E o meu avô explicou-me, não há nada de
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novo debaixo do sol. Não há nada de novo debaixo do sol. E esta frase, a mim, traz-me
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muita calma, traz-me muita paz em momentos em que estou mais, este mundo está maluco,
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como é que vamos sair daqui, como é que vamos dar a volta? Calma, não há nada de
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novo debaixo do sol. Há coisas sobre a essência do ser humano que já vêm há tanto tempo,
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o que também significa que há coisas que podemos aprender, não temos que inventar
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a roda. Podemos olhar para as gerações anteriores, podemos ver o que fizeram bem, aquilo que faríamos
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de forma diferente, sempre com muito respeito, olhar para as gerações anteriores sempre
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com muito respeito, mas relembrarmos que há qualquer coisa que é transversal ao tempo.
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Não há nada de novo debaixo do sol. Neste painel da manhã, eu acho que há três
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conclusões-chave que vão lançar os três milhões de nós. A primeira é que o mundo
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está em constante mudança. Está sempre tudo a mudar. A segunda é que a maior parte
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das coisas no mundo acontecem sem o nosso controle. Não vale a pena termos um Excel
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com a nossa vida apanhada ao segundo e ao minuto. Eu vou tirar este curso, depois vou
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trabalhar, depois vou... A maior parte das coisas nós não temos mão. E a terceira
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é que então é preciso aprender a viver com tudo a mexer. O que quer que seja que
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nós aprendemos aqui hoje, o que quer que seja que nós arranjamos para a nossa vida,
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tem de ser uma ferramenta que nos permite andar em andamento, que nos permite não esperar
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que condições favoráveis estejam à nossa volta para nós podermos crescer. Porque nunca
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vamos ter condições favoráveis. Nunca. Basta pensarmos nos jovens turcos e nos jovens
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sírios. Se eles fizessem um evento destes há três meses atrás, o que é que eles
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diriam que seriam os desafios deles? E o que é que eles dizem hoje? Não vale a pena estarmos
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à espera de condições favoráveis. E com isto eu pergunto-vos, então e agora?
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Então e agora? A que é que nós nos propomos como geração? E isto é uma pergunta de
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uma vida. Não é uma pergunta que nós vamos responder aqui hoje, de certeza. É uma pergunta
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que se calhar nem tem resposta. Se calhar procuramos viver alguma resposta. Mas a mim
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ajuda-me, para começar este caminho, a dar um passo atrás. E quem me ajuda a dar este
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passo atrás é o Chesterton. Eu juro que não combinei com o Francisco Ferreira, que
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é a bocado, mas também tenho uma frase que gosto muito dele, que é a seguinte. Uma
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pessoa que pretende a pôr em causa seja o que for, deve começar sempre por explicitar
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as coisas que não põe em causa. Por outras palavras, é o mesmo que eu vos perguntar.
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O que é que para nós não é negociável? O que é que para nós, como geração, não
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é negociável? Quais é que são os valores? Quais são as coisas que nós acreditamos
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que têm que estar na base da nossa sociedade? Nós vamos ser os homens e as mulheres do
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futuro. Nós vamos ser os médicos, os engenheiros, os professores, os pais e as mães. As respostas
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concretas que daremos no dia a dia têm que ter estes alícios certos por trás. O que
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é que para nós não é negociável? Por outro lado, ao pensar sobre isto, as coisas
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que nós não põemos em causa, relembra-me também de um perigo que se calhar a nossa
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geração enfrenta. Que é o perigo de nós sermos a geração das certezas. É o perigo
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de arranjarmos tantas coisas que não põemos em causa que nos barricamos atrás das nossas
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certezas e estamos absolutamente fechados ao mundo. E apesar de curta, a minha vida já
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me ensinou a ter muito mais medo das minhas certezas do que das minhas incertezas. Sabem
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porquê? Porque as minhas incertezas nunca me fecharam a porta a nada. Nunca. As minhas
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incertezas nunca me fecharam a porta a uma conversa com alguém que pensa diferente de
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mim. Nunca me fecharam a ler um artigo de um cronista só porque o cronista pensa diferente
