0:00
Quem começa, Maria? Começas tu, que és mais nova, e estas pessoas estão aqui todas
0:13
para te ouvir.
0:14
Olá! É muito... Não sei, eu até acho que devias começar tu, porque não, porque quando
0:20
me fizeram um convite e depois percebi que queria falar contigo foi uma coisa muito,
0:25
muito incrível, porque eu tenho 25 anos, então eu queixi sem muitas referências de
0:33
mulheres na política, no jornalismo, nesta área em que eu gosto de deixar com o movimento,
0:39
não é? E pronto, e tu és, foi sempre uma dessas referências, e portanto foi muito,
0:44
muito incrível, acho que é importante ver essas referências femininas que faltam, tanto
0:49
ainda hoje em dia faltam, então quando eu estava a crescer ainda mais...
0:53
Maria, então eu faço-te uma pergunta, depois tu fazes perguntas e ficamos aqui conversar.
0:59
Então, como estava a te perguntar, é o que tens feito ultimamente pelas raparias, pelas
1:05
mulheres, pelas miudas, e esse poder da irmandade que é nós mulheres quebrarmos definitivamente
1:14
este mito, este estereótipo, este estigma de que as mulheres estão sempre a competir
1:18
com as mulheres e que não se entre e ajudam.
1:21
Essa é uma pergunta incrível, porque esse estigma que existe, que existe entre nós
1:28
e que nós praticamos às vezes sem querer, às vezes são microações que nós temos,
1:34
que não temos bem no chão e que são incutidas desde que somos muitos jovens nesta competição,
1:41
quase que parece que só temos um lugar, só existe um lugar para aquela mulher especificamente
1:46
e que ela é o meu lugar, ou se for de outra pessoa, eu o estou fora, porque o resto tudo
1:52
é dos homens e se nós olharmos para a forma como os homens interagem uns com os outros,
1:57
como estão no espaço público, mas também no espaço privado, é uma forma de camaradagem
2:05
que nós não temos, porque não nos foi ensinado.
2:08
Não sei se não temos, eu acho que nós temos, acho que parece que temos menos do que aquilo
2:14
que temos, porque o poder das amigas e o poder da amizade entre amigas é brutal.
2:21
Agora, eu acho que as mulheres não se juntam tanto e não agregam tanto.
2:25
Os homens, aconteceu o que aconteceu, podem ter hábitos de todas as semanas, ou estão
2:31
a jogar, ou vão jantar, ou encontram se as mulheres não têm isso.
2:35
Mas estábamos, mas é interessante porque se nós fomos ao século 19, aos manuais de
2:39
boas maneiras, isto é uma história que eu estou sempre a contar, se associar uma
2:44
história sobre o Gósep, que é a Silvia Federitsch, que conta e que eu achei incrível, mas só
2:51
para focar no século 19, os manuais de boas maneiras incitavam que as mulheres não tivessem
2:57
a proibir a um bocado as mulheres terem amizades femininas, e daí que tu, quando falas das
3:02
amizades é isso, de facto que é muito interessante porque tu encontras um lugar de partilha,
3:08
e um lugar onde consegues ultrapassar uma certa injustiça de conhecimento, ou seja,
3:15
justiça hipostémica, que às vezes acontecem coisas que eu não tenho palavras para descrever
3:19
logo quase que não acontecem, e eu não os sinto porque não os sai descrever, quase
3:23
como se te pedissem para descrever um elefante que não consegue, porque são diversas palavras
3:28
para descrever, e com isso nós conseguimos, através da partilha, conseguimos perceber
3:34
que, se calhar, aquilo que nos acontece nos caritórios, com um homem mais velho, não
3:40
é normal, e o problema não é meu, o problema de facto, é dele que às vezes até está
3:46
a perpetuar práticas que ele próprio desconhece que são nefastas.
3:52
Nem sequer, e pode nem ser sequer a sério, pode ser só um comportamento mais machista,
3:56
ou mais masculinizado naquilo que retira papel, ou retira espaço, ou a liberdade à mulher.
