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Olá, bom dia a todos. Bom dia. Então, o meu nome é Marinho, como já foi dito, tenho 30 anos,
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fui informático e hoje venho cá contar-vos 5 histórias. Mas para poder contar estas histórias
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preciso vos contextualizar um bocadinho. E com isto vou contar um bocadinho do início
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das minhas histórias de vida. Eu nasci em 1991. Os meus avós, portanto, eram assessorianos,
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vieram para Portugal, para o Oriental, e, portanto, tiveram uma educação muito, muito
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rígida com os seus filhos, meu tio e com a minha mãe. E por causa dessa educação,
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que era muito, muito rígida, tanto a minha mãe como o meu tio acabaram por ir por caminhos
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pelos quais não deviam ter ido. Portanto, o meu tio e a minha mãe estão toxicocardiantes.
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E a minha mãe, depois de me ter tido, foi tirando novamente em casa os meus avós, tendo
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a missão de tomar conta de mim. A minha mãe não aguentou essa missão, saiu de casa
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e abandonou-me à porta do posto médico. As pessoas que estavam no centro de saúde
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encontraram-me, contactaram com a minha avó e a minha avó levou-me para casa. O meu avô
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não me queria aceitar, mas viram-me ver tão fofo, mas tão fofo, que ele não aguentou
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e acabou por me receber de braço para braço.
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Continuando com essa história, depois do meu avô e da minha avó me terem recebido
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em sua casa, era uma infância normalíssima, até que chegamos ao ano de 1998. Curiosamente,
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uma sexta-feira certa. Sobia imenso nesse dia. E o meu avô, devido a uma periga que
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tinha num dedo de um pé, teve que ir para o hospital. No hospital ficou até que teve
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que ser amputado a uma das suas pernas. A partir desse momento, ficou acamado e a partir
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desse dia, a minha vida mudou. E agora vou começar por vos falar de algumas pessoas.
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Dona Alba. Esta história é muito curiosa. Todos estes acontecimentos aconteceram quando
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eu tinha seis anos. E a minha rotina era ir para a escola, todos os dias, no autocarro
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das oito e vinte e cinco, mas num determinado dia, quando eu acordei às sete horas da manhã,
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eu vi que a minha avó não estava a conseguir mexer. Quase que se agachava para tentar tratar
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o meu avô. E veio pedir, por favor, que eu passasse no centro de saúde para tratar algumas
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receitas que eram precisas lá para casa, para podermos comprar os medicamentos do meu avô.
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E também pediu para tratar de uma carência de ambulância. E lá fui eu. Fiz a cama,
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barrei o chão, partei tudo em casa e, em vez de apanhar o autocarro das oito e vinte
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e cinco, saí no autocarro das oito e vinte e cinco. Cheguei ao centro de saúde, coloquei
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a minha fila para a sala das administrativas e lá esperei. A Dona Alba atendeu-me, entreguei
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a documentação do meu avô, pedi as receitas do meu avô, pedi a carência de ambulância
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no momento de ajudar a Dona Alba. Dona Alba, a minha avó não consegue mexer, não consegue
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tratar do meu avô. Eu não sei o que vai ser da minha avó e do meu avô. Eu quero
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o medicamento médico lá em casa. A Dona Alba aplica, pede os documentos da minha avó
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e eu digo que não tenho. Lá a Dona Alba, que pisou o nome da minha avó no sistema
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médico e lá conseguiu um controle. Eu fui contente para a escola, mas tento dizer a
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Dona Alba a segundo prazo. Dona Alba, não se esqueça, oito e seis são seis, muita
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responsabilidade. E o médico foi lá a casa, ajudou a minha avó, minha avó teve o tratamento
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e quando chegou a casa já a minha avó estava a pé. Claro que ela tinha apanhado um grandíssimo
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susto porque tinha entrado o médico na primeira casa adentro, mas pronto, acabou por não
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fazer mal. Depois estava mais uma pessoa, que conseguiu o fruto do café. Durante a
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doença do meu avô, a minha avó às vezes entrava em pressão. Nesses momentos em que
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entrava em pressão, dizia que eu não era filho dela e mandava-me para a casa da minha
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mãe. E eu ia, era um miúdo. E a rotina da casa da minha mãe era muito simples. Era
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se ter a procurar por volta das doze e meia da manhã e eu e a minha irmã éramos abrigados
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aí para a rua e conseguimos voltar a entrar em casa a partir das doze e meia da noite.
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Não havia almoço, não havia lanche, não havia jantar como havia em casa da minha avó
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e não havia jantar como havia na escola. E aí de momento me atravessei lá a semana
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e vou-lhe explicar o porquê. A minha mãe na altura estava dependente de uma droga chamada
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Lovina e para conseguir o dinheiro para comprar essa droga, acabava-se substituindo naquela
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casa. E alguma vez que eu subi, di aquilo que não queria ver, fiquei perturbado e voltei
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para a rua, não voltando a subir. Como ficava o meu dia todo na rua, eu e a minha irmã
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acabamos subindo muitas vezes para o café do Sr. Polito, sempre com a mesma desculpa.
