3 Milhões de Nós
0:00 Bem, muito boa tarde a todos. Eu sou um professor universitário e os professores universitários
0:07 têm uma deformação profissional que transformam em aulas tudo o que fazem. Então se assiste
0:14 começar a aparecer, o que seria um horror, começar a aparecer um bocadinho mala, vocês
0:18 levantem o braço e eu, o mudo de registro, vou me embora, não é?
0:24 Bem, para muitos de vocês e a experiência universitária ou é já agora o local, o sítio
0:34 onde estão, ou para os mais novos, provavelmente será o sítio para onde querem ir. E mesmo
0:41 para os que não farão essa experiência na nossa sociedade, a universidade, esta onde
0:47 estamos, tem um tal papel na sociedade que convém por a pergunta, mas o que é isto?
0:54 O que é este sítio? O que é este sítio? Para que é que este serve? Então o que eu
1:00 venho propor em 10, 15 minutos, nem tanto, se calhar nem uso o meu tempo todo, é que
1:06 paremos um bocadinho a pensar, mas para que é que este serve? O que é que estamos aqui
1:10 a fazer, os que estamos ligados à vida universitária? O que eu vou dizer pode ser um bocadinho,
1:17 pode parecer um bocadinho académico e idealizado. Mas é só por uma questão de tempo, porque
1:25 se nós não percebermos o que é pelo menos idealmente esta instituição, como é que
1:32 depois podemos tomar as decisões práticas? Propinas? Sim ou não? Investigação ou ensino?
1:39 Curso A ou Curso B? Universidades em todas as cidades, ou são e algumas, todas estas
1:45 decisões práticas, que influenciam o imenso, o discurso político, o discurso público,
1:50 as nossas decisões que temos de tomar, têm como permissa que se saiba do que é que estamos
1:56 a falar. Mas surpreendentemente, e como foi dito na minha apresentação, depois de muitos
2:03 anos nesta instituição, surpreendentemente, dei-me conta de que muitos alunos não sabiam
2:10 onde estavam. E ao não saber onde estavam, isto colocava dois tipos de problemas, uns
2:17 práticos, não sabiam na prática o que fazer e isto vê-se logo na primeira época de exames.
2:26 Outros, mais de fundo, atravessavam os anos universitários sem nunca propriamente terem
2:33 feito a experiência do sítio onde estavam. E portanto convido-vos em 10 minutos a pensarmos,
2:39 que citei este. As universidades nasceram na Idade Média, com uma definição muito
2:48 simples, eram e são comunidades de professores e alunos que se juntam para estudar. E talvez
3:00 esteja simplificado demais, mas tem a vantagem de ir ao ponto essencial nos dois aspectos
3:05 que é preciso comentar. São comunidades, são pessoas que vivem juntas e a experiência
3:12 universitária é uma experiência profundamente comunitária e, se não for, é deficiente.
3:19 E são pessoas que se juntam para estudar. Então, alguns de vocês estão a notar, a
3:27 primeira coisa, e esta é por vezes comentada, de que eu não estou a falar, as universidades,
3:33 não se propõem, pelo menos de uma maneira explícita, como locais de preparação para
3:40 uma outra coisa. E o que é que eu sei muito claro, é claro que se pode vir à universidade
3:47 e acabar por aprender uma profissão. E há muitos cursos, muitas faculdades, que fornecem,
3:55 no fim do seu procurso, uma capacitação para fazer uma certa profissão.
4:02 Mas adquirir isso é uma consequência acrescida de uma coisa maior que tem que acontecer.
4:11 E a coisa maior que tem que acontecer é a experiência universitária. Ou seja, uma
4:17 pessoa pode vir à universidade, faz uma experiência universitária e depois tem o bônus de sair
4:24 com uma profissão, sem para ganhar. Então, qual é o coração da experiência universitária?
4:30 O que é que se pretende fazer aqui? O coração da experiência universitária é o estudo daquilo
4:35 que gostamos. As pessoas juntam-se, determinam certas formas de vida comunitária com o propósito
4:45 de estudarem o que gostam, o que gostam. E este ponto é absolutamente essencial. O
4:54 que é prévio a toda a experiência universitária é que o aluno, naqueles anos que está ali,
5:01 embarcou numa experiência intelectual individual dele, mas feita com outros, uma experiência
5:08 individual de descoberta de coisas que ele gosta. E por isso é que nós nos arrumamos,
5:16 em faculdades diferentes, as letras, as ciências, as economias, as gestões, as medicinas, a
5:22 gente. Nesses sítios estão arrumadas as pessoas que gostam daquelas coisas. Eu tenho amigos que
5:30 gostam de estudar comportamento assintótico de certas classes de equações diferenciais.
5:36 Há outros que gostam imenso de estudar as subtilezas do uso do auristo no grego clássico,
5:47 há outros que estudam o comportamento social de certos tipos de lagartixas. Há outros que estudam
5:56 como fazer empresas. Há outros que estudam como fazer edificios. Há outros que estudam.
6:01 Mas é esta incrível diversidade de gostos, incrível diversidade de interesses que faz
6:10 o coração da experiência universitária explorada por cada um. Então aqui é preciso fazer um
6:16 descanso para dizer um dos primeiros obstáculos que eu vi em muitos alunos. Porque a disposição
6:24 física, os edifícios, as salas da aula, as carteiras, porque a disposição física da
6:30 universidade é muito parecida com a disposição física do ensino secundário. Também são edifícios
6:37 com carteiras. Há muitos alunos que quando entram na universidade pensam que estão mais ou menos
6:45 em algum sítio, só que agora em ponte grande. Não há erro mais fatal. O programa do ensino
6:53 secundário é de certo sentido o contrário do programa universitário. Alguém, espera-se com
7:01 critério, decidiu um conjunto de temas e matérias que as pessoas têm que saber. Isto que está definido
7:09 e tenta-se que ao longo dos anos as pessoas aprendam aquele conjunto de assuntos. E podemos
7:14 ver se são os melhores ou não. Mas na universidade não é bem assim. Quando o aluno entra, o centro
7:21 de gravidade de todo o processo são os seus gostos, os seus interesses, aquilo que quer explorar.
7:30 E portanto o convite à vida universitária vive, antes de mais nada, da singularidade de cada aluno
7:39 O que seria uma boa recessão aos alunos que entram à universidade? É perguntar-lhes o que é que te faz
7:47 diferente de todos os outros? O que é que tu consegue fazer que os outros não façam tão bem? O que é que