4:03
Sim, claro, porque às vezes é porque nem sequer te ouvem, não sei se está acontecendo
4:08
nos dois longos anos, nos dois longos percursos de profissionais, não sei se já está
4:13
aconteceu a coisa de tu estás num espaço só de homens, e eles não...
4:18
Não adeixa para o nosso texto.
4:19
Não há nada.
4:20
Não é?
4:21
É.
4:22
Eu, por causa, gostava de dizer que, em relação a este ponto de partida, gostava de falar
4:27
aqui duas experiências que tive, uma com a Girl Move Academy, que é incrível.
4:32
É uma academia para quem não conhece a Girl Move Academy, é uma academia para as raparigas
4:39
moçambicanas, e é uma academia que forma uma elite em moçambique a 1% de raparigas de
4:47
mulheres que chegam à universidade, e desse 1% não completam o curso, e portanto estão
4:53
a ver o que é preciso para chegar à universidade.
4:56
E estas raparigas são depois, nesta academia, elas são feitas mentoras das raparigas mais
5:03
novas, e isto está a provocar uma mudança sistêmica na realidade moçambicana, que
5:08
é uma realidade muito adversa, se calhar para nós parece-se já um bocado remota, mas
5:13
há muita desigualdade, de facto, no mundo entre homens e mulheres, e há muita desigualdade
5:18
em certas latitudes, especialmente em países como moçambique.
5:22
E é impressionante, eu estive lá, como voluntária, e é impressionante ver o poder das histórias
5:28
de cada uma, e quando estamos a falar das histórias de cada uma, são histórias de abandono,
5:33
de maus tratos, de abuso, de serem abusadas, portanto são histórias que parece um bocadinho,
5:42
o Boyder acabou de contar uma história que só em si, só atravessia do desardo, já
5:46
seria trágica, e depois atravessia do Mediterrâneo, e tudo isto, e o Boyder chega aqui com o
5:51
sorriso, e não está a falar daquilo do mal que passou, mas a usar o mal que passou
5:56
para a superação.
5:57
E estas mulheres, e portanto estamos a falar do poder de mulheres, na Girlmove Academy
6:01
são mulheres, que ajudam mulheres, que acompanham mulheres, que empoderam mulheres
6:06
e meninas e jovens, é impressionante ver o impacto que isso tem, portanto, nós, quando
6:12
estamos a falar de igualdade, nós, mulheres, temos um papel absolutamente decisivo nesta
6:17
irmandade, nesta fraternidade entre mulheres.
6:21
E as tantas aqui, pronto, nós, o que é que está ao meu alcance fazer?
6:27
O que é que cada um de nós pode fazer?
6:28
E por isso a pergunta veio aí, e sei que tu fazes muitíssimo.
6:31
Sim, na verdade acabei por não te responder assim, mas com direto, desculpa.
6:36
Não, não, não, eu já disse que queria só marcar este ponto que é, está sempre
6:41
ao nosso alcance, homens, mulheres, está sempre ao nosso alcance melhorar a vida de
6:46
alguém que, ou se sente discriminado, ou está mais frágil, ou não tem voz, ou não
6:51
tem um espaço, ou não tem liberdade.
6:53
E é uma frase que é diz-me quem discriminas, ou diz-me quem excluis, e eu diretei quem
7:00
és.
7:01
E esta frase acho que é uma frase que tem que nos atravessar como uma espada.
7:04
Sim.
7:06
Sim, mas é mesmo que eu sinto um pouco, não sei se tu sentiste dessa forma, mas é quase
7:19
que só a nossa presença aqui, ou em qualquer sítio, numa empresa, num espaço público,
7:25
só a presença já é meio desreputiva, porque só a presença já é estranha.
7:30
Nós olharmos, sei lá, se estiverem a falar, aqueles actos micro-actos de feminismo que
7:36
são interessantes e que eu acho graça que, por exemplo, se estão a falar de um CEO,
7:42
estão a falar de todo um setor de uma empresa, é giro de tu assumir logo a partir daquilo
7:47
que é uma mulher, porque normalmente assumimos o contrário, não é?
7:49
Assumimos que é sempre um homem.
7:50
E portanto, quando é uma mulher, de repente nós estamos sempre a classificarmos e a existir
7:57
em comparação com o homem, sempre.
