3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Olá, muito bom dia.
0:10 Saúdo as pessoas que vieram de manhã, são as mais especiais, as que começam à tarde
0:14 são um bocado.
0:15 Xungas.
0:16 Deixe-me agradecer-vos, mas é um agradecimento com alguma mágoa, porque eu, desde que
0:21 cheguei, estou a ser tratado como uma rockstar, e hoje não venho cantar, o que faz considerar
0:27 que se calhar a gratidão que eu tenho em torno do dia em que não vou cantar, me deve fazer
0:31 reconsiderar a minha profissão e a minha educação.
0:36 Deixem-me também dizer-vos que este tema, ou este conjunto de temas da música, silêncio
0:40 e espiritualidade, eles são tão comuns e estão tão pouco sistematizados no meu entender,
0:49 que eu não queria chegar aqui e trazer-vos uma apresentação sistematizada, ou seja,
0:54 estou a justificar a minha preguiça, não tenho preparado nada, não vai haver power
0:58 point, eu estou a falar um pouco de improviso, mas acreditem-me que isto de falar de coração,
1:02 sobre temas que me fazem parte do coração, às vezes mais do que o intelecto, é uma
1:06 maneira também de vos honrar e de vos trazer, aquilo que é a minha essência e aquilo que
1:10 são os meus parceiros, para caramba, o Matai, o fogo, o Matai, conheço o Matai há muito
1:18 tempo e eu sei que o Matai tem um mel quando está a cantar, mas ele também tem um mel
1:22 quando está a falar, isto como muito, eu espero não ser muito áspero.
1:26 E a Teresa, a Teresa falou com a autoridade férrea, de alguém que tem uma voz maviose
1:33 e uma dicção perfeita, e eu estou aqui muito conflito, num conflito grande, porque eu acho
1:38 que algumas coisas vai parecer que eu estou a contradizer o que ela trouxe, mas ainda
1:43 bem que ela o trouxe, para que vocês entendam que o que eu venho trazer não é contradição,
1:47 é complementaridade.
1:49 E apesar de eu estar a dizer que vou falar do coração, eu trouxe este iPad gigante,
1:55 que é para jamais peço idadeiraço, porque eu em palco estou habituado a ter uma guitarra
1:59 a tapar-me, e quando não tenho a guitarra normalmente faço desfar-se, perfeita, uma nova
2:07 diversão perfeita, que é mexer de forma, como é que eu lhe hei de chamar, mas é mexer
2:14 as ancas às vezes de uma forma um bocada descabida.
2:15 Se eu já o faço em contexto musical de forma descabida, acredita que eu aqui não vou estar
2:21 a mexer as ancas, porque seria ainda mais descabida, então trouxe isto aqui como o
2:26 tapa vergonha, mas não é só isso também, porque eu ontem soube que só tenho, agora
2:30 tenho 12 minutos e 36 segundos, mas disseram que eu só ia ter 10 minutos para falar e
2:35 eu tenho assim uma verbo-reia às vezes um bocadinho incontrolada, não há imódio
2:40 para esta verbo-reia.
2:42 E então, enquanto eu estava a vir para cá no Uber, trouxe o IPA, que é mais fácil
2:45 escrever no IPA do que no telemóvel, e trouxe até para poder sistematizar, lá está o que
2:50 eu disse que não ia fazer, que é sistematizar, mas só para trazer alguns tópicos que vão
2:55 constranger a minha participação aqui, sobretudo em termos de tempo, algumas coisas que eu
3:00 queria falar, queria abordar.
3:01 O convite que me foi feito para falar sobre música, silêncio, espiritualidade, eu aceitei
3:10 de caras, sobretudo porque música e espiritualidade fazem parte daquilo, de uma forma muito
3:16 pouco romântica, posso dizer que fazem parte daquilo que é a minha profissão, a minha
3:20 profissão é a música, e a música que eu faço está também muito ligada à espiritualidade,
3:25 eu não quero que entendam eu falar da profissão como qualquer tipo de frieza, não tem nada
3:29 que ver com isso.
3:30 Mas foi o silêncio que de alguma forma me fez querer aceitar o reto, porque o silêncio
3:37 é um fenómeno, uma característica, ou ao contrário disso, sobre o qual eu não me dito
3:44 porque eu fui frujado no silêncio, o silêncio era metão natural, porque eu sou de Tondela,
3:52 como foi apresentado, Tondela é uma espécie de arouca, um bocadinho mais para o interior,
4:00 mas eu cresci com o silêncio como uma constante, cresci com o silêncio, com a natureza, com
4:07 os espaços verdes, com aquela coisa que para quem cresce na cidade é considerada como
4:14 o locos a menos, para mim era a água para o peixe, os peixes pensam na água quando
