3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Quem começa, Maria? Começas tu, que és mais nova, e estas pessoas estão aqui todas
0:13 para te ouvir.
0:14 Olá! É muito... Não sei, eu até acho que devias começar tu, porque não, porque quando
0:20 me fizeram um convite e depois percebi que queria falar contigo foi uma coisa muito,
0:25 muito incrível, porque eu tenho 25 anos, então eu queixi sem muitas referências de
0:33 mulheres na política, no jornalismo, nesta área em que eu gosto de deixar com o movimento,
0:39 não é? E pronto, e tu és, foi sempre uma dessas referências, e portanto foi muito,
0:44 muito incrível, acho que é importante ver essas referências femininas que faltam, tanto
0:49 ainda hoje em dia faltam, então quando eu estava a crescer ainda mais...
0:53 Maria, então eu faço-te uma pergunta, depois tu fazes perguntas e ficamos aqui conversar.
0:59 Então, como estava a te perguntar, é o que tens feito ultimamente pelas raparias, pelas
1:05 mulheres, pelas miudas, e esse poder da irmandade que é nós mulheres quebrarmos definitivamente
1:14 este mito, este estereótipo, este estigma de que as mulheres estão sempre a competir
1:18 com as mulheres e que não se entre e ajudam.
1:21 Essa é uma pergunta incrível, porque esse estigma que existe, que existe entre nós
1:28 e que nós praticamos às vezes sem querer, às vezes são microações que nós temos,
1:34 que não temos bem no chão e que são incutidas desde que somos muitos jovens nesta competição,
1:41 quase que parece que só temos um lugar, só existe um lugar para aquela mulher especificamente
1:46 e que ela é o meu lugar, ou se for de outra pessoa, eu o estou fora, porque o resto tudo
1:52 é dos homens e se nós olharmos para a forma como os homens interagem uns com os outros,
1:57 como estão no espaço público, mas também no espaço privado, é uma forma de camaradagem
2:05 que nós não temos, porque não nos foi ensinado.
2:08 Não sei se não temos, eu acho que nós temos, acho que parece que temos menos do que aquilo
2:14 que temos, porque o poder das amigas e o poder da amizade entre amigas é brutal.
2:21 Agora, eu acho que as mulheres não se juntam tanto e não agregam tanto.
2:25 Os homens, aconteceu o que aconteceu, podem ter hábitos de todas as semanas, ou estão
2:31 a jogar, ou vão jantar, ou encontram se as mulheres não têm isso.
2:35 Mas estábamos, mas é interessante porque se nós fomos ao século 19, aos manuais de
2:39 boas maneiras, isto é uma história que eu estou sempre a contar, se associar uma
2:44 história sobre o Gósep, que é a Silvia Federitsch, que conta e que eu achei incrível, mas só
2:51 para focar no século 19, os manuais de boas maneiras incitavam que as mulheres não tivessem
2:57 a proibir a um bocado as mulheres terem amizades femininas, e daí que tu, quando falas das
3:02 amizades é isso, de facto que é muito interessante porque tu encontras um lugar de partilha,
3:08 e um lugar onde consegues ultrapassar uma certa injustiça de conhecimento, ou seja,
3:15 justiça hipostémica, que às vezes acontecem coisas que eu não tenho palavras para descrever
3:19 logo quase que não acontecem, e eu não os sinto porque não os sai descrever, quase
3:23 como se te pedissem para descrever um elefante que não consegue, porque são diversas palavras
3:28 para descrever, e com isso nós conseguimos, através da partilha, conseguimos perceber
3:34 que, se calhar, aquilo que nos acontece nos caritórios, com um homem mais velho, não
3:40 é normal, e o problema não é meu, o problema de facto, é dele que às vezes até está
3:46 a perpetuar práticas que ele próprio desconhece que são nefastas.
3:52 Nem sequer, e pode nem ser sequer a sério, pode ser só um comportamento mais machista,
3:56 ou mais masculinizado naquilo que retira papel, ou retira espaço, ou a liberdade à mulher.