7:59
E portanto, só a nossa existência sem isso, por exemplo, no podcast que eu tenho com
8:04
duas amigas, que são muito queridas, e que nós decidimos fazer este projeto em que
8:10
falamos de política semanalmente às três, e somos três jovens, na altura tínhamos
8:15
menos de 25 anos, e agora, como estamos a passar e isso já não dizamos, é uma pena,
8:21
mas nós falamos de política semanalmente e causa imenso desconforto.
8:25
E na verdade, depois, a coisa mais incrível que eu experiencio neste contexto é, vem
8:33
miudas dos 15, 14, 16, mesmo mulheres mais velhas que eu, falar conosco e dizer em que
8:42
eu nunca tinha tido a oportunidade de ver só mulheres a falar de política, porque é
8:47
mesmo uma coisa que não existia, ou seja, existia muito pouco, ou pelo menos quando
8:50
nós e mulheres jovens, eu tive uma miuda, especificamente, vai dizer que o professor
8:55
de, acho que era o professor de português, dizia que como ela era muito contestatária
8:59
e muito inflamatória nas aulas, ela tinha há 15 anos que nenhum homem ia querer estar
9:03
com ela.
9:04
Que horror.
9:05
Não, isto foi há uns meses, e ela diz que só o facto de estar a ouvir que nós somos
9:12
contestatárias e um bocado inflamatórias e causamos algum desconforto, e mesmo assim
9:16
temos espaço, faz com que ela desvalorize as palavras deste professor, mas é muito fácil
9:21
não desvalorizar, quer dizer, se tu tens um professor a dizer isto aos 15 anos, é
9:25
de uma violência brutal, porque a nossa palavra é sempre chata, é sempre um desconforto,
9:31
só o facto de nós estarmos a falar disto é tipo, estás a victimizar-te, nós somos
9:38
um bocado vítimas disto, mas somos vítimas com agência, que é importante não cairmos
9:44
na ilusão de que está tudo bem.
9:46
Maria, mas tu estava a dizer isso em relação à política, mas há uma coisa ainda anterior
9:52
à política que é a ver homens, mães, pais, que dizem às filhas, porque têm pesa mais
9:59
ou porque sentem que há qualquer coisa ali que está um bocadinho fora da norma, e dizem
10:06
dessas coisas, dizem essas coisas, eu conheço uma mãe que diz isso à sua filha, aliás
10:11
conheça a filha e conheça a mãe, e é um trágico, é trágico pensar que se for
10:17
um rapaz, é um rapaz, ninguém diz se for de gordo, não vá se encontrar uma mulher,
10:23
mas uma rapariga continua a dizer se está de gordo, ninguém, ninguém, não vá se
10:27
ter namorado.
10:28
É nojento.
10:29
Estatísticas sobre bulimia, sobre norexia impactam a extraordinária diferença entre
10:37
mulheres e homens, entre raparigas novas e rapazes novos, que também sofrem os rapazes,
10:42
mas é vacilador a percentagem de mulheres que já teve que sofrer com essas doenças,
10:50
por professões sociais, etc., etc., se isto fosse com jovens rapazes, se isto fosse doenças
10:58
que estivessem a afetar os jovens rapazes com as proporções em que afetou jovens mulheres
11:04
nos anos 90, por exemplo, e ainda hoje, mas nos anos 90 foi mesmo uma epidemia, muito
11:09
pela indústria da moda, etc., seria muito mais falado.
11:14
Eu acho que é isso, é, as mães perpetuam este estigma porque nunca foram libertas
11:22
daquilo, e de repente nós quando falamos e conseguimos dar um nome especificamente à
11:27
quilo que é, conseguimos libertar-nos devagarinho, porque mesmo na medicina se tu vires, mesmo
11:34
na medicina, nós temos uma probabilidade muito maior de sofrer com ataques cardíacos,
11:38
de sofrer as repercussões do ataque cardíaco e de morrer do ataque cardíaco, porque os
11:41
estudos sobre ataques cardíacos são feitos num corpo de um homem de 40 anos de estatura
11:46
média branco, e portanto quando nós chegamos ao hospital com sintomas, como os nossos
11:50
sintomas são diferentes, os médicos não estão treinados, e a culpa não é deles,
11:54
mas não estão treinados para identificar imediatamente estes sintomas que são exclusivos
11:58
das mulheres e nós fazemos 50% da população, e portanto são coisas destas que não faz
12:02
sentido.
