3 Milhões de Nós

Transcrição

0:00 Olá, então eu sou a Teresa, tenho 44 anos e como acabaram de dizer, sou missionária
0:13 Verbum Dei.
0:14 Missionária, isso ainda existe, foi a pergunta que me fez uma rapariga que ia sentada ao
0:28 meu lado num voo para Roma, e eu disse-lhe sim, claro, e alá e achei que isso era só
0:34 do tempo dos descobrimentos, e eu não, não, também, também é agora.
0:40 Então, para que fique claro para todos, os missionários existem, eu sou um exemplar
0:45 dessa espécie rara, e hoje quero falar-vos de uma coisa muito interessante.
0:54 Talvez vocês não tivessem nascido no ano de 1997, mas o lema do turismo de Portugal
1:02 nesse ano foi este, vá para fora, cá dentro, foi um lema no qual eu me revi muito, e hoje
1:10 gostava de vos falar de um lugar cá dentro, muito desconhecido pela maioria de vocês,
1:17 que se chama As Pedras Parideiras, eu sou da Roca, é da minha terra, Serra da Freita,
1:27 e temos um fenómeno geológico raro a acontecer aqui.
1:31 Há pequenas rochas a brutar de uma rocha-mãe granítica, por isso chamam-se parideiras.
1:40 É incrível pensar como é que uma rocha, uma pedra, uma coisa fria que é uma seca,
1:45 tem este potencial gerador dentro dela.
1:50 De dentro dela saem coisas, saem vida, saem algo para o exterior, coisas visíveis que
1:57 tornam muito mais belo aquilo que no início parecia sem beleza, mas gostava de vos falar
2:04 ainda de um outro lugar muito parecido ao primeiro, este ainda mais perto, aqui ao lado,
2:14 aqui do lado de dentro de ti, chama-se interioridade, e neste lugar também há coisas a brotarem,
2:27 sentimentos, pensamentos, emoções, memórias, desejos, tudo isto emerge de dentro de ti,
2:36 de um corpo-mãe chamado tu.
2:40 Já pensaste-te no poder incrível gerador que está no teu interior, e se calhar às
2:46 vezes nós sentimos essa pedra fria, pesada, sem graça, achamos que não temos nada para
2:52 dar ao mundo, estás enganado, tens um grande potencial dentro de ti e tu serás uma atração
3:01 em a roca e em qualquer lugar do mundo.
3:05 Sim, a interioridade é a mais bela paisagem que podemos contemplar, é o lugar mais belo
3:13 do mundo.
3:15 Eu quando vi este filme, o menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, houve uma cena que me
3:21 impactou muito, o menino olha o seu reflexo na água e diz isto, não é estranho, só
3:30 podemos ver o nosso lado fora quando quase tudo acontece do lado de dentro.
3:39 É estranho, é estranho vivermos num mundo que valoriza muito a imagem, o exterior, o
3:45 sucesso, a aparência, mas e o interior?
3:49 Por que que não o cuidamos também?
3:53 Por que que não levamos mais a serem estas perguntas que fomos ouvindo hoje, quem sou
3:57 eu?
3:58 Qual é o meu propósito?
4:02 Já paraste para pensar que enquanto estamos constantemente conectados com o mundo exterior,
4:07 através das redes, dos nossos estudos, dos amigos, raramente nos conectamos com o nosso
4:14 mundo interior.
4:18 Dizem os estudos que um jovem nasci hoje quando tiver 60 anos, em média passou 15 anos
4:26 a olhar para o ecrã, 15 anos a olhar para fora, precisamos de começar a olhar talvez
4:38 um bocadinho mais para dentro, a mergulhar dentro de nós e o que é interioridade?
4:45 É este espaço onde nós conectamos com a nossa essência, com a nossa verdade mais
4:51 profunda, onde nós nos conhecemos verdadeiramente, onde conhecemos os nossos medos, os nossos
4:58 desejos, também as nossas feridas, as nossas alegrias, as nossas crenças.
5:03 A grande crise da modernidade não é só uma crise econômica, não é só uma crise
5:11 política, é uma crise de interioridade.
5:17 Nós vamos nos transportes, vivemos as pessoas absorvidas em si, mas não sei se estão em
5:23 contacto consigo verdadeiramente, vivemos numa espécie de novo-eiro que não nos deixa
5:29 ver o caminho, não nos deixa perceber quem somos realmente, há sinais que detectam
5:36 a falta de interioridade e trago-vos quatro que acho que são mesmo muito importantes.
5:43 O primeiro, a ansiedade constante, esta falta de foco, esta falta-nos-á-lo, depois o