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Sr. Polito, dá-nos um pouco de água que está cheioso. E aí eu e o Sr. Polito abrimos
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a torneira, dávamos o copo de água e nós íamos à água. Obviamente que duas crianças
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na rua, todos os dias, sempre na mesma situação, noite e vento, essas coisas falavam-se no
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café. E o pessoal do Narnia, muitas vezes, quando nós íamos lá, pediu o copo de água
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e dizia assim, ó Sr. Polito, dá-lhe um bolical a esta menina. E dava um bolical à minha
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irmã. E quando me ofereceu um bolical, eu dizia, não gosto de doces. Então o que é
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que tu queres? É uma santa estorreja.
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Mais uma história.
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Professora Luísa do APL.
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A professora Luísa do APL foi das professoras que mais me marcou enquanto eu andei na escola
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primária. A professora Luísa era a pessoa que mais estava perto de mim e que mais compreendia
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a minha situação. O que acontece é que quando a minha avó tinha problemas de depressão
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e mandava-me para a casa da minha mãe, alguém queria-me ir buscar à escola e automaticamente
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era retirada a autorização para que me desse buscar. O que acontece é que eu ia embora,
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as professoras do APL iam embora e ficava com a continha. Devia continuar a lavar o
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chão, a limpar as moedas e chegava esperta tarde, oito da noite, nove da noite, dez da
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noite, a continha já não sabia o que é que havia de fazer comigo. E pronto, ia lá
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a partir do meu padracho, todo quebrado, no fundo da rua, tando-lhe de buscar. Há um
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dia que eu me enche de coragem e garanti-lhe que esse dia iria à escola, ou seja, não
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ficasse para ninguém a macrorar isso aí de casa, sem que ninguém tivesse visto. Atravessei
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o bairro Amarelo, que é o bairro especial onde eu me lembrava, cheguei à escola, estive
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nas aulas de manhã, parti para a casa e um sinal livre, um paulista disse assim, Luísa,
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por favor, leva-me a casa. E a Luísa, não, não, não te vou levar a casa porque não
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tenho autorização, é uma responsabilidade, tu vais no meu carro, não dá, não dá.
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Entubadamente ela respirou fundo e disse-me, eu levo-te à tua avó, mas se a tua avó
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não te aceitar em tua casa, eu não te vou levar ao bairro e deixo-te lá. Obviamente
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no fundo do meu coração eu sabia que a Luísa nunca iria me largar sozinha. Disse-me isso
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e a minha avó deixou-me entrar em casa e as coisas correram bem.
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Capo Ferreira, consegue imaginar o que é que é na cabeça de um miúdo de oito anos
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em que a sua figura paterna está aclamada, significa que quer um pai que não conhece?
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Para ouvir o super-homem? Sim ou não? Era igual aos de mim.
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Então, na altura, aquilo que eu tinha ouvido, meu pai era que meu pai era GNR.
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E havia uns senhores da GNR que iam lá à escola, da escola segura, que iam-lhes ensinar a atravessar
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passadeiras e regras de trânsito e coisas do tipo. E eu que sabia que meu pai era GNR
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que me veio a chatear o Capo Ferreira. E acreditem, eu era boé da chato.
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E tanto o chateei, tanto o chateei, que meu Capo Ferreira acabou por ir a procura do meu pai
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ao sítio da GNR onde ele trabalhava, que era aqui em Lisboa.
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Depois de uma grande conversa com meu pai, meu pai prometeu que iria lá à escola visitar-me
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no Dia Internacional da Criança. Capo Ferreira deu-lhe uma novidade.
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Ia no Dia Internacional da Criança a chegar às escolas, vestia-se de uma camisa.
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Na altura não tinha um blazer como este tão bonito, mas tinha um pólar.
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E como não tinha gravata, agarrou-me um lenço de sol no lixo, metido no coelhinho
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e fazia de conta que era gravata.
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Isso por aí.
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O meu pai que era para aparecer à hora do intervalo, não apareceu no intervalo da manhã.
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Não apareceu na hora do almoço. Não apareceu no intervalo da tarde.
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Eu desci do lenço, também já me estava a apertar aqui no coelhinho
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e decidi que não era daquela vez que eu iria poder conhecer o meu pai.
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Nesta história toda, os professores voltaram a perceber que eu queria muito que isso acontecesse,
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chamaram a minha avó à escola e assim fiz a oportunidade de conhecer o meu pai.
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Ui! Comunidade Escolar.