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de mim. Nunca me fecharam a um livro. Nunca me fecharam a um filme. E as minhas certezas
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já. As minhas certezas já. Portanto, se hoje estão aí sentados e são alguém que
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está cheio de incertezas na vossa vida, não faz a mínima ideia do que é que quer fazer,
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de que lado se virá. Se calhar não estão assim tão mal. Se calhar não estão assim
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tão mal. Mas para quem sente que isto de enfrentarmos esta situação que nos foi apresentada,
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este estado da nação que nos foi apresentado no painel anterior, quem se sente com medo
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desta responsabilidade, eu dou-vos uma boa notícia. Não o vão fazer sozinhos. Somos
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3 milhões de nós. Aliás, somos 3 milhões de eus. Cada um no seu caminho, na sua vida,
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a procurar as suas respostas, a procurar o que quer fazer, a procurar o seu lugar, a
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procurar o que lhe toca, o que não lhe toca. Só nos tornaremos os 3 milhões de nós
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o dia em que aprendemos a atar estes nós. O dia em que aprendermos o que é que cria
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uma ponta entre nós, o que é que nos faz sentir parte de um todo e não apenas cada
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um a fazer o seu caminho, cada um na sua vida. E isto é a mesma coisa que perguntar
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como é que nós nos ligamos. Como é que nós nos ligamos uns aos outros. Vamos trabalhar
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isso hoje, aqui. Porque é tão importante, é tão relevante perceber como é que hoje
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em dia, num mundo que é tão digital, como é que nós realmente criamos relação. A
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partir de que momento é que uma pessoa que vocês conhecem se passa a tornar vossa amiga?
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Qual é que é o momento em que vocês passam a dizer, não, esta pessoa é a minha amiga,
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deixou de ser conhecida? O que é que cria a ligação? E assim que nos ligamos uns aos
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outros, aprendemos claramente que não somos todos iguais. Aliás, somos todos diferentes
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no que vestimos, no que comemos, no que gostamos, no que vemos como certo e errado. E então
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também é relevante perguntar com quem somos. Com quem somos, com quem convivemos nesta
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sociedade. E esta diferença que temos uns com os outros é má? Toleramos a diferença?
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Ou vemos-la como uma riqueza? Alguém gostaria de ir a um concerto de uma orquestra só com
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violoncelos? Ou alguém gosta de uma equipa de futebol só com defesas de direitos? Esta
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riqueza de sermos diferentes é uma coisa que reconhecemos? Ou é uma coisa que ainda
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nos custa aceitar? Porque depois o que pode acontecer é termos a tendência a juntarmos
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só aos que são mais parecidos conosco, ao percebermos as diferenças que temos. E vamos
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criando barreiras invisíveis entre nós. Vamos criando o nós contra eles. Os que pensam
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como eu e os que não pensam. Os bons e os maus. E até os algoritmos que usamos estão
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feitos para nos dar mais do que nós já vimos. Para nos manter dentro da trincheira. Pensem
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no Youtube, por exemplo. O algoritmo de recomendação de Youtube é isso que faz. Quando nós vemos
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um vídeo, do que quer que seja, é-nos sugerido mais vídeos semelhantes. Seja do mesmo autor,
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do mesmo género, se estivermos a falar de música. Lembro-me, por exemplo, de há uns
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anos atrás, para umas eleições europeias, que queria-me informar, então fui ao Youtube
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e vi um vídeo de um partido político português. E lembro-me que acabei de ver o vídeo e no
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dia seguinte, quando abri o Youtube, tinha mais três vídeos desse partido na minha
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página principal. Ou seja, se eu às tantas não tiver o cuidado de me obrigar quase a
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pôr-me no outro lado, a ouvir uma opinião diferente, a escolher bem as minhas fontes
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– porque isso é muito importante, sabemos que vivemos num mundo de desinformação e
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acabou de nos ser dito isso – mas selecionar fontes, ouvir de fontes diferentes. Porque
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senão, vamos para o mundo real, encontramos alguém que pensa diferente de nós e ficamos
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chuchucadíssimos. Meu Deus, esta pessoa! Que escândalo! É tão importante, é tão
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importante aprendermos a ver o outro lado. Mas não chega a estarmos ligados uns aos
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outros. Não chega, porque os outros não vão estar cá sempre. E os outros também falham.