4:21 estão fora dela e sentem necessidade dela, e foi assim que eu cresci, eu fui frujado
4:24 no silêncio.
4:25 Então muitas vezes quando me perguntam qual é a minha primeira instância musical, qual
4:32 é a minha origem musical, e para as pessoas que conhecem minha faceta baladeira, e está
4:37 às vezes é uma surpresa, mas eu anuncio como alguém que vem do barulho, as minhas
4:43 primeiras experiências musicais, as minhas primeiras experiências de palco estão intimamente
4:47 ligadas ao barulho, eu cresci a ter bandas tão selvagens que não sair alesionado
4:55 um concerto, era como perder uma medalha que já tinha sido conquistada, era mesmo estar
5:01 a ser despromovida, estar a perder as insignias, eu cresci em bandas barulhentas que cresci
5:06 sobretudo e com as bandas punk e punk rock, e quando vocês pensam no fenómeno de punk
5:14 sobretudo ali nos anos 70 em Inglaterra, se perguntassem, ou se quisessem fazer um bocado
5:18 de sociologia musical sobre o porquê das bandas punk, normalmente os rapazes suburbanos
5:25 cidadinos faziam essas bandas, faziam-no como forma de protesto, contra a sociedade,
5:32 contra a Margaret Thatcher, contra o pai na fábrica que era mal pago e não tinha
5:37 direito ao sindicato etc, uma espécie de rebeldia, eu nos anos 90 quando comecei a
5:43 ter bandas não tinha nada como revelar, tinha comida na mesa, tinha amigos, tinha as montanhas
5:52 e tinha silêncio, mas tinha uma necessidade enorme de barulho porque para quem cresce
5:58 no silêncio, para quem cresce com a normalidade do silêncio, o barulho é o significado de
6:04 progresso, isto antes da internet, o barulho era um bocado para aqueles rapazes da província
6:10 e eu sou um rapaz provinciano, o barulho era o nosso veículo, era a forma de viajarmos
6:16 nem que fosse com as nossas ambições, com as nossas esperanças, com as nossas fantasias,
6:20 mas fazer barulho era sair daquilo que se afigurava como a normalidade, a mesmice,
6:27 que era o silêncio, que era a contemplação, nós não contemplávamos, a beleza estava
6:33 tão constante à nossa frente para quem contemplar, o barulho era andar para a frente, o barulho
6:38 era o progresso, eu lembro quando era miúdo, quando era pequeno e vinha a passar férias
6:42 à Lisboa, lá estão os províncianos que acham que Lisboa é um destino de férias, o que
6:47 de algum lado, hoje já me chamaram profeta e nesse sentido que eu acho que são profetas
6:51 que estava a frente do meu tempo, hoje em dia a passar férias em Lisboa é o sonho qualquer
6:55 pessoa na Europa, pelos vistos, ou no mundo, mas eu lembro quando era miúdo e vinha a
7:00 passar férias à Lisboa, passava uma temporada em Lisboa, uma das coisas que mais me fascinava
7:04 e encantava e encantava é uma palavra que eu estou a dizer com toda a propriedade, era
7:10 o ruído, eu adorava estar no hotel à noite e de madrugada ouvir carros a passar, sem parar,
7:19 era a banda sonora do meu embalo, eu adormecia feliz por estar a ouvir pessoas a pregujar
7:23 na rua, gente aos berros, a horas imprópias, pessoas que não se coliviam de buzinar e
7:29 o constante passar dos carros, sabe aquela coisa dos bebés que às vezes para adormecer
7:33 em precisão do ruído branco, dos secadores ou dos aspiradores, eu tinha essa sensação
7:39 quando vinha para a cidade e sentia no barulho, lá está a realização, um embalo e acho
7:49 que é uma coisa curiosa, porque quando somos forjados numa determinada natureza, às vezes
7:56 ficamos encantados nas falsas virtudes daquilo que contraria a nossa natureza, ninguém no
8:04 seu juízo perfeito acha que o ruído é uma coisa virtuosa, que o barulho é uma coisa
8:08 virtuosa, mas como contrariava a minha natureza, como contrariava a minha normalidade, como
8:14 contrariava ao meu cotidiano, eu ficava deleitado na falsa virtude dessa contrariedade.
8:23 Desculpe, peço desculpa que agora estou a ouvir aqui, estava a tentar ver qual era o ponto
8:27 seguinte e acabei por abrir uma lista de supermercado do que tenho para comprar em casa.
8:37 Entretanto, eu já estou há um terço da minha vida aqui em Lisboa e tendo em conta que eu
8:44 tenho uma variedade relativamente avançada, um terço não é assim tão pouco, e foi preciso estar
8:49 aqui muito tempo em Lisboa, não foi preciso assim tanto tempo, foi só o tempo de chegar e perceber
