3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Três milhões de novos. Boa tarde.
0:11 Eu quando aceitei este convite, hesitei. Pensei para mim, será que fazia sentido expor
0:19 este tema e esta realidade? Mas a mensagem que vos quer passar é muito mais importante
0:27 do que qualquer receio que eu pudesse ter tido. Como já disseram, eu cresci e vivi uma parte
0:34 da minha vida no bairro do fim do mundo, em Cascais, e o bairro do fim do mundo é um bairro
0:41 social como tantos outros onde a pobreza, a música e a cultura que o existem. E hoje
0:52 eu vou mostrar-vos o que aprendi, não através dos livros, mas através da vida real. E uma vez
1:00 que estou a transmitir esta mensagem, acho que me cabe a mim dar-vos os detalhes todos,
1:06 creio que seja justo. Vamos recuar um bocadinho no tempo. As crianças no bairro viviam sem
1:18 atrapações, chegavam à bola, à escondidas, à apanhada, mas a realidade batia à porta muito
1:26 cedo. Vi crianças e famílias sem água e luz em casa. As velas estavam sempre prontas para serem
1:35 acesas que não era possível pagar a fatura de taluz. Vi vizinhos com grandes baldes a ir
1:43 à porta de outros vizinhos para pedirem água, porque não era possível pagar a fatura da água.
1:52 Drogas, toques e codependentes, vi no seu estave mais deplorável, era em buscar as suas
2:00 doses diárias. Os frigoríficos, praticamente vazios, mas havia um dia sagrado. Havia um dia em que
2:11 provavelmente as mães faziam fila no banco alimentar e podiam levar para casa bolachas que jamais
2:20 poderiam comprar nos supermercados. Tiros, ouvi, guerras entre bairros rivais presenciais, lembram-me
2:34 de um dia em que o bairro rival, na altura, entrou para dentro do fim do mundo armado.
2:42 Corremos todos para dentro dos prédios com medo e sabem, nós hoje vivemos a culpura dos vídeos de
2:51 um minuto nas redes sociais e, por vezes, esquecemos-nos das crianças que vêem o filme do início ao
2:59 dia. E garante-vos, esse fim, por vezes, não é bonito. No bairro, na minha altura, não era
3:07 incomum ouvir dizer que alguém tinha sido preso, das janelas era possível ver as rujas, pessoas
3:17 acioniam-as gemadas e entrarem para os carros da polícia. O som do choro das famílias ecoava sempre
3:26 na empresa. Isto foi o que vi quando lá vivi. Mas sabem nem tudo é mau. O bairro também tem
3:38 coisas positivas. Sabem que as festas, pelo menos no meu bairro, ouvirem ritmos africanos e as tias
3:49 dançarem. E malta que vinha do outro bairro e entrava-me para dentro do fim do mundo. E os meus
3:56 pais diziam-me, este é o teu tio, aquele é o teu tio, é lindo. Fantástico, não tinha preço.
4:03 As festas dos cigarnos duravam três dias e, durante três dias, o bairro estava em festa. E eu hoje
4:10 confesso-se que não sei bem o ritmo das palmas, mas se ouvir algumas músicas ainda está cheio de cor.
4:17 O bairro dá-nos uma cara-passa muito forte. Existe uma agosação também ela forte,
4:25 principalmente dos mais velhos para que os mais novos. Mas isso traz-nos duas coisas muito importantes.
4:34 É primeiro, dizer exatamente o que pensamos. E a segunda, carregar um lema de quem vem
4:45 desta realidade, que é, se aguentas no bairro, aguentas em qualquer outro sítio. E eu acho que aprendi esta.
4:55 O bairro também nos dá, em altura, quando perguntava às vizinhas, então, como é que está?
5:02 As respostas não eram iguais, acho que eu ouvia cá fora. Não é sandando. Não. As pessoas falavam e
5:10 falavam exatamente os problemas da vida, os disavores, as felicidades, as alegrias e as conquistas.
5:15 Nós conhecíamos os vizinhos. E hoje vivo em um sítio completamente diferente e não conheço
5:20 metade das minhas vizinhas. Dá-me que pensar. Sabe, a característica social que fiz do meu bairro
5:30 podia ser transversal a qualquer outra parte do país. De certo que tenho pessoas desse lado a
5:39 verem comigo e que me vão dizer que a pobreza não é exclusiva dos bairros sociais. É droga,
5:47 não é exclusiva dos bairros sociais. Não é. Uma criança que nasce em qualquer outro sítio e que
5:53 carrega essa bagagem e que não venha de um bairro social, também entrará com ela uma bagagem forte.
6:01 Mas para mim, eu acho que já vos mostrei o positivo e o negativo ter lá crescido. Talvez não
6:09 mas o mais difícil, o mais duro de lá ter vivido foi perceber que o mundo fora do bairro olhava
6:20 para mim de forma diferente. Porque o bairro, na altura, não era só uma localização no mapa.
6:28 Era um rótulo que trazia baixas expectativas, olhares desconfiados e poucas oportunidades.
6:39 E as pessoas que mais falavam sobre o meu bairro, na altura, não viviam lá.
6:45 Justificavam as precessões que tinham com histórias mais ou menos verdadeiras,
6:51 que aumentavam o rótulo de pessoas que lá viviam.
6:55 Isto foi o mais duro e o mais difícil de ter lá vivido.
7:01 Mas do negativo, tirei duas coisas completamente positivas, que foi. Aprender
7:07 olhar para o outro que o olhar do outro e não através do meu olhar.
7:13 Porque acontecia comigo, né? Portanto, em vez de ser o Lionel, era o mídio do bairro.
7:19 E, para mim, acho que tornou-se muito mais fácil não correr tão rapidamente e julgar
7:25 qualquer um de vocês que tenham aqui à minha frente, sem antes tentar perceber a vossa história primeiro.
7:29 O segundo ensinamento que o bairro me trouxe foi desafiar pros conceitos.