4:03 Sim, claro, porque às vezes é porque nem sequer te ouvem, não sei se está acontecendo
4:08 nos dois longos anos, nos dois longos percursos de profissionais, não sei se já está
4:13 aconteceu a coisa de tu estás num espaço só de homens, e eles não...
4:18 Não adeixa para o nosso texto.
4:19 Não há nada.
4:20 Não é?
4:21 É.
4:22 Eu, por causa, gostava de dizer que, em relação a este ponto de partida, gostava de falar
4:27 aqui duas experiências que tive, uma com a Girl Move Academy, que é incrível.
4:32 É uma academia para quem não conhece a Girl Move Academy, é uma academia para as raparigas
4:39 moçambicanas, e é uma academia que forma uma elite em moçambique a 1% de raparigas de
4:47 mulheres que chegam à universidade, e desse 1% não completam o curso, e portanto estão
4:53 a ver o que é preciso para chegar à universidade.
4:56 E estas raparigas são depois, nesta academia, elas são feitas mentoras das raparigas mais
5:03 novas, e isto está a provocar uma mudança sistêmica na realidade moçambicana, que
5:08 é uma realidade muito adversa, se calhar para nós parece-se já um bocado remota, mas
5:13 há muita desigualdade, de facto, no mundo entre homens e mulheres, e há muita desigualdade
5:18 em certas latitudes, especialmente em países como moçambique.
5:22 E é impressionante, eu estive lá, como voluntária, e é impressionante ver o poder das histórias
5:28 de cada uma, e quando estamos a falar das histórias de cada uma, são histórias de abandono,
5:33 de maus tratos, de abuso, de serem abusadas, portanto são histórias que parece um bocadinho,
5:42 o Boyder acabou de contar uma história que só em si, só atravessia do desardo, já
5:46 seria trágica, e depois atravessia do Mediterrâneo, e tudo isto, e o Boyder chega aqui com o
5:51 sorriso, e não está a falar daquilo do mal que passou, mas a usar o mal que passou
5:56 para a superação.
5:57 E estas mulheres, e portanto estamos a falar do poder de mulheres, na Girlmove Academy
6:01 são mulheres, que ajudam mulheres, que acompanham mulheres, que empoderam mulheres
6:06 e meninas e jovens, é impressionante ver o impacto que isso tem, portanto, nós, quando
6:12 estamos a falar de igualdade, nós, mulheres, temos um papel absolutamente decisivo nesta
6:17 irmandade, nesta fraternidade entre mulheres.
6:21 E as tantas aqui, pronto, nós, o que é que está ao meu alcance fazer?
6:27 O que é que cada um de nós pode fazer?
6:28 E por isso a pergunta veio aí, e sei que tu fazes muitíssimo.
6:31 Sim, na verdade acabei por não te responder assim, mas com direto, desculpa.
6:36 Não, não, não, eu já disse que queria só marcar este ponto que é, está sempre
6:41 ao nosso alcance, homens, mulheres, está sempre ao nosso alcance melhorar a vida de
6:46 alguém que, ou se sente discriminado, ou está mais frágil, ou não tem voz, ou não
6:51 tem um espaço, ou não tem liberdade.
6:53 E é uma frase que é diz-me quem discriminas, ou diz-me quem excluis, e eu diretei quem
7:00 és.
7:01 E esta frase acho que é uma frase que tem que nos atravessar como uma espada.
7:04 Sim.
7:06 Sim, mas é mesmo que eu sinto um pouco, não sei se tu sentiste dessa forma, mas é quase
7:19 que só a nossa presença aqui, ou em qualquer sítio, numa empresa, num espaço público,
7:25 só a presença já é meio desreputiva, porque só a presença já é estranha.
7:30 Nós olharmos, sei lá, se estiverem a falar, aqueles actos micro-actos de feminismo que
7:36 são interessantes e que eu acho graça que, por exemplo, se estão a falar de um CEO,
7:42 estão a falar de todo um setor de uma empresa, é giro de tu assumir logo a partir daquilo
7:47 que é uma mulher, porque normalmente assumimos o contrário, não é?
