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Olá, muito bom dia.
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Saúdo as pessoas que vieram de manhã, são as mais especiais, as que começam à tarde
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são um bocado.
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Xungas.
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Deixe-me agradecer-vos, mas é um agradecimento com alguma mágoa, porque eu, desde que
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cheguei, estou a ser tratado como uma rockstar, e hoje não venho cantar, o que faz considerar
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que se calhar a gratidão que eu tenho em torno do dia em que não vou cantar, me deve fazer
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reconsiderar a minha profissão e a minha educação.
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Deixem-me também dizer-vos que este tema, ou este conjunto de temas da música, silêncio
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e espiritualidade, eles são tão comuns e estão tão pouco sistematizados no meu entender,
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que eu não queria chegar aqui e trazer-vos uma apresentação sistematizada, ou seja,
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estou a justificar a minha preguiça, não tenho preparado nada, não vai haver power
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point, eu estou a falar um pouco de improviso, mas acreditem-me que isto de falar de coração,
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sobre temas que me fazem parte do coração, às vezes mais do que o intelecto, é uma
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maneira também de vos honrar e de vos trazer, aquilo que é a minha essência e aquilo que
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são os meus parceiros, para caramba, o Matai, o fogo, o Matai, conheço o Matai há muito
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tempo e eu sei que o Matai tem um mel quando está a cantar, mas ele também tem um mel
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quando está a falar, isto como muito, eu espero não ser muito áspero.
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E a Teresa, a Teresa falou com a autoridade férrea, de alguém que tem uma voz maviose
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e uma dicção perfeita, e eu estou aqui muito conflito, num conflito grande, porque eu acho
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que algumas coisas vai parecer que eu estou a contradizer o que ela trouxe, mas ainda
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bem que ela o trouxe, para que vocês entendam que o que eu venho trazer não é contradição,
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é complementaridade.
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E apesar de eu estar a dizer que vou falar do coração, eu trouxe este iPad gigante,
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que é para jamais peço idadeiraço, porque eu em palco estou habituado a ter uma guitarra
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a tapar-me, e quando não tenho a guitarra normalmente faço desfar-se, perfeita, uma nova
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diversão perfeita, que é mexer de forma, como é que eu lhe hei de chamar, mas é mexer
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as ancas às vezes de uma forma um bocada descabida.
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Se eu já o faço em contexto musical de forma descabida, acredita que eu aqui não vou estar
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a mexer as ancas, porque seria ainda mais descabida, então trouxe isto aqui como o
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tapa vergonha, mas não é só isso também, porque eu ontem soube que só tenho, agora
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tenho 12 minutos e 36 segundos, mas disseram que eu só ia ter 10 minutos para falar e
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eu tenho assim uma verbo-reia às vezes um bocadinho incontrolada, não há imódio
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para esta verbo-reia.
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E então, enquanto eu estava a vir para cá no Uber, trouxe o IPA, que é mais fácil
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escrever no IPA do que no telemóvel, e trouxe até para poder sistematizar, lá está o que
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eu disse que não ia fazer, que é sistematizar, mas só para trazer alguns tópicos que vão
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constranger a minha participação aqui, sobretudo em termos de tempo, algumas coisas que eu
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queria falar, queria abordar.
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O convite que me foi feito para falar sobre música, silêncio, espiritualidade, eu aceitei
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de caras, sobretudo porque música e espiritualidade fazem parte daquilo, de uma forma muito
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pouco romântica, posso dizer que fazem parte daquilo que é a minha profissão, a minha
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profissão é a música, e a música que eu faço está também muito ligada à espiritualidade,
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eu não quero que entendam eu falar da profissão como qualquer tipo de frieza, não tem nada
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que ver com isso.
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Mas foi o silêncio que de alguma forma me fez querer aceitar o reto, porque o silêncio
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é um fenómeno, uma característica, ou ao contrário disso, sobre o qual eu não me dito
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porque eu fui frujado no silêncio, o silêncio era metão natural, porque eu sou de Tondela,
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como foi apresentado, Tondela é uma espécie de arouca, um bocadinho mais para o interior,
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mas eu cresci com o silêncio como uma constante, cresci com o silêncio, com a natureza, com
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os espaços verdes, com aquela coisa que para quem cresce na cidade é considerada como
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o locos a menos, para mim era a água para o peixe, os peixes pensam na água quando
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estão fora dela e sentem necessidade dela, e foi assim que eu cresci, eu fui frujado
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no silêncio.
