0:00
Muito bom dia. As nossas desculpas pela interrupção abrupta da emissão, mas verificaram-se
0:10
de envolvimentos última hora no estado do mundo que não podem ser ignorados.
0:14
Em fevereiro de 2022, quando a situação pandémica na Europa começava a abrandar
0:19
numa serenidade aparente, iniciou-se uma guerra brutal na Europa que continua sem fim à vista.
0:26
Encontrando-se a Ucrânia sob intenso ataque por parte da Rússia enquanto aguarda o fortalecimento
0:32
da prometida ajuda do Ocidente, dividido entre a defesa de vidas inocentes e a preocupação
0:37
em não escalar o conflito.
0:39
A guerra tem vindo a originar crises a vários níveis, tanto energética como ao nível
0:44
do abastecimento de cereais e outros produtos de primeira necessidade, contribuindo assim
0:49
para um inesperado aumento do ritmo da inflação.
0:52
A economia ressente-se e tudo isto provoca um impacto tremendo nas vidas das famílias
0:58
e dos jovens em particular.
1:00
Paralelamente, o Mediterrâneo e as demais fronteiras da Europa são o palco de mais
1:04
uma crise, a crise migratória, provocada pelas guerras e pela fome de muitos por uma
1:10
vida digna, numa sociedade igualitária e com oportunidades.
1:15
Politicamente, observa-se uma polarização crescente e os movimentos extremistas aumentam
1:20
a sua base de apoio.
1:22
A forma como comunicamos e recebemos notícias é cada vez mais rápida e intensa, confundindo-se
1:29
opiniões e factos, detalhes e o que é essencial.
1:34
Verifica-se uma produção em grande escala tanto de informação como de desinformação,
1:41
que exige uma capacidade de análise crítica cada vez mais apurada.
1:46
Simultaneamente está instalada mais uma crise, a crise climática, sem desfechos ou soluções
1:51
imediatas à vista em que, não obstante, os jovens têm sido dos principais agentes
1:57
de mudança.
1:58
Perante tudo isto, e muitos outros problemas que o nosso planeta enfrenta atualmente, as
2:03
atenções internacionais viram-se hoje para Lisboa, em particular, para a aula magna,
2:09
onde estão reunidos muitos jovens que tentam compreender o que está a passar e o que podem
2:15
fazer no mundo e com o mundo.
2:18
Seguimos assim de imediato para a aula magna, onde se encontra o João Paulo Sacadura, acompanhado
2:25
de Paulo Portas, Suzana Peralta e Francisco Ferreira, para nos relatar, mais em pormenor,
2:32
qual é o ponto desta situação.
2:34
Muito obrigado, bom dia, bem-vindos.
2:49
Bom dia, é com muito prazer e com muita alegria que vos dou as boas-vindas a este primeiro
2:59
e mais importante painel do dia.
3:01
Portanto, aproveitem.
3:03
Eu estou aqui com os convidados notáveis, como já viram.
3:05
Eu sou o único anónimo e desconhecido aqui.
3:07
Também, a mãe não vale.
3:10
E é exatamente para falar deste tema tão importante.
3:14
Então, e agora?
3:16
Porque é algo que vai realmente marcar o nosso dia, é algo que nos impacta e sempre
3:21
foi assim ao longo das nossas vidas.
3:23
Eu sou um exemplo vivo perfeitamente disso.
3:26
Nossa vida vai num sentido e, de repente, então e agora?
3:30
Aconteceu-me há 15 anos.
3:32
Eu tinha dois gêmeos pequeninos, de 7 anos, com a minha mulher.
3:35
Ela foi-nos tirada, teve um cancro muito rápido, que o levou.
3:39
Fiquei com dois gêmeos pequeninos, de 7 anos, na mão.
3:42
Então, e agora?
3:43
Fiquei, de repente, sem tapete.
3:45
Mas, família, Deus, algum apoio, o que vocês quiserem, nós temos que, ao rio, orientar
3:52
a nossa vida.
3:53
E assim foi.
3:54
Hoje tenho dois miúdos, com 24 anos.
3:56
Já foi há uma série de anos, portanto.
3:58
Um trabalha em Psicologia, mora lá em minha casa.
4:02
O outro está a se adotorar em Neurociência, em Nova Iorque.
4:05
E os dois a estudar o cérebro.
4:06
Ainda pensei, é porque o pai é um bocadinho psicopata.
4:10
Não, pai, não tem nada a ver.
4:11
É porque nós gostamos de perceber como é que as coisas mais incríveis funcionam,
4:14
as coisas mais estranhas.
4:16
Ok, como o pai.
4:18
Mas pronto.
4:19
Uns anos depois, não foi há 16 anos, mas foi há 10, ganhava uns milhares na televisão.
4:25
Trabalhava num sítio muito bom.
4:27
Às vezes rezava com eles, todos os dias, a dizer que bom, o pai teve um emprego bom
4:32
e foi aumentado e tudo correu bem.
4:34
E, de repente, a televisão é vendida a outro canal estrangeiro e o pai ficou na rua, sem
4:38
nada, de repente, com dois miúdos pequenos, desempregado, outra vez.
4:42
A vida obriga-nos a mudar.
4:44
Então, e agora?
4:45
E agora é uma coisa que nos vai perseguir toda a vida.
4:47
Mas, aqui estou, pronto, não sou um robô.
4:50
E as coisas estão-se a aguentar muito bem.
4:53
Tenho um programa todos os dias que faz entrevistas.
4:55
Já entrevistei, acho que metade do Lisboa toda.
4:58
E, olha, Paulo, caiu a chamada.
5:04
E é por isso hoje que vamos começar já a apresentar este primeiro panel.
5:10
É um grande prazer para mim, neste panel chamado O Mundo em que estamos.
5:16
Já perceberam que vamos ter esta parte política, esta parte económica e esta parte ambiental.
5:22
Vamos perceber onde é que nós estamos e o que é que nós podemos fazer para isto.
5:27
Eu começo, então, a apresentar os nossos três convidados de hoje.
5:32
O Paulo Portas, aqui está.
5:41
O Paulo Portas é formado em direito, foi jornalista aos 25 anos,
5:46
fundou um jornal muito importante chamado O Independente,
5:48
foi ministro, foi vice-primeiro-ministro,
5:51
liderou 16 anos no CDS, foi um dos mais novos dirigentes partidários portugueses,
5:56
é professor de Geoeconomia e Relações Internacionais na Nova SBE,
6:00
ensina também em Madrid, Abu Dhabi e Xangai.
6:03
Fala muitas línguas, Paulo, mas tu não ensinas em chinês, para não?
6:07
Ok. Estou contente.
6:09
Mas mais importante do que tudo isso é filho de uma grande amiga minha, Helena Sacadora Cabral,
6:16
que por acaso é a minha prima.
6:17
É talvez a coisa mais importante que ele tem na vida dele e ele sabe disso.
6:21
E também do meu pai.
6:22
E também?
6:23
E também do meu pai.
6:24
E também do Bruno Portas, um grande, grande arquiteto da nossa praça. Muito bem.
6:28
A seguir ele vai nos falar da situação geopolítica
6:33
e antes de lhe passar a palavra vou também apresentar a nossa convidada a seguir,
6:36
a Susana Peralta, que é quem está ali, a doutorada em Economia,
6:39
ela é especialista em Economia Pública.
6:47
Ela também é professora na Nova SBE, é investigadora e coordenadora de Portugal Balanço Social.
6:53
Escreve no público, é comentadora na RTP e comentadora talvez naquela que é a rádio mais importante portuguesa
6:59
neste momento que se chama Rádio Observador.
7:04
Susana Peralta.
7:10
E finalmente apresento o Francisco Ferreira.
7:12
O Francisco Ferreira é um engenheiro de Ambiente,
7:15
ele foi mestrado nos Estados Unidos e foi doutorado cá.
7:18
É um ambientalista nato, ele já era ambientalista com 10 anos,
7:22
portanto vão ver, dos 3 milhões de nós, se houvesse um grupo chamado
7:26
os 1.500 milhões de nós, que eram os menos de 15, menos de 12,
7:30
era ele, estaria lá na primeira fila de certeza.
7:39
Ele também é professor na Nova, é professor no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente
7:43
e é investigador do Centro de Investigação de Ambiente e Sustentabilidade.
7:47
Foi presidente da Coercos e agora é membro do Conselho Nacional da Água
7:50
e presidente de uma ONG ambiental chamada ZERO,
7:54
a Associação Sistema Terrestre Sustentável,
7:57
que propõe um futuro com zero emissões,
8:00
com zero desperdício e com zero consumo insustentável.
8:06
Portanto vão ver, tudo menos algo que nos faça ser um zero à esquerda.
8:09
O Francisco Ferreira vai ser um ótimo convidado também de nós.
8:12
Bem-vindo, Francisco.
