3 Milhões de Nós
0:00 Olá, bom dia a todos. Bom dia. Então, o meu nome é Marinho, como já foi dito, tenho 30 anos,
0:16 fui informático e hoje venho cá contar-vos 5 histórias. Mas para poder contar estas histórias
0:24 preciso vos contextualizar um bocadinho. E com isto vou contar um bocadinho do início
0:31 das minhas histórias de vida. Eu nasci em 1991. Os meus avós, portanto, eram assessorianos,
0:42 vieram para Portugal, para o Oriental, e, portanto, tiveram uma educação muito, muito
0:47 rígida com os seus filhos, meu tio e com a minha mãe. E por causa dessa educação,
0:53 que era muito, muito rígida, tanto a minha mãe como o meu tio acabaram por ir por caminhos
1:02 pelos quais não deviam ter ido. Portanto, o meu tio e a minha mãe estão toxicocardiantes.
1:10 E a minha mãe, depois de me ter tido, foi tirando novamente em casa os meus avós, tendo
1:18 a missão de tomar conta de mim. A minha mãe não aguentou essa missão, saiu de casa
1:23 e abandonou-me à porta do posto médico. As pessoas que estavam no centro de saúde
1:30 encontraram-me, contactaram com a minha avó e a minha avó levou-me para casa. O meu avô
1:36 não me queria aceitar, mas viram-me ver tão fofo, mas tão fofo, que ele não aguentou
1:43 e acabou por me receber de braço para braço.
1:55 Continuando com essa história, depois do meu avô e da minha avó me terem recebido
1:58 em sua casa, era uma infância normalíssima, até que chegamos ao ano de 1998. Curiosamente,
2:08 uma sexta-feira certa. Sobia imenso nesse dia. E o meu avô, devido a uma periga que
2:16 tinha num dedo de um pé, teve que ir para o hospital. No hospital ficou até que teve
2:22 que ser amputado a uma das suas pernas. A partir desse momento, ficou acamado e a partir
2:30 desse dia, a minha vida mudou. E agora vou começar por vos falar de algumas pessoas.
2:40 Dona Alba. Esta história é muito curiosa. Todos estes acontecimentos aconteceram quando
2:47 eu tinha seis anos. E a minha rotina era ir para a escola, todos os dias, no autocarro
2:53 das oito e vinte e cinco, mas num determinado dia, quando eu acordei às sete horas da manhã,
2:58 eu vi que a minha avó não estava a conseguir mexer. Quase que se agachava para tentar tratar
3:04 o meu avô. E veio pedir, por favor, que eu passasse no centro de saúde para tratar algumas
3:09 receitas que eram precisas lá para casa, para podermos comprar os medicamentos do meu avô.
3:14 E também pediu para tratar de uma carência de ambulância. E lá fui eu. Fiz a cama,
3:21 barrei o chão, partei tudo em casa e, em vez de apanhar o autocarro das oito e vinte
3:26 e cinco, saí no autocarro das oito e vinte e cinco. Cheguei ao centro de saúde, coloquei
3:31 a minha fila para a sala das administrativas e lá esperei. A Dona Alba atendeu-me, entreguei
3:39 a documentação do meu avô, pedi as receitas do meu avô, pedi a carência de ambulância
3:46 no momento de ajudar a Dona Alba. Dona Alba, a minha avó não consegue mexer, não consegue
3:55 tratar do meu avô. Eu não sei o que vai ser da minha avó e do meu avô. Eu quero
3:59 o medicamento médico lá em casa. A Dona Alba aplica, pede os documentos da minha avó
4:05 e eu digo que não tenho. Lá a Dona Alba, que pisou o nome da minha avó no sistema
4:11 médico e lá conseguiu um controle. Eu fui contente para a escola, mas tento dizer a
4:18 Dona Alba a segundo prazo. Dona Alba, não se esqueça, oito e seis são seis, muita
4:24 responsabilidade. E o médico foi lá a casa, ajudou a minha avó, minha avó teve o tratamento
4:32 e quando chegou a casa já a minha avó estava a pé. Claro que ela tinha apanhado um grandíssimo
4:37 susto porque tinha entrado o médico na primeira casa adentro, mas pronto, acabou por não
4:42 fazer mal. Depois estava mais uma pessoa, que conseguiu o fruto do café. Durante a
4:50 doença do meu avô, a minha avó às vezes entrava em pressão. Nesses momentos em que
4:56 entrava em pressão, dizia que eu não era filho dela e mandava-me para a casa da minha
5:01 mãe. E eu ia, era um miúdo. E a rotina da casa da minha mãe era muito simples. Era
5:10 se ter a procurar por volta das doze e meia da manhã e eu e a minha irmã éramos abrigados
5:15 aí para a rua e conseguimos voltar a entrar em casa a partir das doze e meia da noite.
5:22 Não havia almoço, não havia lanche, não havia jantar como havia em casa da minha avó
5:28 e não havia jantar como havia na escola. E aí de momento me atravessei lá a semana
5:32 e vou-lhe explicar o porquê. A minha mãe na altura estava dependente de uma droga chamada