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Então muitas vezes quando me perguntam qual é a minha primeira instância musical, qual
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é a minha origem musical, e para as pessoas que conhecem minha faceta baladeira, e está
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às vezes é uma surpresa, mas eu anuncio como alguém que vem do barulho, as minhas
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primeiras experiências musicais, as minhas primeiras experiências de palco estão intimamente
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ligadas ao barulho, eu cresci a ter bandas tão selvagens que não sair alesionado
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um concerto, era como perder uma medalha que já tinha sido conquistada, era mesmo estar
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a ser despromovida, estar a perder as insignias, eu cresci em bandas barulhentas que cresci
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sobretudo e com as bandas punk e punk rock, e quando vocês pensam no fenómeno de punk
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sobretudo ali nos anos 70 em Inglaterra, se perguntassem, ou se quisessem fazer um bocado
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de sociologia musical sobre o porquê das bandas punk, normalmente os rapazes suburbanos
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cidadinos faziam essas bandas, faziam-no como forma de protesto, contra a sociedade,
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contra a Margaret Thatcher, contra o pai na fábrica que era mal pago e não tinha
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direito ao sindicato etc, uma espécie de rebeldia, eu nos anos 90 quando comecei a
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ter bandas não tinha nada como revelar, tinha comida na mesa, tinha amigos, tinha as montanhas
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e tinha silêncio, mas tinha uma necessidade enorme de barulho porque para quem cresce
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no silêncio, para quem cresce com a normalidade do silêncio, o barulho é o significado de
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progresso, isto antes da internet, o barulho era um bocado para aqueles rapazes da província
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e eu sou um rapaz provinciano, o barulho era o nosso veículo, era a forma de viajarmos
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nem que fosse com as nossas ambições, com as nossas esperanças, com as nossas fantasias,
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mas fazer barulho era sair daquilo que se afigurava como a normalidade, a mesmice,
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que era o silêncio, que era a contemplação, nós não contemplávamos, a beleza estava
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tão constante à nossa frente para quem contemplar, o barulho era andar para a frente, o barulho
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era o progresso, eu lembro quando era miúdo, quando era pequeno e vinha a passar férias
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à Lisboa, lá estão os províncianos que acham que Lisboa é um destino de férias, o que
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de algum lado, hoje já me chamaram profeta e nesse sentido que eu acho que são profetas
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que estava a frente do meu tempo, hoje em dia a passar férias em Lisboa é o sonho qualquer
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pessoa na Europa, pelos vistos, ou no mundo, mas eu lembro quando era miúdo e vinha a
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passar férias à Lisboa, passava uma temporada em Lisboa, uma das coisas que mais me fascinava
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e encantava e encantava é uma palavra que eu estou a dizer com toda a propriedade, era
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o ruído, eu adorava estar no hotel à noite e de madrugada ouvir carros a passar, sem parar,
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era a banda sonora do meu embalo, eu adormecia feliz por estar a ouvir pessoas a pregujar
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na rua, gente aos berros, a horas imprópias, pessoas que não se coliviam de buzinar e
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o constante passar dos carros, sabe aquela coisa dos bebés que às vezes para adormecer
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em precisão do ruído branco, dos secadores ou dos aspiradores, eu tinha essa sensação
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quando vinha para a cidade e sentia no barulho, lá está a realização, um embalo e acho
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que é uma coisa curiosa, porque quando somos forjados numa determinada natureza, às vezes
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ficamos encantados nas falsas virtudes daquilo que contraria a nossa natureza, ninguém no
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seu juízo perfeito acha que o ruído é uma coisa virtuosa, que o barulho é uma coisa
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virtuosa, mas como contrariava a minha natureza, como contrariava a minha normalidade, como
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contrariava ao meu cotidiano, eu ficava deleitado na falsa virtude dessa contrariedade.
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Desculpe, peço desculpa que agora estou a ouvir aqui, estava a tentar ver qual era o ponto
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seguinte e acabei por abrir uma lista de supermercado do que tenho para comprar em casa.
