3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Bom, olá, boa tarde a todos, isto, o Raminhos foi ótimo porque, de facto, o efeito sedativo
0:16 de lau-moça lá vai, não, espero que estejam todos bem dispostos para falarmos agora de
0:21 coisas um pouquinho mais sérias.
0:23 Olha, eu e o João já nos vamos apresentar, vamos falar um bocadinho sobre, de facto,
0:29 essa grande realidade do mundo 2, do século XXI, e também já do século XX, eu nasci no
0:33 século passado, não sou daquele grupo de caplaudeu o ano 2000, sou bem mais velho.
0:39 Bem, pronto, já lá vamos a isso, queríamos só explicar aqui, basicamente, o seguinte,
0:43 somos duas gerações diferentes, obviamente, de profissionais, vivemos experiências diferentes
0:50 e isso pode ser importante para perceberem a questão do tempo, o tempo que passou desde
0:56 que eu nasci, até o João nascer e até estarmos na profissão.
1:00 Foi das coisas que mais mudou, talvez, no século passado, principalmente na segunda
1:04 metade do século XXI e também no século XXI, esta noção do tempo e da velocidade
1:10 e da quantidade, e da informação, foi a grande revolução da informação.
1:13 Mas, João, vamos dar-nos a conhecer as pessoas da Ipermoldada.
1:17 Eu começo por ordem coronológica porque nasci primeiro, portanto, eu sou o Paulo Nogueira,
1:24 63 anos, faz 64 em mais, nasci no ano de 1961, já lá muito para trás, quando nós
1:32 estamos a preencher as coisas na internet, quando tem aquela coluna das datas, eu tenho
1:36 que fazer nunca mais para isso, mas depois lá está, 1961.
1:41 Então, basicamente, estou reformado, reformei-me há um ano, estive mais de 40 anos como jornalista
1:48 e 35 a trabalhar na televisão, onde fiz desde a apresentação, coordenação, edição,
1:54 etc.
1:55 Lidei um bocadinho com o mundo.
1:57 Eu e o João, agora, ao apresentar-nos cada um de nós, vamos também, depois, explicar
2:01 por que é que fomos parar esta profissão e depois, então, falaremos do tema que mostramos
2:05 aqui hoje.
2:06 Mas, para nos situarmos um bocadinho, e até principalmente para os mais novos, vamos
2:12 aqui recuar um bocadinho no tempo, a não no vosso, no meu tempo.
2:17 Eu, quando fui ver, embora alguns factos, eu soubesse que tinham acontecido em 1961,
2:22 fui rever o que é que tinha acontecido em 1961, o mundo e também aqui em Portugal, reparei
2:30 num aspecto que eu nunca tinha pensado, reparem bem como é que a pessoa vive, 63 anos e nunca
2:35 reparou nisso.
2:36 Eu nasci apenas 16 anos depois de terminar a Suma da Guerra Mundial e, portanto, nasci
2:42 no pós-guerre e nasci na altura em que o mundo, em particular a Europa, mudou muito,
2:47 mas eu não tinha essa noção.
2:49 Para mim, de facto, a Suma da Guerra também era algo que parecia que já estava nos livros
2:52 de história, 16 anos, quer dizer, hoje, olho para esta métrica e, de facto, 16 anos,
3:00 não era nada.
3:01 A guerra tinha acabado de terminar na Europa e também no resto do mundo.
3:08 1961, então, vamos lá ver, reparem coisas extraordinárias que aconteceram nesse ano.
3:13 Yuri Gagarin foi o primeiro homem a ser lançado para o espaço.
3:18 John Kennedy foi eleito, presidente de Estados Unidos em 1961, começa a ser construído o
3:25 Muro de Berlim e o Papa João XXIII convoca o Concilo Vaticano II, no ano em que eu nasci,
3:32 bom que eleita.
3:34 Outra coisa em Portugal, começava a guerra colonial, felizmente, não participei nesta
3:41 guerra, porque, entretanto, aconteceu o 25 de abril e a idade que eu tinha há época
3:45 de 12 anos já não me levou para este conflito.