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Portanto, é mesmo muito importante que nos liguemos a nós próprios. É mesmo muito importante
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que sejamos capazes de nos conhecer melhor. E este conhecer melhor, eu acho que é um
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desafio. Para mim é chave. Porque quando vocês conhecem uma pessoa nova, o que conhecem
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dela é o aspecto exterior. Mas à medida que começam a fazer perguntas e as respostas
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vão chegando, conhecer o interior da pessoa leva-nos a toda uma dimensão completamente
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diferente e quantas vezes isso não nos surpreende imenso. Parece que a pessoa tem toda uma beleza
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enorme dentro dela. Por que é que achamos que isso connosco é diferente? Por que é
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que achamos que já nos conhecemos? Só porque nos vemos ao espelho todos os dias? Será
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que se fizéssemos as mesmas perguntas que fazemos a uma pessoa nova quando a conhecemos,
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a nós próprios, nos poderíamos surpreender com as respostas que temos para dar? E será
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que com essas respostas não veríamos muito mais beleza em nós? Porque para mim conhecer-me
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melhor fez-me perceber que muitas vezes aquilo que eu achava que custava não gosto assim
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tanto. E aquilo que eu achava que queria não quer assim tanto. E aquilo que eu achava que
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não custava e não me doía dói-me e custa-me. E faz-me custar mais de mim. Faz-me ser mais
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rico comigo próprio. E aqui entramos numa dimensão que para mim é fundamental, que
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é a dimensão da espiritualidade. Todos somos seres espirituais e todos fazemos grandes
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perguntas do que é que estamos aqui a fazer, que raio é que nenhum de nós pediu para
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nascer, certo? Estamos aqui. E para mim, na minha vida, o motor do meu dinamismo interior
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para me conhecer a mim próprio é a fé. A fé é o que me dá e que me faz acreditar
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que a minha vida vale a pena ser bem vivida. E que a minha vida pode ter um propósito
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maior se eu a entregar. Que sou responsável pelos que estão à minha volta. Que não
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devo só fazer o bem. Devo fazer o bem, bem feito. E eu não sou ninguém para comparar
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com todas as outras formas que temos de viver a espiritualidade. Com ou sem fé. Não vou
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dizer que a minha é melhor que ninguém. Acho que é só importante explorarmos. E
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é importante darmos uma oportunidade a fazermos estas grandes perguntas. Estas perguntas de
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uma vida que não tem resposta e que ainda colecionamos mais duas ou três perguntas
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pelo caminho. Portanto, eu não sou ninguém para dizer que a minha é melhor ou para comparar.
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Aliás, se formos avaliar por níveis de loucura, eu sou muito mais louco do que vocês. Porque
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eu acredito que um homem morreu e ressuscitou. Portanto, sou muito mais louco.
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A vida já me ensinou que é muito bom viver a procurar. Vale mesmo a pena viver a procurar.
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Mesmo que tantas vezes não encontre nada. E com isto chega a altura de nos perguntarmos
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o que é que nós queremos viver. E esta pergunta traz-me uma ansiedade enorme. Porque eu não
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faço a mínima ideia de como é que eu posso ser alguém num mundo que tem tanta gente.
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E tanta gente melhor que eu. Tudo o que eu gosto de fazer é alguém que faz melhor. Eu
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gosto de jogar futebol. Em Portugal, alguém dá um chute de uma pedra, sai jogador da bola.
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Eu gosto imenso de tocar piano. Tenho na minha família quem toca muito melhor do que eu.
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Sou engenheiro. Trabalho na área de inteligência artificial. O que não falta aí é a malta
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que dá cartas. E é tão boa. Eu fico parvo só dos ouvir falar. Aliás, até já há
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um chato GPT que faz o mesmo que eu. Trabalha 24 horas por dia e não recebe um salário.