8:19
Arrancamos então agora com a primeira apresentação,
8:21
com a primeira ronda dos nossos convidados
8:23
e é o Paulo Portas que tem a palavra,
8:25
que vai nos falar desta situação geopolítica.
8:27
Paulo, é uma coisa perfeitamente, muito obrigado,
8:30
perfeitamente impensável, esta questão ao fim de 80 anos na Europa,
8:34
uma guerra que há às nossas portas, que está a mudar o mundo inteiro.
8:37
Como é que isto foi possível?
8:39
E quer que em 5 minutos, está bem, 6,
8:42
podemos fazer alguma coisa por isso?
8:44
Bom dia a todos. Bom dia, Susana, bom dia, Francisco, bom dia, João Paulo.
8:48
Nós somos primos.
8:51
Bem, basicamente, para pôr as coisas de uma forma,
8:58
talvez um bocadinho simples demais, mas inteligível,
9:02
o que nós temos pela frente é terminar a guerra sem deixar Putin ganhar a guerra.
9:08
É muito difícil.
9:10
É muito mais fácil dizer do que conseguir.
9:13
E a primeira coisa que eu queria partilhar convosco é a ideia
9:18
de que a Europa, que muitas vezes dá lições aos outros,
9:23
esquece dos seus próprios demónios.
9:25
E como sabem, uma das especialidades do diabo é convencer os outros que não existe.
9:31
E foi na Europa que aconteceram as duas guerras mais trágicas do século XX
9:39
e a guerra voltou à Europa à beira das fronteiras da União Europeia.
9:44
Uma das razões pelas quais eu acho que Putin não pode prevalecer
9:49
é que se ele prevalecer na Ucrânia, não fica pela Ucrânia
9:53
e a próxima estação é dentro das fronteiras da União Europeia e da Aliança Atlântica.
9:58
E isso torna as coisas ainda mais complicadas,
10:01
porque mesmo que nós não queiramos, é uma guerra diretamente connosco.
10:07
Eu acho que isto para os europeus foi o 24 de fevereiro de 2022,
10:15
foi o fim de uma série de certezas, muitas delas certezas com boa intenção,
10:24
partilhadas aliás dos dois lados do Atlântico, que de um minuto para o outro ruíram.
10:30
A primeira era uma ideia muito europeia e aliás popular,
10:35
que era a ideia de que há paz sem defesa.
10:41
É muito mais popular dizer que não precisamos ter defesa para garantir a paz.
10:47
O problema é quando do outro lado há um que tem defesa para fazer a agressão.
10:54
E isso eu acho que mudou e os europeus foram apanhados em duas armadilhas.
11:01
A primeira é que não tinham defesa e para ter defesa e segurança dependem absolutamente dos Estados Unidos.
11:10
E a segunda é que a energia não é uma categoria geopolítica.
11:17
Eu já tive esta conversa numa apresentação de um livro com a Susana.
11:22
Os europeus tinham duas opiniões cándidas.
11:25
Que os seriais não tinham uma história geopolítica e que a energia era apenas um negócio.
11:32
Business as usual.
11:34
Ora, não foi.
11:36
Eu aliás acho que Putin é muito incompetente como comandante militar.
11:42
Todos os seus planos de invasão da Ucrânia, rapidamente cercar as cidades,
11:48
remover Zelensky, tomar conta e deixar um regime fantoche falharam.
11:54
Mas como manipulador das armas económicas foi menos ineficiente.
12:00
E está à espera que cada um de nós se canse.
12:06
E essa é que é a coisa mais difícil.
12:09
Ele sabe que o Ocidente, com todos os seus limites e defeitos, são democracias.
12:17
As democracias têm opiniões públicas.
12:19
As democracias têm eleições.
12:21
As democracias têm fadigas em relação aos acontecimentos.
12:28
Nada disso acontece na Rússia, onde as pessoas não sabem praticamente nada da verdade da guerra.
12:34
E onde as pessoas não discutem o poder.
12:38
O que é uma velha tradição russa.
12:40
Não é apenas de Putin.
12:42
Já vinha da União Soviética e já vinha dos czars.
12:46
Os russos infelizmente, numa perspectiva histórica,
12:49
são um povo mais habituado a obedecer do que a escolher.
12:53
E ele sabe que os europeus e os americanos podem cansar-se do apoio à Ucrânia
13:00
por causa das consequências que atribuem à guerra.
13:02
Certamente a Susana se calhar passará por aí.
13:05
A inflação já cá estava antes da guerra.
13:07
A guerra acelerou a inflação, que é uma coisa diferente.
13:11
Mas as pessoas com a inflação, com as taxas de juros, com as dívidas
13:15
e com a alteração daquilo que eu chamo do Triângulo do Conforto,
13:20
podem cansar-se. E Putin sabe isso.
13:23
Não se esqueçam que a Rússia tem produção de armamento própria.
13:28
A Ucrânia depende do armamento que o Ocidente lhe der.
13:32
Se o Ocidente se cansar, é o Ocidente que deixa cair a Ucrânia.
13:37
Não é a Rússia que a vence.
13:39
E portanto, eu acho que mudou a perceção sobre a ameaça
13:44
que nós achávamos que não voltava à Europa,
13:46
sobre a ideia de que há paz sem defesa,
13:49
sobre a nossa relação e dependência com os Estados Unidos.
13:53
Como vocês sabem, eu vou dizer isto de forma irónica.
13:55
Mas é assim, há uma diferença entre um candidato a Presidente da República
14:00
dos Estados Unidos e um candidato a Primeiro-Ministro na Europa.
14:02
Um candidato a Presidente da República dos Estados Unidos que diga
14:05
eu vou cortar na defesa, perde as eleições.
14:08
Um candidato a Primeiro-Ministro na Europa que diga
14:11
eu vou aumentar o investimento em defesa, perde as eleições.
14:15
E portanto, é muito mais difícil gerir isto do nosso lado.
14:19
Mas vejam a nossa vulnerabilidade.
14:21
Nós temos uma guerra às portas da Europa
14:24
que pode passar a fronteira
14:27
e sem os americanos não temos nenhuma espécie de segurança.
14:32
Sendo o continente mais próspero do mundo, felizmente,
14:35
e com melhores índices de qualidade de vida,
14:38
e líder, por exemplo, o Francisco há de falar nisso, com certeza,
14:41
na transição energética.
14:43
Era este o último ponto que eu queria sublinhar.
14:45
Outra coisa que nos aconteceu,
14:47
nós, europeus, que somos os que vamos mais à frente
14:51
na transição dos combustíveis fósseis para energias limpas,
14:57
não é justo acusar a Europa,
14:59
porque a Europa é quem tem feito um esforço maior
15:01
para reduzir as emissões.
15:03
Mesmo o ano passado, saíram esta semana os números,
15:06
em que as emissões de CO2 aumentaram 0,9%, creio eu,
15:11
onde reduziram mais foi na Europa.
15:15
Mas a Europa, de repente, como dependia
15:19
excessivamente do gás e do petróleo da Rússia,
15:23
mais de 15 países acima de 40%
15:26
e de um dia para o outro uma guerra
15:28
às nossas portas, nas nossas fronteiras,
15:30
promovida pela Rússia.
15:32
E isto é uma armadilha, como é evidente.
15:35
E a Europa teve que se confrontar
15:37
com uma coisa muito difícil de gerir.
15:40
Eu peço sempre alguma indulgência nesta matéria.
15:43
Porque a Europa teve que se confrontar
15:45
com escolhas entre o que é essencial
15:48
fazer a transição energética
15:50
e o que é urgente para amanhã de manhã,
15:53
que é ter gás e eletricidade
15:55
nas casas das pessoas, nas fábricas e nas instituições.
15:59
Não é fácil conciliar
16:01
o que eu preciso de garantir como urgência
16:04
e o que eu preciso de garantir como essencial.
16:10
E, em todo caso, é bom dizer que a Europa conseguiu
16:15
esta palavrão agora está na moda dizer
16:18
coisas que existem em português, dizer sempre em inglês.
16:21
Mas é o divórcio da União Europeia
16:24
em relação à Rússia, em termos de energia,
16:27
foi muito mais longe do que muitos pensavam.
16:30
Quando começou a guerra, já vos disse há pouco,
16:34
tínhamos 15 países com mais de 40% de dependência da Rússia.
16:39
Neste momento está em 12,8%, 12,9%.
16:43
Mas isso implicou rever algumas certezas
16:47
quanto à transição energética.
16:49
Porque implicou expandir ou prolongar
16:53
meios de abastecimento de energia
16:55
que não eram os desejáveis do ponto de vista da transição energética.
16:59
Dito isto, para terminar com uma palavra de expressa,
17:02
eu como acho que nós somos capazes de aprender lições
17:06
e se pensarmos nos nossos erros e nas nossas vulnerabilidades,
17:10
melhoramos, eu acho que esta situação é gerível.
17:14
Lembrem-se de há três anos que não é pré-história.