3:48 Mas era o país onde eu estava em 1961 e que tinha este problema entre a mãos.
3:55 Não tínhamos ainda o Cristiano Ronaldo nenhum futebol, mas tínhamos o Aquim Patins e normalmente
3:59 eram os campeões do mundo ou da Europa, e neste ano de Portugal foi o campeão da Europa
4:03 do Aquim Patins.
4:04 E agora outra coisa extraordinária que eu descobri no ano em que eu nasci, que também
4:08 não sabia.
4:09 Reparem bem.
4:10 Em 29 de fevereiro, na Avenida de Roma, foi inaugurado o primeiro supermercado em Portugal.
4:17 E então vou ler muito rapidamente o parágrafo de Diário Lisboa, que é um jornal que existia
4:22 à época, saía da parte da tarde, sobre este evento.
4:27 Uma loja de self-service onde as compras são feitas pelo próprio cliente, isto era uma
4:32 novidade, com um sexto metálico, retirando os diversos produtos e as partilheiras e
4:38 pagando no final numa caixa.
4:39 Bom, e agora para terminar muito rapidamente, o que é que não havia em 1961?
4:52 Não havia muitas coisas, mas também havia outras boas, mas não havia computadores,
4:56 não havia internet, não havia telemóveis, não havia CDs, não havia cassetes de vídeo,
5:02 não havia Netflix, nem TVK, nem redes sociais, vocês devem entrar no KKV em 1961.
5:09 Olha, a televisão era a preta e branca e via um canal, os discos eram de vinil, o telefone
5:14 era fixe e tinha uma rodelinha para marcar os números, Portugal era um país com um
5:20 nível de analfabetismo gigantesco e também com uma taxa de mortalidade infantil muito
5:27 grande.
5:29 Só para ter uma ideia, e a última número que dou, em 1961, em cada mil BBs nascidos,
5:34 88.7 morriam.
5:37 Hoje, este número é referente a 2023, este número baixou para 2.4.
5:44 Portanto, reparem, o tempo, e agora vão vir o João, que nasceu muito depois de mim,
5:50 o tempo aqui mudou muita coisa em Portugal e no mundo também.
5:55 João.
5:56 Muito boa tarde a todos, obrigado pelo convite.
6:01 Eu tenho 30 anos, sou João Prefírio, sou editor de fotografia do Observador desde
6:07 os 24 anos e trabalho desde os 18 em jornalismo e sempre quis ser jornalista, sempre fiz a
6:16 minha formação com o intuito de ser jornalista, felizmente já nasci numa época em 95 em que
6:25 a grande parte das coisas que hoje temos estavam sendo desenvolvidas e, portanto, já cresci
6:29 com toda esta tecnologia que temos hoje à nossa disposição.
6:33 E para não malungar muito, porque o tempo é curto, queria explicar porquê eu quis
6:44 ser jornalista desde muito novo que eu tinha essa pretensão, portanto, toda a minha formação
6:51 como disse, foi feita nesse sentido desde o ensino secunário e depois ao universitário
6:56 e depois ainda a estudar, comecei logo a trabalhar e sempre quis utilizar a fotografia
7:05 como ferramenta do jornalismo e como ferramenta de comunicar aquilo que se passa no mundo.
7:10 Desde muito cedo também ainda a estagiar fiz a cobertura da crise de refugiados na entrada
7:18 da Europa dos refugiados que estavam a ver da Síria e do Iraque, do Afganistão,
7:24 da Líbia, portanto fiz logo essa cobertura ainda como freelancer, depois já no observador
7:32 e ainda até no semário sól e no jornalí fiz a cobertura da guerra, o fim da guerra
7:38 da Síria, a guerra também o fim da guerra do Iraque e agora fiz a cobertura muito intensiva
7:45 da guerra da Ucrânia, só uma nota de curiosidade.