5:37 Lovina e para conseguir o dinheiro para comprar essa droga, acabava-se substituindo naquela
5:42 casa. E alguma vez que eu subi, di aquilo que não queria ver, fiquei perturbado e voltei
5:49 para a rua, não voltando a subir. Como ficava o meu dia todo na rua, eu e a minha irmã
5:55 acabamos subindo muitas vezes para o café do Sr. Polito, sempre com a mesma desculpa.
6:00 Sr. Polito, dá-nos um pouco de água que está cheioso. E aí eu e o Sr. Polito abrimos
6:05 a torneira, dávamos o copo de água e nós íamos à água. Obviamente que duas crianças
6:12 na rua, todos os dias, sempre na mesma situação, noite e vento, essas coisas falavam-se no
6:19 café. E o pessoal do Narnia, muitas vezes, quando nós íamos lá, pediu o copo de água
6:25 e dizia assim, ó Sr. Polito, dá-lhe um bolical a esta menina. E dava um bolical à minha
6:30 irmã. E quando me ofereceu um bolical, eu dizia, não gosto de doces. Então o que é
6:34 que tu queres? É uma santa estorreja.
6:39 Mais uma história.
6:42 Professora Luísa do APL.
6:45 A professora Luísa do APL foi das professoras que mais me marcou enquanto eu andei na escola
6:50 primária. A professora Luísa era a pessoa que mais estava perto de mim e que mais compreendia
6:58 a minha situação. O que acontece é que quando a minha avó tinha problemas de depressão
7:04 e mandava-me para a casa da minha mãe, alguém queria-me ir buscar à escola e automaticamente
7:09 era retirada a autorização para que me desse buscar. O que acontece é que eu ia embora,
7:16 as professoras do APL iam embora e ficava com a continha. Devia continuar a lavar o
7:21 chão, a limpar as moedas e chegava esperta tarde, oito da noite, nove da noite, dez da
7:29 noite, a continha já não sabia o que é que havia de fazer comigo. E pronto, ia lá
7:34 a partir do meu padracho, todo quebrado, no fundo da rua, tando-lhe de buscar. Há um
7:40 dia que eu me enche de coragem e garanti-lhe que esse dia iria à escola, ou seja, não
7:48 ficasse para ninguém a macrorar isso aí de casa, sem que ninguém tivesse visto. Atravessei
7:53 o bairro Amarelo, que é o bairro especial onde eu me lembrava, cheguei à escola, estive
7:58 nas aulas de manhã, parti para a casa e um sinal livre, um paulista disse assim, Luísa,
8:02 por favor, leva-me a casa. E a Luísa, não, não, não te vou levar a casa porque não
8:08 tenho autorização, é uma responsabilidade, tu vais no meu carro, não dá, não dá.
8:13 Entubadamente ela respirou fundo e disse-me, eu levo-te à tua avó, mas se a tua avó
8:18 não te aceitar em tua casa, eu não te vou levar ao bairro e deixo-te lá. Obviamente
8:24 no fundo do meu coração eu sabia que a Luísa nunca iria me largar sozinha. Disse-me isso
8:30 e a minha avó deixou-me entrar em casa e as coisas correram bem.
8:36 Capo Ferreira, consegue imaginar o que é que é na cabeça de um miúdo de oito anos
8:44 em que a sua figura paterna está aclamada, significa que quer um pai que não conhece?
8:49 Para ouvir o super-homem? Sim ou não? Era igual aos de mim.
8:55 Então, na altura, aquilo que eu tinha ouvido, meu pai era que meu pai era GNR.
9:01 E havia uns senhores da GNR que iam lá à escola, da escola segura, que iam-lhes ensinar a atravessar
9:07 passadeiras e regras de trânsito e coisas do tipo. E eu que sabia que meu pai era GNR
9:13 que me veio a chatear o Capo Ferreira. E acreditem, eu era boé da chato.
9:19 E tanto o chateei, tanto o chateei, que meu Capo Ferreira acabou por ir a procura do meu pai
9:24 ao sítio da GNR onde ele trabalhava, que era aqui em Lisboa.
9:29 Depois de uma grande conversa com meu pai, meu pai prometeu que iria lá à escola visitar-me
9:33 no Dia Internacional da Criança. Capo Ferreira deu-lhe uma novidade.
9:39 Ia no Dia Internacional da Criança a chegar às escolas, vestia-se de uma camisa.
9:43 Na altura não tinha um blazer como este tão bonito, mas tinha um pólar.
9:47 E como não tinha gravata, agarrou-me um lenço de sol no lixo, metido no coelhinho
9:51 e fazia de conta que era gravata.
9:55 Isso por aí.
9:57 O meu pai que era para aparecer à hora do intervalo, não apareceu no intervalo da manhã.
10:01 Não apareceu na hora do almoço. Não apareceu no intervalo da tarde.
10:07 Eu desci do lenço, também já me estava a apertar aqui no coelhinho
10:11 e decidi que não era daquela vez que eu iria poder conhecer o meu pai.
10:17 Nesta história toda, os professores voltaram a perceber que eu queria muito que isso acontecesse,
10:23 chamaram a minha avó à escola e assim fiz a oportunidade de conhecer o meu pai.
10:29 Ui! Comunidade Escolar.