17:17
A Europa não sabia nada de compras de vacinas em conjunto
17:21
quando apareceu o Covid.
17:23
Aprendeu no caminho.
17:25
Hoje em dia é o continente mais próximo
17:29
da passagem de uma pandemia para uma endemia.
17:33
Nós também não sabíamos como é que tínhamos energia
17:37
sem depender da Rússia, sobretudo no centro e no norte.
17:40
Um ano depois, nós conseguimos fazer esse divórcio
17:44
de forma mais suave, fomos ajudados pela meteorologia,
17:47
mas conseguimos fazer esse divórcio de uma forma mais suave.
17:50
Ou seja, nós vamos aprender a viver com uma guerra muito perigosa
17:55
e devemos contribuir para que ele não a ganhe,
17:59
mas ela tenha um horizonte de poder terminar
18:02
e não se prolongue per século, um século ou outro.
18:05
E portanto, eu tenho esperança de que desde que nós aprendamos
18:09
com os nossos erros e com as nossas vulnerabilidades,
18:12
nós podemos melhorar as nossas respostas.
18:15
E é por isso que eu começaria para...
18:18
Para o arranque da nossa conversa.
18:21
Muito obrigado, Paulo Portas.
18:31
Engraçado, tivemos aqui uma sessão global, mas aqui privada,
18:35
só para nós, foi muito bom. Nós e 3 milhões,
18:38
de resto a audiência não vai aumentar muito mais do que isto,
18:41
mas é muito importante.
18:44
Dão a palavra à Susana.
18:46
A Susana está à procura de um comando,
18:49
que deve ter o Paulo.
18:52
Susana, vamos falar desta primeira questão, talvez,
18:55
a questão que tem a ver com o mercado do trabalho,
18:58
com esta juventude toda que se preocupa agora.
19:01
E com tudo o que isto implica, agora a inteligência artificial,
19:04
o arranque dos recém-licenciados,
19:07
toda esta confusão que tem havido agora,
19:10
e esta dificuldade no mercado do trabalho,
19:13
sobretudo do ponto de vista dos jovens.
19:16
O que é que precisas para nos dizer agora, em 5 minutitos?
19:19
Vamos lá ver o que é que consegues.
19:22
Bem, queria agradecer também o convite e dizer que é sempre
19:25
um gosto enorme falar para os jovens e para as jovens.
19:28
E dizer que também é sempre muito ambicioso e ousado
19:31
convidar economistas para estas coisas,
19:34
porque eu disse que ia preparar meia dúzia de slides
19:37
e eu ia preparar vinte, todos com gráficos e coisas.
19:40
E, portanto, peço que tenham alguma paciência,
19:43
eu sei que há imensas pessoas normais na plateia.
19:46
Susana, podes guardar e ficas convidada para as próximas.
19:49
Ah, isso pode ser, é o chamado fazer render o peixe.
19:52
Se calhar é isso a ideia da economista.
19:55
Peço desculpa aos não-economistas, que são as pessoas normais da plateia,
19:58
mas eu abusei um bocadinho dos slides.
20:01
É verdade que nós estamos neste contexto,
20:04
o século XXI é um século de crise.
20:07
E é um século em que nós tivemos, em primeiro lugar, a crise das dívidas soberanas,
20:10
depois tivemos a Covid e assim que saímos da Covid aparece-nos a guerra.
20:15
E, portanto, de facto, ser jovem nesta economia é um grande desafio,
20:21
até porque nós sabemos, e há muita investigação séria sobre isso,
20:25
que mostra que entrar no mercado de trabalho,
20:28
começar a sua vida ativa em momentos de crise,
20:31
tem consequências no médio e longo prazo.
20:33
Portanto, a carreira das pessoas é diferente.
20:35
Não é que depois, passada a crise, voltem àquilo que teria sido
20:39
se não tivessem entrado no mercado de trabalho em crise, para fazer isso simples.
20:42
E, portanto, de facto, deve ser difícil.
20:44
Eu ponho-me um bocado na vossa posição, na posição dos 3 milhões.
20:48
Eu, infelizmente, já não estou acima da barreira, da fasquia usada para definir os 3 milhões.
20:54
Adorava estar abaixo.
20:55
Mas, de facto, eu acho que deve ter momentos de angústia.
20:58
Então, eu venho aqui dizer-vos um bocadinho quais é que eu acho que são os desafios.
21:01
Para além daqueles conjunturais que o Paulo olhou, da inflação, da economia de guerra,
21:05
e de saber como é que nós vamos fazer para nos defendermos,
21:07
o que obviamente vai sempre envolver, já agora, retirar recursos de outros lados da economia.
21:12
Nós não podemos aumentar o nosso investimento em defesa,
21:15
que é algo que é absolutamente crítico neste momento na União Europeia,
21:18
sem retirar recursos do outro lado da economia.
21:20
Portanto, há várias questões aqui que são conjunturais,
21:23
mas eu trouxe aqui-se cá um bocadinho uma leitura da economia do lado dos jovens.
21:26
Sendo que eu, talvez até, um bocadinho tentando juntar-me a voz,
21:32
sendo que já, como disse, estou acima, infelizmente, da idade escolhida aqui como fasquia.
21:36
Muito bem, então.
21:37
Isto que aqui está é um gráfico de mercado de trabalho em vários países da OCDE,
21:41
e que mostra a prevalência de contratos temporários.
21:43
Ups, peço desculpa.
21:45
E que mostra que Portugal é, de facto, um país com,
21:47
é aquilo que nós chamamos de um mercado de trabalho muito dual,
21:49
por ter uma grande prevalência de contratos temporários.
21:52
Isto, em si, não tem nada de mal.
21:54
Não, é este.
21:55
Ah, peço desculpa.
21:56
Era eu que estava aqui a fazer.
21:58
Eu estava a boicotar a minha própria apresentação.
22:01
Isto, em si, não tem nada de mal.
22:03
Quer dizer, temos contratos temporários,
22:05
também não devemos ter uma visão catastrofista deles,
22:08
mas a verdade é que isto mostra que o nosso mercado de trabalho
22:11
tem uma grande discrepância entre uma proteção dada a pessoas,
22:16
como eu tenho um contrato permanente,
22:18
e depois ao outro lado do mercado de trabalho.
22:19
E, no fundo, é essa a que nós chamamos de dualidade que nos deve preocupar.
22:23
E porquê é que isto interessa aos jovens?
22:24
O que eu tenho aqui é um gráfico, enfim, bastante recente,
22:27
no período pré-Covid e depois Covid,
22:30
isto é tirado de um trabalho meu com colegas,
22:32
mas em que nós temos aqui, por idades,
22:35
e aquilo que se vê é que, claramente,
22:37
quem tem contratos temporários são os jovens.
22:40
E isto tem também consequências ao nível do salário.
22:45
E isto...
22:47
Isto não, isto é outra coisa.
22:49
Não era isto que eu queria mostrar.
22:50
Eu queria mostrar isto.
22:51
O salário base.
22:53
Portanto, o que vocês têm aqui, como veem, é que...
22:55
Isto aqui é por gerações, a geração...
22:57
Por isso, cada uma das gerações, no fundo,
22:59
isto são pessoas que nasceram em diferentes momentos da história em Portugal
23:01
e que depois, ao longo do tempo...
23:03
Mas vocês veem que a geração mais recente está aqui com salários mais baixos.
23:07
Portanto, o facto de...
23:09
E é perfeitamente...
23:11
Está por ordem, não é?
23:12
Portanto, as gerações mais velhas têm salários mais elevados.
23:15
Já agora, se eu comparasse a idade semelhante da mesma geração,
23:19
isto também era verdade.
23:20
Portanto, as pessoas hoje em dia que têm 30 anos,
23:22
têm salários mais baixos em...
23:24
Obviamente, atualizando para a inflação,
23:26
em média,
23:27
do que as pessoas que tinham 30 anos há 30 anos, não é?
23:30
Portanto, isto quer dizer que, de facto, esta dualidade do mercado de trabalho
23:33
e esta falta de acesso dos jovens
23:35
ao mercado de trabalho mais formal,
23:37
mais protegido,
23:38
também vem com custos salariais.
23:41
Depois, o outro problema da nossa...
23:43
O outro lado desta equação
23:45
e que faz também com que os jovens estejam um bocadinho excluídos da nossa economia
23:49
é no acesso à habitação.
23:50
Isto aqui é tirado de um estudo da Gulbenkian,
23:52
que mostra que a percentagem de pessoas
23:56
abaixo dos 29 anos
23:58
que são proprietárias da própria habitação
24:01
tem vindo a diminuir ao longo do tempo.
24:02
Portanto, mais uma vez, um custo grande para estas gerações mais recentes.
24:05
Obviamente que isto não é necessariamente...
24:07
Isto pode ser também uma diferença de hábitos,
24:10
de normas sociais,
24:11
de estilos de vida.