7:50 Entrei na Ucrânia no dia 24 de fevereiro de 2022, portanto, no dia em que os primeiros
7:55 bombardimentos atingiram só o Ucrâniano, levava mantimentos e roupa e material fotográfico
8:02 e material para eu conseguir viver para oito dias, acabei por sair de lá seis meses depois,
8:09 portanto, é esta um bocadinha vida do jornalismo e é esta um bocadinha vida que, portanto,
8:18 fascina no jornalismo.
8:19 Hoje estou aqui com vosco, amanhã não faço ideia onde é que posso estar, é perfeitamente
8:25 normal que as gerações mais novas e tu deve sentir isso quando falamos com as gerações
8:29 mais novas até porque a minha, que há muitos jovens que não têm já essa pretensão de
8:33 não ter a vida tão pouco calculada, isso é que me fascina no jornalismo, é de facto
8:44 hoje estar num país, amanhã estar no outro, no início do ano fiz a cobertura de Moçambique,
8:51 das eleições moçambicanas, a tomada de posto do presidente Moçambique, onde certamente
8:56 vocês viram grandes e graves tumultos a acontecer em Moçambique, pessoas decapitadas
9:03 no meio da rua, pessoas mortas no meio da rua, crianças, mulheres, já para não
9:08 falar obviamente naquilo que se passava na Ucrânia, naquilo que se passou em Mósul,
9:13 no Norte do Iraque com a libertação do Norte do Iraque pelo Estado Islâmico, portanto
9:18 aqui uma grande, isto obviamente que é uma oportunidade de estar nos momentos em que
9:26 a história está a acontecer e sermos nós o veículo para contar essa história.
9:32 Queria, não precisam de bater palmas mas queria só fazer-vos uma pergunta e que refletissem
9:39 sobre ela, que era, há quanto tempo vocês não compram um jornal, há quanto tempo vocês
9:45 não ligam a rádio para ouvir notícias, a televisão certamente é mais fácil porque
9:50 é uma coisa mais imediata que está em nossa casa e portanto queria começar com isso
9:57 o Fio Contor e depois o Paulo terminaria a nossa conversa com isso. Eu trago-vos aqui
10:04 alguns exemplos de fotografias minhas que foram utilizadas, e a conversa sobre desinformação
10:11 e informação, que foram utilizadas para desinformação, portanto todas estas fotografias que vocês
10:18 vão ver, xé tuanda ou a última, são fotografias que eu tirei e todas elas foram utilizadas
10:25 nas redes sociais de forma abusiva por utilizadores que utilizaram a fotografia, que não é manipulada,
10:34 que tudo o que vão ver é verdadeiro e foi a verdade, não há ali manipulação nenhuma
10:40 fotografia e a única manipulação que aconteceu foi o contexto, ou seja, a frase ou o texto
10:49 que era anexa à fotografia é que indiciava factos que não são de todos reais. Esta
10:56 fotografia que estamos a ver é uma fotografia naturalmente de drone e foi tirada no maior
11:03 cemitério de Portugal, no cemitério do Alto São João, aqui bem perto de nós, e foi no
11:08 pico da pandemia em 2021 quando estavam a morrer entre 300 a 350 pessoas por dia vítimas
11:15 da Covid-19. E esta fotografia foi partilhada muito, não só em Portugal, mas também no
11:21 Brasil, porque havia imagens muito idênticas a estas de um estado brasileiro, Manaus, que
11:29 estava a sofrer muito com a Covid-19 e, portanto, esta fotografia foi usada para isso com essa