7:39 Isto é mesmo, mesmo, mesmo especial.
7:43 Eu fizemos e, pedia-me, esses dias, eu queria fazer a minha festa aqui no bairro.
7:52 Eu tinha muita vergonha, tinha mesmo muita vergonha de viver naqueles sítios.
7:58 E antes de te descontar também, em esta parte, queria só criar aqui uma parte que é...
8:05 Eu não dizia que vinha dali, quando me dava um boleia, pedia para que me deixassem numa retunda.
8:12 E, então, assim, as pessoas não conseguiam perceber a sítio onde eu vivia.
8:17 Eu não sei se aqui alguém é do Estoril. Alguém conhece a Boa Nova?
8:23 A Boa Nova, sim? Maravilha.
8:25 Para quem não conhece, a Boa Nova é um colégio, um auditorio, e mais uma coisa.
8:34 Como? E uma igreja.
8:38 E uma igreja.
8:40 E sabem quando foi construída a Boa Nova?
8:44 Para mim, sequer armiudo, soava muito mais chique dizer, eu vivo ao lado da Boa Nova.
8:51 Em vez de dizer, eu vivo no bairro do fim do mundo.
8:55 Escalhar um bocadinho de género na minha parte.
8:59 Mas... foi assim.
9:01 Mas deu-se uma fase da minha vida, se calhar deixo-vos por outra história, em que...
9:07 Tudo bem, não interessa a sítio onde eu vivo.
9:11 Pedi às minhas tias que fizessem cachupa, que é um prato capo verdiano que eu adoro.
9:17 É o meu prato africano preferido.
9:19 E disse que queria convidar os meus amigos para dentro do bairro.
9:23 Resposta das minhas tias.
9:25 Tu, português africano, vais fazer aqui uma festa.
9:29 Eu, sim, sim, sim, sim.
9:31 E essas tias puderem fazer cachupa, eu gostava muito.
9:35 E trouxe os meus colegas para dentro do bairro.
9:39 Colegas esses, quando éramos mais novos, diziam que o bairro era o sítio das rendas baixas e das drogas.
9:45 E foi lindo. Mas sabe o que é que aconteceu?
9:47 Correu tão bem.
9:49 Comecei a trazer cada vez mais amigos.
9:51 E esses meus amigos traziam outros amigos.
9:53 E sabem, todos juntos, todos juntos, pretos, brancos, pobres, ricos, seguintos, altos, baixos, todos juntos.
10:03 É que meca-chupa.
10:05 Foi muito especial para mim.
10:07 E sabe o que é que eu percebi?
10:09 Eu percebi que, da parte das pessoas que não lá vivia, eu aviai assim, entre dentro.
10:15 Hmm, isso, afinal, não é assim tão perigoso quanto eu achava.
10:19 É sério?
10:21 E da parte das pessoas do bairro, eu aviai.
10:23 É pá.
10:24 Este betinho até é fijo.
10:27 E foi muito giro. Foi muito giro, para mim, de experienciar isto.
10:33 O que eu acho que fiz e é a mensagem que eu também vos quero trazer.
10:35 Tentei desafiar para os conceitos.
10:37 Número, o preconceito do sítio onde vivia.
10:39 E onde vivi durante muito tempo.
10:41 Número 2, os preconceitos que os meus colegas tenham em relação ao sítio onde eu vivia.
10:47 E que roubai.
10:49 Desafiar preconceitos não significa mostrar a toda a gente, constantemente, que não somos o que os outros acham.
10:58 Que somos.
11:00 Isto tem outro nome.
11:01 Perder tempo.
11:03 Não vale a pena.
11:06 Obrigado.
11:12 Desafiar preconceitos é percebermos a nossa realidade.
11:16 Como é que lidamos com o positivo?
11:18 Como é que lidamos com o negativo?
11:20 Não impondo a realidade do outro.
11:24 Esta parte é mais difícil.
11:26 E tentar perceber o lado do outro.
11:29 E lá está. Tentar.
11:31 Eu fiz isso no meu bairro e foi muito, muito, muito, muito positivo.
11:36 Hoje, nós jovens, eu acho que ainda sou jovem, temos a possibilidade de que somos obrigados
11:45 a viver e a conviver com realidades diferentes.
11:50 Portanto, na alta jovem que veio com os pais, perguntei aos pais como era há 20 anos atrás.
11:55 As misturas que hoje vemos e as misturas que provavelmente estão nesta sala há 20 anos atrás garantem que não era assim.
12:02 Pessoas de classes sociais diferentes a darem-se bem, de cores diferentes a darem-se bem.
12:08 E existiu um avanço muito positivo nesse sentido.
12:14 Qual é que é o grande obstáculo?
12:16 Nós hoje queremos estar em todo o sítio, em todo o lado, comentar tudo e mais alguma coisa,
12:22 impor as nossas percepções, mostrar causas com casos diferentes,
12:27 simplesmente para perpetuar os nossos preconceitos.
12:30 E acabamos por destruir esse avanço positivo que existiu.
12:35 Hoje é muito mais fácil um lionel mais novo que eu convidar amigos para entrar em um bairro.
12:42 Na altura, eu tive a felicidade de fazer antes em agosto.
12:46 Portanto, não lhe dei convites para a minha festa de Anzi e os meus amigos não virem, por exemplo,
12:53 ou porque eu tinha vergonha ou porque os pais não deixavam.
12:57 Hoje é possível e é essa realidade, apesar de existir este desafio.
13:05 Antes de me ir embora, quero dizer-vos que as coisas mudaram positivamente,
13:12 estão menos no bairro do fim do mundo, e há desafios,
13:17 mas as crianças não estão tão expostas, é uma das das coisas que eu vi.
13:22 Não estão tão expostas à realidade que presenciei e vi famílias a viver.
13:32 Cabe-nos a nós, cabe a cada um de vocês garantir que essa mudança continua a ser positiva.
13:43 Percebendo-nos a nós mesmos, como lidar com os preconceitos,
13:49 tentar desafiar-os dos outros, sem perder muito tempo, é importante,
13:55 mas principalmente, um desafio que vos lance hoje é o que é que cada um de vocês,
14:05 o que é que todos nós, em conjunto, poderemos fazer para fazer com que esta mudança continue a ser positiva.
14:15 E é esta a mensagem que vos quero passar. Muito obrigado.
14:25 Obrigado.