7:49 Assumimos que é sempre um homem.
7:50 E portanto, quando é uma mulher, de repente nós estamos sempre a classificarmos e a existir
7:57 em comparação com o homem, sempre.
7:59 E portanto, só a nossa existência sem isso, por exemplo, no podcast que eu tenho com
8:04 duas amigas, que são muito queridas, e que nós decidimos fazer este projeto em que
8:10 falamos de política semanalmente às três, e somos três jovens, na altura tínhamos
8:15 menos de 25 anos, e agora, como estamos a passar e isso já não dizamos, é uma pena,
8:21 mas nós falamos de política semanalmente e causa imenso desconforto.
8:25 E na verdade, depois, a coisa mais incrível que eu experiencio neste contexto é, vem
8:33 miudas dos 15, 14, 16, mesmo mulheres mais velhas que eu, falar conosco e dizer em que
8:42 eu nunca tinha tido a oportunidade de ver só mulheres a falar de política, porque é
8:47 mesmo uma coisa que não existia, ou seja, existia muito pouco, ou pelo menos quando
8:50 nós e mulheres jovens, eu tive uma miuda, especificamente, vai dizer que o professor
8:55 de, acho que era o professor de português, dizia que como ela era muito contestatária
8:59 e muito inflamatória nas aulas, ela tinha há 15 anos que nenhum homem ia querer estar
9:03 com ela.
9:04 Que horror.
9:05 Não, isto foi há uns meses, e ela diz que só o facto de estar a ouvir que nós somos
9:12 contestatárias e um bocado inflamatórias e causamos algum desconforto, e mesmo assim
9:16 temos espaço, faz com que ela desvalorize as palavras deste professor, mas é muito fácil
9:21 não desvalorizar, quer dizer, se tu tens um professor a dizer isto aos 15 anos, é
9:25 de uma violência brutal, porque a nossa palavra é sempre chata, é sempre um desconforto,
9:31 só o facto de nós estarmos a falar disto é tipo, estás a victimizar-te, nós somos
9:38 um bocado vítimas disto, mas somos vítimas com agência, que é importante não cairmos
9:44 na ilusão de que está tudo bem.
9:46 Maria, mas tu estava a dizer isso em relação à política, mas há uma coisa ainda anterior
9:52 à política que é a ver homens, mães, pais, que dizem às filhas, porque têm pesa mais
9:59 ou porque sentem que há qualquer coisa ali que está um bocadinho fora da norma, e dizem
10:06 dessas coisas, dizem essas coisas, eu conheço uma mãe que diz isso à sua filha, aliás
10:11 conheça a filha e conheça a mãe, e é um trágico, é trágico pensar que se for
10:17 um rapaz, é um rapaz, ninguém diz se for de gordo, não vá se encontrar uma mulher,
10:23 mas uma rapariga continua a dizer se está de gordo, ninguém, ninguém, não vá se
10:27 ter namorado.
10:28 É nojento.
10:29 Estatísticas sobre bulimia, sobre norexia impactam a extraordinária diferença entre
10:37 mulheres e homens, entre raparigas novas e rapazes novos, que também sofrem os rapazes,
10:42 mas é vacilador a percentagem de mulheres que já teve que sofrer com essas doenças,
10:50 por professões sociais, etc., etc., se isto fosse com jovens rapazes, se isto fosse doenças
10:58 que estivessem a afetar os jovens rapazes com as proporções em que afetou jovens mulheres
11:04 nos anos 90, por exemplo, e ainda hoje, mas nos anos 90 foi mesmo uma epidemia, muito
11:09 pela indústria da moda, etc., seria muito mais falado.