8:53 que o tempo aqui é mais curto, que a necessidade do sossego é mais peremente para de repente quase
9:02 que ganhar uma nova natureza e começar a perceber as virtudes forçosas da paz, do sossego, de poder
9:11 exercer a minha profissão na sua planetude, só se conseguir de alguma forma mentalizar-me,
9:18 que não estou no sítio em que estou, de começar a simular a paz que eu tinha no meu cotidiano habitual,
9:24 de olhar para os prédios e imaginar que estou ali a ver a Serra do Caramul, estou a ver o verde,
9:29 estou a ver essas coisas, foi preciso readquirir uma nova expressão, um novo entendimento,
9:38 um novo delight e não contrariar aquilo que tinha sido a minha natureza. E se calhar também eu,
9:46 como muitas pessoas cresceram e se forjaram ou redescobriram esta necessidade de paz, e é aqui que eu
9:55 espero que entendam que eu não estou a contrariar a preletora anterior de todo, mas muitas vezes eu
10:03 dei por mim a cair numa espécie de exagero, que é a sobrevalorização do silêncio. O silêncio é
10:16 ótimo, o silêncio é aproveitoso, para qualquer atividade o silêncio é bom para o descanso,
10:22 o silêncio é bom para a saúde mental, com as repercussões para a saúde física, mas eu acho
10:27 que todas as pessoas que entraram aqui hoje o sabem de qual é salteado, é uma verdade absoluta,
10:33 é um aforismo, mas o silêncio pode ser sobrevalorizado e a experiência com o silêncio pode ser
10:43 sobrevalorizada, porque enquanto que há uma boa interioridade que nos faz estar saudáveis,
10:51 que nos faz estar alerta, que nos predispõe a sermos mais interactivos com aquilo que nos
10:59 bodeia, há também um refúgio no silêncio e uma busca de interioridade que redunda só em nós próprios.
11:08 E muitas vezes a excesso de preocupação com o silêncio, com o assosco ou nojco,
11:15 pode também favorecer um estado, e é um estado que eu também acho que todos reconhecem,
11:20 mas é um estado em que nós idealizamos a autossuficiência. E deixe-me dizer-me uma coisa,
11:27 para aquilo que eu faço, para a minha música e para a minha espiritualidade, a autossuficiência é
11:34 de longe o pior dos inimigos, ou o melhor, porque é o mais forte, é o inimigo mais forte.
11:42 A autossuficiência, o rejeitar das dependências, o rejeitar a danoção de que confiarmos,
11:52 delegarmos, vai favorecer aquilo que nós somos e aquilo que nós fazemos. É o maior inimigo para
12:00 a minha música, em que a parceria e o outro têm que estar tanto na concessão como na
12:06 excursão e sobretudo no objetivo, eu fazer músicas para mim próprio. Estaria condenado
12:13 a um incesso, um incesso maior que continha aquelas manas em que me lesionava, é que ninguém
12:17 ouviu falar, felizmente, graças a Deus, e há poucos registros disso. Há maselas físicas ainda,
12:22 mas há poucos registros. E na minha espiritualidade, eu estar concentrado nas minhas características,
12:32 eu estar obcecado a identificar aquilo que são as minhas forças para as cultivar e para
12:39 me cultivar a mim próprio com o objetivo único de crescer em torno de mim e desta
12:45 bolha, deste homem de Vitruvi, em que eu passo a ser a medida de todas as coisas, essa autossuficiência
12:50 é o grande inimigo. E é preciso ter cuidado com os silêncios que nos conduzem, essas
12:57 reflexões que redu não só nas nossas próprias características. E há uma espécie de ideia,
13:03 e agora vou ser novo rapaz do campo apontar o dedo à cidade, mas há uma espécie de
13:07 ideia de espiritualidade cosmopolita, que é muito baseada até em retiros, onde o silêncio
13:17 está presente, mas não é um silêncio que nos faz crescer para além de nós, é um silêncio
13:24 que nos faz implodir, vamos ver quando implodem os prédios, eles parece que cedem, parece
13:29 que não, cedem literalmente para dentro de si próprios. Há esse tipo de espiritualidade
13:33 que é procurado por pessoas, que lá está, cidadinas, que não cresceram no silêncio,
13:41 aquilo desparece a melhor coisa do mundo, falo como para mim o ruído parecia, e ficam
13:46 presas nos deleitos falsos, de uma virtude falsa, de uma coisa que simplesmente pode
13:53 não ser a nossa natureza, nos parece de leitose, nos parece virtuosa. E muitas vezes
13:59 o que acontece é que nós nos queremos encontrar, queremos aprofundar aquilo que nós somos,