24:12
Os jovens hoje em dia também são mais móveis
24:14
e, portanto, isto não quer dizer necessariamente
24:17
que as pessoas quisessem ter casa,
24:19
que as pessoas podiam arrendar casa.
24:21
Mas aquilo que nós também vemos é que as pessoas...
24:23
Há uma maior percentagem...
24:25
Mais uma vez, isto é ao longo do tempo.
24:27
As pessoas, entre os 18 e 34 anos,
24:29
a viver em casa dos pais.
24:30
E vemos também um aumento.
24:32
E isso é até...
24:33
Vai ao contrário da história das normas sociais.
24:36
Portanto, se aquela ideia das pessoas não comprarem casa
24:38
porque queriam arrendar e ser móveis
24:40
e viajar pelo país e pelo mundo
24:42
à procura de novas experiências laborais e outras...
24:45
Se essa história explicasse
24:47
porque é que há menos pessoas que são proprietárias de casa,
24:49
mas essas pessoas não deviam estar a viver em casa dos pais.
24:51
E, portanto, há aqui, de facto,
24:53
ligado provavelmente também
24:55
ao lado precário do mercado de trabalho,
24:57
uma grande dificuldade em ter acesso a algo muito importante
24:59
que é as pessoas terem casa própria,
25:01
arrendada ou não,
25:03
que é um lado importante, no fundo,
25:05
dos jovens, que são vocês, não é?
25:07
Poderem projetar-se um futuro e construir uma vida própria.
25:11
Depois, a outra dimensão que eu aqui vos queria trazer,
25:13
rapidamente,
25:15
do que é que eu acho que os jovens ainda podem,
25:17
ainda têm que conquistar no país,
25:20
os jovens precisam conquistar poder
25:22
e, por isso, eu conto convosco,
25:24
pelo menos com estes que estão aqui sentados.
25:26
Isto que aqui está é a percentagem,
25:28
isto é da OCDE,
25:30
isto é a percentagem, em 2020,
25:32
de membros do Parlamento,
25:34
a deputados e deputadas, abaixo dos 40 anos.
25:36
Esta é a linha,
25:38
a barra cor de laranja.
25:40
A barra amarela é a percentagem da população,
25:42
mas já não vamos agora perder tempo com isso.
25:45
Portugal, como vêem, está aqui ligeiramente
25:47
acima da média da OCDE,
25:49
mas reparem que, por exemplo,
25:51
em países como os nórdicos,
25:53
Noruega, Finlândia, Suécia,
25:55
a percentagem de jovens no Parlamento
25:58
é acima dos 35%,
26:00
enquanto que em Portugal
26:02
está aqui abaixo dos 25%,
26:04
está nos cerca de 22%.
26:06
Claramente, os jovens não têm muito poder político em Portugal
26:08
e isto que aqui está é o outro lado do poder,
26:10
que é o poder executivo, não o poder legislativo.
26:12
E aqui nós temos,
26:14
isto é, a média de idades
26:16
dos membros do Governo
26:18
e, como vêem, aqui Portugal
26:20
aparece claramente como uma gerontocracia
26:22
no contexto da OCDE, é preciso dizer as coisas como elas são.
26:24
Reparem que
26:26
é dos países com o maior,
26:28
e isto é em 2018, é muito recente,
26:30
e reparem que a idade média
26:32
são 57 anos.
26:34
Eu tinha escrito um artigo há cerca de um ano
26:36
sobre o Conselho de Estado,
26:38
o Conselho de Estado, a média de idades, eu já não me lembro,
26:40
mas era acima dos 70 anos.
26:42
Ou seja, é evidente que o Conselho de Estado
26:44
precisa de séniores, e desde logo, por exemplo,
26:46
os ex-presidentes da República, que são, por definição,
26:48
pessoas bastante idosas,
26:50
têm que lá ter assento, não é questão
26:52
de contestar isso, é ver que não há lá ninguém,
26:54
por exemplo, abaixo dos 60 anos. Portanto, isto é um problema
26:56
e é um problema para o qual
26:58
eu conto convosco e, para terminar,
27:00
também uma nota positiva.
27:02
Ops!
27:04
Ops!
27:06
Tive aqui um...
27:08
O que é que aconteceu?
27:10
Soltou-se aqui do teu...
27:12
Soltou-se do meu bolso.
27:14
Bem, vamos ver se isto não corre mal.
27:16
Vamos ver se isto não corre mal.
27:18
Não, não, não me levanto, não me levanto.
27:20
É que eu agora estou atada com o fio do microfone
27:22
à cadeira, não sei se estão a ver.
27:24
Isto tem potencial para correr bastante mal,
27:26
mas enfim.
27:28
Então, o que é que eu vos quero dizer de positivo?
27:30
A primeira coisa que eu vos quero dizer de positivo
27:32
é que
27:34
a percentagem de mulheres
27:36
no mercado de trabalho, isto também é outro gráfico
27:38
por gerações, isto são gráficos do Pedro Martins,
27:40
é um estudo que ele fez, do meu colega Pedro Martins,
27:42
que ele fez para a Globinken. Outra vez por gerações,
27:44
vocês veem que, de facto, há uma
27:46
feminização do mercado de trabalho.
27:48
Isto é bom, embora, obviamente, não vou aqui negar
27:50
que há muitas discriminações contra as mulheres
27:52
e já agora contra várias minorias
27:54
sexuais, étnicas e outras.
27:56
Mas, apesar de tudo, o mundo está melhor do que era.
27:58
Está muito melhor do que era. Está certamente
28:00
muito melhor do que era quando eu
28:02
tinha a idade que me colocaria
28:04
na faixa jovem que me está a ouvir.
28:06
Isso é bom, portanto, quero dizer que nós
28:08
estamos a conseguir, apesar de tudo, não desperdiçar
28:10
tantos talentos. O caminho é longo,
28:12
mas eu queria vos mostrar aqui o lado positivo.
28:14
O outro lado
28:16
bom da história é que
28:18
a escolaridade também tem estado a aumentar.
28:20
Isto, outra vez, é um gráfico por gerações. Enfim, vocês são,
28:22
estamos sempre a dizer isto, não é a geração mais
28:24
qualificada de sempre, mas quer dizer, de facto, essa qualificação
28:26
está dentro de vocês. Eu acho que o
28:28
país tem barreiras
28:30
ao vosso
28:32
potencial para explorar
28:34
em todas as suas dimensões
28:36
essas qualificações, essa criatividade
28:38
e esse capital humano extraordinário que tem dentro de vocês.
28:40
Mas, quer dizer, apesar de tudo,
28:42
ele está aí e é vosso. E vocês certamente
28:44
poderão fazer alguma coisa com ele.
28:46
Outra coisa boa que eu acho que é um bocadinho
28:48
até ligada àquilo que o Paulo aqui trouxe,
28:50
que é, no fundo, nós, Portugal não é
28:52
de maneira nenhuma o nosso
28:54
horizonte.
28:56
É muito mais vasto que Portugal.
28:58
Isto é um gráfico recente de redes
29:00
de imigração na União Europeia
29:02
entre 2001 e 2013. Portanto, são
29:04
fluxos migratórios, no fundo,
29:06
ao longo do tempo e, infelizmente,
29:08
eu só arranjei estas
29:10
de um artigo científico
29:12
até 2013. Mas quer dizer, claramente, o que vocês
29:14
veem ali é que há muita imigração
29:16
intra-europeia e, obviamente, o mundo
29:18
é o limite, mas na União Europeia, pelo menos,
29:20
temos livre circulação de pessoas
29:22
e, portanto, vocês também não
29:24
parecem que
29:26
este lado
29:28
um bocadinho mais gerontocrático do nosso
29:30
país vos deve impedir de ver
29:32
este mundo extraordinário no qual estão integrados
29:34
e foi por isso que eu vos quis mostrar isto aqui de uma maneira
29:36
mais gráfica. E, finalmente,
29:38
eu acho que vocês
29:40
têm que usar as vossas vozes, não é?
29:42
Por isso, eu tenho aqui um exemplo, por exemplo, de um podcast
29:44
da minha geração, que eu sou muito fã,
29:46
que entrevista jovens
29:48
maravilhosos no nosso país.
29:50
Obviamente, quando não têm
29:52
voz formal no Parlamento
29:54
ou nos
29:56
membros do Governo
29:58
e tal, ou no Conselho de Estado, ou o que seja,
30:00
a rua é vossa, vivemos numa democracia,
30:02
portanto, vão lá, façam barulho
30:04
e, no fundo, acho que essa é a ideia mesmo, é que
30:06
apesar de tudo, como vivemos
30:08
numa democracia,
30:10
há sempre um caminho a trilhar e esse
30:12
caminho depende de vocês e hoje também acho que é muito importante
30:14
também trazer aqui essa ideia, que é os jovens tendem
30:16
a participar menos no processo democrático
30:18
e, por favor, votem, porque isso é o
30:20
começo, mas não é a única coisa. Devem participar
30:22
das outras maneiras todas e estarem aqui, é
30:24
certamente uma boa forma de começar. Obrigada.