11:14 Eu acho que é isso, é, as mães perpetuam este estigma porque nunca foram libertas
11:22 daquilo, e de repente nós quando falamos e conseguimos dar um nome especificamente à
11:27 quilo que é, conseguimos libertar-nos devagarinho, porque mesmo na medicina se tu vires, mesmo
11:34 na medicina, nós temos uma probabilidade muito maior de sofrer com ataques cardíacos,
11:38 de sofrer as repercussões do ataque cardíaco e de morrer do ataque cardíaco, porque os
11:41 estudos sobre ataques cardíacos são feitos num corpo de um homem de 40 anos de estatura
11:46 média branco, e portanto quando nós chegamos ao hospital com sintomas, como os nossos
11:50 sintomas são diferentes, os médicos não estão treinados, e a culpa não é deles,
11:54 mas não estão treinados para identificar imediatamente estes sintomas que são exclusivos
11:58 das mulheres e nós fazemos 50% da população, e portanto são coisas destas que não faz
12:02 sentido.
12:04 Gostava de falar também um bocadinho da violência nos namoros e a crescividade que
12:10 há nos namoros e infelizmente tal como na violência doméstica, as mulheres são
12:16 as grandes vítimas e acho que é ótimo estar aqui neste palco e neste enquadramento e pensar
12:24 que aqui estão rapazes e raparias, homens e mulheres e que nós juntos podemos ir muito
12:29 mais longe nessa consciência de que a crescividade, de que o maltrato não é nem a moda, nem é
12:36 cool, nem é giro, é um princípio, é uma raiz muito daninha para depois um comportamento
12:44 à frente brutal e nós vemos as estatísticas das mulheres que morrem por mês, por ano,
12:51 vítimas de maltrato e é uma brutalidade.
12:53 Gostava de falar também sobre isto, sobre esta agressividade, esta assunto, é como
13:00 se algumas raparigas ainda ou já assumissem que o maltrato, o sexo de ciúmo, o controle
13:07 é sinal de amor e não é, não é, eu acho que nós temos que fazer aqui este sublinhado
13:13 e dizer e separar as águas, o sexo de controle, o ciúmo doente ou o sexo de ciúmo e essa
13:21 agressividade às vezes nesse namorjo não tem pinta nenhuma, é escurosa e leva sempre
13:28 a um sofrimento brutal que às vezes nem sequer é partilhado.
13:32 Sim, a partilha...
13:37 Sim, a partilha às vezes recai sobre a vítima ou a culpa da partilha, a culpa do segredo
13:50 do agressor está conosco, com mulheres, majoritariamente mulheres que sofrem as mãos de parceiros.
13:59 Quando me falaste disso, que eu acho um tema mesmo muito relevante, fui fazer uma pesquisa
14:05 rápida e em 2024, isto é uma investigação feita e saiu, as notícias estão no público,
14:15 no SIG também, 66% dos jovens que já namoraram, sofreram pelo menos uma das 15 tipos de violência
14:24 que estão identificados, 66% dos jovens até aos 24 anos.
14:28 Uma brutalidade.
14:29 É uma brutalidade e depois há uma coisa ainda mais interessante que os comportamentos,
14:35 há comportamentos que são autoreportados e portanto rapazes, majoritariamente, a reportar
14:41 que eles dão por eles a ser controladores, por exemplo, porque esta questão é socialmente
14:50 aceita quase, como tu dizias, e muito bem.
14:52 E as gestas são coisas muito subtis, é o rapaz tem acesso às mensagens e ao telemóvel
14:58 da rapariga, com que direito, com que direito, nem ele, nem ela, ou seja, um respeito mutuo
15:04 numa relação que passa por esse, se eu quiser, passe do telemóvel, mas não há essa presunção
15:11 de que ele tem que partilhar.
15:13 E às vezes, numa idade mais adulta, a gestão do dinheiro, a gestão do dinheiro nas famílias
15:19 e nos casais, também é uma fonte de maus tratos e há uma espécie de submissão das
15:25 mulheres, o homem sabe tudo o dinheiro que há nas contas, ele é que gera as contas,
15:29 ele é que diz e gastar-se muito, gastar-se pouco, que a mulher não faz isso.