5:53 medo do silêncio, esta necessidade que temos de nos distrairmos permanentemente, de nos
5:59 atafolharmos de coisas, depois a indecisão, esta dificuldade de escolhermos, de tomarmos
6:08 uma decisão porque não sabemos bem o que queremos.
6:11 E por último, uma coisa que nos acontece frequentemente, ficamos obcecados com o eu, quando ficamos
6:22 vazios por dentro, enchêmonos de nós.
6:25 O que é que nós perdemos quando perdemos a interioridade?
6:35 Precisamos, em primeiro lugar, a paz, porque nos invade este desassocego, este não termos
6:41 tempo para processar as nossas emoções, depois perdemos-nos a nós, começamos a viver
6:48 muito para corresponder àquilo que se espera de nós, os outros, para ficarmos bem vistos,
6:53 para sermos aceitos, e este desajuste entre aquilo que se espera de nós e aquilo que
6:59 eu verdadeiramente sou, isto rompe-nos, fragmenta-nos, e depois perdemos o sentido, corremos, corremos
7:09 atrás da felicidade e parece que nada nos enche, estamos sempre à espera que aquele
7:15 curso, aquela pessoa, aquela relação, aquela viagem, nos dêem aquela sensação de bem-estar
7:19 que tanto desejamos, mas o que procuramos não está aí, está dentro.
7:28 Trago uma boa notícia, é que a interioridade pode ser treinada, podemos ir ao ginásio,
7:35 podemos começar a pouco e pouco a conviver melhor com este espaço dentro de nós, e
7:41 trago-vos quatro boas práticas para desenvolvermos a nossa interioridade, a primeira delas,
7:49 o silêncio e a solidão saudável.
7:52 O silêncio é uma coisa que nos custa imenso, porque quando estamos em silêncio saem aquelas
7:59 coisas que não têm oportunidade de sair na pressa, saem os nossos ruídos interiores,
8:05 saem os nossos medos, aquelas coisas que não temos resolvidas no nosso coração, isso
8:11 dá-nos medo, temos medo desse encontro, mas verdadeiramente não temos que ter medo,
8:17 é o que nós somos, está dentro de nós também essa escuridão, essa confusão, e não faz
8:23 mal, não nos faz mal.
8:28 O exercício da presença plena, por que é que nós corremos tanto, corremos porque nos
8:38 convencemos que só seremos pessoas suficientemente boas se fizermos muitas coisas e preferencialmente
8:44 muito rapidamente.
8:45 Mas isto é um engano, precisamos de aprender a estar presentes, o presente é o melhor
8:54 presente.
8:55 E isto é difícil, eu falo por mim, conto-vos uma experiência minha, eu como missionária
9:03 tenho um privilégio muito grande, todos os anos dedico um mês inteiro a fazer um retiro
9:11 espiritual de silêncio, é verdade, um mês inteiro todos os anos, é um luxo, e num desses
9:21 retiros dei por mim a correr aceleradamente, não sei para onde, a querer encher o meu
9:28 dia do máximo de coisas possíveis, e estava em retiro, a certa altura fui caminhar e
9:35 a caminhar a passo energico porque queria chegar, tomar banho e seguir fazer outra coisa,
9:40 e no meio do caminho desapretou-se o meu atacador, eu parei, encostei a verma, pus o pé em cima
9:47 do muro baixinho e quando me inclinei do lado de trás do muro ia um caracol avançar muito
9:57 lentamente.
9:58 E esse encontro para mim foi avassalador, foi como se aquele caracol me gritasse, Teresa,
10:10 onde é que vais com tanta pressa?
10:13 onde é que vamos com tanta pressa?
10:16 para, a branda, saboreia, terceira prática a profundar perguntas essenciais, dentro
10:27 de nós há perguntas, há nossas peras, em que é que eu acredito?
10:32 onde é que eu vou querer gastar a minha vida?
10:35 o que que eu quero?
10:40 Termos a coragem de nos querermos conhecer verdadeiramente, e não nos darmos respostas
10:45 superficiais pela rama, por último, cultivar o meu jardim interior, cultiva a tua inteligência
10:55 emocional, nós hoje padecemos de uma grande elitracia do ponto de vista da interioridade,
11:03 não temos vocabulário, não temos linguagem, não temos uma gramática para nos dizermos,
11:09 para dizer aquilo que nos acontece por dentro, mas podemos cultivá-la, aprende, põe atenção