30:26
Aplausos
30:28
Aplausos
30:30
Aplausos
30:32
Aplausos
30:34
Aplausos
30:36
Susana Peralta, com suas lições magistrais,
30:38
ela que falou que tu, que também
30:40
foste bastante jovem, estava a falar disso,
30:42
há dez anos, era esta a vez,
30:44
estava ali de cada lado e
30:46
veste estar este exemplo tão importante e, ao mesmo tempo,
30:48
esta chamada de atenção, acabando com esta
30:50
nota de esperança, que é muito importante,
30:52
aposta-vos aos jovens, isso é o
30:54
ideal para pegar no Francisco
30:56
Ferreira, que
30:58
Francisco, nós te vamos falar
31:00
das crises climáticas, os jovens
31:02
são muito importantes, têm sido muito
31:04
importantes no alertar para estas questões,
31:06
eu sinto-me um bocadinho como aqueles
31:08
a viver da last of us,
31:10
a viver neste mundo
31:12
em que nós estamos, agora tens
31:14
não é o minuto verde, mas é os cinco minutos
31:16
verdes, vamos a isso.
31:18
Bom dia
31:20
a todos e a todas,
31:22
bem, eu vou seguir
31:24
os mesmos cinco minutos que os meus colegas,
31:26
o que significa sete ou oito minutos,
31:28
mas de qualquer
31:30
forma,
31:32
garantir-vos uma coisa, que é
31:34
para que não fique
31:36
dúvidas, eu mesmo, quando era jovem,
31:38
já não tinha cabelo,
31:40
caiu-me logo aos
31:42
aos dezoito anos,
31:44
não foi a maquilhagem,
31:46
aliás,
31:48
naquela primeira aula
31:50
que os alunos do segundo ano
31:52
dão ao primeiro ano,
31:54
eu passei perfeitamente
31:56
por professor, sem qualquer dúvida,
31:58
e por acaso, na altura
32:00
lembro-me que lhes disse,
32:02
dei uma aula de matemática
32:04
e disse aos alunos que tinham
32:06
que comprar e ler um livro em russo
32:08
que era o Antonov,
32:10
que é muito conhecido
32:12
da matemática, coitados, ficaram tão apavorados
32:14
que a partir daí foi mesmo
32:16
difícil, mesmo sabendo que eu era do segundo ano,
32:18
foi difícil termos ali uma relação.
32:24
Ora bem, eu vou-vos fazer
32:26
um pouco
32:28
um cenário que eu acho que vocês estão a par
32:30
e que conhecem, infelizmente,
32:32
que não é
32:34
apenas o da crise climática,
32:36
nós temos, sem dúvida, uma crise
32:38
de paz,
32:40
nós, quando falamos
32:42
das várias crises que temos,
32:44
eu vou falar de três, da crise climática,
32:46
da crise da biodiversidade
32:48
e da crise dos recursos,
32:50
o que é facto é que
32:52
nós temos
32:54
estas crises interligadas
32:58
e têm a ver com
33:00
um conjunto de paradigmas
33:02
que nós temos que mudar.
33:04
Comecemos pela climática, bem,
33:06
eu acho que nós
33:08
todos estamos mais do que
33:10
familiarizados, basta pensarmos
33:12
nas cheias que tivemos
33:14
em Lisboa, claro que têm muito
33:16
a ver com a forma como nós temos o território
33:18
ordenado, impremiabilizado,
33:20
mas
33:22
não tínhamos dúvidas que
33:24
tivemos recordes de precipitação,
33:26
ali em
33:28
poucas horas choveu
33:30
o que deveria chover
33:32
ao longo de dias,
33:34
de semanas,
33:36
isso que aconteceu em Lisboa, aconteceu
33:38
noutras partes do país, isto de depois estarmos
33:40
quase perante uma seca recorde.
33:42
As alterações climáticas são
33:44
isto, nós temos o aquecimento
33:46
global causado pelas
33:48
emissões de gases com efeito
33:50
estufa, à custa principalmente
33:52
dos armos combustíveis fósseis,
33:54
o carvão, o gás
33:56
natural e
33:58
o petróleo, e realmente
34:00
estamos agora, por causa
34:02
da guerra
34:04
na Ucrânia, como o Paulo Portas
34:06
disse, a procurar na Europa
34:08
fazermos esta transição ainda mais
34:10
rápida, mas cuidado que a temos que fazer
34:12
de forma sustentável,
34:14
não podemos pôr painéis solares ao
34:16
catifar o país, temos que pôr nos sítios certos,
34:18
temos que pôr em muitas casas,
34:20
estamos longe de conseguir fazê-lo ainda,
34:22
temos que pôr mais
34:24
aerogeradores, mas temos que ter este
34:26
equilíbrio de mais fontes renováveis
34:28
e acima de tudo mais eficiência energética,
34:30
mais poupança
34:32
de energia, mais mudança
34:34
de hábitos, nós temos acima de tudo os nossos
34:36
consumos muito ligados
34:38
aos transportes,
34:40
é aí que nós temos a nossa
34:42
maior pegada e as nossas maiores emissões
34:44
em Portugal, mas nós
34:46
já conseguimos, eu vou só aqui voltar
34:48
porque há aqui um terceiro botão chamado laser
34:52
e portanto vocês veem
34:54
que
34:56
temos aqui, desde
34:58
a Amazónia,
35:00
que obviamente está em causa
35:02
pela sua destruição, mas também
35:04
pela mudança climática, o derretimento
35:06
dos gelos, quer
35:08
no Ártico, quer no Polo Sul,
35:10
o problema gravíssimo de um dos
35:12
ecossistemas mais produtivos
35:14
que são os recifes de coral
35:16
e que são extremamente sensíveis
35:18
à mudança da temperatura.
35:20
Aliás, os recifes de coral
35:22
vivem em conjunto,
35:24
em simbiose com as
35:26
algas, que são as zooxantelas, que são
35:28
expulsas pelos
35:30
recifes de coral, face
35:32
a um aumento de temperatura e é esse o problema,
35:34
por isso que as pessoas morrem porque não têm os nutrientes
35:36
dados pelas algas. Temos uma circulação
35:38
oceânica que está a mudar,
35:40
é por isso que
35:42
um dos grandes problemas que temos é que os furacões
35:44
das tempestades demoram
35:46
mais tempo a passar e a chuva
35:48
que cai e os ventos
35:50
permanecem no mesmo local
35:52
durante mais tempo e a destruição
35:54
é muitíssimo maior. E depois
35:56
temos consequências da própria alteração climática
35:58
causarem mais
36:00
emissões. Nós temos uma
36:02
zona que é o permafrost onde já temos
36:04
emissões de metano
36:06
porque aquela zona
36:08
deveria estar gelada e já anda ou está
36:10
durante o verão.
36:12
E depois passamos para a crise
36:14
dos recursos. Ora bem,
36:16
aqui vocês têm
36:18
um equilíbrio, isto é
36:20
pegada ecológica, ou seja, nós
36:22
somamos os vários recursos
36:24
da energia, da alimentação,
36:26
do espaço utilizado
36:28
e isto é um balanço entre
36:30
a chamada biocapacidade de cada
36:32
país, o que é que cada país é capaz
36:34
de nos fornecer
36:36
e aquilo que nós consumimos.
36:38
E como vocês veem, eu tenho aqui
36:40
muitos a verde,
36:42
ou seja, em que aquilo que o país
36:44
produz é muito mais
36:46
do que aquilo que se consome, mas depois
36:48
reparem, Estados Unidos, grande
36:50
parte da Europa, incluindo Portugal,
36:52
aqui a África Mediterrânea,
36:54
a Ásia, a própria China,
36:56
nós estamos a consumir muito mais do que a
36:58
natureza nos dá. Aliás,
37:00
se todos vivessem
37:02
como os portugueses,
37:04
com o nível de consumo
37:06
e para a biocapacidade
37:08
que o nosso país tem, nós precisávamos de
37:10
2,7 planetas, ou seja,
37:12
nós estamos muito acima daquilo que
37:14
a natureza
37:16
renova. Nós estamos a ir ao cartão de crédito,
37:18
estamos a ir às poupanças.
37:20
E depois, a biodiversidade.
37:22
E aqui têm os
37:24
hotspots da biodiversidade, os locais
37:26
mais importantes que nós temos em termos
37:28
de biodiversidade. Obviamente
37:30
o Cerrado,
37:32
não apenas a Amazónia,
37:34
aqui uma série de zonas,
37:36
todas viradas para o Pacífico, a Bacia do
37:38
Mediterrâneo, onde nós estamos.
37:40
E o relatório das Nações Unidas
37:42
diz-nos que nós estamos a perder
37:44
um milhão, em risco
37:46
de perder um milhão dos cerca
37:48
de estimados oito milhões
37:50
de espécies que temos.
37:52
É essa chamada Sexta Extinção.