15:33 Acho que é importante nestas idades, é importante começar a perceber primeiro que a gestão
15:38 do dinheiro reflete sempre a gestão dos afetos e vocês vejam isso, porque uma pessoa
15:44 muito mesquinha com o dinheiro também vai ser mesquinha em alguma coisa na relação
15:48 ou para não dizer outras coisas e acho que é importante nós começarmos a perceber esses
15:53 pequenos sinais e nos namoro, não se pode dar poder demais, nem a um nem a outro, mas
15:58 a ver uma paridade, a ver uma igualdade e isso é bonito e nós vemos que muitas raparigas,
16:04 muitas filhas de pais que foram de facto extraordinários pais, homens com elas, são
16:10 pessoas muito mais confiantes e muito mais seguras e muito mais capazes de por limites,
16:15 os namorados que são extraordinários nessa igualdade geram também mulheres muito mais
16:20 realizadas e a relação é muito mais feliz, portanto aqui nós estamos com um pouco de
16:26 tempo mas é quase de deixar aqui os sinais de alerta e seja conosco próprias ou seja
16:31 com a nossa amiga, com as nossas amigas, com as pessoas que estão no nosso perímetro,
16:35 ou seja entre amigos, rapazes e raparigas, é estar atento a quem é que anda mais frágil,
16:40 a quem é que está em sofrimento numa relação e a resgatar dessa relação e às vezes o
16:46 resgato é a rapariga que sofre mas também é resgatar o rapaz que faz sofrer sem ser
16:51 por querer, porque está só a perpetuar um padrão exatamente.
17:01 Estamos com três minutos, o tempo da Flor is Yours.
17:10 Não, mas até aliás até era muito interessante acabarmos com isto tudo incerto, porque às
17:17 vezes nós estamos em ciclos de violência, que maritário, nós estamos a falar disto
17:23 de uma perspectiva de género porque os estudos falam de uma perspectiva de género, ou seja,
17:29 neste estudo de violência e no namoro entre jovens, até aos 24 ou 25 anos, nós temos 87%
17:37 das pessoas que reportaram ter sofrido violência e no namoro são mulheres, 87% é brutal.
17:45 91% são em relacionamentos heterossexuais e portanto vemos aqui um padrão efetivamente
17:51 que é mais provável numa relação heterossexual que o homem seja o agressor e que a mulher
17:58 seja a vítima e eu continuo a ver, eu não conheço uma mulher, mas mesmo uma mulher
18:07 com quem eu falo que não tenha sido já vítima de algum tipo de agressão, seja no namoro,
18:13 seja no trabalho, seja na rua, se vocês estão aqui, os rapazes que estão a ouvir-nos, os
18:20 homens que estão a ouvir-nos, é importante falarem com as mulheres na vossa vida e perguntarem
18:25 as coisas tão básicas como se sentem mesmo em andar na rua, sentem mesmo em estar sozinhas
18:31 com o homem no escritório até tarde, porque todas nós, e eu não conheço uma mulher
18:39 que não tenha sido, mesmo que seja uma microagressão, uma, e é um problema de facto que nunca
18:47 é dizer que todos os homens fazem isto, mesmo, adeus, eu tenho dois irmãos rapazes que eu
18:53 adoro e que já sabem que se viram uma mulher na rua a andar sozinha, se eles estiverem
18:58 atrás dela, passam por outro lado e isto é de forma muito suave que eles têm de dizer
19:03 eu não sou uma ameaça, porque na rua, se eles estiverem a andar e viram homem, não
19:09 me importa, não me importa, porque eu sei que estatisticamente os homens podem agredir
19:15 mais as mulheres e eu sei que posso estar em perigo se for de rua à noite e aquele homem
19:20 pode ser fantástico, nunca será um discurso contra, eu acho que é importante mesmo estas
19:25 coisas conseguem libertar os homens de padrões de violência mesmo de homens com homens, de
19:31 não conseguirem expressar-se, não conseguirem demonstrar aquela coisa da fraqueza, das
19:39 emoções cheirem fraqueza, acho tudo isto liberto a estes papéis de género que estão
19:43 tão encotidos e são de séculos e séculos e séculos e séculos e nós de repente eu
19:49 acho que a nossa geração está a começar a despertar um pouco.