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Portanto, socorro. Mas o caminho para perceber o que é que eu
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quero fazer na minha vida tem começado por me aperceber do quão especial a minha vida
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é. E não é um especial de ai que este é um especial. É um especial único. É um
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especial de irrepetível. É um especial de eu tomar consciência que não há mais nenhum
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Guilherme no mundo que goste de jogar futebol, toque piano, seja engenheiro da área de inteligência
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artificial, que viva na minha família, esteja no meu grupo de amigos, trabalhe na minha
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empresa. Isto faz-me sentir profundamente responsável pela minha vida. Faz-me sentir
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que tenho responsabilidade perante as pessoas que estão à minha volta. Faz-me sentir que
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eu não quero ser figurante. Eu quero ser protagonista da minha própria vida. Quero
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agarrá-la com unhas e dentes. Porque posso ter um impacto nas pessoas que estão à minha
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volta. Ao tomar consciência disto, então eu não preciso de ser o Cristiano Ronaldo,
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eu não preciso de ser o Dalai Lama, nem preciso de ser o Martin Luther King, eu preciso
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de ser o Gui. Com o bom e o mau que o Gui tem, com as dificuldades que tem, com as limitações
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que tem, mas quero ser o Gui. Quero ser a melhor versão possível do Gui. Porque eu
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tenho a certeza que se eu viver de forma diferente, é impossível as pessoas ao meu lado ficarem
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diferentes. É impossível. Portanto, se calhar é isto que nós nos podemos propor como geração.
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Nós ousamos ser protagonistas da nossa própria vida. Num mundo onde a vida dos outros nos
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é espetada à frente todos os dias, e é sempre melhor que a nossa, é sempre melhor,
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é sempre mais divertida, nós ousamos dizer, não, não, eu vou ser protagonista da minha
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vida. Fazer o meu caminho. Eu vou cometer os meus próprios erros. Acho que este pode
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ser o nosso grande desafio. Porque afinal de contas, como é que nós seremos alguma
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vez capazes de mudar o mundo, se nem sequer somos capazes de nos mudar a nós próprios?
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Como é que nós daremos resposta a estas questões todas que vimos, a este mundo louco
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que estamos a viver, se nem sequer somos capazes de arrumar o nosso quarto? Queremos organizar
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o mundo e não organizamos a nossa vida? Para terminar, gostava de terminar com uma
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nota um bocadinho mais pessoal. Eu tive a sorte de poder ter a minha avó a viver muito
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perto do colégio onde eu estudava. O que me permitia que às horas de almoço eu fosse
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sempre almoçar com ela. E a minha avó, na fase final da vida dela, enfrentou uma demência
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que a limitou muito. Fisicamente, psicologicamente. Ainda por cima foi enfermeira a vida toda,
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por isso estava muito consciente daquilo que lhe estava a acontecer. E aos poucos ia-se
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afastando. Mas eu ia lá almoçar todos os dias. Almoço da avó. Não havia banquete,
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não havia necessidade nenhuma, mas a minha avó, com todo o carinho, preparava tudo e
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mais um par de botas. E à saída, a minha avó despedia-se sempre com a mesma frase.
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Eu, na altura, era garoto. As coisas entravam a 100 e saiam uma mil. E achava que era a
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minha avó a dizer a frase dela. Vamos embora. Mas a verdade é que ficou. E ficou de tal
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forma gravada no meu coração que hoje vos trago aqui. Porque acho que é o mote perfeito
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para aquilo que nós vamos viver aqui hoje. A minha avó dizia-me assim. Se eu tivesse
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a tua idade e soubesse o que sei hoje, corria e ninguém me apanhava.
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Aplausos
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Adorava ter explorado ao máximo este soubesse o que sei hoje. Sempre que puderem, explorem.
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Com quem já foi jovem um dia.
22:04
Mas o foco para mim está no correr e que ninguém nos apanhe.
22:07
Tínhamos pressa em ser alguém. Tínhamos pressa em ser protagonistas.
22:12
Então e agora? Corremos e que ninguém nos apanhe. Obrigado.
22:16
Aplausos