7:53 tu gostas mais? Qual é que é o conjunto de coisas que tu gostas? Que é um conjunto absolutamente
7:59 único? O que é que tu trazes esta instituição que seja só teu? Qualquer forma de sociabilização
8:08 ou de recessão de novos alunos à universidade que suponha um culto ou da uniformidade, ou da organização
8:17 ou da obediência é completamente ao lado do que esta experiência tenta fazer. Isto é o primeiro
8:24 aspecto importantíssimo e isto foi sempre assim. Como é que nós podemos dizer que isto foi sempre assim?
8:31 É muito simples, basta olharmos para o que era a formação nas universidades medievais, que é a
8:36 donde vem esta nossa instituição, onde vem esta casa, onde aqui estamos, vem no século 11, 12, 13,
8:42 dependendo dos países, e o que os alunos aprendiam quando entravam nesta instituição, aquilo que
8:47 começavam a fazer era um leque larguíssimo de assuntos, onde eles iriam explorar os seus diferentes
8:56 interesses. A primeira coisa que se aprendia, a primeira coisa que se aprendia eram três disciplinas
9:03 chamadas do Trívio, que tinham a ver com o uso da cabeça, a lógica, o bom uso da língua, a gramática
9:12 e a capacidade de comunicar, a retórica, que não tivesse estas três coisas, dificilmente poderia
9:19 experimentar a experiência universitária. Então aqui entramos no segundo aspecto que eu queria falar,
9:26 o aspecto comunitário. Uma universidade é um sítio onde a experiência de pessoas que pensam
9:35 diferentemente de nós, que têm ideias completamente diferentes, que levam a vida de outra maneira,
9:41 a todos os níveis é essencial, como é uma boa maneira, um bom critério para detectar uma má universidade.
9:50 É um sítio onde as pessoas são todas muito precisas. A universidade é tão melhor quanto mais
9:57 existir. A discussão, a troca de contacto com outros, a capacidade de exprimir o que é o seu ponto de vista
10:06 e ouvir outros pontos de vista diferentes, faz parte da experiência universitária e sempre fez.
10:13 Nas universidades medievais havia dois momentos educativos, a lição, a léxio, que era uma coisa
10:18 parecida com isto aqui a acontecer, uma pessoa a dizer coisas, mas depois havia disputá-se-o, havia
10:23 um momento, era obrigatório que os alunos aprendessem a fazer isto com um fronto de ideias.
10:30 Por isso isto não é acidental na universidade. Isto é absolutamente essencial na experiência
10:37 universitária. Então o que a sociedade faz com os universitários? Agora falando com os alunos,
10:43 não tanto com os professores, embora os professores são participantes como os alunos de todo
10:47 este processo. Faz um pacto. O que a sociedade faz? Faz um pacto em que diz aos alunos, vamos criar
10:55 uma situação totalmente artificial. Vamos tirar-vos de cima todas as obrigações habituais da vida.
11:02 Retirá-molas todas. Vocês neste momento não têm obrigações nenhuma na vida, a não ser entrar
11:11 nesta aventura intelectual para que se disposeram a fazer. E durante três anos, ou cinco anos,
11:18 ou sete anos, a sociedade fica à espera. E fica à espera que as pessoas se entreguem com
11:24 intensidade à incomparável experiência de se explorar a si próprios intelectualmente nos
11:33 assuntos de que se gosta. E o que a história mostrou? O que a história mostrou foi que as sociedades
11:40 que faziam isto adquiriam uma vantagem incrível. Não tinha propriamente a ver com a capacitação
11:51 direta para fazer umas coisas, ou para fazer uma tarefa, ou para fazer uma certa profissão,
11:57 embora isso também seja importante. Tinha a ver com o facto de percentagens substanciais da população
12:05 terem feito uma experiência intelectual absolutamente única. E isto transformou a história da Europa.
12:14 E não só transformou a história da Europa como todo o mundo, todo o mundo, ao longo dos séculos,
12:21 progressivamente, em todas as culturas, foram abandonando paulatinamente os sistemas de ensino
12:29 superior que tinham, porque todas as grandes culturas os tenham, para copiar este modelo que tinha espantosamente
12:38 surgido por volta do século 11 ou 12 na Europa Ocidental. E é isto que temos hoje. Em todo o mundo
12:45 hoje, este modelo é tão eficaz como experiência individual e como experiência de sociedade que
12:52 todas as culturas o replicam. É para isso que vocês estão convidados, os que estão na Universidade.
12:58 E seria uma lástima sem nome, se uma pessoa passasse pela Universidade e não fizesse esta experiência.
13:05 E por isso a Universidade, o tempo universitário, é de facto o tempo, porque a situação é totalmente artificial,
13:12 de fazer aquelas coisas que depois a vida, quando a vida se abater sobre nós, todos, depois, quando estivermos
13:19 que trabalhar, não o permite. É o tempo de ver grandes filmes, é o tempo de fazer grandes amizades,
13:24 é o tempo de ler grandes livros, é o tempo de estudar intensamente uma matéria, é o tempo de experimentar,
13:30 perceber um tópico que nunca mais se vai ter tempo para perceber. É isto o momento.
13:36 E é isto que se passa. E é isto que se chama a experiência universitária. E é isto que todos os universitários
13:43 são convidados a fazer. E se não fizerem perder uma ocasião de ouro, além de que defraudaram uma sociedade
13:53 que tinha colocado um conjunto de investimentos e de possibilidades na esperança de que isso acontecesse.
14:03 E é só visto que se espera dos alunos universitários.
14:07 A última coisa que eu queria dizer para terminar, que é um ponto importante neste contexto em que estamos,
14:14 é uma coincidência que a Universidade tenha surgido na Europa Cristã.
14:20 É uma coincidência que a Universidade, esta enorme instituição e por todo o mundo,
14:25 e esta ideia que acabei de explicar, seja um derivado da Igreja Católica e do Cristianismo,
14:31 não é uma coincidência. Por quê? Porque, do ponto de vista cultural,
14:37 precisamente o que o Cristianismo faz é introduzir uma atração pela vida, uma atração pelos outros,
14:47 uma atração e uma afeição pelas novas possibilidades da vida que geram um interesse
14:55 que permite que esta experiência tenha sentido e permite aquilo que o Cristianismo diz sobre as tarefas intelectuais
15:04 uma vida dedicada ao estudo não precisa de mais justificação.
15:10 Muito obrigado.
15:17 Obrigado.