10:33 Já falei muitas vezes da escola e quero lhe dizer que a passagem da escola primária
10:39 para o ciclo preparatório teve os melhores resultados da minha vida,
10:43 porque foi na altura que o meu avô amputou a segunda perna, teve vários AVCs
10:47 e ficou ainda mais dependente do mundo da minha avó.
10:51 As responsabilidades em casa aumentaram e comecei mesmo a dar a medicação ao meu avô,
10:55 a agarrar o meu avô por trás para lhe dar a medicação,
10:59 a carregar o meu avô ao colo para o pôr na banheira para ele tomar banho.
11:03 E foi da minha avó que eu pedi a banheira, ou estou em casa à joelha com os colegas de casa,
11:09 ou então estou na rua e estou a ter um órgão para entrar em casa
11:13 nas horas das repetições, ou quando era para ajudar.
11:17 E eu conheci também muitos professores dos funcionários da escola preparatória,
11:21 e os meus colegas ao verem isso, diziam
11:26 Ah! Estes caras só querem notas boas, estão pontuando.
11:30 Mas não. Eu transformei a escola na minha casa.
11:34 E fui da escola a casa.
11:38 Muito por esse caminho que eu segui nessa altura na escola é que eu soube professores.
11:42 Nessa altura eu tive um professor,
11:46 Paulo Teia, que no final do 9º ano,
11:50 depois de me ter sido colocado numa questão difícil para decidir,
11:54 que era se sair da almada, se me dar um monte de café, o que é que Paulo me interessa estudar informática,
11:58 eu por isso simplesmente disse que não.
12:02 E ele veio-me ao seu pé de ajuda, novamente,
12:06 e levou-me para um campo de férias chamado Grã-de-Juros.
12:10 E nesse campo mudou a minha vida.
12:14 Estava-lhe a comunicar que não ia comer desta altura, mas estava-me a prepará-la.
12:18 E esse campo muda exatamente a minha vida.
12:22 Porquê? Porque eu conheço miúdos que não gostam só de rap e pop,
12:26 mas gostam de Beatles, ABBA, Queen,
12:30 e tem exatamente a mesma idade que eu.
12:34 E pronto. Estas são as suas histórias que eu vos queria contar.
12:38 E quero terminar esta minha intervenção
12:42 dizendo-vos o seguinte.
12:46 A história de vida, obviamente, que eu tive foi difícil
12:50 e efetivamente moldou aquilo que eu sou hoje.
12:54 E eu sei que é muito, muito, muito difícil pedir ajuda.
12:58 Mas, às vezes, a ajuda vem dos sítios onde nós menos podemos pensar.
13:04 Muitas vezes o pedir ajuda pode não ser verbalizado,
13:08 pode ser olhado, pode ser...
13:12 Onde é que vocês moram? Vocês, por acaso, conhecem a Dona Maria do restaurante?
13:16 Ou a Dona Carla,
13:20 que está a passar as coisas no continente de Bom Dia, como nós lá vamos?
13:24 Muitas vezes, a nossa presença, o nosso olhar,
13:28 o facto de lá irmos, pode ser que as pessoas entendam coisas
13:32 e possam, de alguma forma, ajudar-nos. Nem que seja com um sorriso.
13:36 Eu, quando todos os dias vou para o meu trabalho, olho para o retrovisor
13:40 e as pessoas estão irritadas e sorrio para elas.
13:44 Porque Jesus usa cada um de nós como sua ferramenta.
13:48 Também quis dizer-vos que...
13:52 Contar-vos mais uma história.
13:56 E, desculpem, estava sempre a contar-vos histórias.
14:00 Quando eu era miúdo, a minha avó criticava-me porque eu queria ir todos os domingos à missa.
14:04 E, ao domingo, apanhava o célular para a carga da checa de 25
14:08 e ia à praça.
14:12 E eu tinha que ir com o dono de lema, com provas de domingos, para a minha avó poder fazer a culpa.
14:16 E ia para a igreja.
14:20 Ficava na carnet, tentava ajudar
14:24 a engalhar pontos para podermos construir
14:28 e que a igreja ficasse com as obras feitas.
14:32 E, assim, saia da carnet e ia para a missa.
14:36 E eu estava com Jesus. E a palavra dos santos estava à minha volta.
14:40 E dizia-lhe, ajudem-me porque eu não sei mais o que é que hei de fazer.
14:44 Eu era miúdo.
14:48 E, tanto que era minha vida a Deus nosso Senhor, naquele momento, também mudou a minha vida.
14:52 Queriam-me lhe dermos uma palavra.
14:56 Um brinde. Dizem-lhe que eu estou e tu és.
15:00 Somos todos dependentes dos outros.
15:04 Somos todos dependentes dos outros para podermos crescer.
15:08 Para podermos crescer e para podermos mudar efetivamente a sociedade.
15:12 Portanto, olhem para isso.
15:16 Sejam ferramentas de Jesus.
15:20 E sorriam.
15:24 E estejam sempre disponíveis para quem estiver à vossa volta.
15:28 E, quando precisarem, não se esqueçam.
15:32 Por isso, tudo vai mudar.
15:36 Muito obrigado a todos por este tempo que tiveram ao vivo.
15:40 Tenho muito mais histórias, mas não vamos ter tempo para elas.
15:44 Portanto, aproveitem o dia e esperem.