19:53 Maria, nós chegamos ao fim do nosso tempo, felizmente estamos estes rapazes todos e
19:57 estas raparigas para fazerem a devocação pelas raparigas e pelos rapazes também,
20:03 também há rapazes vítimas e há muitos rapazes vítimas nos namores, há muitas raparigas
20:09 manipuladoras, há muitas raparigas que são terríveis e portanto temos que assumir também
20:14 isto, não há aqui uma diabilização de um género e tornar anjos as mulheres, há
20:22 é de facto relações que ou ficam destrutidas ou desequilibradas.
20:27 E agora temos um bocadinho para as perguntas, eu acho que devemos ter aí perguntas.
20:31 É isso, temos perguntas de quem está aqui e se calhar faça desta pergunta aqui, esta
20:38 pergunta é interessante, essa pode se dizer os nomes, não é?
20:44 A Maria Francisca, tem 12 anos e pergunta, tenho 12 anos, será que quando eu entrar
20:52 no mercado de trabalho já vai existir igualdade?
20:55 Anda Francisca, espetacular, eu acho que temos que fazer por isso, acho que é um trabalho
21:03 em curso e não podemos abaixar os braços, nunca é sempre que houver alguém ao nosso
21:07 lado, homem ou mulher, rapaz, rapariga, mais velho ou mais novo, que esteja de facto
21:11 frágil, seja discriminado ou que não seja tida em conta, acho que temos que parar e
21:17 fazer alguma coisa por isso e portanto acho que uma pessoa com 12 anos, Maria Francisca
21:23 com 12 anos e que se preocupa com isso, certeza absoluta, que está de mãos de mangas
21:28 arregaçadas a fazer por isso e por isso agradeço também.
21:37 Sim, as estatísticas têm uma coisa interessante, porque as estatísticas quando falam da desigualdade
21:45 no trabalho, que nós temos mesmo em Portugal uma desigualdade salarial, um fosso salarial
21:52 entre homens e mulheres e se virmos entre profissões e com a escolaridade, ou seja, porque há
21:58 muitas vezes as pessoas a falar destes estudos a dizer pronto, mas isto faz um bolo enorme
22:02 e depois divide pelo número de mulheres e número de homens e não tem em conta que
22:06 as mulheres podem ter trabalhos que são menos bem pagos do que os homens não, mas
22:11 nós virmos, ou seja, estratificado, quanto mais escolaridade o trabalho exige e quanto
22:18 mais qualificações o trabalho exige, maior o fosso salarial e portanto se estivermos
22:23 a falar de trabalho numa fábrica ou de trabalho no campo, o fosso salarial é mínimo, não
22:28 chega aos 7% e se estivermos a falar em empresas em altos cargos de empresas, o fosso salarial
22:34 chega aos 20%. É votado. O ano passado o fosso salarial em Portugal
22:40 significava que, e que está a aumentar desde 2023, significava que nós, mulheres, em
22:46 média estamos a trabalhar 48 dias de borla, face aos homens e portanto, Francisco, eu
22:52 espero, eu acho que ainda temos mais ou menos cerca de 10 anos, se fôres para a faculdade,
22:59 cerca de 6, 8 anos não e eu espero que sim, eu espero que consigamos fazer, porque estamos
23:04 a fazer esse trabalho, parece tudo muito negativo, mas efetivamente se nós olharmos
23:08 há 60 anos, 50 anos nós não podíamos sequer votar e não podíamos sair do país sem
23:14 a autorização dos nossos maridos, portanto efetivamente a coisa está a funcionar e
23:19 espero que continue o Ricardo pergunta também, se a desigualdade de género persiste mesmo
23:27 após séculos de luta e progresso, eu acho que isso está ligado, será que estamos a
23:31 tentar corrigir dentro de um sistema que foi criado para manter.