11:35 desinformação que teria sido tirada no Brasil, o que não é verdade. Esta fotografia foi
11:43 tirada no Hospital Santa Maria, em Lisboa, e foi também tirada no pico da pandemia da
11:50 Covid-19. E aqui a realidade desta fotografia é a seguinte, estavam a morrer tantas e tantas
11:57 pessoas vítimas de Covid-19 que a morgue do hospital, que é gigantesca, já não tinha
12:03 espaço para armazenar tantos cadáveres de pessoas que tinham morrido de Covid-19. E o
12:09 que não sei se conseguem perceber num promenor da fotografia, uma das capelas do hospital
12:14 foi usada para morgue, portanto, estes cadáveres estão dentro de uma capela do hospital. E
12:21 esta fotografia foi partilhada milhares e milhares de vezes no Twitter e no Facebook,
12:26 com a seguinte informação, há uma capela em Portugal que está a armazenar corpos e
12:32 que não quer devolver os corpos às famílias vítimas de Covid-19. Esta fotografia foi partilhada
12:38 milhares, como disse, milhares de vezes. Como vocês veem, não há... quem a partilhou
12:45 não alterou nada da realidade da fotografia, portanto, não houve uma manipulação digital
12:52 da fotografia, mas bastou uma pequena frase na publicação para levar as pessoas em erro
12:58 absoluto, o que não é verdade. Esta fotografia faz parte de uma reportagem que mostra de facto
13:03 uma capela que é uma coisa que é muito visualmente assustadora, não é uma capela cheia de cadáveres
13:10 de Covid-19. É aqui muito rápido e temos que acelerar, estou bem, eu falo imenso. Esta
13:17 fotografia também é uma fotografia aérea da cobertura de todos os meses em que eu estive
13:24 na Guerra da Ucrânia. Esta aldeia foi um trabalho muito extenso que eu fiz sobre esta aldeia
13:31 a norte de Kiev, e vocês conseguem ver tudo completamente destruído. E esta fotografia
13:36 foi partilhada nos órgãos de tecnicação russos, que tinha sido uma aldeia russa muito
13:43 perto de Muscovo, completamente destruída pelas tropas ucranianas. Lá está, mais uma
13:49 vez, um exemplo de fotografia não ter sido manipulada em momento algum, de forma digital,
13:55 mas foi manipulada a forma como ela foi publicada e republicada. Aqui, a mesma coisa,
14:03 também na Guerra da Ucrânia, isto é, a morgue de Butcha. Na Ucrânia, depois dos massacres
14:11 todos que aconteceram em Butcha e em Irpin, esta fotografia foi usada de forma de negreir
14:21 o governo ucraniano, porque foi publicada na imprensa ucraniana pro-russa e na imprensa
14:30 portuguesa pro-russa, imprensa com muitas aspas pro-russa, que dava conta de as tropas,
14:39 o governo ucraniano estaria a cremar cadáveres de soldados ucranianos sem que lhes fossem
14:48 devolvidos a cadaver e que elas pudessem fazer o seu funeral digno.
14:54 E esta fotografia, não sei se se haviam estas duas fotografias do lado direito, são fotografias
15:01 claramente opostas a tudo isto que eu vesti para falar até agora. Estas duas fotografias
15:06 são fotografias geradas por inteligência artificial e foram partilhadas mais de sete
15:12 milhões de vezes. Foi uma fotografia que foi publicada no dia 21 de fevereiro deste
15:18 ano. Portanto, poucos dias depois do Papa Francisco ter sido internado, foi internado
15:23 do dia 14 e esta publicação teve mais de sete milhões de partilhas nas redes sociais.