11:17 naquilo que acontece dentro de ti, faz-te perguntas, o que é que eu estou a experimentar, estou
11:22 cansado, estou irritado, o meu corpo o que é que diz, o que é que eu estou a sentir,
11:31 e nós muitas vezes reprimimos os nossos sentimentos, porque achamos que eles não são dignos
11:38 de ser vistos, mas sabemos que aquilo que se reprima, tarda-o pronto, ou cedo, rebenta,
11:45 explote.
11:46 Não, dá espaço aos teus sentimentos, deixa que se expressem, eles vão te ensinar, vão
11:51 te dizer quem tu és, vão te humanizar, e a verdade é que também quem cultiva a interioridade
11:59 aprenda a distinguir qual é a emoção que está no comando da sua vida, como viamos
12:03 no filme divertidamente.
12:04 É opa, agora é raiva, ok, já percebi, pronto, não faz mal, tem direito.
12:09 E depois há outras formas de cultivarmos o nosso jardim interior, rega-o com boas leituras,
12:17 rega-o com boas conversas, vê-bos filmes, vê-bos séries, não comas lixo, nós comemos
12:27 muito lixo, e é um problema porque na verdade nós transformámos-nos naquilo que comemos.
12:33 A extraioridade também impacta a minha interioridade e vice-versa.
12:42 Pensa nas séries que tu ves, alimentam-te, tu reveste nelas, no fim com o que é que
12:49 ficas, elas geram-te serenidade, ansiedade, porque é que vejo o que vejo, afinal isto
12:59 nem tem tanto assim a ver comigo, porque é que gasto aí o meu tempo, o teu tempo.
13:07 Quem cultiva a interioridade ganha muito, ganha mais autoconhecimento, ganha clareza
13:14 sobre o que quer da vida, aprenda a lidar melhor com as suas emoções, com as dificuldades,
13:21 constrói relações mais autênticas porque se compreende melhor assim e melhor aos outros,
13:27 vive com mais inteireza.
13:29 O que é por dentro é por fora.
13:33 É muito mais livre, impacta positivamente o mundo.
13:38 Uma pessoa inteira em qualquer lugar do mundo onde esteja, impacta positivamente.
13:44 É uma força de bem para sempre, é uma inspiração para os outros.
13:48 E a esse propósito eu queria terminar com um exemplo inspirador.
13:53 O desta mulher, a Eti, a Eti Ilessum, uma judia holandesa que morreu com 29 anos em
14:01 Auschwitz.
14:03 Esta mulher começa a procecer alguém muito caótica, o seu interior era uma confusão,
14:09 mas a pouco e pouco ela foi se encontrando.
14:11 E quando em plena guerra, na perseguição nase e os amigos dela tentam convencê-la
14:18 a passar à clandestinidade a esconder-se, ela diz não, eu quero partilhar o destino
14:24 do meu povo.
14:25 E ela vai se oferecer como voluntária para um campo de concentração.
14:30 E antes de partir, quando está na sua casa em Amsterdão, ela escreve isto no seu diário.
14:39 Quando uma pessoa leva uma vida interior rica, talvez nem haja assim tanta diferença
14:45 entre estar fora ou dentro dos muros de um campo de concentração.
14:49 Quando uma pessoa leva uma vida interior rica, talvez não haja assim tanta diferença entre
14:58 estar fora ou dentro.
15:00 E o incrível é que ela vai experimentar isto, ela vai para o campo e vai sentir que não
15:07 há assim tanta diferença entre estar ali no meio da lama, no arame farpado ou estar
15:11 sentada na secretária dela a olhar o seu jazminho.
15:16 E a gente pergunta como é que ela consegue.
15:19 Se vocês forem ler o diário dela, vão perceber que ela consegue, porque ela cultivou a sua
15:28 interioridade.
15:29 E ela vai dizer uma coisa ainda mais incrível, ela vai dizer é agora.
15:36 É agora que eu vou viver com sentido, é agora que eu vou viver a vida que eu quero.
15:42 Não é quando isto tudo acabar, quando a guerra terminar, quando este inferno desaparecer,
15:47 então eu vou começar a viver o que eu quero, não.
15:50 Ela diz é agora que eu vou cultivar duas flores na laterina do campo.
15:56 É agora que eu vou ler um poema do rilke, é agora que eu vou rezar, é agora que eu
16:00 vou servir.
16:01 É agora.
16:02 Não é num tempo ideal que nunca vai chegar, e tu, vais ficar à espera do tempo ideal,
16:13 é o teu tempo, vais agarrá-lo.
16:17 Obrigada.