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Entretanto, eu já estou há um terço da minha vida aqui em Lisboa e tendo em conta que eu
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tenho uma variedade relativamente avançada, um terço não é assim tão pouco, e foi preciso estar
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aqui muito tempo em Lisboa, não foi preciso assim tanto tempo, foi só o tempo de chegar e perceber
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que o tempo aqui é mais curto, que a necessidade do sossego é mais peremente para de repente quase
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que ganhar uma nova natureza e começar a perceber as virtudes forçosas da paz, do sossego, de poder
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exercer a minha profissão na sua planetude, só se conseguir de alguma forma mentalizar-me,
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que não estou no sítio em que estou, de começar a simular a paz que eu tinha no meu cotidiano habitual,
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de olhar para os prédios e imaginar que estou ali a ver a Serra do Caramul, estou a ver o verde,
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estou a ver essas coisas, foi preciso readquirir uma nova expressão, um novo entendimento,
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um novo delight e não contrariar aquilo que tinha sido a minha natureza. E se calhar também eu,
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como muitas pessoas cresceram e se forjaram ou redescobriram esta necessidade de paz, e é aqui que eu
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espero que entendam que eu não estou a contrariar a preletora anterior de todo, mas muitas vezes eu
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dei por mim a cair numa espécie de exagero, que é a sobrevalorização do silêncio. O silêncio é
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ótimo, o silêncio é aproveitoso, para qualquer atividade o silêncio é bom para o descanso,
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o silêncio é bom para a saúde mental, com as repercussões para a saúde física, mas eu acho
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que todas as pessoas que entraram aqui hoje o sabem de qual é salteado, é uma verdade absoluta,
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é um aforismo, mas o silêncio pode ser sobrevalorizado e a experiência com o silêncio pode ser
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sobrevalorizada, porque enquanto que há uma boa interioridade que nos faz estar saudáveis,
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que nos faz estar alerta, que nos predispõe a sermos mais interactivos com aquilo que nos
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bodeia, há também um refúgio no silêncio e uma busca de interioridade que redunda só em nós próprios.
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E muitas vezes a excesso de preocupação com o silêncio, com o assosco ou nojco,
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pode também favorecer um estado, e é um estado que eu também acho que todos reconhecem,
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mas é um estado em que nós idealizamos a autossuficiência. E deixe-me dizer-me uma coisa,
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para aquilo que eu faço, para a minha música e para a minha espiritualidade, a autossuficiência é
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de longe o pior dos inimigos, ou o melhor, porque é o mais forte, é o inimigo mais forte.
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A autossuficiência, o rejeitar das dependências, o rejeitar a danoção de que confiarmos,
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delegarmos, vai favorecer aquilo que nós somos e aquilo que nós fazemos. É o maior inimigo para
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a minha música, em que a parceria e o outro têm que estar tanto na concessão como na
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excursão e sobretudo no objetivo, eu fazer músicas para mim próprio. Estaria condenado
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a um incesso, um incesso maior que continha aquelas manas em que me lesionava, é que ninguém
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ouviu falar, felizmente, graças a Deus, e há poucos registros disso. Há maselas físicas ainda,
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mas há poucos registros. E na minha espiritualidade, eu estar concentrado nas minhas características,
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eu estar obcecado a identificar aquilo que são as minhas forças para as cultivar e para
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me cultivar a mim próprio com o objetivo único de crescer em torno de mim e desta
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bolha, deste homem de Vitruvi, em que eu passo a ser a medida de todas as coisas, essa autossuficiência
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é o grande inimigo. E é preciso ter cuidado com os silêncios que nos conduzem, essas
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reflexões que redu não só nas nossas próprias características. E há uma espécie de ideia,
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e agora vou ser novo rapaz do campo apontar o dedo à cidade, mas há uma espécie de
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ideia de espiritualidade cosmopolita, que é muito baseada até em retiros, onde o silêncio
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está presente, mas não é um silêncio que nos faz crescer para além de nós, é um silêncio
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que nos faz implodir, vamos ver quando implodem os prédios, eles parece que cedem, parece
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que não, cedem literalmente para dentro de si próprios. Há esse tipo de espiritualidade
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que é procurado por pessoas, que lá está, cidadinas, que não cresceram no silêncio,
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aquilo desparece a melhor coisa do mundo, falo como para mim o ruído parecia, e ficam
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presas nos deleitos falsos, de uma virtude falsa, de uma coisa que simplesmente pode