15:30 Portanto, deduzimos disto que sete milhões de pessoas no mundo acharam que esta fotografia
15:40 era verdade e, com isto, me despeço com um apelo que é terem cuidado nos locais
15:50 onde recolhem a vossa informação e, sobretudo, as notícias falsas são muito mais vezes partilhadas
16:03 do que até as notícias verdadeiras e há vários truques para perceber se as notícias
16:06 são falsas ou não, nomeadamente perceber se o site é credível, perceber que o fonte
16:12 é que tem esta informação e, depois, há também ferramentas que nos levam a fazer
16:23 um fact-checking destas mesmas informações e pedir fazer um apelo para que, um bocadinho
16:30 ao início da minha intervenção, um apelo para que comprem jornais ou sem rádio e vejam
16:37 televisão, obviamente que nós, jornalistas, temos um papel muito importante e crucial
16:45 na sociedade portuguesa e não só, mas na sociedade civil para que as pessoas sejam
16:52 o mais bem informadas possível, mas obviamente não podemos desprezar o verdadeiro valor
16:59 também e a importância que as pessoas, os leitores, os ouvintes e os telespectadores
17:04 também têm a que ter nesse papel, que é, sobretudo, filtrar a informação que recolhem
17:09 nos seus scrolls infinitos nas redes sociais. Portanto, aqui um apelo para que confiem nos
17:16 jornalistas, os jornalistas não são isentos de erros, obviamente que nós todos já erramos
17:21 e vamos continuar a errar, somos humanos, mas que, sobretudo, confiem nos jornalistas
17:28 e procurem fontes de informação que sejam confiáveis para uma sociedade informada.
17:34 Hoje é uma cidade muito mais informada amanhã e muito mais capaz de fazer com que o mundo
17:42 seja um lugar melhor para viver. Obrigado.
17:52 Eu agora pegava um bocadinho no que o João disse, porque isto é importante perceber
17:57 porque aqui isto acontece, isto não acontece, por acaso e, de facto, lá está, foi um
18:02 processo ao longo do tempo que se foi agravando também pela, obviamente, pelo desenvolvimento
18:08 da tecnologia. As duas coisas não poderiam estar separadas, só é possível isto acontecer,
18:14 porque a tecnologia, hoje, em termos de informação, permite fazer coisas que, quando eu nem chiasse
18:20 50 anos, não era todo possível. Então, muito rapidamente, e no pouquíssimo tempo que
18:24 ainda temos disponível, mas tentando fechar um bocadinho bem aqui, e acho que a ideia
18:28 que o João está a querer deixar a todos vocês, eu diria, e tentando fazer aqui uma
18:34 espécie de um retrato muito rápido do que é que se passa, ou como é que eu olho, pelo
18:38 menos, para a realidade da informação e até tendo a consideração de todo o tempo
18:42 que vivi, não é, 40 anos do jornalismo, em que eu comecei, obviamente, num contexto
18:47 completamente diferente de hoje, mas que fui acompanhando até o que acontece nos dias
18:51 de hoje, eu diria, muito rapidamente, quatro pontos. Sendo que o primeiro é uma constratação
18:58 completamente óbvia, o excesso de informação, a quantidade de informação que é hoje,
19:04 não sequer dá para comparar com o que havia há 50 anos atrás. É que é completamente
19:12 uma desproporção tal ordem que, só por si, não é mau. Atenção, mas, de facto,
19:19 esverir esta quantidade brutal de informação é completamente diferente na atitude de
19:24 cada um de nós. Nós tínhamos, há 50 anos, e agora vou ter a referir aqui em Portugal,
19:31 possivelmente possibilidade de comprar um jornal de manhã, um jornal de tarde, as notícias
19:34 à noite, acompanhámos pela rádio, porque, quer dizer, hoje em manhã, quando a Laura
19:38 falava do estudo que vocês viram e dizia, bom, ao meu Instagram, bom, ao site da
19:43 Fundação há 50 anos, eu teria aqui, possivelmente fisicamente, a Fundação, perguntar se,
19:49 em algum livro, estava lá o texto, pedir se me facilitavam, quer dizer, vocês, até
19:54 durante o convidado seguinte, que não fizeram isso, de certeza, porque seria falta, podiam
20:01 ir ao telemóvel e estavam a ler o estudo que a Fundação publicou e que a Laura, com
20:06 sua equipa, muito bem fez. Portanto, isto temar com uma diferença adismal na maneira
20:11 como a informação, e o papel que a informação tem hoje. E reparem, o que é que quando há
20:15 um golpe de estado, quando há uma ditadura, quando é o primeiro poder a ser imediatamente
20:20 controlado, é o da informação, é o quarto poder, o poder da liberdade de informar,
20:25 que foi aquilo que me fez também seguir para a minha profissão. No 25 de abril, os que
20:29 estavam na altura vivos, eu tinha 12 anos, um dos primeiros títulos a ser ocupado, foi
20:35 imediatamente a rádio e a televisão, e depois os jornais, porque eram os meios à
20:40 época de comunicar rapidamente e controlar a comunicação e dominar de alguma maneira
20:46 a população. Hoje, às redes sociais, hoje é quase impossível dominar, é possível
20:52 dominar, é desligando, vão à China e tentem ter uma informação como temos no Ocidente,
20:59 ou vão a qualquer outro país, onde as ditaduras dominam de alguma maneira a informação. Por
21:04 isso é que a informação é tão importante. Outra realidade, de facto, para além do
21:08 excesso de informação e da quantidade de fontes de informação e a facilidade com
21:13 que elas nos chegam ao bolso das calças ou do casaco, quer que seja, é uma loucura,
21:20 quer dizer. Nós hoje temos a possibilidade de chegar em quantidade e em facilidade a
21:31 quantidade de megas de informação que, há 60 anos, não era toda impossível.