23:34 Uma ótima pergunta, dava aqui um grande debate, acho que nós temos que nos lembrar de uma
23:42 coisa que é o género, as questões de género, acima abaixo ao lado de antes e depois, há
23:48 um género que é o género humano, é a raça humana, é isso que somos uma família e temos
23:54 que ser livres e haver igualdade, igualdade de oportunidades, igualdade de reconhecimento
23:59 para o género humano, não nos podemos esquecer disso.
24:02 Não temos mais perguntas, creo que temos estas duas que nos fizeram aqui, mas pronto,
24:23 se calhar fechamos, até porque assim ajudamos aqueles segundos, estamos a dar, há pessoas
24:32 que dão quantos dias de borda? 48, durante o dia de borda, nós estamos a dar um minuto
24:37 e um meio de borda, de que nos sobra, obrigada.

Laurinda Alves e Maria Castelo Branco

Descrição

Nesta conversa, duas mulheres de gerações diferentes refletem sobre feminismo, amizade entre mulheres, desigualdade de género e violência nas relações, sublinhando a importância de criar referências femininas e redes de apoio reais. A troca mostra que ainda há muitos padrões injustos a desconstruir, desde a falta de espaço público para as mulheres até à normalização de comportamentos abusivos. A mensagem central é de lucidez e ação: mudar exige consciência, solidariedade e coragem para não aceitar como normal aquilo que fere.

Resumo

A conversa começa com um reconhecimento importante: a falta de referências femininas em áreas como a política, o jornalismo e o espaço público. A presença de mulheres nestes lugares continua a ser vista como algo fora do normal, e isso, por si só, já revela uma desigualdade estrutural. Ao mesmo tempo, as oradoras sublinham o valor da “irmandade” entre mulheres, contrariando a ideia de que estão sempre em competição. A amizade, a partilha e o apoio mútuo aparecem aqui como formas concretas de resistência e de libertação.

Ao longo da conversa, destaca-se como muitos comportamentos machistas continuam a ser reproduzidos de forma subtil, através de microações, comentários ou expectativas sociais. As mulheres aprendem desde cedo a competir, a duvidar do seu lugar e a suportar pressões ligadas à aparência, ao comportamento e à aceitação social. Falar sobre isto, dar nome ao que acontece e partilhar experiências torna-se essencial para perceber que certos abusos ou exclusões não são “normais” nem culpa de quem os sofre.

Um dos momentos mais fortes da conversa é a reflexão sobre a violência no namoro e nas relações. As oradoras denunciam a forma como ciúme, controlo, invasão de privacidade e agressividade ainda são por vezes confundidos com amor. Chamam a atenção para a dimensão do problema entre os jovens e insistem na necessidade de reconhecer cedo os sinais de alerta. O foco não está em criar uma guerra entre géneros, mas em recusar relações destrutivas e proteger quem está em sofrimento, seja vítima ou agressor preso a padrões que precisa de quebrar.

A conversa também abre espaço para pensar como estas desigualdades se prolongam na vida adulta, por exemplo na gestão do dinheiro, na autonomia dentro do casal e no fosso salarial entre homens e mulheres. Mesmo com avanços históricos muito significativos, persiste a ideia de que as mulheres continuam a pagar um preço mais alto por ocuparem certos espaços. Ainda assim, há um tom de esperança: as novas gerações estão mais despertas, mais informadas e mais disponíveis para questionar aquilo que antes era aceite em silêncio.

No final, fica um desafio coletivo: continuar a construir igualdade no dia a dia, nas relações, nas escolas, no trabalho e na forma como olhamos para o outro. A mudança não depende apenas de grandes discursos, mas também de pequenos gestos de atenção, de intervenção e de cuidado. O apelo é claro: não baixar os braços e fazer da igualdade uma responsabilidade concreta de todos.

gostos

Comentários

Os comentários são moderados, tendo o 3MN o direito de não publicar se não for oportuno ou se o conteúdo não estiver adequado.