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Já falei muitas vezes da escola e quero lhe dizer que a passagem da escola primária
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para o ciclo preparatório teve os melhores resultados da minha vida,
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porque foi na altura que o meu avô amputou a segunda perna, teve vários AVCs
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e ficou ainda mais dependente do mundo da minha avó.
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As responsabilidades em casa aumentaram e comecei mesmo a dar a medicação ao meu avô,
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a agarrar o meu avô por trás para lhe dar a medicação,
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a carregar o meu avô ao colo para o pôr na banheira para ele tomar banho.
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E foi da minha avó que eu pedi a banheira, ou estou em casa à joelha com os colegas de casa,
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ou então estou na rua e estou a ter um órgão para entrar em casa
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nas horas das repetições, ou quando era para ajudar.
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E eu conheci também muitos professores dos funcionários da escola preparatória,
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e os meus colegas ao verem isso, diziam
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Ah! Estes caras só querem notas boas, estão pontuando.
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Mas não. Eu transformei a escola na minha casa.
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E fui da escola a casa.
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Muito por esse caminho que eu segui nessa altura na escola é que eu soube professores.
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Nessa altura eu tive um professor,
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Paulo Teia, que no final do 9º ano,
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depois de me ter sido colocado numa questão difícil para decidir,
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que era se sair da almada, se me dar um monte de café, o que é que Paulo me interessa estudar informática,
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eu por isso simplesmente disse que não.
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E ele veio-me ao seu pé de ajuda, novamente,
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e levou-me para um campo de férias chamado Grã-de-Juros.
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E nesse campo mudou a minha vida.
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Estava-lhe a comunicar que não ia comer desta altura, mas estava-me a prepará-la.
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E esse campo muda exatamente a minha vida.
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Porquê? Porque eu conheço miúdos que não gostam só de rap e pop,
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mas gostam de Beatles, ABBA, Queen,
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e tem exatamente a mesma idade que eu.
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E pronto. Estas são as suas histórias que eu vos queria contar.
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E quero terminar esta minha intervenção
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dizendo-vos o seguinte.
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A história de vida, obviamente, que eu tive foi difícil
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e efetivamente moldou aquilo que eu sou hoje.
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E eu sei que é muito, muito, muito difícil pedir ajuda.
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Mas, às vezes, a ajuda vem dos sítios onde nós menos podemos pensar.
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Muitas vezes o pedir ajuda pode não ser verbalizado,
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pode ser olhado, pode ser...
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Onde é que vocês moram? Vocês, por acaso, conhecem a Dona Maria do restaurante?
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Ou a Dona Carla,
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que está a passar as coisas no continente de Bom Dia, como nós lá vamos?
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Muitas vezes, a nossa presença, o nosso olhar,
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o facto de lá irmos, pode ser que as pessoas entendam coisas
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e possam, de alguma forma, ajudar-nos. Nem que seja com um sorriso.
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Eu, quando todos os dias vou para o meu trabalho, olho para o retrovisor
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e as pessoas estão irritadas e sorrio para elas.
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Porque Jesus usa cada um de nós como sua ferramenta.
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Também quis dizer-vos que...
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Contar-vos mais uma história.
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E, desculpem, estava sempre a contar-vos histórias.
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Quando eu era miúdo, a minha avó criticava-me porque eu queria ir todos os domingos à missa.
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E, ao domingo, apanhava o célular para a carga da checa de 25
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e ia à praça.
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E eu tinha que ir com o dono de lema, com provas de domingos, para a minha avó poder fazer a culpa.
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E ia para a igreja.
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Ficava na carnet, tentava ajudar
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a engalhar pontos para podermos construir
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e que a igreja ficasse com as obras feitas.
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E, assim, saia da carnet e ia para a missa.
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E eu estava com Jesus. E a palavra dos santos estava à minha volta.
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E dizia-lhe, ajudem-me porque eu não sei mais o que é que hei de fazer.
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Eu era miúdo.
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E, tanto que era minha vida a Deus nosso Senhor, naquele momento, também mudou a minha vida.
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Queriam-me lhe dermos uma palavra.
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Um brinde. Dizem-lhe que eu estou e tu és.
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Somos todos dependentes dos outros.
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Somos todos dependentes dos outros para podermos crescer.
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Para podermos crescer e para podermos mudar efetivamente a sociedade.
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Portanto, olhem para isso.
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Sejam ferramentas de Jesus.
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E sorriam.
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E estejam sempre disponíveis para quem estiver à vossa volta.
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E, quando precisarem, não se esqueçam.
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Por isso, tudo vai mudar.
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Muito obrigado a todos por este tempo que tiveram ao vivo.
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Tenho muito mais histórias, mas não vamos ter tempo para elas.
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Portanto, aproveitem o dia e esperem.