37:54
Ora bem,
37:56
há esperança?
37:58
Claro que há. E realmente,
38:00
eu gostaria de vos mostrar esta frase
38:02
de Chesterton, de um escritor.
38:04
É uma frase que eu acho
38:06
que nos diz tudo.
38:08
Diz verdadeiramente tudo.
38:10
There are two ways to have enough.
38:12
One is to continue to accumulate more
38:14
and more. The other is to desire less.
38:16
É melhor traduzir porque há pessoas que não sabem espanhol.
38:18
Ora bem.
38:20
Ah, chinês.
38:22
Ora bem, basicamente é assim.
38:24
Nós, quando estamos muito insatisfeitos,
38:26
fazemos umas compritas,
38:28
comemos assim, eu como uns bolos
38:30
de coco, que gosto bastante,
38:32
e fico mais descansado.
38:34
Agora, o problema é realmente
38:36
de nós desejarmos menos. O problema
38:38
de todas estas crises é que nós
38:40
consumimos demais e não
38:42
nos satisfazemos com aquilo
38:44
que deveria ser a frugalidade,
38:46
o que não significa retirar
38:48
a qualidade de vida,
38:50
mas é fazer a aposta no bem-estar,
38:52
é fazer a aposta no futuro,
38:54
em vez de fazer a aposta naquilo
38:56
que tem sido até agora a lógica
38:58
económica e
39:00
de crescimento,
39:02
como se nós vivéssemos num planeta infinito,
39:04
mas que infelizmente,
39:06
ou se calhar até felizmente não é,
39:08
e nos obriga a gerir
39:10
inteligentemente e de forma
39:12
muito mais igualitária do que aquilo
39:14
que acontece atualmente, os recursos do nosso planeta.
39:16
Francisco Ferreira, muito obrigado.
39:28
Nós temos tempo agora para fazer
39:30
uma pequenina ronda, mais pequena,
39:32
isto vai reduzindo, a última é só uma frase,
39:34
mas uma segunda ronda
39:36
pelos nossos convidados, vou começar outra vez por Paulo Portas.
39:38
Paulo, preocupa um bocadinho
39:40
esta questão
39:42
da ascensão das
39:44
extremas-direitas e dos populismos,
39:46
nos estamos,
39:48
devemos estar muito preocupados com isto,
39:50
o que está a acontecer nestes espectros,
39:52
está a mudar, já não é aquele equilíbrio que havia
39:54
antigamente, à esquerda, à direita, a coisa normal,
39:56
mas está a haver um ressurgimento
39:58
destas forças muito perigosas
40:00
do lado direito e do lado esquerdo,
40:02
se calhar, todos estes extremismos
40:04
que se estão a agudizar, o que é que nos tem a dizer
40:06
sobre isto?
40:08
Bem, não sei se isto, pois não,
40:10
não funciona.
40:12
Preciso voltar, eu queria voltar a um
40:14
a um slide anterior,
40:16
eu queria voltar a um slide
40:18
sobre os populismos
40:20
no mundo, que é isto aqui?
40:24
Os ingleses têm uma expressão que diz isto
40:26
de maneira
40:28
boa, the proof is in the pudding,
40:30
é quando se abre a melancia,
40:32
como diria o nosso Presidente da República,
40:34
é que a gente vê o que é que está lá dentro,
40:36
se é boa ou se é má.
40:38
E eu, obviamente,
40:40
populismos há, de direita e de esquerda.
40:42
Esta coisa de que só há populismos
40:44
de direita, como se não houvesse populismos de esquerda,
40:46
é bastante
40:48
otimista quanto à verdade.
40:50
Mas há um momento,
40:52
eu queria chamar a vossa atenção,
40:54
porque
40:56
há duas ou três coisas que eu acho
40:58
que definem os populismos.
41:00
É, aliás, preciso ter algum cuidado
41:02
com a palavra, porque hoje em dia tornou-se uma ofensa
41:04
comum. E, portanto,
41:06
se a gente quer dizer mal de alguém, dizer populista.
41:08
Nem sempre isso é verdade.
41:10
E, portanto, ter algum critério no uso
41:12
da palavra. O populismo é sempre
41:14
uma simplificação de problemas
41:16
complexos. E isso eu acho que é a
41:18
coisa mais grave do ponto de vista
41:20
da racionalidade da política.
41:22
O melhor exemplo
41:24
disso foi a pandemia que nos aconteceu.
41:26
Porque a pandemia
41:28
já apanhou populistas
41:30
de esquerda e de direita nos governos.
41:32
Não é que os moderados
41:34
tenham feito particularmente bem,
41:36
embora os moderados
41:38
com conhecimento
41:40
científico ou disposição
41:42
para ouvir os cientistas fizeram melhor.
41:46
Eu lembro-me que metade do dia
41:48
da então chanceler Merkel
41:50
era a ouvir os cientistas,
41:52
ela vinha da ciência,
41:54
e os
41:56
länder da Alemanha.
41:58
Para gerir um problema complexo
42:00
sobre o qual nós não tínhamos
42:02
conhecimento homólogo,
42:06
é preciso ter
42:08
disposição, paciência,
42:10
estudo, esforço,
42:12
é preciso saber que é possível falhar,
42:14
corrigir.
42:16
Agora, há uma coisa que eu vos
42:18
garanto. Desculpem a expressão
42:20
ser um bocadinho bruta.
42:22
Não se resolve uma pandemia por
42:24
tweets.
42:26
E percebam isso.
42:28
É isso que eu gostava mais
42:30
que as pessoas, no século
42:32
XXI, com o vosso grau de conhecimento,
42:34
isto de dizer que
42:36
o Covid-19
42:38
não tem gravidade nenhuma, toma elegívia.
42:40
Ou é uma gripezinha.
42:42
Nós ouvimos barbaridades
42:44
durante uma
42:46
doença e um
42:48
problema epidemiológico
42:50
que matou,
42:52
que fez perder milhões de vidas.
42:56
É bom que a gente tenha a noção e não perca.
42:58
Eu sei que já há,
43:00
que a pandemia já está lá para trás, porque
43:02
portanto chegou a guerra.
43:04
Mas é bom fazer uma avaliação
43:06
do que é que governos que tinham
43:08
populistas a mandar
43:10
ou a co-dirigir,
43:12
tanto à esquerda como à direita,
43:14
como é que foram os resultados
43:16
no mundo em relação ao Covid-19.
43:18
E os resultados foram
43:20
desastrosos. Dos 12
43:22
piores casos,
43:24
no critério mais severo, que é
43:26
o número de mortes por milhão de habitantes,
43:28
10 são de governos
43:30
populistas. E o primeiro
43:32
ponto que eu queria chamar a
43:34
vossa atenção é que a maioria,
43:36
eu diria 95%
43:38
dos problemas do mundo e do século XXI
43:40
são complexos.
43:42
O populismo é
43:44
impaciente e simplifica
43:46
a complexidade.
43:48
Simplificar não ajuda
43:50
a resolver o problema. Primeiro ponto
43:52
que eu acho que é importante
43:54
chamar a vossa atenção.
43:56
O segundo tem a ver
43:58
com três formas.
44:00
Quando o problema se agrava
44:02
e os tweets se esgotam,
44:04
os populismos
44:06
tentam resolver o assunto
44:08
recorrendo a três
44:10
armas que todas elas
44:12
contêm uma falsificação.
44:14
A primeira é o
44:16
nacionalismo. E, portanto,
44:18
o primeiro, que é instintivo.
44:20
Quando há uma pandemia,
44:22
como o nome indica,
44:24
é preciso ter o máximo
44:26
de cooperação internacional para
44:28
a combater. A ideia de que todos
44:30
fechamos as fronteiras
44:32
é uma ideia que dá segurança
44:34
psicológica por uns tempos,
44:36
mas se nós não cooperarmos para conseguir
44:38
as vacinas, se nós não homologarmos
44:40
as políticas
44:42
públicas para conter
44:44
os efeitos das pandemias,
44:46
temos, obviamente, demoramos
44:48
mais tempo. Portanto, eu lembro-me de ter lido
44:50
uma coisa, quando tinha a vossa idade,
44:52
do António Barreto,
44:54
que eu nunca mais esqueci.
44:56
Eu não sou nacionalista, sou patriota.
44:58
A diferença é que um patriota gosta
45:00
de seu país porque é o seu,
45:02
mas não passa a vida a dizer que o seu
45:04
é melhor que os outros. Às vezes
45:06
somos, outras vezes não somos.
45:08
É normal e gostamos todos de cá viver
45:10
se pudermos cá viver sempre.
45:12
Mas,
45:14
a segunda arma que eu gostava
45:16
de vos alertar
45:18
é
45:20
o negacionismo.
45:22
Porque, aliás, acho que
45:24
os negacionistas
45:26
das alterações climáticas são primos
45:28
dos negacionistas da epidemia.