21:36 Isto traz-nos o quê? Trazem-nos a modificação completa do nosso papel de espetador ou de
21:46 consumidor. Hoje, de facto, nós somos consumidores de muita informação, mas eu deixo aqui uma
21:54 pergunta. Somos, de facto, consumidores de muita, ou de muita dispersidade de informação,
22:01 ou seja, na prática não sabemos nada, porque temos tanto e não conseguimos saber nada
22:06 que não me profundamos nada. Esta é uma das realidades que eu acho que estamos presentes
22:10 no dia 2, nos dias 2, na parte de informação e da desinformação. Depois, temos falado
22:16 de coisas mais concretas, de facto, a manipulação, como o João falou, que tanto pode ser do
22:20 contexto ou do próprio objeto, no caso do João a fotografia, ou da maneira como
22:27 nós hoje podemos ser enganados por quem nos informa. Eu vou pedir, só que vou ter que
22:37 saltar aqui um bocadinho que o tempo já acabou, vou pedir para passar muito, agora a seguir,
22:43 dois pequenos vídeos que eu trouxe depois de falar aqui sobre uma ideia e fechamos.
23:13 Bom, eu não sei, eu peço, eu vou pedir um bocadinho de tolerância, mas eu acho que
23:43 é uma mesa, mas se puderem dar mais só dois segundos no filme, só vamos roubar ou não
23:49 sempre mais dois segundos, espere, pode erretir, desculpe, porque é pena acabar ali. Podem
23:57 passar até um pouquinho à frente, se eu preciso. Não, antes, não, antes, antes,
24:00 não, esse filme é o outro anterior, exatamente. Desculpem lá.