Teresa Pinho

Descrição

Teresa, missionária, usa a metáfora das “pedras parideiras” para revelar o poder escondido dentro de cada pessoa: a interioridade. Num mundo focado no exterior, desafia os jovens a olharem para dentro, a cultivarem o autoconhecimento e a viverem com sentido no presente. A mensagem central é clara: o verdadeiro valor e transformação começam no interior.

Resumo

A oradora começa por desconstruir a ideia de que os missionários pertencem apenas ao passado, afirmando que a missão continua viva hoje. A partir daí, introduz a metáfora das “pedras parideiras”, um fenómeno natural onde da rocha aparentemente inerte nascem outras pedras. Esta imagem serve para ilustrar o potencial gerador que existe dentro de cada pessoa, mesmo quando nos sentimos vazios ou sem valor.

Teresa convida então à descoberta da interioridade — esse espaço interno onde surgem emoções, pensamentos, desejos e identidade. Critica uma sociedade excessivamente focada na aparência, no sucesso e no exterior, enquanto negligencia o mundo interior. A desconexão de nós próprios manifesta-se em sinais como ansiedade constante, medo do silêncio, indecisão e uma obsessão com o próprio ego.

Perder a interioridade tem consequências profundas: perda de paz, de identidade e de sentido. Muitas pessoas vivem para corresponder às expectativas externas, ficando fragmentadas e insatisfeitas. A felicidade parece sempre estar “fora”, quando, na verdade, aquilo que procuramos está dentro de nós.

Como resposta, a oradora propõe práticas concretas para cultivar a interioridade: o silêncio e a solidão saudável, a presença no momento, a reflexão sobre perguntas essenciais e o desenvolvimento da inteligência emocional. Destaca também a importância de cuidar do que consumimos — conteúdos, conversas e experiências — porque tudo isso influencia o nosso mundo interior.

Por fim, apresenta o exemplo inspirador de Etty Hillesum, que, mesmo num campo de concentração, conseguiu viver com sentido graças à riqueza da sua vida interior. A mensagem final é um apelo urgente: não esperar por condições ideais para viver plenamente. É agora o momento de olhar para dentro, crescer e dar sentido à própria vida.

gostos

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