Leonel Gomes Cá

Descrição

Neste testemunho, o orador parte da sua infância no bairro do Fim do Mundo para mostrar que um lugar pode ser, ao mesmo tempo, dureza e pertença, carência e comunidade. Fala da pobreza, da violência e do estigma, mas também da cultura, da solidariedade e da força que o bairro lhe deu. A grande mensagem é esta: os preconceitos só se vencem quando deixamos de reduzir pessoas ao sítio de onde vêm e começamos a conhecê-las de verdade.

Resumo

O discurso começa com uma descrição muito concreta da vida num bairro social, marcada por falta de água e luz, dependências, violência e medo. O orador recorda uma infância em que brincar coexistia com uma realidade dura demais para qualquer criança: tiros, prisões, famílias em sofrimento e uma precariedade constante. Sem dramatizar em excesso, mostra como estas experiências deixam marcas profundas em quem cresce nesse contexto.

Mas a fala não fica presa ao lado mais sombrio. O bairro surge também como espaço de cultura, festa, música, proximidade e identidade coletiva. As festas, os ritmos africanos, os laços entre vizinhos e o sentido de pertença davam cor e calor humano a uma realidade difícil. É dessa mistura entre dureza e afeto que nasce a força de carácter que o orador reconhece em si: a frontalidade, a resistência e a ideia de que quem aguenta ali consegue aguentar em qualquer lado.

O momento mais duro, porém, não foi viver no bairro em si, mas perceber como o mundo de fora o olhava por causa disso. O bairro transformava-se num rótulo, carregado de desconfiança, baixas expectativas e preconceitos repetidos por quem nem sequer conhecia a realidade por dentro. Essa experiência ensinou-lhe duas lições decisivas: olhar para os outros para além da primeira impressão e desafiar ativamente os preconceitos.

É neste ponto que surge um dos episódios mais simbólicos da intervenção: quando decide levar os amigos ao bairro e criar ali um espaço de encontro. Ao juntar pessoas de origens diferentes à volta da mesa, da comida e da convivência, conseguiu quebrar ideias feitas de ambos os lados. Os amigos perceberam que o bairro não era só o retrato negativo que imaginavam; as pessoas do bairro também puderam rever os seus próprios julgamentos sobre quem vinha de fora. Esse gesto simples tornou-se uma forma muito concreta de criar pontes.

No final, o orador reconhece que muita coisa já mudou para melhor, mas insiste que a mudança positiva precisa de continuar. O desafio que lança é coletivo: perceber os próprios preconceitos, não perder tempo a viver preso ao olhar dos outros e contribuir para uma sociedade onde as diferenças não sirvam para afastar, mas para aproximar. A sua história mostra que combater preconceitos não é só defender-se deles — é criar encontros que os tornem impossíveis.

gostos

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