45:32
Ou talvez,
45:34
ou talvez,
45:36
vocês vão ver.
45:38
Quanto mais a situação climática
45:40
se agravar, mais haverá gente
45:42
que negará a evidência.
45:44
Tomem muito cuidado.
45:46
Nós não chegámos ao século XXI
45:48
para...
45:50
Eu digo isto com muita intensidade.
45:52
Sou das pessoas que mais acreditam,
45:54
por exemplo, na conciliação
45:56
entre a fé e a razão.
45:58
E entre
46:00
o facto de nós acreditarmos,
46:02
ou muitas pessoas acreditarem
46:04
e reconhecerem os progressos científicos.
46:06
Não queiram voltar
46:08
à obscuridade.
46:10
Mesmo que a obscuridade tenha muitos likes.
46:12
Porque, realmente,
46:14
dizer que o Bill Gates quer
46:16
shippar as pessoas com as vacinas
46:18
ou dizer que os extraterrestres
46:20
aterraram em Roosevelt,
46:22
ou dizer que os vampiros
46:24
eram boas pessoas, como dizia
46:26
um recente candidato ao Senado dos Estados Unidos.
46:28
Ou dizer...
46:30
Coisas assombrosas.
46:32
Coisas absolutamente assombrosas.
46:34
Não.
46:36
E eu estou aqui a chegar a um ponto que eu acho que é nuclear
46:38
e é sensível. E não dá like.
46:40
Previno já.
46:44
A vossa geração é
46:46
absolutamente natural
46:48
naquilo a que nós chamamos
46:50
a democracia digital.
46:52
A internet tem coisas fantásticas e foi,
46:54
porventura, a maior transformação
46:56
do mundo sem anunciar nenhuma
46:58
revolução ideológica. Aconteceu.
47:00
E aconteceu
47:02
até porque houve pouca
47:04
regulação no início.
47:06
Mas, com toda a franqueza...
47:10
Desculpem esta expressão.
47:12
Não acreditem em tudo o que vêem nas redes sociais.
47:16
Ganhem alguma distância
47:18
que é um crivo
47:20
de pensamento crítico.
47:22
Uma coisa é
47:24
massificar muito mais
47:26
a informação, outra coisa é conhecimento.
47:28
Por isso é que muitos de vocês estão
47:30
a tentar tirar um curso.
47:32
Um curso não se tira pelas redes sociais.
47:34
Um curso tira-se
47:36
pelo esforço, pelo trabalho e pelo mérito.
47:38
E...
47:40
Uma coisa é
47:42
informação, outra coisa é conhecimento.
47:44
E...
47:46
Tomem cuidado com o nível
47:48
de
47:50
factos não verdadeiros
47:52
que circulam.
47:54
Que não são, portanto, factos. São invenções.
47:56
Com o nível de manipulação
47:58
que se dirige à vossa consciência
48:00
e ao vosso coração.
48:02
E a única maneira,
48:04
preservando a liberdade de conservar
48:06
tudo isto, é se vocês
48:08
tiverem um eixo, um crivo
48:10
de pensamento
48:12
crítico sobre as coisas. Não apenas as
48:14
que veem, mas também as que leem.
48:16
E que vos impressionam.
48:18
E ter aquele instinto
48:20
que às vezes... Isto pode
48:22
não ser verdade. Alguém
48:24
está a querer manipular-me.
48:26
E eu não gosto que me tratem como um idiota manipulável.
48:30
Nós estamos a aprender
48:32
em... Estamos a progredir
48:34
em ação. Porque tudo isto aconteceu
48:36
nas últimas décadas.
48:38
Há uma discussão que eu acho muito importante nos Estados Unidos.
48:40
Que é uma discussão
48:42
difícil.
48:44
Nos Estados Unidos,
48:46
eu acho um país capaz do melhor e do pior.
48:48
E, portanto, tenho imensa admiração por muitas
48:50
coisas. Continuarei sem
48:52
entender até o meu último
48:54
dia de vida. Porque é que eu que sou fumador,
48:56
não posso fumar na rua.
48:58
Mas um jovem
49:00
de 13 anos pode comprar uma arma e matar
49:02
o vizinho. Qual é a escala de valores
49:04
que existe naquela sociedade.
49:06
Mas...
49:08
Eu gostava de...
49:10
Há um debate na América
49:12
que eu acho que é um debate muito interessante.
49:14
Que está a chegar agora ao Supremo Tribunal.
49:16
As plataformas
49:18
digitais são responsáveis
49:20
pelo menos em certos casos
49:22
pelos conteúdos
49:24
que editam e multiplicam
49:26
pelo algoritmo, sim ou não?
49:28
Há um processo que se dirige contra o algoritmo.
49:30
Aqui a Sejana
49:32
sabrá explicar isto um pouco melhor.
49:34
Porque o multiplicador
49:36
dos apelos à violência e mesmo
49:38
a cometer crimes
49:40
e a ensinar como é que se faz um atentado terrorista
49:42
é por via do algoritmo.
49:44
O algoritmo é que o envia
49:46
em milésimos de segundo
49:48
para milhares de pessoas
49:50
cujo perfil está traçado.
49:52
Uma maior disposição para a violência.
49:54
Entre outras coisas.
49:56
Mas há uma discussão.
49:58
Qual é o argumento do Facebook,
50:00
da Meta, da Apple,
50:02
do Twitter, etc? É um argumento
50:04
interessante, mas é enganador.
50:06
É o argumento que
50:08
as plataformas digitais
50:10
são uma espécie de praça pública
50:12
onde cada um diz o que quer.
50:14
O dono do café também não é responsável
50:16
pelo que se diz no café.
50:18
É este o argumento deles.
50:20
Qual é o argumento, por exemplo,
50:22
de famílias que perderam
50:24
filhas ou filhos em atentados terroristas
50:26
disseminados e instruídos
50:28
por plataformas digitais?
50:30
É que eles sabem
50:32
o que estão a fazer e não fazem nada
50:34
para não fazer. É que há
50:36
consciência do mal,
50:38
que há consciência do risco
50:40
que a disseminação do mal
50:42
tem, que a multiplicação
50:44
de apelos à violência ou instruções
50:46
para a violência tem consequências
50:48
e ainda assim preferem
50:50
o modelo de negócio e a
50:52
neutralidade do algoritmo. Essa discussão
50:54
começou nos Estados Unidos e ainda bem que começou
50:56
a meu ver, porque assim como houve
50:58
felizmente no início
51:00
para que o digital crescesse
51:02
pouca regulação
51:04
acho que chegámos todos à conclusão
51:06
que alguma regulação tem que haver
51:08
para que o digital não destrua
51:10
pela crispação,
51:12
pela radicalização,
51:14
pela violência mesmo verbal
51:16
vocês já se deram conta com certeza
51:18
que frequentemente nas redes sociais
51:20
o insulto substitui o argumento.
51:22
E portanto,
51:24
para que as sociedades não percam
51:26
a sua convivialidade,
51:28
a sua capacidade de viver em comum
51:30
e tolerar ideias diferentes das nossas
51:32
alguma regulação terá que haver.
51:34
Muito bem, Paulo, obrigado.
51:36
Vamos...
51:42
Vou dar à Susana
51:44
esta hipótese de se despedir também
51:46
nesta última intervenção.
51:48
Muito rápida.
51:50
Então vamos a isso, força.
51:52
Não tinha pergunta.
51:54
Eu pensava que me ias fazer uma pergunta.
51:56
A pergunta tinha a ver agora
51:58
como é que fazes resumir a tua parte
52:00
de economia, o poder político,
52:02
os jovens, o poder político,
52:04
os problemas da habitação,
52:06
só que tens os mesmos dois minutos que o Paulo.
52:08
Nós estamos naquele mapa
52:10
que o Francisco mostrou
52:12
havia os países com crédito e os países com déficit
52:14
nós estamos claramente com déficit de tempo
52:16
aqui aos 3 milhões de nós.