12:04
Gostava de falar também um bocadinho da violência nos namoros e a crescividade que
12:10
há nos namoros e infelizmente tal como na violência doméstica, as mulheres são
12:16
as grandes vítimas e acho que é ótimo estar aqui neste palco e neste enquadramento e pensar
12:24
que aqui estão rapazes e raparias, homens e mulheres e que nós juntos podemos ir muito
12:29
mais longe nessa consciência de que a crescividade, de que o maltrato não é nem a moda, nem é
12:36
cool, nem é giro, é um princípio, é uma raiz muito daninha para depois um comportamento
12:44
à frente brutal e nós vemos as estatísticas das mulheres que morrem por mês, por ano,
12:51
vítimas de maltrato e é uma brutalidade.
12:53
Gostava de falar também sobre isto, sobre esta agressividade, esta assunto, é como
13:00
se algumas raparigas ainda ou já assumissem que o maltrato, o sexo de ciúmo, o controle
13:07
é sinal de amor e não é, não é, eu acho que nós temos que fazer aqui este sublinhado
13:13
e dizer e separar as águas, o sexo de controle, o ciúmo doente ou o sexo de ciúmo e essa
13:21
agressividade às vezes nesse namorjo não tem pinta nenhuma, é escurosa e leva sempre
13:28
a um sofrimento brutal que às vezes nem sequer é partilhado.
13:32
Sim, a partilha...
13:37
Sim, a partilha às vezes recai sobre a vítima ou a culpa da partilha, a culpa do segredo
13:50
do agressor está conosco, com mulheres, majoritariamente mulheres que sofrem as mãos de parceiros.
13:59
Quando me falaste disso, que eu acho um tema mesmo muito relevante, fui fazer uma pesquisa
14:05
rápida e em 2024, isto é uma investigação feita e saiu, as notícias estão no público,
14:15
no SIG também, 66% dos jovens que já namoraram, sofreram pelo menos uma das 15 tipos de violência
14:24
que estão identificados, 66% dos jovens até aos 24 anos.
14:28
Uma brutalidade.
14:29
É uma brutalidade e depois há uma coisa ainda mais interessante que os comportamentos,
14:35
há comportamentos que são autoreportados e portanto rapazes, majoritariamente, a reportar
14:41
que eles dão por eles a ser controladores, por exemplo, porque esta questão é socialmente
14:50
aceita quase, como tu dizias, e muito bem.
14:52
E as gestas são coisas muito subtis, é o rapaz tem acesso às mensagens e ao telemóvel
14:58
da rapariga, com que direito, com que direito, nem ele, nem ela, ou seja, um respeito mutuo
15:04
numa relação que passa por esse, se eu quiser, passe do telemóvel, mas não há essa presunção
15:11
de que ele tem que partilhar.
15:13
E às vezes, numa idade mais adulta, a gestão do dinheiro, a gestão do dinheiro nas famílias
15:19
e nos casais, também é uma fonte de maus tratos e há uma espécie de submissão das
15:25
mulheres, o homem sabe tudo o dinheiro que há nas contas, ele é que gera as contas,
15:29
ele é que diz e gastar-se muito, gastar-se pouco, que a mulher não faz isso.