24:23 Bom, possivelmente estamos a perder tempo, era o menos que o filme foi cortar para só
24:27 para aqueles bocadinhos, é isso? Tudo bem. Este era o segundo filme que eu gostava
24:32 que vocês vissem, mas em relação ainda ao primeiro, se quiserem retirar esta em loop
24:36 e segundo os segundos, dá um certo gozo ver. Mas só para explicar, o primeiro, vocês
24:44 viram aqueles dois artistas, a seguir, aparecem uma série de individualidades a cantar em
24:50 coro, desde o presidente do Irão, ao presidente da China, ao primeiro ministério realita,
24:57 ao próprio Zelensky, todos estão em coro a cantar o Iar da Oul. Ora, se eu vos perguntar,
25:04 adoro que eu possa perguntar e peço uma salva de palmas para quem acredita que estes filmes
25:08 são verdadeiros, faça favor. Bom, é óbvio, não é? Mas agora, reparem, a tecnologia
25:15 que está por trás disto, e neste caso é a inteligência artificial, se fabricasse
25:20 um conteúdo ligeiramente diferente, incrível, vocês estariam aqui a bater palmas, acreditando
25:26 que o filme era verdadeiro ou não. Possivelmente, como eu, em 1969, quando tinha 8 anos, vi,
25:31 não é crã preto e branco lá em casa na televisão, o primeiro homem a pôr o pé na lua, e vi
25:34 isso aí, mas eu acho que o primeiro homem a pôr o pé na lua, o primeiro homem a pôr
25:40 é crã preto e branco lá em casa na televisão, o primeiro homem a pôr o pé na lua, e vi isso
25:45 em direto, e acreditei. Portanto, a tecnologia hoje tem esta capacidade de poder, de facto,
25:52 iludir a nossa percepção. Mas mais perigoso, mais perigoso do que isto, que também pode
25:59 ser perigoso, eu vou só terminar lembrando que nas últimas eleições presidenciais
26:06 circulou nas redes sociais uma notícia, uma AN, mas eu destacaí uma, segunda qual,
26:13 Kamala Harris, uma candidata à presidenta dos Estados Unidos por parte do Partido Democrata,
26:19 estaria envolvida num suposto atropolamento e fuga que tinha ocorrido em São Francisco
26:23 no ano 2011. Técnicos, engenheiros da Microsoft, já depois das eleições e depois de investigarem
26:31 profundamente o fenômeno, chegaram à conclusão que o vídeo que foi criado à época foi produzido
26:41 por uma estação, ou por um grupo, de um site falso que passou esse vídeo para um canal
26:52 de notícias existente em São Francisco, nos Estados Unidos, chamado KBSFTV, e que,
27:01 inclusivamente, chegou a contratar uma rapariga supostamente a tal pessoa que Kamala Harris
27:08 teria atropelado, no sentido de dar credibilidade à notícia e passar a informação de que
27:14 ela teria atropelado e teria fugido do local do atropelamento. Portanto, tentando denigrir
27:20 o caráter, a pessoa, em causa. Este grupo foi agora desmascarado, identificado como próximo
27:28 do Kremlin, e esta notícia falsa foi visualizada por mais de 3 milhões de pessoas, 3 milhões
27:38 de pessoas, nos Estados Unidos, que, meia-dozia dias depois, estariam a colocar o seu voto
27:43 na urna eleitoral. Portanto, agora perguntam-me, ah, mas isso passou só na televisão? Claro
27:53 que não. Onde é que passou depois nas redes sociais? Quem é que passou? Isso era a última
27:59 nota que eu gostava de deixar aqui, porque este é o vosso tempo, este é o nosso vosso
28:04 tempo, e é com isso que vocês têm que viver. Mais do que hoje em dia os jornalistas, que
28:12 estão, na minha opinião, estão a perder cada vez mais terreno nesta comunicação para
28:18 o grande público da informação. Estamos a sentir-nos retirados da equação, porque
28:26 está a haver atalhos e caminhos diretos que nos ultrapassam. A informação está a chegar
28:32 a vocês sem uma chancela de credibilidade e diversidade que eventualmente teria há 50
28:39 anos atrás. Também havia, na altura, a manipulação, obviamente que sim. Não havia
28:44 como havia hoje, nem com a intensidade com que é hoje. O que é que acontece? Vocês também
28:50 passaram a ser emissores de informação. Se há três apinhos e há pouco, não comam
28:56 um lixo e não comam, não divulguem também lixo. E, se o Matai falou aqui de responsabilidade,
29:03 então a nossa responsabilidade do vosso tempo hoje é também não divulgarem o lixo
29:09 e serem responsáveis por vivermos em sociedade que cada vez mais está a tornarem lixo.
29:14 Mas, gostava de dizer uma última frase. Eu sei que o Tiago está aqui ao meu lado.