52:18
Não, eu acho
52:20
que é importante
52:22
houve uma parte também que eu me esqueci
52:24
talvez de dizer
52:28
que há outras maneiras
52:30
eu acho que o associativismo jovem é muito importante
52:32
eu acho que há imensas maneiras
52:34
de vocês participarem, por exemplo
52:36
juntando-se a
52:38
organizações que trabalhem na área
52:40
do ambiente, muito do trabalho
52:42
que é preciso fazer, cívico também
52:44
por exemplo, de participação cívica
52:46
de limpar
52:48
de clarificar um pouco
52:50
o discurso, de ajudar as pessoas
52:52
a distinguir o trigo do joio, isso depende
52:54
de imenso trabalho voluntário, ou seja
52:56
não há
52:58
não há negócio
53:00
para tudo, e portanto eu acho que tudo aquilo
53:02
que vocês puderem fazer
53:04
isso está ao vosso alcance
53:06
porque é verdade que o sistema político está um bocadinho
53:08
fechado pelos partidos, isso é mal
53:12
mas há um sistema político mais formal
53:14
mas de facto nesta participação cívica
53:16
vocês podem participar de maneira muito mais
53:18
autêntica
53:20
muito mais rápida, podem ter acesso a isso
53:22
e há tantas
53:24
organizações extraordinárias, ONGs
53:26
nas quais a pessoa pode
53:28
para as quais a pessoa pode contribuir, ou dando dinheiro
53:30
ou dando o seu tempo, que é uma forma
53:32
extraordinária, às vezes até muito mais generosa
53:34
de dar dinheiro, no âmbito
53:36
da transparência, no âmbito do ambiente
53:38
no âmbito, lá está, do discurso político
53:40
do combate aos populismos, da ajuda
53:42
às diferentes minorias étnicas, sexuais
53:44
etc
53:46
isso está ao vosso alcance
53:48
por isso, comecem por aí
53:50
eu acho que é uma maneira, eu acho que Portugal
53:52
precisa muito mais dos jovens
53:54
eu acho, por exemplo, voltando ainda à pandemia rapidamente
53:56
que o Paulo falou bastante da pandemia
53:58
eu acho que a falta de voz dos jovens
54:00
durante a pandemia foi
54:02
catastrófica e foi algo que vai fazer
54:04
com que essa crise, no fundo, nos deixe cicatrizes para o futuro
54:06
porque aquilo que nós vemos da pandemia
54:08
é que a atividade económica voltou ao normal
54:10
o mercado de trabalho voltou ao normal
54:12
mas aquilo que ela deixou, as cicatrizes que a pandemia
54:14
deixou foi onde foi na escolarização
54:16
das crianças e dos jovens
54:18
e depois também a impacto gigantesco
54:20
na saúde mental das camadas
54:22
mais jovens da população, que tiveram
54:24
aliadas de ter
54:26
uma vida normal, de poderem ver amigos
54:28
poderem sair à noite, poderem arranjar namorados e namoradas
54:30
é uma coisa que não lembra a ninguém
54:32
e eu acho que a falta de voz
54:34
dos jovens, por exemplo, nessa altura foi particularmente
54:36
catastrófica e como são os jovens que nos vão
54:38
levar para o futuro, são vocês
54:40
que nos vão levar para as próximas décadas
54:42
nós, quando estamos
54:44
a impor-vos custos
54:46
estamos a criar cicatrizes
54:48
feridas abertas com sal
54:50
que vão infetar daqui a 20, 30 anos
54:52
portanto, não deixem isso acontecer
54:54
façam barulho
54:56
e participem e que nós
54:58
precisamos muito de vocês para o futuro de Portugal
55:00
Obrigada
55:08
O Francisco Ferreira
55:10
diz isto
55:12
Façam barulho para eu poder votar aos 16 anos
55:18
Aproveitem
55:20
Francisco Ferreira já me prometeu que ia usar
55:22
os mesmos minutos que sobravam
55:24
da Susana
55:26
Eu aproveito a Susana para fazer um momento publicitário
55:30
Ser-se associado da zero
55:32
são 5 euros por ano
55:34
e portanto
55:36
tudo tratado via internet
55:40
Mas agora passado o momento publicitário
55:42
dizer-vos que
55:44
eu pessoalmente
55:46
e por isso é que dedico
55:48
grande parte do meu tempo
55:50
extra-profissão
55:52
às questões
55:54
da sustentabilidade e às questões ambientais
55:56
nós já aumentámos
55:58
a temperatura a 1,1 graus em relação
56:00
à era pré-industrial
56:02
e os cientistas dizem-nos que
56:04
irmos acima de 1,5 grau
56:06
passamos para um
56:08
nível de consequências
56:10
muito maior
56:12
mas o que é facto é que
56:14
eu ainda tenho esperança que nós
56:16
consigamos limitar
56:18
esse aumento de temperatura
56:20
vai ser muito difícil o 1,5 grau
56:22
mas tudo o que nós fizermos conta
56:24
à escala internacional
56:26
à escala nacional, à escala individual
56:28
só para ter uma ideia
56:30
em 2015
56:32
os cientistas apontavam os cenários
56:34
que davam entre 4 a 6 graus
56:36
de aumento de temperatura
56:38
neste momento estamos entre
56:40
2,4 e 2,8
56:42
ainda não estamos no 1,5 grau
56:44
mas olhemos para esta parte positiva
56:46
há efetivamente esperança
56:50
e a salvaguarda da biodiversidade
56:52
também, nós tivemos
56:54
a conferência dos oceanos em Lisboa
56:56
aqui o ano passado
57:00
e a gestão dos recursos
57:02
o que é facto é que nós temos aqui também
57:04
a misturar a tecnologia, sem dúvida
57:06
mas acima de tudo
57:08
aquilo que são as políticas
57:10
dos vários governos
57:12
e obviamente também os nossos comportamentos
57:14
eu acho que é muito importante
57:16
para questões consensuais
57:18
nós nos mobilizarmos
57:20
as manifestações
57:22
sobre o clima, por exemplo
57:24
é fundamental a vossa presença
57:26
podem achar, bem, há ali uns discursos
57:28
mais radicais
57:30
de extrema esquerda
57:32
quer dizer
57:34
vamos todos estar lá
57:36
todos precisamos
57:38
a maior manifestação que houve
57:40
de ambiente e de sustentabilidade
57:42
foi ligada ao clima
57:44
em novembro de 2019
57:46
nunca se tinha
57:48
tido tantas pessoas
57:50
milhares de pessoas entre o Marquês de Pombal
57:52
e a Assembleia da República
57:54
a pandemia veio cortar essa motivação
57:56
mas é preciso
57:58
nós continuarmos com a pressão
58:00
porque o que é facto
58:02
é que nós olhamos
58:04
para muitas questões
58:06
para muitas políticas que não estão
58:08
a ser coerentes e a coerência
58:10
é absolutamente vital
58:12
e só duas últimas
58:14
mensagens
58:16
eu ando a pegar também as coisas novamente
58:18
do palco, eu acho que são muito importantes
58:20
não sei se vocês
58:22
percebem muito tecnologia ou não
58:24
mas eu ter
58:26
um ecossistema resiliente
58:28
eu tenho um ecossistema
58:30
tão mais resiliente quanto
58:32
mais diverso ou biodiverso
58:34
ele for
58:36
ou seja, quanto maior for a complexidade
58:38
quanto maior for a quantidade de elementos
58:40
e as relações, mais resiliente é
58:42
portanto
58:44
nós não queremos um mundo simples
58:46
nós queremos um mundo complexo
58:48
nós temos que lidar com o mundo complexo
58:50
não há respostas
58:52
efetivamente
58:54
simples para muitos dos problemas
58:56
e precisamos nos informar
58:58
e precisamos de olhar para a ciência
59:00
e precisamos de
59:02
acima de tudo agir
59:04
e esse é o meu último apelo
59:06
eu apelo realmente a que vocês
59:08
no dia a dia, não apenas
59:10
procurem ver aquilo que conseguem mudar
59:12
e que é fácil e que muitas vezes
59:14
até vos sai mais barato
59:16
mas acima de tudo também
59:18
procurem exigir políticas e medidas
59:20
de futuro e de mudança
59:22
que não são para os 3 ou 4 anos
59:24
que são aquelas que são efetivamente
59:26
difíceis, complexas
59:28
mas que ficam
59:30
e farão toda a diferença
59:32
eu não tenho dúvidas que vocês sabem quais são
59:34
Obrigado
59:54
Só para
59:58
Só para vos agradecer a vossa atenção
1:00:00
eu sei que tomaram muitas notas, ainda bem
1:00:02
podem ouvir depois isto devagarinho em loop
1:00:04
que é muito importante
1:00:06
e nós passamos tanto nosso tempo que já houve 3 oradores
1:00:08
que foram para casa
1:00:10
mas quero vos agradecer muito
1:00:12
a vossa disponibilidade em estarem aqui
1:00:14
esta manhã de sábado
1:00:16
que podiam estar a fazer tantas coisas
1:00:18
e tão mais importantes e mais giras, mas não são
1:00:20
do que esta, do que estarem aqui
1:00:22
do corpo presente, quero vos só dizer isso
1:00:24
esta nota final, que não se esqueçam
1:00:26
que João, Pedro, tu
1:00:28
Luísa, Manuel
1:00:30
e Mafalda
1:00:32
são as melhores
1:00:34
João, Pedro, Luísa e Mafalda
1:00:36
do mundo para fazer o que têm a fazer
1:00:38
PPP, passos pequenos
1:00:40
possíveis, nós podemos fazer a diferença
1:00:42
cada um de vocês, ninguém pode fazer
1:00:44
o que vocês podem fazer por vocês
1:00:46
portanto, todos temos que pôr
1:00:48
mãos à obra para mudar isto
1:00:50
e nós vamos conseguir, e agora é o seguinte
1:00:52
muito obrigado a todos, bom dia