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não ser a nossa natureza, nos parece de leitose, nos parece virtuosa. E muitas vezes
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o que acontece é que nós nos queremos encontrar, queremos aprofundar aquilo que nós somos,
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queremos encontrar o nosso Deus interior, queremos ser a medida de todas as coisas, porque
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isso é um bocado a noção que é vendida de espiritualidade e de sanidade. E vamos
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para o campo e dançamos ao som de músicas silenciosas e mexemos como queremos e perdemos
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as vergonhas e tiramos a roupa e somos instados a livrarmos de tudo aquilo que não é essencial,
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tudo bem, mas para a minha música também, mas para a minha espiritualidade, livrar-me
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daquilo que não é essencial é outro inimigo, porque para a minha espiritualidade o que
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é necessário é livrar naquilo que é essencial, é livrar naquilo que é a minha natureza,
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é livrar naquilo que é o de leite que parece ideal numa natureza que me é estranha. Para
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a minha espiritualidade o despirme não é só daquilo que me rodeia e daquilo que me
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foi acrescentado, é mesmo o despirme da minha natureza, é contrariar o ego, é contrariar-me
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como a medida de todas as coisas, é contrariar-me como o orgulhosamente só, que era um ideal
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que de alguma forma parece que cuja sua contrariade foi conquistada, mas de repente se tornou
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como um mantra da individualidade, como se tornou-se um falso mantra daquela interioridade
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que não foi a que a Teresa falou, tornou-se um mantra daquilo que é espiritualidade
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moderna, espiritualidade cita-dina, espiritualidade cosmopolita. Outra coisa que eu venho também
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falar do silêncio, e eu tenho estado um bocado a cascar nos silêncios e agora vou falar
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no silêncio que é embaraçoso, mas este eu vou falar dele, já estou em tempo negativo,
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vou tentar ser muito rápido, mas vou tentar falar deste silêncio embaraçoso como algo
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que é virtuoso, e é curioso eu estar aqui a passar o tempo numa preleção sobre o silêncio,
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estar a falar demais, mas deixe-me só falar-vos muito rapidamente, eu não estive a olhar
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para isto e vou marimar, é só para tapar as vergonhas. Este silêncio embaraçoso que
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eu vou laudar, que eu vou celebrar, é um silêncio que me envergonha, porque boa parte
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da minha produção musical, boa parte da minha sinceridade nas canções e que muitas
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vezes faço as pessoas quando estou a ser entrevistado, quando estou em conversas e
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que tal de uma forma, eu com orgulho respondo quando pergunto se eu sou um cantor de intervenção,
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porque de facto as minhas músicas parecem interventivas, eu digo com orgulho e de
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peito cheio que sim, e de facto sou, mas eu sou um cantor de intervenção com a maior
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das vergonhas, com a maior dos embarados, porque muitas vezes eu canalizo para a música,
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canalizo para essa falta de timidez, porque a minha profissão me obriga a essa falta
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de timidez, a estar em palcos, a ter movimentos de anca que não são necessários, mas eu
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canalizo para a minha profissão, para a minha expressão que é pública, aquilo que muitas
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vezes eu deixei em silêncio na minha expressão privada. Eu não ter dito alguma coisa no
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momento certo, eu não ter intervenido no momento certo, eu por vergonha, por precaução,
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por preguiça não ter dito alguma coisa, desagua tudo em vergonha na altura em que
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eu tenho que escrever, e essa sinceridade é arrancada a ferros, e eu não me orgulho
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de estar a admiti-lo, mas felizmente tenho tido suporte de pessoas para quem essas manifestações
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de vergonha, essas manifestações de embaraço, muitas vezes desfarçadas com linguagem poética,
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que aqui torna um bocado labiríntico, felizmente tenho pessoas, e hoje já tive muitas generosidades
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de pessoas que me felicitaram, mas tenho pessoas que se dão ao trabalho de querer entender-me,
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e em vez de eu estar a pregar nas minhas músicas, em vez de estar a dar sermões nas minhas
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músicas, eu estou só a esperar que as pessoas que entendam a mensagem, e me venham resgatar.
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Se é o vosso caso, pessoas que estão aqui que já ouviram as minhas canções, e que
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fizeram o trabalho de querer entender-las, e quiseram entrar no passatempo, entraram
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no labirinto, e no fim chegaram a uma conclusão, eu vou acabar por vos dizer, envergonhado
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pelo meu silêncio, mas muito obrigado por que me resgataram. Obrigado a todos, por ver.