14:07 queremos encontrar o nosso Deus interior, queremos ser a medida de todas as coisas, porque
14:13 isso é um bocado a noção que é vendida de espiritualidade e de sanidade. E vamos
14:22 para o campo e dançamos ao som de músicas silenciosas e mexemos como queremos e perdemos
14:29 as vergonhas e tiramos a roupa e somos instados a livrarmos de tudo aquilo que não é essencial,
14:38 tudo bem, mas para a minha música também, mas para a minha espiritualidade, livrar-me
14:45 daquilo que não é essencial é outro inimigo, porque para a minha espiritualidade o que
14:52 é necessário é livrar naquilo que é essencial, é livrar naquilo que é a minha natureza,
14:59 é livrar naquilo que é o de leite que parece ideal numa natureza que me é estranha. Para
15:05 a minha espiritualidade o despirme não é só daquilo que me rodeia e daquilo que me
15:11 foi acrescentado, é mesmo o despirme da minha natureza, é contrariar o ego, é contrariar-me
15:18 como a medida de todas as coisas, é contrariar-me como o orgulhosamente só, que era um ideal
15:29 que de alguma forma parece que cuja sua contrariade foi conquistada, mas de repente se tornou
15:35 como um mantra da individualidade, como se tornou-se um falso mantra daquela interioridade
15:41 que não foi a que a Teresa falou, tornou-se um mantra daquilo que é espiritualidade
15:45 moderna, espiritualidade cita-dina, espiritualidade cosmopolita. Outra coisa que eu venho também
15:51 falar do silêncio, e eu tenho estado um bocado a cascar nos silêncios e agora vou falar
15:56 no silêncio que é embaraçoso, mas este eu vou falar dele, já estou em tempo negativo,
16:02 vou tentar ser muito rápido, mas vou tentar falar deste silêncio embaraçoso como algo
16:06 que é virtuoso, e é curioso eu estar aqui a passar o tempo numa preleção sobre o silêncio,
16:14 estar a falar demais, mas deixe-me só falar-vos muito rapidamente, eu não estive a olhar
16:17 para isto e vou marimar, é só para tapar as vergonhas. Este silêncio embaraçoso que
16:23 eu vou laudar, que eu vou celebrar, é um silêncio que me envergonha, porque boa parte
16:30 da minha produção musical, boa parte da minha sinceridade nas canções e que muitas
16:35 vezes faço as pessoas quando estou a ser entrevistado, quando estou em conversas e
16:40 que tal de uma forma, eu com orgulho respondo quando pergunto se eu sou um cantor de intervenção,
16:45 porque de facto as minhas músicas parecem interventivas, eu digo com orgulho e de
16:49 peito cheio que sim, e de facto sou, mas eu sou um cantor de intervenção com a maior
16:56 das vergonhas, com a maior dos embarados, porque muitas vezes eu canalizo para a música,
17:01 canalizo para essa falta de timidez, porque a minha profissão me obriga a essa falta
17:07 de timidez, a estar em palcos, a ter movimentos de anca que não são necessários, mas eu
17:12 canalizo para a minha profissão, para a minha expressão que é pública, aquilo que muitas
17:18 vezes eu deixei em silêncio na minha expressão privada. Eu não ter dito alguma coisa no
17:25 momento certo, eu não ter intervenido no momento certo, eu por vergonha, por precaução,
17:32 por preguiça não ter dito alguma coisa, desagua tudo em vergonha na altura em que
17:36 eu tenho que escrever, e essa sinceridade é arrancada a ferros, e eu não me orgulho
17:43 de estar a admiti-lo, mas felizmente tenho tido suporte de pessoas para quem essas manifestações
17:49 de vergonha, essas manifestações de embaraço, muitas vezes desfarçadas com linguagem poética,
17:58 que aqui torna um bocado labiríntico, felizmente tenho pessoas, e hoje já tive muitas generosidades
18:05 de pessoas que me felicitaram, mas tenho pessoas que se dão ao trabalho de querer entender-me,
18:12 e em vez de eu estar a pregar nas minhas músicas, em vez de estar a dar sermões nas minhas
18:16 músicas, eu estou só a esperar que as pessoas que entendam a mensagem, e me venham resgatar.
18:22 Se é o vosso caso, pessoas que estão aqui que já ouviram as minhas canções, e que
18:25 fizeram o trabalho de querer entender-las, e quiseram entrar no passatempo, entraram
18:30 no labirinto, e no fim chegaram a uma conclusão, eu vou acabar por vos dizer, envergonhado
18:36 pelo meu silêncio, mas muito obrigado por que me resgataram. Obrigado a todos, por ver.