29:18 Eu peço desculpa que tinha muito poucos minutos, mas só para terminar, gostava de dizer uma
29:23 última coisa. Não sei se não quis perguntas a isso. Já não há perguntas sequer. Então
29:27 vou só terminar para dizer que não quero deixar aqui uma carga negativa. O mundo hoje
29:35 não está bem, é verdade. Mas, quando eu nasci 15 anos antes, também não estava bem,
29:40 até possivelmente estaria muito pior. Há muita gente que está sempre a dizer que está tudo muito
29:44 mal no mundo e que o mundo está terrível. Temos uma Europa destruída, temos títulos
29:48 de concentração, ouviram a notícia, ouviram o que há pouco também se falou sobre o
29:54 tempo muito incrível daquela judia que foi para o campo de concentração.
29:59 Nos amigos, o tempo é o que é. Este é o vosso tempo. Não os traguem em vosso tempo. Obrigado.

Descrição

Nesta conversa, dois jornalistas de gerações diferentes refletem sobre a transformação radical da informação ao longo das últimas décadas e alertam para os perigos da desinformação no mundo digital. A partir de experiências concretas no jornalismo e em cenários de guerra, pandemia e manipulação mediática, mostram como imagens verdadeiras podem ser usadas para mentir e como a inteligência artificial torna tudo ainda mais difícil de distinguir. A grande mensagem é clara: informar-se bem e partilhar com responsabilidade tornou-se uma tarefa essencial de cidadania.

Resumo

A intervenção começa por colocar frente a frente duas gerações de jornalistas, o que ajuda a perceber a velocidade das mudanças no mundo da informação. Paulo Nogueira parte do ano em que nasceu, 1961, para mostrar um país e um mundo radicalmente diferentes: sem internet, sem telemóveis, com poucos meios de comunicação e com um acesso muito limitado à informação. A comparação com o presente deixa evidente que a grande revolução das últimas décadas foi precisamente a forma como o tempo, a velocidade e a quantidade de informação transformaram a vida de todos.

João Porfírio traz depois a perspetiva de quem já cresceu no meio dessa transformação e vive o jornalismo em contexto de mobilidade, conflito e urgência. A sua experiência em lugares como a Ucrânia, a Síria, o Iraque ou Moçambique mostra o jornalismo como presença direta onde a história está a acontecer. Ao mesmo tempo, sublinha um problema central do nosso tempo: fotografias reais, tiradas em contextos verdadeiros, podem ser retiradas do seu contexto e reutilizadas para enganar milhões de pessoas. O problema já não é apenas fabricar imagens falsas, mas manipular o significado daquilo que é verdadeiro.

É aqui que entra o alerta mais forte da conversa: a desinformação tornou-se massiva, rápida e sofisticada. Fotografias feitas durante a pandemia ou em cenários de guerra foram usadas para contar histórias falsas, distorcer responsabilidades e alimentar propaganda. E quando se juntam redes sociais, velocidade de partilha e inteligência artificial, a capacidade de criar conteúdos enganadores cresce ainda mais. O público deixa assim de ser apenas recetor: cada pessoa pode também tornar-se transmissora de mentira sem se aperceber disso.

Paulo reforça esta ideia ao explicar que o excesso de informação não significa necessariamente mais conhecimento. Pelo contrário: ter acesso constante a conteúdos pode gerar dispersão, superficialidade e dificuldade em distinguir o que é fiável. Se antes o controlo da informação passava pelos jornais, pela rádio ou pela televisão, hoje a circulação é descentralizada e quase impossível de travar. Isso aumenta a liberdade, mas também torna muito maior a responsabilidade individual de verificar, filtrar e não amplificar o “lixo” informativo.

No final, a mensagem não é de pessimismo absoluto, mas de lucidez. O mundo sempre teve crises, guerras e manipulação, mas os desafios atuais exigem uma nova maturidade cívica. Os jornalistas continuam a ser fundamentais, mesmo com erros e limitações, mas já não conseguem sozinhos proteger o espaço público da mentira. Cabe também aos cidadãos — especialmente aos mais jovens — aprender a escolher melhor as fontes, duvidar do que parece demasiado fácil e perceber que partilhar informação é, hoje, um ato de responsabilidade social.

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