15:33
Acho que é importante nestas idades, é importante começar a perceber primeiro que a gestão
15:38
do dinheiro reflete sempre a gestão dos afetos e vocês vejam isso, porque uma pessoa
15:44
muito mesquinha com o dinheiro também vai ser mesquinha em alguma coisa na relação
15:48
ou para não dizer outras coisas e acho que é importante nós começarmos a perceber esses
15:53
pequenos sinais e nos namoro, não se pode dar poder demais, nem a um nem a outro, mas
15:58
a ver uma paridade, a ver uma igualdade e isso é bonito e nós vemos que muitas raparigas,
16:04
muitas filhas de pais que foram de facto extraordinários pais, homens com elas, são
16:10
pessoas muito mais confiantes e muito mais seguras e muito mais capazes de por limites,
16:15
os namorados que são extraordinários nessa igualdade geram também mulheres muito mais
16:20
realizadas e a relação é muito mais feliz, portanto aqui nós estamos com um pouco de
16:26
tempo mas é quase de deixar aqui os sinais de alerta e seja conosco próprias ou seja
16:31
com a nossa amiga, com as nossas amigas, com as pessoas que estão no nosso perímetro,
16:35
ou seja entre amigos, rapazes e raparigas, é estar atento a quem é que anda mais frágil,
16:40
a quem é que está em sofrimento numa relação e a resgatar dessa relação e às vezes o
16:46
resgato é a rapariga que sofre mas também é resgatar o rapaz que faz sofrer sem ser
16:51
por querer, porque está só a perpetuar um padrão exatamente.
17:01
Estamos com três minutos, o tempo da Flor is Yours.
17:10
Não, mas até aliás até era muito interessante acabarmos com isto tudo incerto, porque às
17:17
vezes nós estamos em ciclos de violência, que maritário, nós estamos a falar disto
17:23
de uma perspectiva de género porque os estudos falam de uma perspectiva de género, ou seja,
17:29
neste estudo de violência e no namoro entre jovens, até aos 24 ou 25 anos, nós temos 87%
17:37
das pessoas que reportaram ter sofrido violência e no namoro são mulheres, 87% é brutal.
17:45
91% são em relacionamentos heterossexuais e portanto vemos aqui um padrão efetivamente
17:51
que é mais provável numa relação heterossexual que o homem seja o agressor e que a mulher
17:58
seja a vítima e eu continuo a ver, eu não conheço uma mulher, mas mesmo uma mulher
18:07
com quem eu falo que não tenha sido já vítima de algum tipo de agressão, seja no namoro,
18:13
seja no trabalho, seja na rua, se vocês estão aqui, os rapazes que estão a ouvir-nos, os
18:20
homens que estão a ouvir-nos, é importante falarem com as mulheres na vossa vida e perguntarem
18:25
as coisas tão básicas como se sentem mesmo em andar na rua, sentem mesmo em estar sozinhas
18:31
com o homem no escritório até tarde, porque todas nós, e eu não conheço uma mulher
18:39
que não tenha sido, mesmo que seja uma microagressão, uma, e é um problema de facto que nunca
18:47
é dizer que todos os homens fazem isto, mesmo, adeus, eu tenho dois irmãos rapazes que eu
18:53
adoro e que já sabem que se viram uma mulher na rua a andar sozinha, se eles estiverem
18:58
atrás dela, passam por outro lado e isto é de forma muito suave que eles têm de dizer
19:03
eu não sou uma ameaça, porque na rua, se eles estiverem a andar e viram homem, não
19:09
me importa, não me importa, porque eu sei que estatisticamente os homens podem agredir
19:15
mais as mulheres e eu sei que posso estar em perigo se for de rua à noite e aquele homem
19:20
pode ser fantástico, nunca será um discurso contra, eu acho que é importante mesmo estas
19:25
coisas conseguem libertar os homens de padrões de violência mesmo de homens com homens, de
19:31
não conseguirem expressar-se, não conseguirem demonstrar aquela coisa da fraqueza, das
19:39
emoções cheirem fraqueza, acho tudo isto liberto a estes papéis de género que estão
19:43
tão encotidos e são de séculos e séculos e séculos e séculos e nós de repente eu
19:49
acho que a nossa geração está a começar a despertar um pouco.
19:53
Maria, nós chegamos ao fim do nosso tempo, felizmente estamos estes rapazes todos e
19:57
estas raparigas para fazerem a devocação pelas raparigas e pelos rapazes também,
20:03
também há rapazes vítimas e há muitos rapazes vítimas nos namores, há muitas raparigas
20:09
manipuladoras, há muitas raparigas que são terríveis e portanto temos que assumir também
20:14
isto, não há aqui uma diabilização de um género e tornar anjos as mulheres, há
20:22
é de facto relações que ou ficam destrutidas ou desequilibradas.