Quando precisei de ajuda - Marino Gaspar

Descrição

Na palestra "Quando precisei de ajuda", Marino Gaspar partilha experiências de vida marcantes e desafiadoras que moldaram a sua identidade. Esta intervenção emocionante convida os jovens a refletirem sobre a importância de pedir e oferecer ajuda nas suas comunidades.

Resumo

Marino Gaspar começa por introduzir a sua história de vida, revelando um passado difícil marcado pela rigidez da educação dos seus avós e pelas consequências da dependência de drogas da sua mãe. A partir desse contexto, ele descreve como a sua infância foi influenciada por situações traumáticas, como o abandono pela mãe e a difícil recuperação do avô após uma amputação. Através dessa narrativa, Gaspar apresenta várias personagens que tiveram um impacto significativo na sua vida, como Dona Alba e a Professora Luísa, que o ajudaram a enfrentar esses desafios.

Ao longo da palestra, Marino relembra momentos cruciais onde, apesar da dor e das dificuldades, encontrou apoio onde menos esperava. Destaca a importância da comunidade e das pequenas interações, como um sorriso ou a ajuda de um estranho, que podem fazer uma grande diferença na vida de alguém. Ele sublinha o peso das responsabilidades que assumiu desde tenra idade, como cuidar do avô e lidar com a ausência da figura paterna, enquanto transformava a escola num segundo lar.

Para concluir, Marino enfatiza a vitalidade de pedir ajuda e de ser um suporte para os outros, evidenciando que todos nós somos interdependentes na construção de um futuro melhor. As suas histórias são um lembrete poderoso de que, mesmo nas situações mais difíceis, é possível encontrar luz e a força para continuar.

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