Para que serve a universidade - Henrique Leitão

Descrição

A palestra de Henrique Leitão desafia-nos a refletir sobre o verdadeiro propósito da universidade, um espaço de descoberta, crescimento e comunidade. Com uma abordagem vibrante, Leitão convida os jovens a abraçar a experiência universitária como uma oportunidade única de explorar os seus interesses e paixões.

Resumo

Henrique Leitão, num discurso cativante, aborda a importância da universidade não apenas como um local de formação profissional, mas como uma experiência rica e comunitária. Ele começa por identificar que muitos estudantes, ao ingressar na universidade, não compreendem plenamente o que este espaço representa. A universidade é apresentada como uma comunidade de professores e alunos que se reúnem para estudar e descobrir o que realmente apaixonam. O coração da experiência universitária reside na exploração dos interesses individuais de cada aluno, permitindo uma diversidade de gostos e práticas que enriquecem a vida académica.

Leitão destaca a diferença fundamental entre o ensino secundário e o universitário, onde a autonomia e os interesses próprios do aluno devem estar no centro do processo de aprendizagem. Para ele, a função da universidade não é formar meramente profissionais, mas proporcionar uma vivência intelectual e comunitária que molda a identidade de cada um. Ao longo da palestra, enfatiza que o ambiente universitário deve ser um espaço de diálogo e troca de ideias, onde diferentes perspectivas são valorizadas e promovem um enriquecimento mútuo.

Finalmente, Leitão sublinha o papel social da universidade, que oferece aos alunos um tempo artificial sem as obrigações habituais da vida, permitindo uma imersão total na aprendizagem e na autoexploração. Esta experiência não é apenas uma oportunidade individual, mas também um investimento da sociedade no futuro, que ao longo da história revelou-se fundamental para o desenvolvimento cultural e intelectual. A palestra termina com uma reflexão sobre a conjuntura histórica da universidade, associando-a às raízes cristãs e ao incentivo à busca de conhecimentos e à empatia pelos outros como pilares do pensamento universitário.

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