20:27
E agora temos um bocadinho para as perguntas, eu acho que devemos ter aí perguntas.
20:31
É isso, temos perguntas de quem está aqui e se calhar faça desta pergunta aqui, esta
20:38
pergunta é interessante, essa pode se dizer os nomes, não é?
20:44
A Maria Francisca, tem 12 anos e pergunta, tenho 12 anos, será que quando eu entrar
20:52
no mercado de trabalho já vai existir igualdade?
20:55
Anda Francisca, espetacular, eu acho que temos que fazer por isso, acho que é um trabalho
21:03
em curso e não podemos abaixar os braços, nunca é sempre que houver alguém ao nosso
21:07
lado, homem ou mulher, rapaz, rapariga, mais velho ou mais novo, que esteja de facto
21:11
frágil, seja discriminado ou que não seja tida em conta, acho que temos que parar e
21:17
fazer alguma coisa por isso e portanto acho que uma pessoa com 12 anos, Maria Francisca
21:23
com 12 anos e que se preocupa com isso, certeza absoluta, que está de mãos de mangas
21:28
arregaçadas a fazer por isso e por isso agradeço também.
21:37
Sim, as estatísticas têm uma coisa interessante, porque as estatísticas quando falam da desigualdade
21:45
no trabalho, que nós temos mesmo em Portugal uma desigualdade salarial, um fosso salarial
21:52
entre homens e mulheres e se virmos entre profissões e com a escolaridade, ou seja, porque há
21:58
muitas vezes as pessoas a falar destes estudos a dizer pronto, mas isto faz um bolo enorme
22:02
e depois divide pelo número de mulheres e número de homens e não tem em conta que
22:06
as mulheres podem ter trabalhos que são menos bem pagos do que os homens não, mas
22:11
nós virmos, ou seja, estratificado, quanto mais escolaridade o trabalho exige e quanto
22:18
mais qualificações o trabalho exige, maior o fosso salarial e portanto se estivermos
22:23
a falar de trabalho numa fábrica ou de trabalho no campo, o fosso salarial é mínimo, não
22:28
chega aos 7% e se estivermos a falar em empresas em altos cargos de empresas, o fosso salarial
22:34
chega aos 20%. É votado. O ano passado o fosso salarial em Portugal
22:40
significava que, e que está a aumentar desde 2023, significava que nós, mulheres, em
22:46
média estamos a trabalhar 48 dias de borla, face aos homens e portanto, Francisco, eu
22:52
espero, eu acho que ainda temos mais ou menos cerca de 10 anos, se fôres para a faculdade,
22:59
cerca de 6, 8 anos não e eu espero que sim, eu espero que consigamos fazer, porque estamos
23:04
a fazer esse trabalho, parece tudo muito negativo, mas efetivamente se nós olharmos
23:08
há 60 anos, 50 anos nós não podíamos sequer votar e não podíamos sair do país sem
23:14
a autorização dos nossos maridos, portanto efetivamente a coisa está a funcionar e
23:19
espero que continue o Ricardo pergunta também, se a desigualdade de género persiste mesmo
23:27
após séculos de luta e progresso, eu acho que isso está ligado, será que estamos a
23:31
tentar corrigir dentro de um sistema que foi criado para manter.
23:34
Uma ótima pergunta, dava aqui um grande debate, acho que nós temos que nos lembrar de uma
23:42
coisa que é o género, as questões de género, acima abaixo ao lado de antes e depois, há
23:48
um género que é o género humano, é a raça humana, é isso que somos uma família e temos
23:54
que ser livres e haver igualdade, igualdade de oportunidades, igualdade de reconhecimento
23:59
para o género humano, não nos podemos esquecer disso.
24:02
Não temos mais perguntas, creo que temos estas duas que nos fizeram aqui, mas pronto,
24:23
se calhar fechamos, até porque assim ajudamos aqueles segundos, estamos a dar, há pessoas
24:32
que dão quantos dias de borda? 48, durante o dia de borda, nós estamos a dar um minuto
24:37
e um meio de borda, de que nos sobra, obrigada.