Sentidos, Música e Espiritualidade - Samuel Úria

Descrição

O Samuel reflete, com humor e honestidade, sobre a sua relação com o barulho, o silêncio e a espiritualidade, mostrando como aquilo que desejamos nem sempre corresponde ao que realmente precisamos. Entre a província silenciosa e a cidade ruidosa, revela uma jornada de contraste, descoberta e equilíbrio. No final, assume que a sua arte nasce tanto da expressão quanto dos silêncios que não conseguiu quebrar.

Resumo

O orador começa por assumir um tom descontraído e improvisado, justificando a ausência de estrutura como uma escolha de autenticidade: falar “do coração” sobre temas que lhe são íntimos. Introduz o eixo central — música, silêncio e espiritualidade — destacando que, embora a música e a espiritualidade façam parte da sua vida profissional, é o silêncio que mais o intriga e desafia.

A partir da sua infância em Tondela, descreve o silêncio como algo natural, quase invisível, como a água para o peixe. Paradoxalmente, foi essa convivência com o silêncio que despertou nele uma atração pelo barulho — especialmente através da música punk — visto como símbolo de movimento, progresso e fuga à monotonia. O barulho representava a possibilidade de expansão e descoberta.

Mais tarde, ao viver em Lisboa, o orador experimenta a inversão: o excesso de ruído leva-o a redescobrir o valor do silêncio. No entanto, alerta para um perigo subtil — a sobrevalorização do silêncio. Embora essencial para o equilíbrio e bem-estar, o silêncio pode tornar-se um refúgio excessivo, conduzindo ao isolamento e à ideia enganadora de autossuficiência.

Na sua perspetiva, essa autossuficiência é um inimigo, tanto na música como na espiritualidade. A criação artística exige encontro, partilha e dependência do outro; da mesma forma, uma espiritualidade saudável não se fecha sobre si mesma. Critica uma certa “espiritualidade moderna” que promove uma interioridade isolada, onde o indivíduo se torna o centro de tudo, afastando-se do verdadeiro crescimento.

Por fim, aborda um tipo específico de silêncio: o silêncio embaraçoso, aquele que surge quando não se diz o que devia ser dito. Confessa que muitas das suas músicas nascem precisamente dessas falhas — momentos em que não agiu ou não falou. A sua arte torna-se, assim, uma forma de compensação e exposição dessas fragilidades, esperando que o público compreenda e, de certa forma, o “resgate” através da escuta.

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